Amanheceu na cidade Gousti e o sol batia direto na face de Aluria. Ela roncava baixinho em sua cama, agarrada ao cobertor com várias imagens de pequenos lobos.

Alguém bateu na porta do seu quarto. Aluria não ouviu, ela tinha sono pesado.

Douglas entrou no quarto. Olhou para irmã e riu, sabia que ela não acordava tão fácil.

– Ah Aluria, você nunca acorda! Dessa vez eu te pego!

A relação dos dois era algo muito questionável, alguns poderiam dizer que os dois se amavam como ninguém, mas outros diriam que tinha algo de errado com eles, pois brigavam sempre como cão e gato, talvez mais do que o normal para dois irmãos gêmeos que conviviam juntos e cuidavam um do outro, talvez isso se devesse pelo aspecto bipolar de Douglas.

Douglas fez seus longos dentes saírem enquanto dava um sorriso. Ele entrou no quarto sorrateiramente e quando ia abocanhar o braço da irmã, ela abriu os olhos e o empurrou com tudo.

– Douglas? Puta que pariu, não me assusta assim menino, uma hora dessas e você já vem com suas graçinhas? – ela revirou os olhos, nervosa.

– Droga Alu, eu nunca consigo pegar você, afe! – ao dizer isso ele se jogou na cama.

– Sai daqui Douglas, poxa! – ela o empurrou pra fora da cama. – Você sabe que eu acordo de mau humor!

Douglas fez uma careta mas depois se levantou e arrumou sua roupa.

– Você já fez o café? Agora que me acordou eu tô com fomeeee. – disse ela jogando o travesseiro nele.

– Se quer café faça você mesma, folgada. – disse ele desviando do travesseiro e mostrando os dentes.

– Nem vem, hoje é seu dia! Vai fazer logo o café. E o que você fazia no meu quarto tão cedo?? São o quê, 7 horas? Você tá de brincadeira comigo.

– Então mocinha, se você não se lembra... Hoje voltam as aulas.

– O QUÊ? Ai meu Deus do céu, é verdade! Por que você demorou tanto para me chamar? Eu não posso me atrasar logo no primeiro dia de volta as aulas!! – ao dizer isso ela pulou da cama, fazendo com que Douglas batesse na parede. – Sai logo daqui, não me atrapalha. Vai fazer o café! E vai se arrumar, por que cê ainda tá pijama?

– Esqueci de te dizer uma coisinha, haha. Você tem visitas, tá lá embaixo. Vou fazer o café, não demora hein, tchauzinho. – ao dizer ele saiu dando risadinhas do quarto.

– Visitas? Ai, qual das meninas esqueceu a chapinha aqui em casa de novo? E ele deixou ela esperando esse tempo todo lá embaixo enquanto tentava me morder, ele nunca se cansa, ai ai..

Aluria parou de separar sua roupa para a faculdade e foi para o banheiro, apenas para lavar o rosto porque ainda nem tinha acordado direito. Ela nem penteou os cabelos nem mudou de roupa, afinal, era apenas uma de suas melhores amigas.

Quando ela chegou lá embaixo teve uma surpresa inesperada. Primeiramente, estava tocando a música A Daydream Away do All Time Low, uma música que ela amava e significava muito para ela. (ouçam, babys!) e quem estava na sua sala de estar não era nenhuma de suas amigas, era seu ex-namorado, Caio.

Ele olhava para um quadro com a foto de Aluria e Douglas e sorria.

Ela não se lembrava do quanto ele era lindo assim de perto... Como aqueles olhos escuros tinham efeito sobre ela.

– C-Caio, o que você faz aqui?

– Eu já te disse o quanto você fica linda de pijama?

Ela olhou para baixo e percebeu que estava com seu pijama favorito de bolinhas azuis. Ainda bem que ele não era curto ou ela morreria de vergonha, mas mesmo assim ela não se sentiu confortável. Ela ficou vermelha com o elogio.

– Você não tem nada para fazer aqui, Ca. É melhor ir embora. Nós terminamos semana passada.. Eu disse que nós poderíamos ser amigos, mas amigos não aparecem às 7 da manhã na casa dos outros sem motivo nenhum e sem ligar antes.

– Eu vim ver se você queria carona para a faculdade, Alu.

– Carona? Não tenho porque pegar carona com você, Caio. Eu vou com meu irmão, não preciso que você me leve.

– Você não dizia isso à um ano atrás... – ele se aproximou e pegou sua mão. Aluria não queria ceder, mas era difícil demais com ele tão perto...

Fazia pouco tempo desde a separação deles e ela definitivamente ainda não tinha superado. Nem ela sabia direito porque eles tinham terminado, mas nos últimos meses eles estavam brigando muito e não concordavam com nada... Caio agia cada vez mais estranho e guardava muitos segredos, como se escondesse algo importante. Ela não gostava disso e achou melhor terminar.

Perdida em suas lembranças, ela deixava ele tocar sua mão e se aproximar. Quando ela percebeu as mãos dele já estavam no seu pescoço e ela já conseguia sentir a respiração dele sobre a sua.

– Eu também queria dizer que foi uma besteira nós termos terminado... Você sabe que eu te amo, os casais estão acostumados a brigar. Nós temos que superar nossas diferenças e viver felizes. Só você me faz feliz, você sabe disso.

Ele a puxou para si, ela não sabia o que dizer. Na verdade ela sentia que devia dizer muitas coisas, que ela sabia que não daria certo, mas nesse momento não conseguia reproduzir nada em palavras.

Ele a beijou. Começou calma e lentamente, como ela gostava.. Mas depois passou para um beijo clemente, desesperado. Ele a apertava cada vez mais e ela começou a esquentar...

Aluria se afastou... As mãos dele literalmente estavam em chamas e os braços dela, onde ele encostava, estavam chamuscados e doloridos. Os caninos dela saltaram para fora, como sinal de que o corpo dela sentia que precisava de proteção.

– Eu me deixei levar pelo momento, Caio... A gente não pode ficar juntos, você não consegue se controlar.. Você precisa ir.

– Aluria, eu sinto muito. Você sabe que eu queimo quando fico nervoso, você me deixa assim. Isso é o meu amor por você.

– Que amor, Caio? Agora você decide me amar, mas depois de 2 dias que a gente tiver voltado as brigas começarão novamente. Não vai rolar Caio! Sai! – Ela forçava a barra e dizia umas mentiras, ela nunca ligou para o fato dele não conseguir se controlar, mas precisava se livrar dele.

Nesse momento a campainha tocou. Aluria se assustou e olhou para a porta repentinamente.

– Aproveita a deixa para ir embora. Tchau!

Caio tinha fumaça saindo da cabeça, o que significava que ele estava muito, muito nervoso. Ele segurou num vaso e este derreteu. Passou por Aluria com um olhar impenetrável, ela não sabia se ele queria chorar ou matar alguém. Abriu a porta com tudo e saiu sem se despedir. Aluria guardou seus dentes e caminhou até a porta para ver quem era.

– É.. Oi!

Era Miguel. Ela não acreditava nisso, a última pessoa que ela queria ver nesse momento era o cara por quem ela tinha uma quedinha e ela não podia assumir, já que namorava, (aliás, agora não namorava mais...), mas mesmo assim suas amigas sabiam, talvez pelos olhares que ela dava pra ele e inclusive zoavam ela por isso. Ele não fazia ideia e ela queria que continuasse assim.

– Oi Miguel, tudo bem com você? O que faz aqui tão cedo?

– A Penton esqueceu a chapinha dela aqui e pediu para eu vir buscá-la, haha.

– Você deve estar de brincadeira comigo...

.....

Depois do café que Douglas fez e das brincadeirinhas dele sobre seu “cunhadinho favorito”, os dois foram correndo para a escola. Obviamente eles chegaram atrasados, já que a Aluria ainda teve que fazer as unhas antes de sair, ela nunca se deixava ser vista com as unhas mal-feitas, devia ser um tique pelo fato dela ser uma lobisomem fêmea e sempre gostar de mostrar sua feminilidade.

Ao chegar na faculdade, Aluria falou pro irmão ir indo na frente e sentou em um banco perto da sua aula pois precisava comer algo sangrando, sua fome estava mais intensa desde a hora que Caio tinha queimado ela. Ela abriu o potinho que tinha trazido de casa como lanche e pegou um pedaço de carne crua e mordeu.

Algo curioso sobre a cidade de Gousti era que as comidas exóticas que certas criaturas precisavam comer todo dia (como sangue, cérebro ou quilos de carne crua) apareciam automaticamente todo dia de manhã na geladeira. Quem colocava aquilo lá? Ninguém sabia exatamente quem, mas com certeza alguém que trabalhava para a Base, a organização que mantinha a cidade funcionando.

Aluria estava muito atrasada, já fazia quase 40 minutos desde que a primeira aula tinha começado. Ela sabia que o professor Ramon ia ficar louco com ela. Depois de comer e lamber os dedos, ela se direcionou para a sala.

....

Ao entrar na sala, ela já estava preparada psicologicamente para o vexame, ainda mais porque Douglas tinha entrado na sala já fazia alguns minutos.

– Ainda bem que nos deu o prazer da sua presença de rainha, Aluria. E chegou praticamente para aula de amanhã. Que bom retorno de férias! – Ramon falou. Ele tinha uma face carrancuda, mas era lindo (aparentemente como todos ali naquela cidade), tinha em torno dos seus 22 anos, como a maioria dos professores da universidade.

Todas ficaram quietinhas e seguraram o riso, menos Veliria que riu bem alto, ela adorava rir de todo mundo e adorava ver alguém se ferrando. Aluria ficou quietinha e sentou no primeiro lugar vago que viu. As amigas a chamavam por cochichos, mas ela demorou para olhar. Quando olhou elas faziam caretas e zuavam o fato dela ter atrasado e imitavam o professor. Pelo menos conseguiram fazer Aluria sorrir.

....

Depois da primeira aula, todas as garotas se encontraram para passarem o intervalo juntas.

– Obrigada pela chapinha, Alu. Mals ter esquecido lá haha – Penton falou.

– É, seu irmão me disse que você pediu para ele ir lá buscar. E ele chegou em um péssimo momento, por isso nem conversei muito com ele. – Aluria colocou as mãos no braço, no lugar queimado.

– Primeiro: não fui eu que mandei ele ir lá, ele se ofereceu e com um belo sorriso no rosto. Segundo: ele me disse que viu o Caio saindo de lá e eu fiquei tipo “que porra é essa?”, por isso era um mau momento?

– Como assim o Caio foi na sua casa hoje? O que ele te disse? – falou Luisia.

– Aposto que eles trocaram uns beijos para compensar a saudade hahaha – falou Veliria e todas a acompanharam no riso.

Aluria ficou mais vermelha ainda.

– Na verdade teve um beijo sim, mas apenas um. Ele disse que me amava e que queria voltar, mas eu disse que não ia rolar.

– Ai amiga, você precisa pensar com muita calma. Tem que levar tudo o que já aconteceu antes em consideração antes de voltar com ele. – disse Jessie.

– Eu não quero voltar, meninas. – disse ela, cabisbaixa.

– Uhhhh, diz que não vai voltar mas beija mesmo assim? Adorei amiga, tá aprendendo muito bem comigo. – exclamou Marcabeth, rindo alto.

....

Aluria se encontrou com Douglas na saída e se encaminharam para casa, juntos. Ela chegou em casa e se jogou em sua cama, pensativa. Muitas pessoas pensavam que Aluria era apenas uma garota fútil que não ligava para nada na vida, mas na verdade ela se importava e até demais. Ela amava Caio, mas sabia que não ia dar mais certo, talvez ela precisasse tentar algo novo, como Miguel. Mas ela não podia tentar tão cedo, só fazia uma semana..

Ela pegou o celular e ligou para Mostich.

– Most, eu tô aqui eu casa sem fazer nada, vamos no shopping? Combina com todas as meninas e nos vemos lá daqui a 40 minutos.

– Beleza Alu, vou avisar elas pelo grupo. Por que não quer avisar o pessoal você mesma, vai pintar as unhas? Hahah vê se não se atrasa hein.

– Não, já fiz as unhas de manhã, sua boba. Eu preciso pensar. Beijinhos.

Ela desligou o celular e jogou ele na cama. Douglas entrou no quarto e sentou do lado da irmã, que estava deitada.

– Dia difícil?

– Você não faz ideia.

– Logo no primeiro dia de aula, hein? Se prepara porque o ano vai ser foda. – deu um beijo na testa dela e saiu. Aluria até olhou estranho para ele, que momento raro ele beijá-la, ainda mais na testa. Talvez seja o instinto de lobo que eles tinham, um sempre sabia quando o outro estava mal e precisava de ajuda, era a ligação mais forte que ela tinha com alguém.

– Quer saber de uma coisa? – falou Aluria, conversando consigo mesma. – eu marquei só daqui a 40 minutos com as meninas e elas sabem que eu sempre me atraso, vou sair pra correr um pouco na floresta. É só isso que me resta mesmo, me divertir com minhas amigas um pouco e me livrar das preocupações.

Aluria levantou correndo para colocar sua mini-roupa de “quando-vou-virar-loba” que era apenas dois paninhos, pois já tinha perdido muitas roupas ao se transformar e colocou sua música preferida Little Me da Little Mix (ouçam, babys! ) para tocar enquanto separava sua roupa para ir no shopping depois. Então levantou e correu para floresta e deixou seu lado lobo fluir enquanto ela pulava na floresta e só pensava em correr e correr e correr.