Titanium - O Que Resta Da Monarquia
4 Sherlock
Notas iniciais
Sherlock olhava para ele com um meio sorriso, esperando sua reação. John parecia paralisado, seu cérebro ainda estava processando a informação do que estava vendo.
— Mas como... Sherlock, é você?!
— Claro ou você agora crê em fantasmas, John? – Perguntou depositando o violino na poltrona.
John aproximou-se dele levantando a mão para tocar-lhe o ombro, sentiu que era ele, era realmente verdade, estava vivo e ali. Sem pensar puxou-o para um abraço choroso, seu melhor amigo estava vivo e de volta; as lágrimas invadiam-lhe os olhos em forma de enxurrada. Mas tão rápido quanto a felicidade atingiu-lhe, a raiva tomou-o. Soltou Sherlock rapidamente, que olhou-o esperando o que viria a seguir que viria a seguir e em um rompante de fúria, deu-lhe um enorme soco do lado esquerdo do rosto e outro no estômago.
— Eu fui ao seu enterro, eu carreguei seu caixão! – Gritava para Sherlock que agora estava curvado com a mão na barriga. – Como você pode? Seu desgraçado! Como fez isso com Mrs. Hudson? Comigo? Com a sua família? – Sherlock estava ereto de novo, respirando com dificuldade, tentou dizer algo mas John lançou-se nele mais uma vez, esmurrando-o e chutando-o. – You machine! – Mais socos, pontapés e gritos. – You bastard!
Mrs. Hudson subira a escada o mais rápido que seus quadris permitiram-lhe, chamando por John enquanto aproximava-se.
— John? Eu ouvi uma briga, devo ligar para a poli... – Parou o que dizia ao ver do que se tratava. – Oh meu Deus! – Disse abafando um grito com as mãos, ao ouvi-la John largou Sherlock, estava prendendo-o pelo pescoço, fazendo-o cair com um baque surdo no chão . Sherlock levantou-se endireitando o corpo e tentando alinhar a camisa.
— Mrs. Hudson;
— Sherlock, nunca mais faça isso. – Ela disse aos soluços abraçada a ele.
Era bom abraça-la, ver um rosto tão conhecido, ele nutria muito carinho por Mrs. Hudson, era como se fosse a ideia de lar estivesse ligada à sua figura maternal na Baker Street. Sentiu falta dela, agora dava-se conta disso.
John passou por eles sem olhar para trás.
— John.
— Não. – Respondeu batendo a porta e descendo a escada ruidosamente.
— Deixe ele se acalmar, amanhã vocês conversam. – Mrs. Hudson segurou sua cabeça e olhou para seu rosto. – John fez um belo estrago em você, sente, vou pegar a caixa de primeiros socorros.
Sherlock sentou no sofá ainda pensando na reação de John. Ele fora completamente irracional ou o detetive era quem não conseguia entender a passionalidade? Sempre se manteve longe dos sentimentos. Ele não sabia e isso matava-o, não ter uma resposta. Durante toda a sua vida teve todas as respostas, porque não esta? Mrs. Hudson voltou com a pequena caixa em suas mãos, abriu-a e começou a limpar o rosto machucado dele.
— Você está bem?
— É preciso mais do que isso para me derrubar. – Percebeu depois que não fizera uma boa escolha de palavras.
— Por que fez isso, Sherlock?
— Eu precisava proteger vocês. – Falou tão rápido que a senhoria espantou-se com a demonstração de importância. Era coisa rara tais momentos e preferiu não pressiona-lo.
Mrs. Hudson ouviu aquilo, guardou as coisas na caixa, levantou-se, passou a mão por seus cabelos desgrenhados devido a briga e beijou-o na esta.
— Bem vindo de volta. – E saiu do flat.
Sherlock deixou-se cair para o lado no sofá, deitando ainda com os pés no chão, agora que estava só podia admitir, seu corpo doía. Olhava para o fogo vindo da lareira e perdeu a noção do tempo pensando. John perdoaria-lhe, ele sabia, depois que explicasse seus motivos, ele iria perdoar-lhe. Olhou em volta, nada parecia ter mudado, tudo estava como ele deixou, até o laboratório na cozinha. Se manteve tudo como Sherlock deixara e mudou-se para não ver o flat, era óbvio que perdoaria.
Suas costas doíam, achou melhor ir para o quarto, e ao entrar, passou os olhos pelo cômodo, lá também nada mudara, então se nada havia sofrido mudanças, seu esconderijo de remédios também estaria intocado. Pegou o pé da cama levantando-a, passou a mão por baixo e sentiu que suas pílulas ainda estavam ali, no oco da cama. Engoliu uma delas e foi até o banheiro, abria os botões da camisa branca de frente para o espelho olhando seu reflexo, meio inchado e já meio roxo, ao tirar a peça baixou seus olhos para o abdômen, marcas de socos tingiam-lhe a pele branca. Terminou de tirar a roupa, ficou embaixo do chuveiro e abriu-o deixando a água quente aliviar-lhe as dores.
Foi ainda enxugando-se até a cama, não havia necessidade de vestir-se, deitou-se e rapidamente adormeceu.
O dia seguinte era dia de folga para John mas mesmo assim acordou cedo, mal conseguira dormir, sua cabeça estava cheia de questionamentos que ele não conseguia responder, precisava confrontar Sherlock e saber tudo, como, porquê e com a ajuda de quem. Subiu a escada e abriu a porta, pronto para despejar tudo nele.
— Bom dia John, fiz chá. – Sherlock falou sentado na grande poltrona de costas para a porta, com uma caneca de chá próxima aos lábios.
— Eu não quero porra de chá, eu quero a porra da sua explicação!
— Então sente-se. – Sherlock passava a mão na gola da camisa de seu pijama sob orobe azul.
— Estou muito bem de pé, comece a falar.
— Moriarty estava com três atiradores preparados para matar você, Mrs. Hudson e Lestrade caso eu não me jogasse do St. Bartholomew's Hospital. — Disparou de uma só vez, sem preparo. – Ele se matou para que eu não tivesse chance de tirar dele a palavra para pará-los e não tive outra saída a não ser pular. Todos precisavam achar que eu estava morto. Eu fiz isso para proteger vocês. – Era difícil para ele assumir que tinha sentimentos, sempre distanciara-se disso e achava que isso era o que protegia-o.
John não sabia o que pensar, lembrou do homem que viu com Mrs. Hudson quando voltou ao 221B pensando que ela sofrera um acidente, ele poderia ser o atirador designado para ela. O dele deveria estar seguindo-o o tempo todo e o de Lestrade na Scotland Yard.
— Como fez isso? Quem te ajudou? Quem sabia? – John sentou-se, o peso das informações era demais para aguentar de pé.
— Eu combinei tudo com Molly antes. – Começou a contar.
— Molly? Molly sabia? – John interrompeu-o.
— Sim, ela sabia, ela e Mycroft.
— Mycroft foi ao seu enterro, sua mãe também foi, como ele conseguiu mentir desse jeito?
— John me escute, apenas me escute. Eu precisava estar morto. Por isso pedi ajuda a eles. Quando eu pedi para que você olhasse para mim foi pra me certificar de que não veria como eu fiz isso. De todos, eu precisava que você acreditasse que eu estava morto e que era tudo verdade, que eu era uma farsa ou você continuaria tentando provar minha inocência e isso colocaria todos em risco. Não me olhe desse jeito, eu conheço você. – Sherlock passava as mãos pelos cabelos, claramente afetado pela situação de ter que admitir que fizera aquilo para protegê-los.
— O ciclista... foi obra sua! – John parecia ter seus pensamentos iluminados.
— Agora está começando a juntar as peças, eu precisava que você ficasse exatamente onde estava para que não pudesse ver que ao cair, eu não cairia diretamente no chão e sim no caminhão de lixo. Por isso o ciclista, eu precisava de tempo para encenar tudo.
— Como ninguém viu isso?
— Todas aquelas pessoas são da minha rede de contatos e de Mycroft.
— O vídeo... – John começou.
— Você viu? – John respondeu balançando negativamente a cabeça – Isso foi ideia da Molly.
— O sangue...você não tinha pulsação Sherlock, como conseguiu fingir isso?
— Com uma bolinha de squash.
— Uma o quê? – John perguntou com a sobrancelha arqueada.
— Uma bolinha de squash no meu antebraço fez a pulsação do meu braço direito diminuir tanto que você não conseguiu sentir. – Ele falava com toda naturalidade, como se fosse tudo simples. – Os paramédicos, todos que estavam ali sabiam. Você viu minha queda, Molly assinaria meu atestado de óbito, liberaria o corpo para reconhecimento de um parente próximo, Mycroft. E fariam o enterro.
— O que tinha dentro do caixão que eu carreguei?
— O corpo de Moriarty.
— EU CARREGUEI O CORPO DELE? VOCÊ ME FEZ CARREGAR O CORPO DELE? – John gritava.
— Tinha que ser assim. – Sherlock agora voltara a tomar seu chá que já estava morno.
— Se tudo já havia terminado porque não voltou? – John parecia extremamente magoado. – Porque demorou dois anos para voltar? Estava se divertindo com nosso sofrimento ou muito ocupado viajando por aí para não se entediar e quando não teve mais como se distrair, voltou para desentediar?
— Não, não foi por isso. Eu precisava cancelar o comando dos atiradores mas antes eu teria que descobrir qual era e só tinha uma chance, se errasse saberiam que eu estava vivo e tudo teria sido em vão, vocês estariam mortos agora, eu precisava ter certeza.
— Afinal qual era essa palavra? E como fez para se passar por Moriarty?
— IOU. Me passou pela cabeça inúmeras vezes mas eu precisava ter certeza. Eles não conheciam o rosto de Moriarty, então foi fácil me passar por ele. Agora sou um homem livre e não morto. – Falou esticando as pernas.
— E pretende resolver isso magicamente?
— Mycroft está cuidando disso.
— Hum... – John estava de novo de pé, agora olhando pela janela. – Dois carros pretos acabaram de parar aqui, Sherlock acho que vieram por você. – Falou andando até a mesinha da sala, abrindo a gaveta e pegando sua arma. – Levante. – Puxou Sherlock pela camisa e levou-o até o quarto. – Vista-se rápido. Faça o que eu digo ou juro, atiro em você e não será uma morte de mentira!
Sherlock tirou o pijama e vestiu-se rapidamente enquanto John vigiava a porta, pegou seu casaco e jogou por cima dos ombros.
— Vamos descer pela janela. Vá na frente, vou logo em seguida e se eu ameaçar cair, me segure ou atiro em você!
— Acabei de voltar e já fui ameaçado de morte duas vezes em menos de 24 horas, isso deve ser um recorde. – Disse sorrindo enquanto saia pela janela do banheiro.
— Cale a boca, Sherlock! – Falou e saiu pela janela. Desceram segurando-se nas frestas dos tijolinhos marrons da parede, chegando a calçada olhavam para os dois lados. – Precisamos nos separar, vou até o Speedy’s e compro algo, finjo que sai para isso e você se esconda em algum lugar, você é bom nisso.
Se separaram, John deu a volta e entrou no Speedy’s, deixou-se demorar analisando os carros e voltou ao 221B, subiu as escadas com a arma em punho, precisava estar preparado para as duas situações, tanto de serem realmente assassinos em busca de Sherlock, como alguém enviado por Mycroft. Abriu a porta e várias armas foram apontadas para ele, gritaram perguntando de quem se tratava, teve a arma tomada e tinha agora seu braço atrás das costas e o rosto colado a parede.
— Mas que merda é essa? Me solte! – Gritava para o enorme homem que lhe imobilizava.
— Senhores, tenho certeza de que isto não se faz necessário.
John tentava ver quem falara mas seu rosto estava virado para o outro lado. Ouviu passos, não reconhecera a voz daquela mulher, chegou até a pensar que pudesse ser Irene Adler, The Woman, mas não podia ser ela, estava morta.
— Starks por favor, largue-o.
O homem largou-o, John virou-se massageando o ombro, o mesmo que levara o tiro quando ainda estava no exército.
— Dr. Watson, me desculpe, mas é uma medida necessária. O senhor está bem? – Perguntou a mulher ruiva em sua frente, John parecia conhecê-la de algum lugar.
— Sim, estou bem. E quem é a senhora?
— Emma Windsor, prazer. – Respondeu estendendo a mão para ele que não apertou-a esboçou uma reverência ao reconhecer o nome. – Um aperto de mão já é o suficiente, acredite em mim. – Sorriu.
— É um prazer conhecê-la alteza. – Apertou sua mão.
— Sem menção à títulos também, por favor.
— Está bem então, senhora. – John agora podia ver que haviam quatro homens além de Emma e também Mrs. Hudson que parecia ter oferecido-lhe chá. – Por favor sente. – Falou indicando a poltrona que ficava virada de frente para a janela. – O que posso fazer pela senhora?
— Dr. Watson... – Falou tirando seu casaco nude, usava um vestido rosè e sapatos cinza. Sentou-se.
— Me chame de John.
— Certo, John, eu preciso da sua ajuda. E da ajuda do Mr Holmes.
— Sherlock? Sherlock está morto. – Tentou parecer o mais convincente possível.
— John, não é apenas ele quem tem contatos, eu também tenho os meus e sei que ele está vivo e aqui, ou pelo menos esperava que estivesse aqui.
Ela mal acabara a frase e a porta abriu-se, era Sherlock que entrou tirando o casaco e fitando-a que por sua vez olhou-o de cima a baixo. Ele usava uma camisa social de um tom roxo escuro, calça preta e sapatos da mesma cor.
— Sherlock... – John disse.
— Emma Windsor, oitava na linha de sucessão, eu sei. – Falou aproximando-se e estendendo a mão. – Lady Titanium.
— Sherlock! – Mrs. Hudson parecia horrorizada.
— Eu não me importo de ser chamada assim. – E estendeu a mão para pegar a dele, seus olhos permaneceram fixos nos dele pelo que pareceu serem longos segundos. Sherlock soltou-a e ela pousou-a sobre o braço da poltrona, sua mão e todo seu braço direito estavam formigando. – Preciso de sua ajuda.
— Hum... – Disse virando-se para a lareira.
Mrs. Hudson saiu do flat pedindo desculpas pela indelicadeza de Sherlock, tal como uma mãe faria se seu filho pequeno não se mostrasse educado o suficiente na frente de alguém.
— Da última vez que precisaram de nós, fomos levados à Buckingham. Porque veio até Baker Street?
— Ora John, isso não faz seu estilo, a nova geração aprecia a informalidade e ao que parece, confidencialidade também. – Sherlock mantinha-se olhando para a lareira enquanto dizia isso.
— Além do fato de sua situação ainda ser delicada. – Emma levava a xícara de chá até a boca e bebericava. — Eu não gostaria de adiantar nenhum problema.
— Conte sua história. – John falara. – Antes, desculpe-me, mas isso tem alguma relação com certas fotos?
— Que fotos? – Emma perguntou sem entender.
— Não era ela, John. Tente um pouco mais abaixo na lista. – Sherlock falou agora andando pela sala. – Conte.
— Gibbs, por favor. – Falou olhando para um dos homens e este prontamente levou os outros para fora do 221B, restaram apenas Emma, Sherlock e John na sala. — Eu venho recebendo telefonemas, cartas. – Entregou a John alguns envelopes. — Alguns pacotes sem remetentes. Ameaças a minha família, todas as cartas dizem quase a mesma coisa, me querem no trono e caso eu não aceite, minha vida pode ser descartada.
Sherlock olhava-a estudando suas reações, passava os olhos pelo seu corpo estudando cada detalhe, sua expressão corporal não demonstrava nada, impassível. Olhou em seus olhos e ali estava, preocupação, talvez medo, então era ali que ela mostrava o que sentia e Emma sustentava seu olhar, sabia o que Sherlock estava fazendo e ele percebeu que ela sabia. John disse algo e saiu da sala, mesmo assim o olhar dos dois não quebrou-se.
— Eu posso fazer uma lista de quem trabalha comigo e de quem frequenta minha casa.
— Porque veio até mim? – Sherlock perguntou.
— O serviço secreto na...
— Porque veio até mim, Emma? – Sherlock baixou-se apoiando as mãos nos braços da poltrona, seus rostos a poucos centímetros de distância. Podia sentir o cheiro dela, seu perfume floral delicado, o cheiro do seu cabelo e principalmente do gloss que usava. Ela nunca deixou de olha-lo nos olhos, permaneceu sendo invadida pelo olhar dele.
— Porque confio em você. – Ela respirou fundo. – Porque acredito em você.
Sherlock chegou um milímetro mais perto, podia ver em seus olhos de um azul profundo que suas pupilas estavam dilatadas e ela não mais piscava, não respirava, não movia-se e então aproximou-se um pouco mais, agora de joelhos, entre suas pernas.
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