Titanium - O Que Resta Da Monarquia
37 Sacrifício
Notas iniciais
— Your grace, o que faremos quanto aos cabelos dela? – Perguntou Thomas.
— Diga que quero-os claros e livre-se dessa coisa nos olhos e esse tecido curto. – Falou referindo-se aos óculos e ao vestido dela, respectivamente. – Vou caçar. E Thomas... coloque-a em uma alcova que não seja a que está esperando por minha Anne.
— Sim, Vossa majestade.
Vivian ouviu um dos homens afastar-se e o outro começar a chamar por serviçais. Transmitiu as ordens de Henry e ajudou a carrega-la até o quarto que deveria ser dela.
Nunca sentira tanto medo em toda a sua vida, suas pálpebras pareciam coladas e mal respirava enquanto deitavam-na na cama, tirando os óculos de seu rosto e começaram a despi-la. Vivian rezava para o homem não estar ali presenciando isso, manteve-se imóvel na esperança de que deixassem-na em paz ao terminarem e que encontrasse uma maneira de sair dali, porém dois pares de mãos trabalhavam para deixa-la do jeito que o rei ordenara.
Sentiu pentearem seus cabelos com algo de cheiro forte, nada que ela reconhecesse pelo olfato e viraram-na de barriga para baixo a fim de fechar o espartilho do vestido nela. Abriu os olhos minimamente e viu que seus cabelos estavam cobertos por algo viscoso mas sem cor específica, graças aos seu tom de negro, o que quer que fosse estava oculto mas devido ao que ouvira, seria algo para clarea-los.
Assim como todo o resto de si, seus cabelos eram virgens e nunca pretendera tingi-los ou descolori-los. Aquilo só poderia ser um pesadelo e logo acordaria, repetia para si mesma enquanto apertava os olhos com força mas não se tratava de um sonho ruim. Fora realmente raptada e jogada em algo que absolutamente não era de sua alçada. Não deveria ter ido embora do 221A, deveria ter ficado lá, mesmo que para brigar com John e chorar durante a noite inteira. Se saísse dessa com vida, nunca mais iria embora quando ele pedisse para ficar.
Só desejava que alguém fizesse algo, que John fizesse algo, ele tornara-se de certo modo o seu herói. Rezava para que ele entrasse naquele lugar com arma em punho, brigasse com quem cruzasse seu caminho, arrombasse a porta do quarto em que estava, pegasse-a pela mão e levasse-a de volta para sua casa. Passaram o que parecera-lhe horas e quando finalmente as mulheres foram embora arrastando seus vestidos pelo chão, ela pode abrir os olhos. Sentou-se na enorme cama e viu seus cabelos caírem soltos e úmidos sobre o colo apertado no espartilho, tinha-os agora em um tom de dourado e usava um vestido volumoso em amarelo e branco, no estilo do vestido que Emma usara no dia anterior e enviara-lhe a foto reclamando do quão desconfortável era vesti-lo. Olhou ao redor com a vista turva, sem seus óculos, sua visão ficava gravemente prejudicada.
Levantou-se e andou pelo quarto, poderia estar em um museu ou em algum lugar perdido no tempo e incrivelmente bem conservado. Toda a decoração parecia legítima, muito de vermelho com bordado dourado, móveis de madeira maciça e um livro de orações aberto sobre a mesa.
*****
John tremia na soleira da porta ao tocar a campainha, nervoso por Vivian não atender suas ligações, ainda não sabia porquê ela havia reagido daquela forma e ido embora sem explicação mas precisava conversar com ela, desculpar-se pelo que quer que tenha feito de errado.
Ouviu vozes vindo de dentro do flat e uma porta batendo, para sua surpresa Franz é quem atendeu a porta.
— John? – Franz parecia surpreso com a visita dele enquanto amarrava o robe ao redor da cintura.
— Vivian está aí? Eu preciso falar com ela.
— O que houve? Entra. – Falou dando passagem para ele. – Eu pensei que ela estava com você, ela não veio para casa.
— Meu Deus. – Falou desabando no sofá e escondendo o rosto com as mãos. – Você não faz alguma ideia de onde ela possa estar?
— Talvez na casa dos pais. Vou ligar para ela. – Falou pegando o iPhone e ligando, após alguns toques a ligação caiu na caixa de mensagens. – Estranho, ela não costuma fazer isso.
— Franz, está tudo bem?
— Está tudo bem, Aileen. – Ele respondeu olhando para a mulher que chegava à sala usando uma das camisas dele.
— Ok, vou voltar para o seu quarto.
— O que houve? – Perguntou à John.
— Estava tudo bem, nós saímos e quando voltamos para o flat, estávamos... você sabe... nos beijando e eu fui apressado, eu... tentei...
— VOCÊ O QUÊ?! – Gritou correndo e socando o rosto de John, em seguida pulando em cima dele no sofá e apertando-lhe o pescoço enquanto ele se debatia e tentava se livrar de Franz. – Eu vou matar você. Eu vou te matar, John!
Como que brotado da terra, um homem usando apenas cueca apareceu na sala tentando fazer com que Franz largasse o pescoço de John mas ele se debatia, chutando John e acertando-lhe o meio das pernas, ele emitiu um grunhido com a boca aberta, o rosto vermelho, quase ficando roxo.
A porta abriu batendo na parede e Sherlock correu em socorro de John, apertando os pulsos de Franz em pontos específicos, fazendo com que ele perdesse a força nas mãos e empurrando-o para trás, caindo por cima do homem desconhecido, que prendia-o com força com os braços cruzados sobre a barriga dele.
Sherlock endireitou o corpo de John no sofá, olhando-o com atenção para seu rosto e pescoço, as marcas das mãos de Franz estavam ali e seu olho começara a inchar.
— Me solta, William!
— Não! Você vai fazer uma merda sem precedentes.
— O que está acontecendo? – Perguntou Emma, recém chegada.
— Esse imbecil, ESTE FILHO DA PUTA... ele tentou forçar a Vivian!
— O quê? – Emma foi andando até chegar perto de John e olha-lo, Sherlock ficou entre ela e ele, protegendo-o. – Sai da minha frente, Sherlock. – Ele permaneceu lá de pé como uma muralha.
— Eu não forcei! Eu só me deixei levar... ela me empurrou e foi embora.
— Você tem certeza de que não forçou? – Ela perguntou respirando fundo.
— Tenho.
— Qual seu nome? – Perguntou para o homem que segurava Franz no chão.
— William.
— Você poderia por favor, pegar um pouco de gelo para John? O olho dele está ficando inchado. – Pediu e vendo-o olhar para Franz continuou. – Pode ir, eu dou conta dele. O homem largou Franz e foi até a cozinha, Emma não pôde deixar de olhar para o corpo dele enquanto andava e Sherlock ergueu uma das sobrancelhas. – Sherlock, você já pode sair da frente dele.
— Emma, eu não estou entendendo nada.
— John... a história curta é a seguinte, quando Vivian tinha 16 anos ela quase foi violentada, por que o cara não acreditava que ela era virgem. Ela estava viajando com a família na França e conheceu ele em um museu e o convidou para ir com eles até a vinícola de um amigo da mãe dela. Um dos empregados ouviu os gritos e chegou a tempo de impedir. – Emma despejou enquanto William entregava um saquinho de gelo para John pôr no olho e saia em direção ao quarto de Franz.
— Você a assustou. Ela achou que você estava duvidando dela de novo. – Sherlock disse.
— Eu não sabia. – John disse baixo. – Eu preciso conversar com ela, mas não sei onde ela está.
— Eu não sei onde, mas sei com quem. – Emma falou. – Ela foi raptada, Henry a levou.
Emma contou sobre a carta e sobre o que faria, ainda naquele dia iria à um evento que sua mãe conseguira, usando a pulseira que ele enviara-lhe no seu aniversário. Faria o que fosse necessário para protege-la.
— Você sabe o que isso significa? – Franz perguntou. – Ele vai ganhar.
— Não me importo comigo, não posso deixar que algo aconteça à Vivian.
— Precisamos fazer alguma coisa. – John falou olhando para Sherlock e erguendo-se, em modo combate ativado.
— É arriscado mas vai funcionar. – Sherlock disse.
— Você tem um plano, não é? – John perguntou baixo para ele.
— Não.
— Ok.
*****
A noite, Emma compareceu ao evento beneficente usando a pulseira e um vestido branco em estilo grego. Se estava definindo seu futuro, que usasse então uma roupa adequada. Vestira-se para o seu sacrifício e estava pronta a cerimônia que antecedia-o, em breve um sacerdote viria para cortar-lhe a garganta e deixa-la com os espasmos que antecediam sua morte.
Hipoteticamente.
Fora sozinha, acompanhada apenas de Gibbs, mesmo com a insistência de Sherlock, ele não foi.
Respondeu algumas perguntas, dentre elas, algumas sobre a única jóia que usava, queria que a pulseira estivesse em evidência.
— Bela pulseira, Lady Emma. Presente de alguém em especial?
— Sim, foi presente.
— Algum admirador?
— Um parente. – Respondeu e se foi.
****
Tentou encontrar um modo de sair daquele lugar mas as janelas estavam fechadas com madeira e a porta trancada, depois de rodopiar pelo quarto tentando pensar, sentou-se na cama e fez a única coisa que poderia fazer, rezou.
Teve suas preces interrompidas quando a porta abriu-se e uma mulher usando um vestido vermelho e verde entrou, trazendo consigo um homem que pela voz, Vivian reconhecera como aquele que falara com Henry anteriormente.
— Que bom que estas acordada, Lady Mary, o Rei mandou buscar-te. – O homem disse. – Andai. – Falou pegando-a pelo braço e arrastando-a para fora.
— O que vocês querem comigo? – Perguntava assustada.
— Nada. O Rei quer. – A mulher falou.
Após alguns corredores de um lugar que parecia familiar à Vivian, pararam diante de uma porta grande de madeira e assustada, olhou para o chão e viu a claridade de uma lareira por baixo dela.
— Vou anunciar. – Disse o homem. – Fiques aqui e garantas que Lady Mary não se vá.
— Como queiras. – Respondeu ela.
— Your Grace.
— Sim, Thomas.
— Lady Mary está aqui.
— Oh... mande-a entrar. – Ela ouviu-o dizer com a voz animada.
— Entrai.
— É melhor que o satisfaças. – A mulher disse baixo e empurrou-a porta adentro.
Vivian tremia copiosamente mirando o chão, viu botas de cano alto virem em sua direção e tentou recuar mas antes que pudesse, ele pegou-lhe a mão e beijou-a.
— Lady Mary. Estas encantadora. Erga os olhos. – Falou erguendo a cabeça dela com um toque no queixo. Vivian pôde ver o rosto do homem alto à sua frente, os cabelos ruivos, usando roupas marrom com detalhes vermelhos e jóias. – Por hora perdoarei a falta de reverência para nós. Venha. – Disse puxando-a pela mão para sentar-se à mesa com ele.
Estava em um quarto muito maior do que o que estava antes, mais adornado, cheio de baús, artefatos de caça, papeis enrolados, uma cama maior do que a que deitaram-lhe e o quadro do homem em sua frente, junto com uma mulher que parecia-lhe mais velha.
— Vinho? – Perguntando já servindo uma taça de metal e empurrando-a para ela. – Tenho um presente para ti, Lady Mary.
— Meu nome é Vivian. – Disse com a voz fraca pela primeira vez.
— Ora, não digas bobagem. – Falou sorrindo e levantou-se para buscar um estojo de jóias e abri-lo em frente a ela. – Gostas? – Perguntou mostrando o par de brincos e o colar de prata e pérolas com detalhe de pássaros. — Combinam perfeitamente em ti.
Contornou a cadeira e pegou o colar, colocando-o ao redor do pescoço de Vivian, depois pendurando os brincos em suas orelhas. Desceu as mãos pelo pescoço dela, indo na direção dos seios dela.
Em um reflexo ergueu-se abraçando o corpo e afastou-se dele o máximo que pôde, a expressão e a postura dele mudaram, antes cordial, galanteador, tornara-se inflamado e raivoso.
— Como ousa? Tu serves à mim. Tu me obedeces, Lady Mary! – Gritou andando até ela com passos pesados, tomando-a pelo braço e jogando-a sobre a cama. – I am the King! King Henry VIII. És apenas um passatempo, não espero passatempos.
Abriu os cordões que prendiam seu short bufante, levantou-lhe o vestido e deitou-se em cima dela, abrindo-lhe as pernas e prendendo-lhe os braços enquanto ela se debatia, chorava e gritava. Lambia-lhe o pescoço e o colo sobressaltado pela respiração acelerada, estava pronto para encaixar-se dentro dela quando ouviu batidas na porta.
— VOU MATA-LO. QUEM OUSA INTERROMPER-ME? – Gritou olhando para o rosto aterrorizado de Vivian.
— É Lady Anne, Your highness. Ela aceitou. – Thomas disse já dentro do quarto, olhando fixamente para o chão.
— Hum... Mais rápido do que pensei. – Ele sorriu um sorriso cheio de malícia e beijou Vivian a força, depois soltando-a, deitando-se a seu lado e chutando-lhe para fora da cama. Vivian rolou e caiu ruidosa e dolorosamente no chão, o vestido na altura da cintura. – Leve-a, não preciso mais dela.
— Sim, Your grace. – Thomas disse e recolheu-a do chão como um cachorro morto, puxando-a pelo braço.
Henry colocou as mãos atrás da cabeça e suspirou profundamente, ainda com o membro exposto.
— Finally. Mademouselle Boullan is comming to me.
******
Sherlock estava sentado na poltrona da sala de Emma, com ela balançando a perna sentada no sofá, enquanto John andava de um lado para o outro, sacudindo as mãos, fechando-as, estalando os dedos.
— Está demorando muito. Porque está demorando muito? E se o que ele disse não for verdade? Se não adiantar e ele fizer algo à Vivian?
— John... eu espero que eu tenha feito em tempo. Nunca vou me perdoar se algo acontecer à ela. – Emma falava mexendo no cabelo nervosamente.
— Emma é quem ele quer, não Vivian. Ele vai devolvê-la.
— Como você pode estar tão calmo?
Grace entrou correndo na sala com um papel amarelado e lacrado com cera nas mãos. Emma pegou-o e abriu-o o mais rápido que conseguiu.
“Na estrada do Rei a donzela espera e espera.
Agradecida pela decisão final de sua Rainha
Segura e sã
Intocada como botões de rosa recém brotados
Na nave descansa, espera e espera
As horas vão-se e assim como o sol vai-se, ela vai-se
O mais bravo dos guerreiros não poderia salvar-lhe, o tempo vai-se
Ardiloso inimigo... think think think”.
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