Titan Souls
6 Rebecka Albuquerque
Rebecka Albuquerque
Século XIX-03 de Outubro de 1816
Lisboa, Portugal
Rebecka andava pelas ruas agitadas de Lisboa, o vento jogando seus cabelos médios e ruivos para trás, enquanto seus olhos âmbares percorriam de pessoa em pessoa a procura de alguém que comprasse suas rosas. Era uma das vendedoras ambulantes da época e podia dizer que não era o que queria. As rosas vermelhas e brancas em seu cesto só atraiam os mais apaixonados – e não eram muitos que tinham este status.
Seus pés já estavam exaustos quando finalmente encontrou um homem abraçado a sua amante. Aproximou-se deles e sorriu o mais abertamente que pode. Abraçou o cesto um pouco mais alto, para que pudessem ver a mercadoria, e disse:
–Bom dia! Gostaria de uma rosa para agradar sua querida?
–Não, obrigado. – o homem disse grosseiramente. – Agora saia.
–Mas senhor, nem ao menos perguntou a...
–Nós não queremos!
Ela não aguentava mais. Ela sabia, desde o começo, que teriam essas pessoas grosseiras e ignorantes, que só faltavam empurrá-la para o meio da rua. Como deixara sua paciência caída em algum lugar há anos, começou a discutir com o homem. Ele, que deveria ser dono de alguma empresa, olhou a garota de cima abaixo e retrucou de volta.
–Onde deixara sua educação afinal de contas? — ela gritava.
–A única que me deve educação aqui é você, sua ambulante!
Após séries de respostas e diretas, o homem foi pego pelo braço por sua amada e Rebecka deu as costas a eles, andando para o mais longe que conseguiu com sua raiva. Estava repensando toda a discussão em sua mente. A última palavra fora dele, afinal: “Vocês, sem um emprego decente, não merecem o que tem.”
Ele poderia dizer aquilo? Alguma vez já passara pelo que ela havia passado? Não, com certeza não. Era só um homem gordo e ambicioso, afogado no próprio dinheiro e bebidas.
Rebecka aproximava-se de sua pequena e vermelha casa, com grama alta e roseiras ao redor. Como sentia saudade daquele lugar! Entrou e pousou o cesto em cima da mesa da cozinha. Caminhou até seu quarto para trocar de roupa, para poder passear no porto do litoral. Hoje seria seu dia de folga.
Aconchegou-se em seu casaco preferido e saiu pela porta animadamente. Iria chover logo então deveria ser o mais rápido possível, mesmo não podendo garantir que não voltaria ensopada para casa, pois adorava ver a paisagem do porto. Mas ao mesmo tempo em que se sentia feliz, sentia-se mal pela briga que teve horas mais cedo.
**
“Finalmente!” ela pensou ao chegar ao porto, onde não havia navios, o que deixava a vista melhor. Apressou-se para a passarela de madeira em cima da água; era praticamente a única ali. Mal pisou ali e a madeira rangeu “Deveriam trocar isto de vez em quando.”
Rebecka se atreveu a andar até o final daquela ponte, observando o mar com as mãos escondidas no bolso pelo frio, e o pescoço no cachecol. Era impressão ou tudo a deixava mais calma? Respirou fundo e fechou os olhos, apenas sentindo a brisa fria e o cheiro de terra molhada.
Então a chuva começou. Uma tempestade que fazia ondas subirem altas e descerem contra o mar, assustando Rebecka, que resolveu que já era hora de ir para casa. Deu as costas à paisagem e tornou a correr pela passarela, cada passo um rangido ameaçador sob seus pés. O vento forte a empurrava, deixando sua corrida lenta e seus passos pesados.
Foi quando, no meio do caminho e sem perceber, pisou em uma das tábuas de madeira quebradas, que cederam mais ainda pelo peso repentino, fazendo-a cair na água. Ao cair, todos os sons abafaram, porém o som voltou aos seus ouvidos quando ela emergiu da água, batendo os braços para que não se afogasse. Para seu azar, uma das ondas caiu sobre ela, obrigando-a a engolir a água salgada e quase se afogar de novo.
Tentou nadar novamente para a passarela, mas as ondas que a abatiam só levavam Rebecka para mais longe de seu objetivo. E pela sexta vez que foi atingida, não conseguiu voltar a superfície tão rapidamente, e agora começava a perder a consciência, o corpo pesando pelo cansaço, a água salgada tomando o lugar do ar em seus pulmões.
“Tudo acaba aqui?”
Abaixo de si, no meio da água, uma porta brilhou em dourado, convidando-a para entrar. Parecia somente mais uma parte do mar, já que os peixes passavam perto dela e ao tocarem no material, se afastavam.Espere uma porta no meio da água? Seria criação da sua cabeça ou uma maneira de fugir da morte? Mesmo que fosse ilusão, não havia tempo. Com suas últimas forças, bateu pernas até a misteriosa porta e sorriu ao ver que era real.
“Que bom.” E atravessou, mesmo sabendo que era estranho ter uma abertura dessas no meio do mar.
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