Titan Souls
7 Apollo Le Blanc
Apollo Le Blanc
Século XIX- 06 de Novembro de 1816
Paris, França
Apollo passou as mãos pelo cabelo preto, levemente frustrado, fechando os olhos de estranha cor cinza, para pensar no que dizer para o pai doente. O rei da França poderia estar com esse câncer de estômago quase o matando, mas ainda tinha forças para discutir com o próprio filho sobre o seu casamento arranjado com a princesa da Escócia. A qual uma vez divertiram-se juntos, brincando quando tinham apenas 7 ou 8 anos de idade.
–Pai e senhor. – o rapaz suspirou – Como é possível que eu me case com alguém que eu não conheça? — fazia tanto tempo que nem se lembrava da garota.
–Isso não é de interesse meu filho! – o pai acabou por tossir antes de prosseguir. – É preciso que os dois tomem conta do reino.
–Por favor, não fale...
–Eu estou para morrer. Você sabe disso. Aceite e governe melhor do que eu jamais poderia.
O rapaz quis parar a conversa ali, segurando as lágrimas que teimavam em embaçar sua visão. Reverenciou seu pai e tornou as costas para ele, saindo de seus aposentos e andando pelo grande corredor cheio de portas do castelo. A lembrança terrível de sua mãe, que morrera anos a atrás, voltara a sua mente e então não aguentara mais. Deixou sua dor escorrer pelo rosto.
Finalmente chegou ao seu ateliê de arte, onde quadros terminados pediam nas paredes e os inacabados deitados ao chão. As tintas de cores brilhantes separadas das tintas de cor fosca em cima da mesa, com os pincéis guardados dentro de potes. Uma vez dentro, com a porta trancada, abriu um embrulho enorme, tirando o maior quadro que comprara e o colocando no suporte.
Sentou-se na cadeira e fitou a tela branca à sua frente. “Que tal um jardim florido?” pensou “Alguém ao meio dele, debaixo do céu azul?” Seria esse o seu quadro de hoje. Segurou o pincel em mãos, molhou-o na tinta fresca e começou o trabalho, simplesmente querendo fugir de sua realidade devastadora.
Mal havia começado, algo na parede chamou a atenção dele. Um pedaço do papel de parede estava caindo, mostrando a madeira por baixo. Sentindo-se incomodado, Apollo levantou-se e puxou o papel bege da parede, tirando um bom pedaço dele. Foi então que descobriu que nem toda a parede era de madeira, mas sim somente a porta que estava escondida ali.
–Mas que...? – ele arregalou os olhos e tirou mais do papel, revelando toda a porta. Não tinha maçaneta, então somente a empurrou e ela se abriu completamente.
Revelou-se um quarto. Um quarto de uma criança pequena, com as paredes de cor azul claro, um berço e brinquedos caros de todos os tipos jogados pelo chão. O ar quente do cômodo bateu no rosto surpreso de Apollo. É, ou era para ser, o antigo quarto do irmão menor do rapaz. Se o bebê não estivesse morto.
Ele morrera no parto, assim como a mãe. Por que tinha de ser assim? Por que todos ao seu redor morriam e o deixavam só? Agora o medo de se casar era outro: e se ela morresse como os outros? Encarou o quarto por minutos, com medo de entrar; por isso, fechou os olhos e virou as costas, tentando esquecer toda a dor.
Abriu os olhos cinzentos novamente, e em vez de um quadro, encarava uma porta. Dourada e com runas, mais brilhante e chamativa que tesouros. Aquilo com certeza não estava ali antes e já que estava na pior, por que não adentrar mais na escuridão, abrindo aquela segunda porta?
E foi isso que fez, sendo tragado por aquele brilho imensurável.
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