Titan Souls
4 Aurora Dahmer
Aurora Dahmer
Século XIX-09 de Abril de 1816
Copenhague, Dinamarca
Aurora estava entediada dentro do teatro frio e escuro, sentada de qualquer maneira na cadeira forrada de tecido vermelho. Ela odiava acompanhar o pai para os teatros em que ocorriam as óperas. Ouvir a soprano gritar por praticamente duas horas era aborrecedor. Ela simplesmente não conseguia focar os olhos de cor hazel na peça, então abaixava a cabeça e mexia nas ondulações do cabelo castanho dourado com os dedos. Rara as vezes em que riscava a pele branca com uma caneta, ou até a folha da ópera.
Começava a cair no sono agora, encolhida na cadeira, o pai ao seu lado conversando com a esposa. A garota ouviu alguém dizer o horário baixinho; 21h30min. Faltavam apenas 30 minutos de sofrimento. "Já era hora." Ela pensou, mas esses foram os minutos maus longos que ela já tivera antes.
E o pai ainda iria falar com a soprano! Uma das piores noites, Aurora poderia dizer. Por sorte, convenceu os pais a deixá-la esperar por eles do lado de fora, no beco. Ainda caiam algumas gotas da chuva gelada e ela pisava nas poças de água ali perto da porta de saída. Sussurrava uma canção, enquanto se perdia nos sons de carros passando e a visão das luzes dos postes.
Então ela sentiu um cheiro forte em um tecido branco à frente de seu nariz e boca. Parecia formol. Levou as mãos a um braço que a segurava pelo tórax e tentou se libertar — arranhando e puxando a pele, e se debatendo o quanto podia — mas era tarde demais.
A visão se embaçou até tudo se resumir em uma terrível escuridão.
**
Aurora abriu os olhos devagar, apenas para fechá-los de novo. A luz da lâmpada ardia. Onde estava? Por quanto tempo dormiu? Na verdade, o que aconteceu? A garota tentou levar as mãos aos olhos, porém não conseguiu. Estava com ambas amarradas em suas costas.
Foi quando as lembranças do momento de seu sequestro pularam em sua mente e o desespero tomou conta. Debateu-se, gritou e olhou ao redor. Parecia um vagão de trem.Podia ouvir os sons de carvão queimando e o cheiro também, o que dava velocidade ao veículo.
–Nossa Bela Adormecida finalmente acordou. — uma voz rouca, cheia de ironia, a assustou antes de um homem alto entrar no vagão, junto com uma mulher e outro homem. Um tecido preto cobria seus rostos.
O que deixava tudo mais horrível para Aurora.
–O que querem? — o medo era evidente na sua voz trêmula.
–Ah meu bem, nada demais. Somente seu dinheiro. — podia jurar que a mulher loira sorria com sarcasmo por baixo da máscara.
Quase havia se esquecido. O pai, dono de uma rede de teatros famosos era alvo de muitas pessoas que tentavam roubar uma parcela de seu dinheiro. Assim como a mãe, que era uma artista consagrada na Europa, com quadros vendidos por mais de dez mil coroas. Nunca se imaginou numa situação que envolvesse o dinheiro da família antes; e temia pelo que viria a acontecer.
–Vamos fazer a ligação agora. — o segundo homem, mais baixo e com a voz um tanto fina, informou. — Fique quietinha e voltará inteira.
E eles passaram pela mesma porta que entraram, rindo e comentando bobeiras. Aurora tinha que sair dali. Observou ao redor mais uma vez, em busca de algo afiado para cortar as cordas dos pulsos. Nada além de caixas, algumas com as palavras "frágil" e "cuidado" escritas.Seus olhos então pousaram em uma janela quebrada. O vento frio entrava forte no vagão e havia cacos de vidro no chão.
Ela levantou-se com dificuldade, cambaleando. Suas mãos encontraram os cacos e os levaram de encontro às cordas, cortando-as. Olhou a janela mais uma vez — enquanto esfregava o pulso dolorido — e subiu até ela, escalando pelas caixas, e colocando metade do corpo para fora do vagão. No primeiro momento, sentiu que ia cair e segurou-se fortemente. Respirou fundo umas três vezes e olhou para o teto do rápido trem. Se ela queria fugir até que o veículo parasse sabe-se lá onde, deveria ir para lá.
Ouviu-se um grito feminino ecoar de onde Aurora havia praticamente saído. Ah não, as pernas dela ainda estavam dentro do vagão! Apressou-se para tirá-las de lá, porém, mãos frias a agarram. Ela movimentou as pernas para todos os lados, tentando se libertar, e a pessoa do outro lado resmungou ao ter o nariz chutado, soltando-a. A garota colocou os braços para cima do teto e puxou todo o corpo para fora, levantando-se logo depois.
Os três sequestradores saíram pela mesma janela, gritando para que ela parasse. Tudo o que ela fez foi se distanciar deles o máximo que pode, correndo e pulando de vagão em vagão,os pés batendo contra o metal. O vento forte quase a derrubava e o medo aumentava a cada segundo.
O trem chegou a uma ponte no alto de um penhasco e um rio. Aurora chegou ao último vagão, e não tinha para onde correr mais. Os três desconhecidos a encurralaram para que ela não pudesse voltar. Instintivamente a vítima deu alguns passos para trás, olhando para a altura logo abaixo. Seu estômago se revirou e a vista embaçou, então tornou a olhar para frente, para os sequestradores.
E em um último corajoso, abriu os braços e deixou que o vento a levasse pela primeira vez, caindo do teto do trem, indo em direção à paisagem abaixo. Os três estranhos tentaram agarrá-la, sem sucesso. Lembranças de bons momentos de sua vida inundaram sua mente, enquanto de olhos fechados — para evitar chorar -, esperava chegar ao fim.
Entretanto, esse fim não chegou. Um brilho anômalo se formou abaixo dela e uma porta dourada se fez presente. Não era uma boa hora para imaginar coisas, Aurora pensou. Mas não podia negar o quanto parecia real. A descida fazia a garota se aproximar mais e por fim, sendo salva da morte, ela atravessou a porta.
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