Tiros no Escuro
5 Suspeito Aliado
" Todos nós temos um motivo para viver. O de Parker é comer rosquinhas. O sonho dele é construir uma fábrica de rosquinhas, mas quem disse que era pra vender ? "
O líder do esquadrão anti-bombas sai do carro-forte preto com mais quatro agentes, mas ele é o único sem capacete. Aquele rosto de seus 39 anos ganhou uma cicatriz em uma briga com facas a dois anos e meio atrás, deixando uma lembrança embaixo do seu olho esquerdo. Seu cabelo arrepiado levemente grisalho ressalta que já teve muitos momentos tão irritantes como esse na vida.
– Parece que chegamos quase na hora. — Seu tom insensível sempre me deixou irritado. Tons de indiferença me tiram do sério muito fácil, pois estou acostumado a ver reação para cada palavra dita. Mas não importasse a situação, ele nunca mudava o tom. Um homem de família morre e a única coisa que ele diz é "chegamos quase na hora"?
– Pelo jeito, sim. Sua equipe anda muito devagar ultimamente, Scroule. — Graças a insensibilidade dele, me senti obrigado a ironizar alguma coisa. Ele merecia.
– Não tenho recrutado pessoal tão útil, Troy. Parece que não temos nada a fazer. Se precisar de um serviço mais rápido, é só me chamar. Vou ser mais adiantado. — Sinto um leve tom de deboche, mas ignoro. Sinto cheiro de encrenca, mas desconsidero. Ele é o mais incapaz de provocar algum atentado terrorista, aliás, ele vive mais pelo trabalho do que pela família. Acho que gosta de ver cérebros saindo das cabeças de suas vítimas.
Não respondo. Ele simplesmente acena pro helicóptero e as duas blitz negras que vieram com ele pra dispensá-los, sobe no seu próprio carro-forte e voltam, da mesma forma que vieram. Guardo o anel no bolso rapidamente e volto pra dentro. Logo, o capitão chega. Ele estava em forma nos seus 45 anos de idade, mas tinha um pouco de monotonia na sua vestimenta. Sempre usava a mesma calça jeans, tênis de marca importada que eu não sei o nome e camisa social azul escuro. Ele deve ter um estoque cheio dessa combinação de roupa. Os cabelos acinzentados dão a ele o charme dos anos 80, junto com seu rosto semi-quadrado. Seus olhos fixos na multidão intimidava a todos os membros, o que fazia eles correrem mais no serviço. Ele vem em minha direção e a única coisa que consigo imaginar é " Vai me dar bronca por não salvar o brutamontes e vai pedir pra eu fazer um relatório da situação", mas ele apenas me olhou com seu clássico olhar de " venha até a minha sala ", então não fiz nada além disso.
A sala dele é na direção oposta, só que maior. Eu sento na cadeira em frente à mesa com o dobro de tamanho da minha e o símbolo da corporação estampado atrás do assento dele. Ele debruça na mesa com os dois cotovelos, usando o braço de suporte para apoiar seu nariz com as mãos entrelaçadas. Sempre fico tenso quando ele fica assim.
– Troy, você é um ótimo tenente... — É nessa hora que penso que vou ser demitido.-... mas todos nós temos um limite. Eu soube do que aconteceu com sua esposa e li o relatório daquela tal Louis. É uma situação delicada você rever o seu passado na sua frente, e ainda ver um suicídio como este agora a pouco pode abalar a sua razão. Sabendo disso, eu quero que vá pra casa relaxar. Eu te conheço desde que entrou aqui a seis anos, mas sei quando você precisa de um descanso. Você é o melhor daqui, e não quero que sua mente fique abalada com isso. Não se preocupe, seu parceiro vai ficar bem aqui.
O capitão sempre foi próximo de mim. Quando entrei nessa corporação como guarda de trânsito, sempre busquei os seus conselhos, e quando fui promovido para piloto de mesa, me aproximei mais dele, e por isso acabamos formando uma forte amizade. Me orgulho dele não só como chefe, mas como amigo, o único membro dali que pode saber o que sinto sem precisar me perguntar.
– Obrigado, capitão Rick, mas acho que consigo continuar. — Eu precisava me manter forte, pois como ele falou, sou o melhor que ele tem, então vou continuar sendo, mas pelo que sei do capitão Rick, ele vai insistir.
– O nome do rapaz era George Prince, chefe de segurança do Hotel Soul, tinha duas filhas, uma esposa com câncer de mama, queria juntar dinheiro pra tratar da doença, mas não viveu tempo suficiente. Seja lá quem tenha sido que fez isso, não vai atacar a família dele. — Ele levanta e coloca a mão no meu ombro direito, suspira e continua falando. — Te conheço melhor do que qualquer um aqui, Troy. Você sabe que não pode negar minhas palavras. Vai pra casa e relaxa. Amanhã você terá uma papelada pra assinar pra mim, eu não estarei aqui de manhã. — Seu olhar de compreensão me convence. Agradeço ao capitão Rick, pego meu carro e vou pra casa.
Chegando, me jogo no sofá. Estudos provam que o esforço demasiado da mente pode esgotar o físico também, e as duas mortes que vi puderam comprovar isso. Precisava cochilar.
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Adormeci sem perceber, acordando de madrugada, perto das 1h da manhã. Estava fisicamente melhor, mas a mente continuava pensando. Só depois de ter descansado eu pude perceber ; George Prince era a terceira vítima. Não precisava ser da família pra ser a próxima pessoa assassinada da lista. Só havia três pessoas na foto : Louis, Lara e George. Mas a única pessoa que tinha conhecimento sobre eles era...
Landscape!
Meu ânimo disparou, fazendo desaparecer toda aquela má vontade que eu tinha depois de acordar. Não podia me conter, eu precisava fazer isso.
Ligo para Parker. Não espero ele falar naquele tom sonolento de me criticar pelas altas horas. Naquele momento, falei :
– Parker, pegue sua arma. Vamos dar um passeio.
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