Tiros no Escuro
6 Captura Amigável
"O capitão Rick pode parecer durão, mas ele gosta de jazz. Ele me convidou pra festa de casamento dele, e foi estranho vê-lo dançar com a esposa. Parecia uma hiena eufórica de tão feliz."
Quando se tem um suspeito em mãos, você não pode largar do seu pé até que ele tenha alguma utilidade pra você, mesmo se for inocente. Mas Landscape não era inocente, e eu tinha que poder confrontá-lo. Eu ligo pra base, esperando que algum abençoado me atenda.
– Alô? — Um dos pilotos de mesa atende. Tinha uma terrível voz de sono.
– Se meu serviço não fosse tão urgente, eu te daria uma advertência agora mesmo, meu rapaz, mas tenho um pedido a lhe fazer. Procure a gravação das câmeras internas da delegacia, entre os horários 8h e 10h de ontem. Quero essas gravações na tela quando eu chegar aí. — Não espero ouvir a linguagem sonolenta do piloto e desligo. Não demora muito e chego na rua em que Parker mora. De noite, aquilo parecia um cenário dos filmes Sexta-Feira 13. Sem nervos de aço, você não ficaria de pé por 3 minutos ali. Logo mais à frente, na quinta casa, vejo Parker arrumado. Os olhos vermelhos denunciavam o resultado da minha ligação desesperada. Ele vem ao carro sem pestanejar. Não é normal ele não reclamar de uma situação dessas.
– É bom que seja algo realmente sério, Troy. Eu odiaria perder meu sonho por qualquer merda. — O mal-humor era aparente, mas ele sabia que não tinha escolha como meu parceiro de trabalho.
– Landscape é o único que parece ter acesso aos arquivos dos tais Iluminados e que teve acesso visual com as vítimas. Ele precisa ser interrogado, e precisamos achar esse homem o mais rápido possível.
Em 25 minutos, mais ou menos, chegamos na DP. Não sou delicado com a porta quando a abro, uma vez sabendo que era uma situação urgente. Haviam apenas dois pilotos no local. Procurei o que parecia ser mais novo, pois a voz no telefone não era de ninguém com mais de 24 anos. Fui em direção ao mais próximo, e este não me olha nos olhos.
– Obrigado, policial. Pode rodar o vídeo. — Ele clica no Enter do teclado e o vídeo começa a rodar. Aquelas cenas não eram novas pra mim, uma vez que eu as vivenciei a quase 20h atrás. Eu e Parker ficávamos de pé, e ele parecia que ia tombar a qualquer momento se não sentasse. Para o alívio do meu parceiro, o rosto de Landscape aparece na tela. — Pausa! — A reação imediata de apertar o Enter depois do meu grito parece ser um susto bom pra se acordar num horário daqueles. Depois disso não vejo sinais de sono no coitado. — Mande esse rosto para outras delegacias, aeroportos, rodoviárias, postos de táxis, e pros lugares aonde achar necessário. Esse homem precisa ser encontrado, de preferência vivo. Eu e Parker faremos uma busca por aí enquanto isso. Qualquer informação, me liguem. Se eu não atender, podem continuar ligando. — Falei alto o suficiente pra todos escutarem. Tinha certeza que uma coisa dessas iria mantê-los acordados. Toco Parker no ombro, indicando a ida pra viatura. Descemos os degraus e entramos no carro. Ele não parecia gostar da situação.
– Me tirar de um ótimo sono pra procurar um cara a essa hora ao invés de deixar pra fazermos isso de manhã é algo muito inútil. — Ainda não sei o que me segura de dar um tiro naquela testa. Acho que é a terceira vez que digo isso. Mas por outro lado, minha desconsideração pelo descanso dele precisa ser compensada.
– Se está com tanto sono, Parker, não vejo problema em você dormir um pouco aqui na viatura.
Começamos a andar por aí. O som de cigarras e grilos nos gramados frontais das casas quebravam o silêncio daquela madrugada, disputando volume com o som das rodas que passavam pelo asfalto áspero e molhado. Parker não pensou duas vezes e desacordou no banco da carona. Meu sono havia ido embora, dando lugar para Landscape na minha mente. Há coisas que não se encaixavam pra mim. Se ele era o único que tinha conhecimento dos três, por que iria querer ajudar a solucionar um crime em que poderia ser incriminado? Porque arriscar a própria sorte indo em uma delegacia pra dar fotos alegando que observava os três? E se ele não é membro dos Iluminados, por que revelar fotos que se relaciona a eles, reconhecendo que isso é um risco pra própria vida?
Tinham muitas informações que não eram compatíveis, e pensar aquelas coisas no trânsito quase me fez atropelar um esquilo. Seria muita insensibilidade fazer um animalzinho pagar com a vida pela minha falta de atenção.
Chego em certo ponto da rota que vejo um homem encostado em um muro, sentado no chão, com os joelhos servindo de apoio aos braços entrelaçados que cobriam seu rosto. Parei a viatura devagar, e saí do carro. Ele trajava um bermudão azul, camiseta de malha e chinelos vermelhos, mas estava limpo demais pra ser morador de rua.
– Com licença... O senhor está bem? — me aproximei calmamente do rapaz. Não havia reação da parte dele. Foi quando o toquei no ombro e senti um grande golpe na minha nuca, me fazendo adormecer no mesmo instante.
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Acordo sentindo meu rosto queimando pelo sol que batia forte em mim. Minha visão embaçada clareou depois de alguns segundos, me dando uma noção do lugar que eu estava. Meus braços e pernas estavam imobilizados em uma cadeira que parecia ser feita de pau-de-cedro. Foi aí que me dei conta de que estava em uma espécie de porão. Ou pelo menos era o que eu achava. As paredes eram velhas, a pintura de magenta já estava extinta em sua superfície, sendo substituída por buracos que devolviam o tijolo à visão. O teto era de concreto sem pintura, e já que era dia, não precisavam acender a luz que balançava segurada por dois fios pretos. Ao meu redor, vejo várias prateleiras, todas com frascos de diferentes conteúdos. O que me assustou foram os frascos. Dentro deles haviam partes do corpo humano. Olhos, bocas, narizes, corações, e outras diversas coisas que meu estômago não gostaria de se lembrar. À minha frente, uma porta comum de madeira. Sua maçaneta girou estalando quatro vezes antes de abrir. Não me surpreendo que já estivesse me esperando.
– Eu não achava que seria tão fácil te encontrar...Sr. Landscape. — Ele me olhava fixamente, mas tenho certeza que, naquele momento, ele tinha tanta certeza quanto eu, que minha vida estava em suas mãos.
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