Tiros no Escuro
7 Decisão Suicida
" Parker odeia picles, mas ele nunca foi muito atencioso com os detalhes das coisas. Ele pediu um BigMac um dia, mas não sabia que vinha com picles, e quando sentiu o gosto, foi até o gerente pra reclamar. Precisei pagar a refeição e tirar o rapaz de lá na força, senão a máquina de sorvetes do lugar seria outro prejuízo."
Os dois homens atrás de Landscape estavam equipados com fuzis, significando que ele não estava ali pra brincadeira e que me mataria se fosse necessário. Eu estava preso e não podia reagir, mas podia fazer algo pra ter alguma chance de sobrevivência. Meu celular estava no bolso traseiro da calça, eu só precisava pegar ele devagar e apertar duas vezes na tecla de chamada pra discar pro capitão Rick. Pra isso eu precisava enrolar o Landscape por meio de uma longa conversa, ou uma que durasse tempo suficiente pra alguém ouvir a voz dele, rastrear meu telefone e mandarem viaturas pro local em que estou, mas por outro lado, temo arriscar a vida dos meus companheiros com esses guardas do Landscape.
– Sua reputação de teimoso é real, pelo jeito. — Landscape começa a falar. — Eu tinha lhe avisado antes que ir a fundo te traria desgraça, mas também sabia que você não ia deixar por isso mesmo, por isso me precavi e me preparei pra você. Eu sei aonde você vai pisar, e também sei aonde colocar as pedras pra te fazer tropeçar. — Ele falava de um jeito como de alguém que adora ouvir a própria voz. Isso é irritante.
– Você não vai ter muito tempo, Landscape. Não espero te deixar impune. Só pelo fato de me amarrar eu posso te prender por desacato. — Ganhar tempo não seria problema. O verdadeiro problema seria saber se o tempo que eu ganharia fosse o suficiente pra sair vivo dali, e não dentro de um saco preto.
– Você não está em condições de me ameaçar, Troy. Não tente. — Ele se vira de costas. Eu só tenho alguns segundos pra fazer o que quero. Torço pro celular estar no silencioso. Levanto um pouco meu quadril pra poder tocar no meu celular com dois dedos e retirá-lo do bolso, e apertar duas vezes a tecla de chamada. Tomara que a chamada tenha começado. — A Manifestação de Nuit está por um fim.
– Nuit? Quem é ele, Landscape?
– O certo a dizer é "o que ele é", e apenas os escolhidos por ele podem conhecê-lo. Você não está nem perto de ser digno desse privilégio. — Ele pega um livro de seu bolso traseiro. Capa vinho, com as letras douradas em formato romano, mas infelizmente não consegui ler o título. Ele pára em uma pagina e cita. — " Eu sou a chama que queima em todo coração de homem, e no âmago de toda estrela. Eu sou Vida e o doador da vida, entretanto o conhecimento de mim é o conhecimento da morte." — Logo após, ele saca uma espécie de adaga de dentro do paletó e vem em minha direção. Realmente naquele momento eu achei que não sobreviveria, quando ouço dois disparos, e vejo os guardas caírem no chão mortos. Pela porta, entra Parker com a arma levantada e apontada pra Landscape.
– Solte a faca, Landscape! — Parker grita pra ele. Landscape abaixa a adaga.
– Parker é seu nome, não é? Sou um bom memorizador de nomes, e decorei o seu quando vi no crachá.
– Cale a boca, Landscape! Você está preso. Largue a faca e ponha as mãos atrás da cabeça. — Landscape obedece a parte de largar a adaga, mas não move as mãos. Parker chega perto pra algemá-lo, mas Landscape se vira e golpeia o rosto de Parker com um soco, fazendo ele cair de bruços , então começam a brigar no chão.
Eu olho pra adaga que está próxima de mim. Eu me derrubo no chão depois de um impulso pro lado. Meu ombro esquerdo dói com o impacto, mas a necessidade de se livrar daquilo era maior. Eu impulsiono meu corpo pra trás até chegar na adaga e a pego com a mão direita. Torço um pouco meu pulso pra começar a cortar, e vejo que ela podia ser um pouco mais afiada. Parecia que eu estava arrastando um pedaço de pau. Acabo dando uma espetada no meu pulso e sinto uma gotinha de sangue escorrendo pela palma da minha mão, aquilo incomodava, mas eu tinha que ter cuidado. Parker começa a ter desvantagem na briga com Landscape, o que me faz ter um pouco de desespero. Pra apressar as coisas, decidi perfurar a corda, e em alguns segundos eu estava livre nas mãos, e em seguida nos pés. Landscape havia pego a pistola de Parker e estava prestes a atirar na sua testa, mas saquei a minha e atirei na perna da mão do infeliz, que soltou um urro de dor. O olho roxo e canto da boca sangrando mostrava como Parker era ruim de briga, mas aquela não era hora disso.
Eu pego meu celular do bolso e vejo que havia ligado pro Parker. Ele estava por perto quando liguei, pelo que parecia, mas mesmo assim achei que chegou rápido demais. Eu algemo Landscape e saio com ele. Meu palpite do porão estava certo, e como bônus, graças aos vidros com órgãos, posso ter mais um motivo pra prendê-lo : tráfico de órgãos. Saímos da casa, e vi que era a mesma casa aonde eu estava em frente quando fui desmaiado. Colocamos Landscape na nossa viatura, que ainda estava lá.
Antes de chegarmos, eu pego a mala de pronto-socorros que estava no porta-luva e enfaixo a mão de Landscape, aliás, o capitão não iria querer que o chão da delegacia ficasse sujo com sangue de criminoso. Levo ele até a sala de interrogação, e ele se senta calmamente. Estava tranquilo demais pra alguém que passaria pelo menos metade da vida na prisão. Meu capitão decidiu interrogar pessoalmente Landscape junto comigo. Ele entra na sala e fica ao meu lado de pé, enquanto fico sentado. Rick é o primeiro a falar :
– Então você gosta de matar policiais, Landscape ?
– Meu nome é Edward Landscape.
– Não me importo com o seu nome, me importo com as famílias das pessoas que você matou.
– Eles morreram pela causa.
– Eles morreram contra a própria vontade. — Ele se aproxima de Landscape. — Edward, olhe bem pra mim e vê se eu estou com cara de quem vai deixar você sair daqui impune.
– Isso não me intimida. Eu também morreria por Ele.
– "Ele quem?"
– Nuit.
– E quem é Nuit, Edward?
– Eu sou Nuit, e minha palavra é seis e cinqüenta.
– Tá falando merda, meu rapaz.
– Vocês não sabem o que os esperam. — Capitão Rick bufa. Aquilo o irritava, e a mim também.
– Troy, ele é todo seu. Faça o que quiser. — Eu estava louco pra que ele dissesse isso. Me levanto, pego na nuca de Landscape e bato com sua testa na mesa, o pego pelo pescoço, o levanto da cadeira e o coloco contra a parede.
– Agora me fala, seu merdinha, o que você sabe dos Iluminados ?
– Isso não é importante... E nunca vai tirar essa informação de mim. — Dou três socos no rosto dele com toda a raiva que eu estava.
– Nem que eu te vire pelo avesso, Landscape, nem que eu arranque seus membros, eu não vou parar até conseguir a localização dos Iluminados.
– Hahahaha... — Ele tira algo do bolso. Uma cápsula. E antes que eu pudesse fazer algo, ele a engole. -Meu número é 11, como todos os números deles que são de nós. A Estrela de Cinco pontas comum com círculo no meio, e o círculo é vermelho. Minha cor é negra para o cego, mas o azul e ouro são vistos pelo que vê. Além disso eu tenho uma secreta glória para os que me amam. — Landscape começa a engasgar com algo branco que sai da sua boca, e logo em seguida seu corpo fica mole.
Landscape se matou. E aquilo só me fez ter mais vontade de surrá-lo.
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