Tiros no Escuro
3 O Convite
Notas iniciais
"Não é sempre que procurei mudar meu visual. Parker me perturba dizendo que meu cabelo curto e liso poderia fazer uma transformação. Não sei porquê, mas sempre que ele diz isso, me lembro do Leonardo Di Caprio depois daquele filme, o Titanic."
O som das sirenes ficou mudo em meus ouvidos. Já não ouvia mais a voz dos policiais comentando entre si sobre a mulher, comida e os Yankees. Pensei se não era alguém querendo me pregar uma peça, mas óbvio que não. Não havia truque. Não havia alguém idiota querendo mexer com um homem da lei. Só havia um bilhete amassado em minha mão dando uma evidência de que, ao que parece, a morte não só desta mulher mas a de Lara foi algo planejado. Não sei o que queriam, mas estavam prestes a me provocar.
Parker reconheceu meu rosto perplexo e veio até mim. É raro ele estar preocupado com alguma coisa. Talvez seja um bom sinal.
– Troy... tudo bem ? — Ele toca no meu ombro, gesto que mostra que realmente parecia preocupado comigo. É um dos poucos momentos que gosto com ele. Mas não pude responder sua pergunta.
– Acompanhe o caminho do corpo até o laboratório. Não queremos perder tempo. — Decidi não demonstrar meu estado de choque, embora tenha sigo algo fútil. Pela visão periférica pude ver Parker me olhando enquanto eu caminhava até meu carro. Dou a partida e volto para casa. Precisava pensar.
Não demora muito e a campainha toca. Ter sossego neste dia não é uma opção pra mim.
Eu abro a porta e vejo Parker sério. Uma visão difícil de ter, uma vez que ele está sempre sorrindo.
Prefiro deixá-lo entrar.
– Sente-se. Se quiser um vinho, tem na geladeira. — Ele não parecia disposto a sentar. Ficou em pé me olhando como se buscasse alguma coisa, queria olhar nos meus olhos e descobrir meus segredos, mas decidi debruçar do lado da janela e observar o movimento do trânsito através do vidro.
Demorou uns trinta segundos até Parker sentar na poltrona. Confesso que tenho ciúmes daquela poltrona. Só eu e Lara sentávamos ali. Mas acho que naquele momento não era necessário considerar isso.
Ele observa o carpete vermelho-escarlate do lugar. Parecia pensar no que dizer. Então disse, sem olhar pra mim :
– Pra você sair daquele jeito, era uma das duas coisas : ou você conhecia aquela mulher, ou aquilo te lembrou alguma coisa no seu passado.
– Um pouco dos dois. — Respondo secamente. Não havia motivos pra contar, mas também não havia motivos pra evitar dar alguma resposta válida. Ainda continuo olhando a rua. Era o melhor que se podia fazer no momento.
– Poderá me contar um dia ? Às vezes, desabafar ajuda. — Ele podia até ter razão, mas aquele não era o momento certo. Ele é meu parceiro a vários anos, mas ainda não foi necessário dizer a verdade. Mas fiquei satisfeito por saber que existe alguém no mundo que se importa com o próximo.
– Um dia te contarei, Parker. Mas é hora de você ir pro laboratório esperar o resultado da autópsia, preciso desses resultados ainda hoje pra começar a fazer planos e pegar esse infeliz. Não se preocupe comigo, você sabe que não vou fraquejar.
Infelizmente já estava fraquejando. O fato de não poder ler aquele bilhete sem ficar alterado emocinalmente já provou que posso afirmar que talvez eu não seja forte o suficiente pra continuar nesse caso, mas, como falei, meu trabalho é ir a fundo dessas coisas. Aí me pergunto : o quão fundo terei coragem de ir ?
Parker foi até a porta e a abriu. Demorou pra fechar. Mesmo de costas, senti ele me olhando por um tempo, seguindo de um suspiro e o som da porta se fechando, enquanto seus passos largos faziam tumulto pelo corredor do 3º andar de madeira firme.
Em nenhum momento paro de pensar no bilhete. A forma que ele falou sobre mim e Lara mostrava que ele tinha um bom conhecimento sobre nossas vidas, incluindo nossos comportamentos. Talvez a morte dela tenha sido planejada por esse indivíduo, mas é difícil imaginar um motivo por trás disso. Lara era pacífica, não tinha inimigos, até aonde sabia. Embora atualmente até o seu cachorro pode arrancar seu braço com uma mordida, ela não tinha problemas com outras pessoas. Ela vinha de uma família de classe média, mas sempre gostou de ter o seu próprio negócio. Era filha única. Quando os pais faleceram, Lara gastou todo o dinheiro investindo na confeitaria, e o resultado era um lucro que dava pra ela dar a volta ao mundo sem gastar a metade do que tinha. Embora não ganhasse pouco, ela gostava de uma vida simples. Tanto que quando eu ainda era piloto de mesa na corporação, ela aceitou se casar comigo, mesmo ganhando menos da metade do que ela ganhava. Viveu uma vida simples comigo, sem brigas, sem dívidas, éramos só nós dois.
Deixando minhas lembranças de lado, pego meu carro e dirijo até o DP. Não era fácil caminhar lá dentro, ainda mais com a quantidade de papéis que passavam do meu lado nos braços dos policiais. Não era à toa aquela movimentação toda. A quantidade de multas de trânsito que andam chegando na DP é maior do que três livros de Direito juntos. Não pude aproveitar muito observando a bagunça pois ouço aquela voz que parece que me segue por todos os cantos.
– Aqui, Troy ! — Parker parece que colocou um radar em mim. Ele consegue me achar em lugares tão tumultosos que parece que sou um elefante se escondendo atrás de uma ovelha. Ele balança a mão de forma animada, acenando pra eu ir até aonde ele estava. Logo, ele diz :
– Esse é o resultado da autópsia. — Finalmente o tenho em mãos. — O suspeito atingiu a veia jugular interna direita, uma veia que passa circulação pro cérebro. Mas o que eu quero mostrar não é isso. — Ele vira para a próxima folha na prancheta. — Ele injetou na vítima uma substância chamada Tetrodotoxina, uma substância venenosa encontrada em peixes como o baiacu. Essa toxina, consumida em quantidade exagerada, pode causar parada cardíaca e a morte em pouquíssimo tempo. Foi constatado na autópsia também que antes da mulher morrer por falta de sangue, ela havia sofrido parada cardíaca.
O assassino já sabia o que ia acontecer. Ele queria fazer Louis sofrer antes de morrer. Parece que não se davam muito bem, pois isso é atitude de quem guarda rancor. Eu já sabia o que fazer.
– Quero que pesquise todos os parentes de Louis que ainda estejam vivos. Mande nossos guardas questionarem cada um deles para descobrir se temos alguém que não ia com a cara dos Bane. Parker, você...- Sou interrompido. Um dos pilotos de mesa novatos entra na sala.
– Tenente Troy, tem alguém querendo falar com o senhor. — Ele me leva até um homem. Terno padrão, com paletó e calça pretos,uma camisa branca social por baixo com o primeiro botão desabotoado. Cabelos grisalhos, já devia ter passado dos sessenta anos, mas não parecia cansado da idade. Parecia não gostar de andar como qualquer pessoa. Gostava de parecer gente de poder. Suas palavras são diretas com um tom pesado, sem agressividade, mas objetiva.
– Você quer respostas. Eu tenho respostas. E terá todas se decidir tirar vinte minutos do seu tempo para me ouvir. Mas devo te avisar : esse caminho você não quer trilhar, porque quando entrar neste mundo, nunca mais poderá sair.
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