Tiros no Escuro
4 A Coroa e o Suicida
Notas iniciais
" Muitas vezes a intuição salva nossas vidas. Um dia pedi pra garçonete fazer sanduíche de tofu. Parker nesse momento tinha chegado na lanchonete, e perguntou se podia pegar ele pra comer. Não me importei com isso e permiti. Quatro horas depois, estávamos no hospital com ele por intoxicação alimentar. "
Sentamos na minha sala. Ele parecia tranquilo, mas seus olhos transbordavam mistério, e eu precisava de respostas. Sou um lobo, mas preciso do cheiro da minha presa.
– Pode começar, Sr... ? — É muita falta de modos alguém querer falar com você sem se apresentar. É uma lei universal.
– Por ora, me chame de Sr. Landscape. Não sou um inimigo, acredito que precisa saber apenas isso de mim, por enquanto. — O tom de suspense dele me incomoda. Não há porque confiar nele, mas hoje em dia toda informação é válida.
– Então, quais informações você tem pra mim, Sr. Landscape ? — Prefiro ir direto ao ponto.
– Sem mais delongas, aqui está. — Ele tira um envelope do bolso, como esses pra se colocar cópias de documentos. Eu pego o envelope e retiro o que tem dentro. Eram fotos da Lara ainda viva.
– Ainda não entendi, Sr. Landscape. O que a Lara tem a ver com isso ?
– Olhe bem no casaco dela. — Eu não via nada diferente, além de um adesivo na parte esquerda do seu casaco vermelho, ao lado da gola que se estendia até acima do seu busto. Era um símbolo estranho, com um triângulo e no meio dele havia um círculo. Algo nada demais. Em uma outra foto, ela estava acompanhada da recente vítima e irmã, Louis Bane, e em seu vestido magenta havia o mesmo símbolo do lado esquerdo em cima do seio. Elas estavam entre um brutamonte pardo, e parecia bem sério. Lara e Louis também estavam sérias.
– Seja lá o que esteja querendo dizer com isso, mas não está esclarecendo muita coisa. É bom o senhor fazer a honra de explicar, senão poderá ser preso por falsificação de informações. — Ficar vendo a foto da Lara viva e olhar pra cara daquele velho estava me deixando impaciente. E eu não tinha muito tempo. O assassino disse que a terceira vítima iria aparecer rápido. Nesse momento ele já poderia ter assassinado essa pessoa e colocando seu corpo esquartejado numa praça pública, ou mandando pedaços dos dedos pelo correio.
– Se você fosse um policial mais informado sobre História Antiga, não me diria isso. Este símbolo é a identificação dos membros de uma organização chamada Os Iluminados. Eles são a ressurreição dos que conhecíamos como Iluminatis, trabalham para manipular todo o mundo em cada aspecto. Vou lhe avisar, Troy, que investigando a morte desta mulher, você vai entrar no submundo do que você chama de "mundo". Você pode parar agora sua investigação e dar seu caso como Encerrado, prendendo qualquer criminoso e implantando provas aleatórias contra ele, se salvando de uma tortura emocional e psicológica, vivendo uma vida pacífica sem preocupações ; ou pode continuar a tentar solucionar o crime, indo a fundo e descobrindo coisas sobre sua mulher e suas origens que podem mudar completamente a sua vida para a pior, para depois pensar que deveria ter aceitado a primeira opção. A escolha é sua. Você é um policial inteligente, Troy, não tome a decisão errada.
Aquilo estava me cheirando a encrenca. Ele sabia demais. Os Illuminatis haviam desaparecido a séculos, e ressurgir assim do nada não era algo crível. Ele se enganou sabendo que eu não sei um pouco de História Antiga, embora este "pouco" seja limitado a pesquisas escolares que fiz no colegial.
– Pra você me dar essas fotos e me dizer essas informações, você talvez faça parte desses Iluminados. Como vou saber que é confiável ? — Não havia outro argumento. Ele havia usado palavras bem pensadas. Ele já sabia da minha dúvida e da curiosidade forte que eu tinha por esse caso. Ele já sabia que não haveria quem me segurasse pra solucionar este crime. A primeira opção era tentadora, mas agora que vi que a morte da Lara não foi algo normal, sinto que há necessidade de descobrir o que realmente aconteceu com ela.
– Como falei no início, tenente Troy, a única coisa que precisa saber de mim é que não sou um inimigo. Quanto às minhas fontes, não se preocupe. São fontes que não podem ser descobertas por ninguém, nem mesmo por você. — Ele se levanta devagar. — Foi um prazer, tenente. Fique com as fotos, elas estarão seguras com você, eu acho. Ainda existe um mistério no meio das duas fotografias, e tenho certeza que em um momento você descobrirá. Por enquanto, essa é a sua única pista. Meu trabalho aqui acabou, mas tenha cuidado aonde pisa. Mas então tenha uma boa tarde. — Ele se vira e vai embora. Passos largos geralmente indicam pressa, então algo estava esperando por ele. Torço pra que eu o encontre vivo da próxima vez.
Olho bem para Laura e para Louis, depois para o brutamontes. Eu já tinha o cheiro da presa. Agora precisava achar. Esse homem não me pareceu do tipo que cuida de mulheres bonitas sem encostar em seus sutiãs.
– Parker, preciso de uma leitura de rosto desse homem aqui. Quero saber o que ele faz atualmente, se está vivo, aonde mora, se já usou drogas, se tem ficha criminal, enfim, quero tudo sobre ele. Não quero que me falte informações. — De repente começou uma correria anormal dentro da DP. Eu não via a presença do capitão, então não era ele mandando todos fazerem flexões e corridas ao redor do quarteirão. Era algo mais sério. Em seguida uma grande gritaria surge do lado de fora. Saio da minha sala e me aperto entre a multidão de guardas pra entender a situação.
– Saiam daqui, não cheguem perto de mim ! — Um rosto familiar. Era o brutamontes da foto. Ele estava vestido com um colete revestido de umas dezesseis granadas. Virou um homem-bomba. — Não cheguem perto de mim ! — Ele se preocupava com as pessoas em volta. Há suicidas que querem explodir pessoas. Este queria salvar. Penso e tomo uma atitude.
– Calma, meu rapaz, não se mexa. — Sei que eram palavras inúteis no momento, mas pelo menos era um início de diálogo. A delegacia parou, então precisei gritar pra chamar a atenção dos outros policiais. — Quero o esquadrão anti-bombas aqui agora ! Parem de lerdeza e se mexam ! — Eles saem da hipnose do homem-bomba e correm pra todos os cantos, fazendo vários telefonemas. Pareciam pessoas competentes, e seriam se não fossem tão desligados. Voltei minha atenção a ele. — Não se mexa, por favor !
– Qual é o seu nome ? — Ele parecia desesperado demais. Mas ele perguntar meu nome enquanto a vida dele está por um fio ( literalmente ) é algo bizarro.
– Meu nome é Troy, sou o tenente desta DP, e posso te ajudar.
– Não, você não pode, tenente ! Mas posso deixar isso aqui com você. — Suas mãos trêmulas como quem estivesse prestes a ter um ataque epilético vão até um dos bolsos, e de lá, tira um anel. Era folheado a ouro e tinha uma pedra vermelha de formato quadriculado, com o símbolo de uma coroa estampado no meio. — Eu tirei isso de um deles que foi morto ontem. Eu não queria fazer parte, eu só queria salvar a minha família. Eles matariam minha esposa e minhas duas filhas se eu não fizesse o que me mandavam, por favor, não confie em ninguém, não mostre isso a ninguém, eu imploro, por... — Ele foi interrompido pela explosão das granadas no seu colete, que resultou em pedaços de osso e carne por todos os lados, além de uma poça de sangue que cobria uma poção do que seria o resto das pernas, dos pés e de alguns órgãos que não consegui identificar. Nosso esquadrão anti-bombas chegou no momento exato da explosão. Tarde demais. O brutamonte não ia pra casa hoje. Nunca mais.
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