Notas iniciais
Para compensar minha "maldade" no último capítulo que postei da minha outra fic, eis aqui um capítulo muito do bonitinho pra vocês, nessa história deliciosa de se escrever! Obrigada à todas pelos comentários e fofuras, gosto de vocês assim u.u Capítulo narrado por Emma. Músicas do capítulo: Kiss- Forever e Chasing Cars - Snow Patrol (tema do nosso casal) Boa leitura!

"I gotta tell you what I'm feeling inside

Eu tenho que dizer o que estou sentindo por dentro

I could lie to myself, but it's true

Eu poderia mentir para mim mesmo, mas é verdade

There's no denying when I look in your eyes

Não há como negar quando olho em seus olhos

Girl, I'm outta my head over you

Garota, eu estou perdendo a cabeça por você."

Esperei Regina pelo lado de fora e em menos de cinco minutos ela voltou toda sorridente, com a aprovação de seu pai, que era um senhor muito agradável e parecia ter gostado muito de mim.

Regina estava curiosa, mas não lhe contei aonde estava levando-a.

Eu a levaria em uma festa que acontecia todos os finais de semana em um pub subterrâneo.

Meus avós paternos eram irlandeses e muitos emigrantes irlandeses se instalaram no interior do Maine, o que fez com que um grande número deles fossem morar em Storybrooke e fizessem eventos tradicionais da Irlanda.

O pub no qual eu estava levando Regina era pertencente ao senhor Francesco, um italiano muito simpático que me conhecia desde criança, porque era amigo dos meus falecidos avós.

Assim que entramos, Regina esbugalhou seus olhos. A festa já havia começado e estava animada. Haviam várias pessoas dançando e rindo animadamente. Olhei ao redor e em algumas mesas haviam rapazes jogando baralho e todos bebiam muita cerveja. A maioria das mulheres estavam de vestido e todos tinham uma aparência muito irlandesa.

— Isso é uma festa...

— Irlandesa — completei sua frase sorrindo e Regina olhou-me surpresa.

— Irlandesa? Eu não conhecia esse lugar. Quer dizer, sei que muito da cultura local de Storybrooke tem a ver com o povo irlandês, mas eu desconhecia esse pub.

— Eu imaginei mesmo que nunca tivesse vindo a uma festa irlandesa, por isso eu a trouxe. Agora eu vou te mostrar o que é diversão — pisquei para ela e nós rimos.

Levei Regina até o bar e pedimos duas cervejas naqueles canecões enormes. Começamos a beber enquanto observávamos o movimento e Regina parecia toda animada, mexendo-se sem parar como se não pudesse evitar o impulso de querer dançar ao som daquelas músicas.

— Os meus avós paternos eram irlandeses — contei.

— Sério? — olhou-me surpresa — Que diferente! Você conhece a Irlanda?

— Não, mas sou louca para conhecer. Pelo que meus avós diziam e pelas fotos deve ser um lugar maravilhoso.

Continuamos bebendo até que me levantei.

— Vem, vamos dançar.

— O quê? Dançar? — parecia nervosa com a ideia — Eu sou péssima dançando, Emma. Ainda mais esse tipo de dança...

— Deixa de bobagem! — peguei suas mãos e a puxei, fazendo com que se levantasse — É só se deixar levar pelo ritmo. Vamos!

Praticamente lhe puxei até o meio do salão onde as pessoas dançavam e nos metemos no meio delas.

Tirei minha jaqueta e joguei para Graham, meu amigo e colega de faculdade que adorava festas irlandesas e que eu havia avistado em uma mesa próxima e ele sorriu para mim, segurando-a.

Regina olhava-me atentamente afim de seguir meus passos. Comecei a dançar do meu próprio jeito, com os poucos passos que havia aprendido com meus avós, misturando-os com os meus próprios.

Meio tímida, mas sorridente, Regina começou a dançar também, tentando copiar meus movimentos. Peguei em suas mãos e a puxei para mim, fazendo nossos corpos baterem e ela olhou-me meio assustada.

— Vamos lá — segurei sua mão e coloquei a outra em suas costas, mantendo-a colada em mim e meio desajeitada Regina escorou sua mão no meu braço. — Vamos nos divertir!

Começamos a balançar rapidamente de um lado para o outro e Regina pegou meu ritmo, acompanhando meus passos sem nunca pisar no meu pé. Em dois minutos ela já havia se soltado e sorria para mim, toda animada.

Eu a soltei e encaixei meu braço no seu e giramos em sentido anti horário, sem deixar de nos encararmos ou de sorrirmos e o pessoal ao nosso redor dançava sem parar também e alguns nos observavam, notando nossa empolgação.

Ficávamos trocando de braços e girando feito doidas até começarmos a rir. Nos afastamos e cada uma começou a fazer seus passos, tentávamos imitar as outras pessoas que seguiam um modelo de dança e de repente começaram uma quadrilha.

De braços dados, nós acompanhávamos os outros casais na quadrilha.

Depois que a quadrilha terminou, voltamos a dançar e Graham se aproximou de nós, dançando com uma moça que eu desconhecia. Trocamos de par e eu deixei ele conduzindo Regina enquanto eu guiava o par dele. Àquelas alturas eu já estava bem suada.

Trocamos de novo e eu e Regina voltamos a dançar. Segurei suas mãos unindo-as com as minhas e começamos a rodar de um lado para o outro, caindo na gargalhada porque os giros nos deixavam tontas.

— Eu estou enjoada! — ela gritou, aos risos.

— Aguente firme!

Comecei a girar cada vez mais rápido e Regina fechou os olhos, gargalhando e aquela foi uma das visões mais lindas que já tive.

Quando paramos, quase caímos de tanto rodar. Precisei abraçá-la e nesse momento ficamos bem coladas. Regina ria e ofegava com seu rosto quase colado no meu pescoço, o que causou um calor intenso em meu corpo.

— Vamos descansar um pouco, estou exausta — murmurei em seu ouvido e ela assentiu.

Nos afastamos dali e procuramos uma mesa, a mesa onde Graham havia deixado meu casaco e logo ele nos alcançou com sua acompanhante, uma loira de olhos azuis que tinha um belo sorriso.

— Não sabia que viria hoje, Swan — ele disse, enquanto se sentava. — E bem acompanhada.

— Você também está bem acompanhado — comentei sorridente. — Graham, essa é Regina. Regina, esse é Graham, o meu grande e único amigo além de você.

— Acho que depois de tanto rodopiar, já nos conhecemos bem — Regina brincou, estendendo sua mão para ele e Graham a apertou, sorrindo.

— Com certeza! E a minha ilustre acompanhante é Ingrid, uma grande amiga que acabou de se mudar para Storybrooke.

— Um prazer conhecê-la, Ingrid — Regina estendeu a mão para ela também e depois foi minha vez.

— Acho que nós quatro fazemos um belo time de dançarinos, não? — todos riram do meu comentário. — Então se mudou para cá recentemente, Ingrid?

— Sim. Eu morava em Boston, mas depois do que aconteceu, eu não poderia mais permanecer por lá. Achei que fosse melhor recomeçar em um lugar pequeno.

— Boston é uma bela cidade — Regina comentou. — Mas muito grande e agitada.

— Se me permite perguntar... O que aconteceu para fazê-la se mudar? — perguntei pisando em ovos, vendo uma certa tensão no rosto da moça que aparentava ser alguns anos mais velha que eu, Regina e Graham.

— Terminei meu noivado e todos acharam que eu tivesse ficado louca, resumidamente — falou com um sorrisinho — Uma longa história para uma outra noite.

— Vamos falar de coisas boas — Graham sugeriu — Afinal, estamos em uma festa irlandesa.

— Concordo com seu amigo, Emma! Essa noite está sendo maravilhosa. Vamos nos divertir.

Pedimos mais cerveja e ficamos um bom tempo bebendo e conversando coisas aleatórias. A tal de Ingrid era psicóloga e após aquela descoberta, ela e Regina não pararam mais de discutir questões que só elas entendiam a fundo. Debateram várias correntes da psicologia, citaram autores que eu nunca havia ouvido falar, enquanto eu e Graham discutíamos coisas da faculdade e falávamos de arte.

Logo Graham e Ingrid se despediram de nós e foram embora. Várias pessoas começaram a ir embora conforme as horas iam passando, anunciando o fim próximo da festa. Quando haviam pouquíssimas pessoas no pub, paguei a conta e eu e Regina saímos. Na rua estava fazendo bastante frio, por isso lhe emprestei meu casaco.

— Mas você vai ficar sem nada... — Regina retrucou, preocupada comigo.

— Eu não sinto frio, linda — disse sorridente — Sou uma mulher bem quente — falei com malícia, mas brincando. Pisquei e Regina riu, empurrando-me levemente.

— Você é uma maluca, isso sim. Mas eu adorei a surpresa. Festa irlandesa... Muito bom! — disse toda animada enquanto andávamos pela calçada.

De repente Regina abraçou meu braço, o que me surpreendeu, fazendo-me virar um pouco o rosto e olhá-la, mas aquilo foi tão espontâneo que acho que nem mesmo ela havia percebido.

— Então você gostou da festa? — perguntei.

— Demais! As pessoas são tão calorosas e gentis! A música é muito boa, as danças. Amei tudo! Confesso que não conhecia nada da cultura irlandesa, mas agora fiquei bem interessada.

— Fico feliz de ter te mostrado algo desconhecido, é sempre bom conhecer coisas novas.

Fomos caminhando assim, com Regina agarrada em meu braço, vez ou outra apoiando a cabeça em meu ombro até chegarmos em meu carro.

— Essa noite foi muito boa, apesar das tentativas desagradáveis da minha mãe de te perturbar — falou ao chegarmos no fusca. Abri a porta para ela entrar e dei a volta.

— Não se preocupe com isso, sua mãe não conseguiu me perturbar nem um pouquinho... E à noite ainda não acabou — comuniquei, batendo a porta do carro, olhando para Regina que estava mais uma vez surpreendida.

— Não? Aonde nós vamos a uma hora dessas, Emma?

— Vou te mostrar.

Em poucos minutos dirigindo cheguei ao nosso destino: o pier em que fomos no nosso primeiro encontro.

Aquele lugar era lindo. O pier de madeira era enorme e haviam bancos virados ali, virados para a água. Como já era de madrugada e estava bastante escuro, apenas a luz da lua iluminava o lugar.

Eu e Regina nos sentamos em um dos bancos e olhamos para o céu estrelado.

— A primeira vez que viemos aqui foi para ver o pôr do sol... — comentou quase sussurrando, com um sorriso lindo nos lábios.

— Agora estamos aqui vendo a lua e as estrelas — olhei para Regina e fixei meu olhar em seu rosto até que ela olhou para mim também.

— Só falta vermos o sol nascer... — murmurou, e agora ela parecia bem tímida sob o meu olhar intenso.

— Podemos ficar aqui até ele nascer, eu não tenho pressa nenhuma de ir embora — sussurrei, aproximando-me mais de Regina, com minha mão apoiada no banco.

Ela se virou mais de frente para mim e olhava-me fixamente, nitidamente nervosa, mas eu podia ver dentro dos olhos avelãs aquela intensidade que me atraía.

— Eu também não tenho pressa nenhuma.

Sorri ao ouvir aquilo e coloquei a outra mão em seu rosto. Regina fechou os olhos e tombou sua cabeça na direção da minha mão, sorrindo. Meu coração acelerou.

"If I lay here, if I just lay here

Se eu deitasse aqui, se eu apenas deitasse aqui

Would you lie with me

Você deitaria comigo

And just forget the world

E esqueceria do mundo?"

— Você é linda — falei de repente e ela abriu os olhos, encarando-me. — E eu quero te beijar até o sol raiar.

— Beije-me então, Emma — sussurrou, entregue.

Sem pensar, beijei-na mesma hora, colando nossos lábios. Coloquei a outra mão em seu rosto e segurei em seus cabelos sedosos e curtos. Regina tocou meus braços nus e nesse momento minha língua pediu passagem em sua boca.

Devagar, nossas línguas iam se enroscando, deslizando, deleitando-se com o momento. A lua era testemunha do sentimento que crescia dentro de nós, e que talvez tivesse nascido ali, no domingo em que fomos ver o pôr do sol.

Nós nos beijávamos sem parar. As vezes de forma mais rápida e intensa, outras mais lentamente, até para recuperarmos o fôlego. Suas mãos macias tocavam meu rosto e os braços, e as vezes ela os apertava.

Em dado momento, puxei suas pernas e as coloquei sobre as minhas e meus dedos se afundaram em sua nuca, enroscando e puxando com certa força seus cabelos, o que arrancou um gemido acidental de seus lábios, gemido esse que apesar de baixo me tirou a sanidade.

Com força, puxei Regina e ela sentou de lado em meu colo, envolvendo meu pescoço enquanto eu a beijava como se fosse devorá-la, minha língua prendendo a sua com fúria, até ficarmos totalmente ofegantes.

— Emma, alguém pode nos ver aqui — sussurrou ainda de olhos fechados, apoiando as mãos em meu peito — É melhor pararmos...

— Eu não vou te despir aqui, não se preocupe — falei em tom brincalhão, lhe roubando um riso. — A empolgação é por sua culpa.

— Minha? — apoiou a mão em meu ombro e a outra levou para meu rosto, enquanto meus braços envolviam seu corpo — Mas eu não fiz nada além de te beijar.

— Seus beijos são o suficiente para roubarem a minha sanidade.

— Não quero te enlouquecer com meus beijos — brincou e nós rimos baixinho.

Regina roçou seu nariz no meu e passou seu braço direito por trás do meu pescoço, o que era mais confortável, já que ela estava em meu colo como uma noiva. Meu braço estava atrás de suas costas e a outra mão repousei em suas pernas, por cima da saia. Regina encostou seu rosto no meu e ficou acariciando meus cabelos enquanto olhávamos para o céu durante um longo tempo.

Naquele momento eu não precisava de mais nada. Estar com Regina em meus braços, em silêncio, em baixo daquele luar maravilhoso era mais que suficiente. Sentia-me completa e feliz como nunca antes em toda minha vida e eu sabia que depois daquela noite uma inspiração divina tomaria conta do meu ser. Estar com Regina era sinônimo de inspiração: ela era minha musa inspiradora.

Um tempo indubitável havia se passado e continuávamos na mesma posição. Regina estava imóvel e silenciosa, sua respiração havia assumido um ritmo contínuo, o que me fez desconfiar de algo que confirmei ao olhar para seu rosto: ela dormia.

Regina adormeceu em meus braços, sentadas em um banco no pier. O quão romântico aquilo poderia ser? O suficiente ao ponto de me roubar suspiros.

Estava prestes a amanhecer, então precisei acordá-la.

— Linda... — chamei baixinho, tocando seu rosto suavemente — É hora do sol nascer.

Devagarinho ela abriu os olhos e me olhou sorridente, encolhendo-se toda em meu colo, abraçando meu pescoço tão gostosinho...

— Bom dia, grande artista — sussurrou com a voz rouca, soltando-me o pescoço e tocando meu rosto. — Quanto tempo estamos aqui? Nossa, que vergonha! Dormi no seu colo... — sorriu toda sem graça e tentou sair do meu colo, mas eu não deixei, lhe apertando com firmeza. — Você deve estar com dor...

— Não, eu não estou com dor. Eu não sinto nada além de felicidade por estar aqui com você — afirmei e Regina olhou-me intensamente e quando nos demos conta, o sol nascia no horizonte e os primeiros raios solares nos atingiam.

Olhamos em direção ao horizonte e ficamos mais uns minutos ali até nos levantarmos. Mesmo não estando tão frio quanto estava à noite, Regina permaneceu com meu casaco e em silêncio eu dirigi até sua casa. Um silêncio confortável e gostoso, que indicava que havíamos apreciado muito, muito à noite anterior.

Quando estacionei na porta de sua casa, Regina olhou para mim meio sonolenta, mas com um sorriso radiante. Tirou meu casaco e me entregou.

— Obrigada pela noite maravilhosa. Eu amei a festa irlandesa, amei ver o céu estrelado ao seu lado e o sol nascendo. Foi tudo lindo. Obrigada, Emma.

Ela olhava-me intensamente e minha vontade era só de beijá-la para sempre.

— Eu que agradeço pela companhia incrível. Você é a melhor acompanhante para uma festa irlandesa — rimos — E uma companheira ainda melhor para observar o céu e suas dádivas. Obrigada por ter aceitado meu convite.

— Nos falamos depois?

— Com certeza.

Sorriu mais uma vez e se inclinou, selando meus lábios de forma suave antes de abrir a porta e descer, deixando-me ali com cara de boba.

[...]

Voltei para casa com uma felicidade tão grande que não cabia em mim. Encontrei minha mãe em pé às seis e meia da manhã, sentada no sofá com uma xícara de café em mãos.

— Isso são horas, Emma? Quer me matar do coração? — falou brava assim que me viu entrar. — Você poderia ao menos ter ligado ou respondido as mensagens que te enviei.

— Você me enviou mensagens? — perguntei confusa — Desculpa, mãe, mas eu nem ouvi meu celular... — eu sorria feito tonta enquanto tirava o celular do bolso e conferia suas mensagens. — Sinto muito, prometo que da próxima vez irei avisá-la! — me aproximei e beijei seu rosto demoradamente.

— Que isso? Desde quando me beija sem que eu tenha que implorar? — perguntou aos risos — Aonde você estava que tá com essa cara toda feliz? Com a Regina, né?

Sentei ao seu lado suspiro, segurando nos braços meu casaco que agora tinha o cheiro dela.

— Sim. Nós passamos à noite toda juntinhas... — ao ver a expressão de minha mãe, apressei-me em dizer: — Mas não da forma como está pensando. Ficamos no pier da cidade esperando o sol nascer.

— Que romântico, Emma! Que lindas. E como foi o jantar? Fiquei apreensiva, já que você me disse que a mãe de Regina não é lá uma pessoa muito adorável...

— Então...

Contei para mamãe exatamente tudo que havia acontecido e ela olhava-me toda empolgada, fazendo várias perguntas e se divertindo com o que eu contava. Ela só não gostou das partes em que eu mencionava Cora e suas intenções de me diminuir durante o jantar.

— Eu não acredito que minha filhinha caçula está finalmente apaixonada!

— Apaixonada? — arregalei os olhos com sua afirmação — Como assim apaixonada?

— Emma! Você é tão inteligente para algumas coisas e para outras é tão lenta... Você e Regina andam juntas para cima e para baixo o tempo inteiro, passaram à noite no pier vendo céu estrelado e esperando o sol nascer, você deu seu casaco para ela e fora que andam trocando esses beijos aí desde aquela sexta-feira.

Fiquei pensativa com suas palavras, olhando-a meio preocupada.

— Será que estou apaixonada? — perguntei bem confusa, mais para mim mesma do que para minha mãe. — Eu sempre idealizei a paixão, o amor, li tantas coisas a respeito, vi tantos filmes abordando o tema, mas... Eu nunca me apaixonei. Não faço ideia do que é estar apaixonada.

— Acho que você está começando a descobrir — falou carinhosamente, pondo a mão sobre meu ombro — Boa reflexão, meu amor. Vou ir dormir porque você me tirou o sono essa noite. Se quiser tem café quentinho na cafeteira... — beijou-me a testa antes de se levantar e subir, deixando-me ali com meus pensamentos.

Eu nem consegui refletir muito sobre suas palavras, porque pouco tempo depois foi a vez de meu pai descer e me surpreendeu saber que ele estava acordado.

— Troque de roupa porque nós iremos correr — decretou em seu tom de voz autoritário, que era sempre bem natural.

Obedeci. Sem poder dormir ou descansar, coloquei roupas largas e confortáveis, calcei um tênis e saímos para correr juntos. Fizemos um percurso que praticamente atravessou a cidade inteira e depois paramos perto da praia, ambos ofegantes e suados.

— Você pensou sobre o que eu te disse a respeito de trabalhar? — perguntou ainda ofegante quando estávamos de frente para o mar.

— Pai, por favor... — antes que eu continuasse, ele me interrompeu.

— Eu tenho notado que você está saindo com Regina. Seu pai pode não ser estudado, mas eu não sou idiota, Emma. E desde o primeiro dia ficou muito claro para mim que essa moça vem de uma família com um poder aquisitivo superior ao nosso — suas palavras prenderam minha atenção — Você foi conhecer a casa dela ontem... E então?

— É uma mansão... Eles vivem muito bem, de fato. A mãe dela é uma grande advogada, o pai é um coronel aposentado...

— Viu? — sorriu para mim — Regina está acostumada a ter do bom e do melhor. Ela pode se dar ao luxo de estudar o que bem entender sem precisar trabalhar, Emma, você não.

Soltei um suspiro e já sentia a rigidez tomar conta do meu corpo, porque sabia onde aquela conversa nos levaria: ao mesmo ponto de sempre.

— Mas a questão que estou levantando não é nem essa, minha filha. Nós somos pobres, somos, mas eu e sua mãe sempre trabalhamos muito para dar o melhor a você e seus irmãos e não deixaríamos de fazer isso agora, mesmo que eu discorde de suas escolhas. O que estou querendo te dizer é que se você quiser levar adiante isso que tem com Regina, precisará começar a trabalhar logo, ter dinheiro... Como vai poder acompanhá-la em todos os passeios que fizerem? Ainda mais ela que deve ter um gosto refinado. Vai aceitar que Regina te sustente? Que pague todas as vezes?

— É claro que não! — respondi meio irritada — Não sou aproveitadora, nem interesseira.

— Claro que não, Emma. Você é minha filha e fui eu que te ensinei esses valores. Fui eu que te ensinei que não devemos depender de ninguém, nem nos aproveitarmos. Que devemos ter orgulho próprio e conseguir nossas próprias coisas, e é por isso que eu sei que você terá problemas com Regina ao longo prazo, senão começar a ter seu próprio dinheiro em breve.

— E o que está sugerindo que eu faça, pai? Porque eu não vou abandonar minha faculdade, não vou trocar de curso ou desistir de estudar para me enfiar num trabalho qualquer. A arte é minha vida!

Vi seus olhos azuis ficarem um pouco impassíveis.

— Tudo bem, não vamos entrar na questão da sua faculdade. Não precisa abandoná-la. Mas você precisa começar a trabalhar... Arranjar um trabalho que tenha um horário flexível por causa da faculdade e dos seus passeios com Regina, por isso eu pensei: por que não vir trabalhar comigo na delegacia?

— Na delegacia? Eu não tenho nada a ver com o trabalho que você faz, pai. Sou totalmente pacífica e...

— Eu vou te pagar um bom salário e você não trabalhará muito, será um horário totalmente flexível. Quer oportunidade maior do que trabalhar com o próprio pai, o xerife da cidade há anos? Eu vou te explicar e te ensinar todo o trabalho que realizamos na delegacia, assim se caso um dia você mude de ideia... Poderá ser até a próxima xerife! — falou com evidente empolgação.

A verdade é que papai sempre quis que um de seus filhos seguissem seus passos e fosse trabalhar com a justiça, serem policiais, etc. Como não havia conseguido isso com Neal e August, agora ele tentava comigo e por mais que eu soubesse disso, o que ele falou a respeito de mim e Regina fez sentido e eu sabia que aquilo martelaria em minha cabeça por um longo tempo.

— Podemos fazer uma experiência? — perguntei meio insegura — Só para ver se eu consigo me adaptar...

— Ótimo, ótimo! — puxou-me para um abraço apertado — Eu sabia que você teria bom senso e ouviria seu pai, Emma.