Tintas e Sombras
7 Capítulo 7
Notas iniciais
(EMMA)
Em poucos dias me arrependi por ter aceitado a proposta de meu pai. Ele estava cumprindo sua parte no acordo, pois os horários eram bem flexíveis e ele me pagava um salário compatível com o tempo e o serviço que eu exercia na delegacia.
Apesar de suas tentativas, eu deixei claro que não estava disposta a aprender a atirar ou ir fazer serviços nas ruas como uma policial. Eu não tinha preparação para isso, muito menos vontade. Detestava violência e não queria me tornar policial.
O meu trabalho se consistia em ficar na delegacia e conhecer todo seu funcionamento, atender chamadas, anotar coisas, participar das discussões que meu pai fazia com seus policiais e empregados, coisas do gênero. Algo bastante light mesmo. Mesmo assim, eu não me sentia feliz naquele ambiente, ainda mais porque percebia a empolgação do meu pai e suas intenções de me fazer ficar por ali e seguir uma carreira.
De manhã eu ia para a faculdade, mas antes saía para correr com Regina. Nós estávamos cada dia mais próximas, grudadas. Corríamos antes da aula e no final do dia, depois que eu saia da delegacia. Conversávamos por telefone sempre, quando não saíamos juntas à noite. Nós adorávamos ir em lanchonetes, bares e cafeterias conversar. Saíamos sempre sozinhas e ficávamos horas a fio discutindo os mais diversos assuntos, criando um vínculo ainda mais forte e consistente.
Regina era maravilhosa e eu não podia negar que estava cada dia mais envolvida por ela e por tudo que vinha no pacote. Àquela altura já éramos melhores amigas e eu não conseguia passar um segundo sem tê-la em meus pensamentos.
Em diversas ocasiões nos nossos passeios os nossos beijos voltaram a acontecer, e eles não eram premiditados da minha parte, e eu sabia que nem da parte dela. Os beijos aconteciam simplesmente porque havia algo forte entre nós, como se fosse um híman, que fazia nossas bocas se atraírem para um encontro único, onde palavras eram desnecessárias. Esses beijos eram maravilhosos, mas me deixavam extremamente confusa, pois eu não sabia onde eles nos levariam e nem o que significavam. Nós nunca falávamos sobre eles.
Então minha vida agora era assim. Faculdade, estágio na delegacia, pintar e estar com Regina. Todo o tempo livre que eu tinha era dedicado à ela e a nossa amizade. Estávamos sempre juntas, conversando, dividindo, compartilhando. Em dois meses de amizade, eu sabia praticamente tudo sobre Regina e sua história, e ao mesmo tempo achava que não sabia quase nada, porque apesar das aparências de Regina, eu sabia que ela poderia ser e fazer muito mais do que demonstrava. Seu potencial para coisas grandiosas era enorme, eu tinha certeza disso. Ela só precisava acreditar.
(REGINA)
Era sexta-feira, havia acabado de anoitecer e eu estava chegando em casa depois de mais uma corrida sensacional ao lado da minha parceira forte e loira de olhos verdes que me deixava sem fôlego: Emma Swan.
Toda suada, com fones no ouvido ressoando Madonna e me fazendo dançar, entrei em casa na maior empolgação, sentindo-me feliz com tudo, achando o mundo o lugar mais incrível de se viver.
Tomei um susto ao ver minha mãe sentada como uma assombração, encarando-me fixamente, como se me esperasse, então tirei os fones e dei uma risadinha.
— Que susto, mamãe! — falei, desligando a música e passando a mão por minha testa suada.
— Susto? — sorriu para mim, aquele sorriso frio e implacável — Só se assustam aqueles que tem algo para esconder.
Juntei minha sobrancelhas.
— E o que eu poderia estar escondendo? Como você pode ver, eu estava correndo.
— Com Emma Swan.
— Sim, com Emma Swan, a própria — sorri para ela, batendo de frente.
— Até quando pretende continuar com isso? — olhava-me atentamente, seu rosto inexpressivo.
— Se "isso" você se refere as minhas corridas, pretendo continuar com elas para sempre, pois são maravilhosas. Fazem bem ao meu corpo, a minha mente e a minha alma, inclusive recomendo que você comece a correr também, mamãe. Te faria bem! — falei com toda ironia do Universo e fiz menção de subir às escadas, mas sua voz gelada me deteve.
— Sabe muito bem ao que me refiro, Regina — paralisei onde estava, de costas para ela. — Essa sua relação com Emma não é apropriada.
— Não é apropriada? — perguntei com indignação, virando-me de frente para Cora. — Não é apropriada para você, só se for! — elevei meu tom de voz — Pois para mim ela é muito mais do que apropriada. E assim como a corrida, pretendo continuar com essa relação para sempre, se possível. Porque Emma faz bem para minha mente e alma, aliás, até para o meu corpo se quer saber...
— Quanta petulância — ergueu uma das sobrancelhas e parecia surpresa com minha coragem em encará-la — Que modos são esses? Nem parece a Regina que criei e eduquei para ser uma dama da alta sociedade. Deve estar se sentindo muito audaciosa por estar apaixonada por essa... — eu a olhei com uma cara tão feia que Cora não teve coragem de usar nenhum adjetivo — Até quando acha que isso pode durar de verdade, Regina? Olhe para vocês! São como água e vinho!
— Por quê? Eu não acho que sejamos tão diferentes assim. Você se surpreenderia se soubesse quantas coisas temos de semelhante, mamãe.
— Mas não tem o mais importante...
— O dinheiro? — minha indignação subiu em níveis inimagináveis naquele momento. Seu silêncio confirmou minha pergunta e eu tive que rir. — Que conversa mais absurda. Quer dizer que nossa relação não pode dar certo por que somos de classes sociais diferentes? Em que mundo você vive? — berrei a última frase.
— No mundo real, Regina! — berrou de volta — No mundo onde as pessoas só conseguem ser alguém se tiverem dinheiro, do contrário elas não são nada. Venho do mundo onde as pessoas são cruéis, mentirosas. Onde os mais ricos sobrevivem. O mesmo mundo no qual você vive, mas parece ter se esquecido.
— Eu não compartilho dessa sua visão horrível de mundo, mamãe.
— Pois deveria, porque ela é real! Você pode achar que o fator econômico não afeta à relação de vocês agora, porque ainda é jovem e estão no começo. É fácil achar que essa diferença não pesa quando você mora no melhor bairro da cidade, numa mansão e tem todos os seus caprichos satisfeitos pela sua mamãe malvada, mas eu quero ver daqui alguns anos... Vamos supor que vocês se casassem...
Apesar da conversa estar sendo uma das mais horríveis de minha vida, ao ouvi-la fazer aquela suposição, meu coração se esquentou e acelerou como se tivesse sido pegado no colo e acarinhado.
— Iriam viver de quê? Acha que Emma vai te sustentar com o quê? Com o dinheiro que ela vai ganhar vendendo sua arte na praia? Ou você acha que ela será o novo Picasso e ficará milionária com arte? Pelo amor de Deus, Regina!
— A questão não é essa! — berrei, lhe calando — Você não entende mesmo, não é? Pra você tudo gira em torno do dinheiro...
Ela se calou, mas o seu olhar frio e intenso deixava-me muito perturbada. Como aquela mulher poderia ser minha mãe?
— Eu não me preocupo com isso. Se Emma ficará milionária ou não. Eu não teria problema algum em morar no subúrbio com ela, eu moraria com ela até de baixo da ponte se ela quisesse, porque como você disse... Eu estou apaixonada. Sim, mamãe. Obrigada por me fazer perceber o óbvio. Estou apaixonada por Emma Swan e eu preferia mil vezes morar em baixo da ponte ao lado dela, do que passar o resto da minha vida morando em uma mansão do lado de alguém como você...
Encerrei meu discurso com toda minha dignidade, embora carregasse lágrimas nos olhos e sem deixá-la responder, subi às escadas, deixando Cora falando sozinha e chamando por mim.
Horas mais tarde quando meu pai chegou, veio até meu quarto conversar comigo.
— Por que ela tem que ser tão terrível assim? — perguntei aos prantos, deitando a cabeça em seu colo. — Por que ela não pode entender que eu não sou como ela? Que não me importo com dinheiro?
— Ah, querida... Infelizmente sua mãe é assim, fria, manipuladora, interesseira, arrogante. O fato dela ser sua mãe não anula quem ela é, infelizmente. E você não pode fazer nada para mudá-la.
Fiquei em silêncio chorando em seu colo e papai alisava meus cabelos.
— Você e Emma estão apaixonadas, não estão? — perguntou e nesse momento levantei do seu colo, secando minhas lágrimas e o encarando meio assustada.
— Apaixonadas? O que você quer dizer com apaixonadas?
Papai riu da minha expressão, balançando a cabeça.
— Apaixonadas, Regina. Vocês estão juntas o tempo inteiro, eu não te vejo falar ou sair com mais ninguém além dela e a maneira como você fala de Emma, o jeito que os seus olhos brilham... Isso é estar apaixonada, meu amor.
— Mas você se referiu a nós duas... Eu não sei se Emma está apaixonada por mim, ela nunca disse. Eu também não disse, porque não tinha certeza. Não tenho certeza. Eu não sei... — falei toda confusa, passando as mãos pelo meu rosto. — É tudo tão novo para mim.
— É claro que é — sorriu largamente para mim — Você é muito jovem e nunca se apaixonou antes, por isso é tudo novo e parece confuso, mas você está apaixonada. Vocês duas estão, eu sei disso.
— Como pode saber? Com tanta certeza assim? — eu o olhava confusa e curiosa.
— Meu amor, eu sou um velho. Sou um homem vivido e sei reconhecer um casal apaixonado. No dia em que Emma veio jantar aqui, eu vi a troca de olhares de vocês. E eu vejo da janela sempre que ela te traz aqui, inclusive já vi vocês duas se beijando...
Minhas bochechas coraram ao ouvir aquilo, o que fez papai rir.
— Não tenha vergonha, querida. Estar apaixonada não é errado, estar apaixonada é maravilhoso e eu fico feliz que seja com Emma Swan. Ela é uma ótima menina. É honesta, bondosa, verdadeira, íntegra. Não se deixou abalar por Cora, nem se fez passar pelo que não era. Gosto muito dela.
Dei um largo sorriso ao ouvi-lo, era ótimo saber que meu pai me apoiava e gostava de Emma. Ele tinha razão. Ela era exatamente assim.
— Ah, papai. Você tem razão. Eu estou apaixonada... — admiti, sentindo um frio na barriga, pois tudo era novo e me deixava com medo. — Muito apaixonada. A Emma é tão incrível... E ela faz eu me sentir de um jeito diferente, sabe? Um jeito único. Quando estou com ela, eu me sinto como se fosse capaz de qualquer coisa. Como se nada no mundo pudesse me impedir de fazer o que quer que seja — falei toda empolgada.
— E é por isso que eu gosto da Emma — falou ele, arrancando-me risos. — Mas eu quero te dizer uma coisa, quero que preste atenção...
— Sim, pode dizer.
Nos olhamos fixamente e papai parecia sério, mas era uma seriedade leve.
— Eu quero que você se lembre que não importa o que aconteça, não importa o quanto uma situação possa parecer difícil, até mesmo impossível, se você acreditar em si mesma, Regina, se acreditar que você é capaz, então você será capaz. Você pode sim fazer qualquer coisa, se acreditar em si mesma e se aguentar. Quem aguenta, consegue.
Sorri largamente e senti as lágrimas rolarem pelo meu rosto após ouvir aquilo. Abracei papai com força pelo pescoço e ele correspondeu ao abraço, aconchegando-me em seus braços amorosos.
— Obrigada, papai. Eu nunca vou me esquecer disso.
[...]
Comentei com Emma que havia tido um desentendimento com minha mãe, mas não entrei em detalhes sobre a discussão. Não diria à ela que minha mãe insinuou que caso nós nos casassemos um dia, viveríamos da miséria que Emma provavelmente ganharia vendendo arte na praia. Além de ser extremamente ofensivo, ficaria claro para Emma que eu estava apaixonada, e eu não queria isso.
Mesmo admitindo ao meu pai meus sentimentos, tudo era muito novo e ainda era cedo. Ou eu que era uma grande covarde e tinha medo da reação dela. De qualquer forma, era preferível que eu esperasse e visse se meus sentimentos seriam ou não correspondidos antes de dar um passo adiante.
Emma não era boba e deve ter entendido tudo, mas como sempre ela se comportava da melhor maneira possível, deixando-me à vontade e em paz. Enquanto eu despejava palavras de ódio pela minha própria mãe, Emma, que era a ofendida, acalmava-me e dizia que eu deveria amá-la e respeitá-la, pois era minha mãe.
Notando meu desânimo, Emma me convidou para fazer um programa inédito no domingo. Disse que faríamos algo que eu jamais esqueceria e que me traria uma felicidade única, mas não quis entrar em detalhes sobre o que era, nem onde iríamos, o que me deixou com uma curiosidade mortal.
Domingo chegou e eu sequer sabia como me vestir.
"Emma, eu não faço ideia do que vestir. Estou no escuro aqui. Dê-me uma luz." Pedi via whatsapp meia hora antes do nosso encontro.
"Hahahaha. Vista qualquer coisa, ficará linda de todo o jeito. Mas vista algo confortável." Respondeu logo em seguida.
"Sua boba! ♥ Ok! Vou terminar de me arrumar aqui."
"Ah, e por favor, leve maquiagem na sua bolsa."
"Maquiagem? Hm... Ok, levarei. Te encontro já."
"Até breve."
Havíamos combinado de nos encontrarmos na esquina da minha rua.
Como não fazia ideia de onde iríamos, segui seu conselho e coloquei uma roupa leve e confortável. Calça jeans, tênis e camiseta. Peguei minha bolsa e coloquei várias maquiagens, pois não sabia o que Emma iria querer usar e nem qual o intuito.
No horário que combinamos, apareci, pondo a janela em seu fusca.
— Oi — sorri largamente para ela — Como você é pontual, senhora grande artista.
— Aonde nós vamos, não pode ter atrasos! — falou, mostrando-me seus dentes tortinhos.
Abri a porta e entrei no carro, cada vez mais curiosa.
— Mal posso esperar para saber onde vamos.
— Segure sua curiosidade, Doutora!
Em quinze minutos chegamos no nosso destino e eu olhei surpresa ao ver que estávamos indo no hospital do câncer de Storybrooke. Olhei para Emma confusa, pois não sabia ao certo o que faríamos ali, mas ela nada me disse, apenas me guiou para dentro do hospital e minha surpresa e curiosidade só aumentava, conforme nós caminhávamos e as pessoas, incluindo médicos e enfermeiros de lá, cumprimentavam Emma como se ela fosse uma velha amiga. Outro fator que me deixou curiosa era o fato de Emma estar carregando uma mochila pesada.
Emma me levou até um vestuário vazio, abriu a mochila e começou a se "arrumar". Guardou seus óculos, colocou uma capa vermelha do superman amarrada no pescoço, pegou minha maquiagem e começou a pintar o rosto, fazendo uma maquiagem de palhaço.
— Emma... — falei embasbacada — Nós vamos fazer o que eu acho que vamos?
Ela olhou-me com um sorriso levado depois de finalizar sua maquiagem engraçada.
— Fique parada — pediu, aproximando-se de mim com a maquiagem em mãos — Vou dar um jeitinho nesse seu rosto perfeito.
Sorrindo de forma embasbacada, me contive e deixei que Emma me maquiasse. Quando ela terminou, minha cara estava toda branca e o meu sorriso era maior que o do coringa, feito com um batom vermelho. Emma colocou um nariz de palhaço em mim e em si mesma.
— Agora estamos prontas para visitarmos os meus anjinhos.
"Do the right thing, do the right thing
Faça a coisa certa, faça a coisa certa
Do it all the time, do it all the time
Faça isso o tempo todo, faça isso o tempo todo
Make yourself right, never mind them
Se acerte, não se preocupe com eles
Don't you know you're not the only one suffering?
Você não sabe que você não é o único sofredor?"
Emma puxou-me pela mão e fomos correndo até uma enorme sala que estava lotada de camas hospitalares com seus respectivos pacientes: crianças entre quatro a doze anos, todas carecas, com câncer. E a alegria de todas elas ao nos ver entrar foi tanta que imediatamente fiquei emocionada e precisei me controlar para não chorar.
— Olha só quem chegou, criançada! A super palhaçada! E sabem quem eu trouxe comigo hoje? — Emma falava em tom alto e engraçado, como aqueles animadores de festas — A minha amiga: a palhaça leitora de mentes! — olhou para mim e piscou, e eu ri do apelido que ela havia me dado.
Emma cumprimentou todas as crianças, uma por uma, abraçando e beijando calorosamente e eu fiz o mesmo, conhecendo-as pela primeira vez. Eram todas lindas e adoráveis, olhavam para nós como se fossemos uma espécie de esperança e sorriam como se nos amassem.
Como eu não estava acostumada com aquilo, Emma foi quem conduziu tudo. Tirou de dentro de sua mochila um saco de bexigas daquelas maleáveis e eu lhe ajudei a enchê-las e me surpreendi ao ver que Emma sabia transformá-las em várias coisas diferentes: espadas, flores, cachorrinho. Emma presenteou todas as crianças com essas bexigas e depois começou a contar histórias e era impressionante como todas as crianças prestavam atenção em Emma.
Eu e ela nos sentamos em uma cama de uma garotinha que ficava no centro da sala, assim todas as crianças poderiam nos ver e ouvir claramente. Além de histórias fantásticas que sua mente criava, Emma tinha um arsenal de piadas quase que inesgotáveis e pasmem: eram engraçadíssimas!
Pegamos potinhos de bolha de sabão e ficamos brincando com elas. A criançada adorava tentar pegar as bolinhas que fazíamos, principalmente as crianças menores. E foi quando eu vi Emma Swan carregando uma menininha de três anos nos braços, fazendo bolinha de sabão para ela, que com mãozinhas delicadas estourou uma bola enorme no rosto de Emma, fazendo-a gargalhar que eu tive certeza que estava completamente apaixonada por aquele ser humano único e extraordinário que Deus havia posto em meu caminho.
Passamos umas três horas com as crianças. Mesmo doentes elas eram animadas e tinham bastante fôlego para brincar. Quando terminamos, foi doloroso nos despedirmos dela, até por que era difícil saber quem estaria vivo ou não da próxima vez que voltássemos.
Nos trocamos no vestiário e só quando estávamos em seu fusca é que fomos conversar e eu não conseguia esconder todo o meu encantamento e emoção.
"Do the right thing, do the right thing
Faça a coisa certa, faça a coisa certa
Do it all the time, do it all the time
Faça isso o tempo todo, faça isso o tempo todo
Make yourself right, never mind them
Se acerte, não se preocupe com eles
Don't you know you're not the only one suffering?
Você não sabe que você não é o único sofredor?"
— Emma, eu não podia imaginar que você fizesse algo assim — olhei para ela profundamente tocada — Agora eu entendi o que quis dizer quando falou que eu sentiria uma emoção única. Aquelas crianças são tão lindas... E sofrem tanto. O que fizemos é algo tão pequeno, insignificante, mas as deixou tão felizes. Que trabalho gratificante! Que coisa mais maravilhosa...
— Parece pequeno para nós, mas para ela o que fizemos significa tudo. Significa o mundo saber que mesmo lá onde estão, doentes em um hospital, ainda podem se divertir. Eu sabia que você iria gostar! — sorriu para mim.
— Eu amei! Eu sabia que você era uma pessoa única, diferente, mas não pensei que fosse ser assim tão especial. O trabalho que você faz é o mais humano possível, Emma e são poucas pessoas que o fazem, que sequer se importam com esse tipo de coisa. A sua generosidade e bondade me deixam... Emocionada... — admiti, com lágrimas nos olhos e notei que Emma também estava emocionada, embora se controlasse melhor do que eu.
— Que isso... — falou meio sem graça — Eu só faço o que é certo, Regina. E eu acredito que não há nada mais gratificante para ninguém do que fazer a coisa certa. É quase que uma obrigação moral para mim, algo que martela em minha cabeça: faça o que é certo. Esse é o certo. O certo é se importar com o próximo, ajudá-lo, amá-lo, respeitá-lo. E você é assim também, você fez o mesmo trabalho que eu hoje, porque você também é um ser humano incrível...
Ficamos nos encarando por um longo silêncio dentro do fusca. Nossos olhares fincados não se desviavam por nada, e eu nem queria piscar para não perder nada de suas orbes verdes brilhantes, que pareciam iluminar toda a minha vida, fazendo-me enxergar coisas inéditas, que eu jamais enxergaria sem sua luz.
Emma sugeriu que saíssemos para comer algo e então fomos até a lanchonete Granny's. Lá, fiquei ainda mais maravilhada com as histórias das crianças que Emma conhecia bem. Também fiquei impressionada com o fato de que ela lembrava o nome, a idade, o tipo de câncer e a história de vida de cada uma daquelas crianças, mostrando que realmente se importava com elas.
Depois de comermos, fomos dar uma volta em um parque. E àquela altura o clima entre nós estava carregado de tensão, a mesma tensão que sempre pairava entre nós antes de nos beijarmos.
Paramos em frente ao lago e ficamos apoiadas nas grades de ferro que nos protegia de cair no lago, até que viramos uma de frente para a outra, nos encarando e o meu coração bateu ainda mais forte do que costumava bater naquelas circunstâncias.
Emma pôs suas mãos em meu rosto e meus olhos se fecharam por um instante, quando os abri novamente sua boca vinha na direção da minha e naquele momento eu vacilei, confusa.
— Emma... — chamei baixinho, interrompendo-a. — O que nós estamos fazendo?
Ela encostou nossas testas e respirou fundo, nós compartilhávamos o mesmo ar.
Olhou para mim de pertinho por de trás das lentes e deu um pequeno sorriso.
— Aprendendo? — sugeriu.
— Aprendendo? — perguntei confusa.
— A beijar cada vez melhor? — falou em tom brincalhão, e apesar de saber que ela gostava de brincar com tudo, aquilo deixou-me extremamente chateada e ofendida, tanto que tirei suas mãos do meu rosto e dei um passo para trás, lhe causando estranhamento.
— Beijar cada vez melhor? — perguntei com um tom de indignação que não soube disfarçar. — É por isso que me beija, então? Para treinar?
Emma me olhou completamente assustada e ao tentar se aproximar, eu recuei mais passos, o que a fez parar.
— Regina... É claro que não te beijo para treinar, eu só estava brincando...
"Set me free, leave me be
Me liberte, me deixe ser
I don't want to fall another moment into your gravity
Eu não quero cair outro momento na sua gravidade
Here I am and I stand so tall
Aqui estou, e permaneço tão confiante
Just the way I'm supposed to be
Exatamente como deveria estar
But you're on to me and all over me
Mas você está em mim e por toda parte em mim."
— Você está sempre brincando, esse é o problema — falei amargurada — Nunca sei quando o que você diz é verdade ou apenas uma brincadeira.
Ela olhava-me como se não pudesse acreditar que eu estava realmente brava ou chateada com sua brincadeira.
— Me desculpa, Regina. Não sabia que se sentia assim. Se minhas brincadeiras te magoam, eu posso deixar de fazê-las, mas não vamos brigar...
— Eu não quero brigar, mas eu estou chateada e confusa. É melhor eu ir embora.
— Regina... — avançou em minha direção, mas fiz sinal com a mão.
— É melhor eu ir, Emma. Não quero estragar o lindo dia que fizemos, mas não posso ficar aqui agora. Eu preciso pensar.
Seus olhos ficaram marejados e ela parecia apreensiva.
— Nos falamos depois? — perguntou incerta.
— Sempre — dei um pequeno sorriso triste à ela antes de ir embora.
(EMMA)
Depois de domingo, Regina passou a me evitar, o que me deixou muito angustiada e triste. Inventava desculpas para não corrermos juntas e para não sairmos, o que fazia com que só nos cruzássemos na faculdade, mas mesmo assim nossas conversas duravam poucos minutos, porque ela dizia sempre que tinha que estudar e fugia de mim.
Ficamos uma semana assim e eu tinha vontade de chorar o tempo todo. Não sentia vontade de fazer nada além de chorar. Havia perdido a inspiração para pintar e a alegria de viver. A ideia de que Regina não quisesse mais ficar perto de mim era insuportável.
Tudo porque eu era uma idiota que só sabia brincar. Mas o que eu poderia fazer? Fazia parte da minha personalidade. Quando eu não sabia lidar com minhas emoções, eu brincava. Era mais fácil. Mas eu não deveria ter brincado, deveria ter tido a Regina a verdade.
Na quarta-feira da semana seguinte, quando meus pais não estavam em casa, liguei para Regina e implorei que ela viesse ao meu encontro e mesmo hesitante, ela veio.
— Obrigada por ter vindo — disse com o coração acelerado ao recepcioná-la em minha porta no final da tarde. Ela estava linda como sempre.
— Eu vim porque você insistiu muito, mas eu nem deveria. Tenho que estudar — e nesse momento percebi que o clima ruim entre nós permanecia. E isso só me incentivou ainda mais a fazer o que eu iria fazer.
— Eu preciso te mostrar uma coisa — falei e ela olhou-me com curiosidade — Eu preciso muito te mostrar, e se você quiser ir embora depois, tudo bem. Mas antes eu preciso mostrar.
Ela apenas assentiu e agora parecia preocupada com o que eu iria revelar...
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