Notas iniciais
Meus amores! Oizinho. Como vocês estão? Sorry a demora para atualizar a fic, mas para quem sabe, esses dias ando bem inspirada na minha outra fic (light carries on), e essa fic aqui me dá um trabalho muito grande para escrever, então as vezes é difícil... Enfim. Espero que gostem do capítulo. Narração feita pela Emma. Música do capítulo: The Perfect Life - Moby.

Acordei como se estivesse de ressaca. Minha cabeça latejava e todo o meu corpo estava estranho, dolorido e dormente. Provavelmente haviam me enfiado um monte de remédios na veia, o que explicava o curavo em meus braços. Abri os olhos sonolenta, mal conseguia manter as pálpebras abertas e o pouco que eu conseguia enxergar, rodava.

Estava em um quarto todo branco e praticamente vazio e imediatamente reconheci aquele ambiente. Era o hospital psiquiátrico. E constatar isso deixou-me profundamente angustiada e triste. Não era pessoal. Depois de um tempo, eu me apeguei ao lugar e as pessoas dali, mas estar deitada em uma cama do hospital significava que eu havia sido internada... De novo.

Lentamente fui recobrando a memória dos últimos incidentes antes de apagar e me dei conta de que eu estava em um motel com Regina, mas não fazia ideia de como tinha ido parar no hospital.

Ergui o braço lentamente e vi minha mão toda enfaixada. Não sentia dor, mas algo formigava em minha pele. Devia ter levado alguns pontos.

Toquei meu rosto com a outra mão e me sentia profundamente confusa. Eu me lembrava de estar com Regina e sabia que estava no hospital, mas tudo parecia confuso e desordenado em minha cabeça. Lembrei das vozes e do que elas me disseram... E em fração de segundos um zunindo começou na minha cabeça.

— Não... — implorei à Deus, com meus olhos se enchendo de lágrimas.

Eu sabia muito bem o que significava o zunido e do que ele vinha acompanhado: mais vozes.

Os sussurros... Várias vozes ao mesmo tempo, masculinas e femininas, ofensas e zombarias... Tudo ao mesmo tempo, sem intervalo, sem parar.

"Sua otária, você foi trancada!", "Vai ficar presa para sempre... Para sempre.", "Otária, otária, otária.", "Eles vão te torturar, eles vão arrancar o seu cérebro!"

Eram tantas vozes, tantas frases e ofensas que eu não conseguia detectar muitas das mensagens que eles diziam.

Meu corpo todo começou a tremer, eu sentia calafrios. Era assustador... Estar em um quarto de hospital sozinha ouvindo aquelas vozes... Sem poder contê-las, sem poder me livrar delas, mesmo sabendo que só existiam na minha mente...

— Parem, por favor! — berrei, aos prantos, pondo as mãos sobre os ouvidos, tremendo sobre a cama — Eu não quero ouvi-los! Parem!

Insanamente, eu conseguia ouvir mais uma voz em um ouvido e outra voz no outro. Uma repetição, como um disco riscado: "Estúpida, estúpida, estúpida.", "Otária, otária, otária." Uma voz era mais zombeteira, baixa, assustadora. A outra mais alta, incisiva. E no meio delas haviam ruídos ainda mais assustadores, ruídos altos, enlouquecedores.

Comecei a me debater na cama, desesperada.

— NÃO!!! SOCORRO!!! — gritei. — ME DEIXEM EM PAZ! VÃO EMBORA! VÃO EMBORA!

E então meu quarto foi invadido por homens vestidos de branco.

"Eles vão roubar seu cérebro!", "Sua otária, eles vão matá-la!", "Não seja estúpida, não deixe eles te tocarem."

Olhei assustada para os homens, que se aproximavam da cama, inclusive um deles usando luvas e carregando uma injeção em mãos.

— Não! Não! FIQUEM LONGE! — berrei para eles, encolhendo-me na cama.

— Nós precisamos medicá-la — um deles disse com uma voz calma e baixa.

— EU NÃO QUERO! Vocês vão roubar meu cérebro... Vão me matar, eu sei. Vão roubar meu cérebro, vão tirá-lo de mim, vocês não podem... Não quero, não. Vão embora. Me deixem em paz. Todos vocês.

Eles se entreolharam e eu não soube decifrar suas expressões. Vieram para cima de mim, tentando me conter, mas comecei a me debater ainda mais, acertando tapas neles. Eram três.

— SOCORRO! SOCORRO! — eu não conseguia parar de gritar. — VÃO ME MATAR!

Dr. Archie apareceu correndo no quarto e me olhou assustado.

— Emma! O que foi? — se aproximou da cama e nesse momento os enfermeiros me imobilizaram.

Eu balançava a cabeça sem parar e sentia as lágrimas rolando pelo meu rosto. Eu queria conseguir respondê-lo coerentemente, mas não conseguia pensar. As vozes eram constantes e eles todos falavam na minha cabeça muito rápido.

— Não deixa, por favor não deixa, eles vão me matar — falei desesperada, ainda tentando me debater. — Meu cérebro! Não quero ficar sem cérebro...

— Sem cérebro? — Dr. Archie olhava-me com muita preocupação. Acariciou meus cabelos devagar, distraindo-me enquanto um homem disfarçado de enfermeiro furava eu braço. — Ninguém vai tirar seu cérebro, Emma. Nós aqui somos todos seus amigos.

— MENTIRA! — berrei ao perceber que ele estava unido com os falsos enfermeiros. — Você é um mentiroso! Você está me enganando! Se uniu com eles pra me matar! Maldito! MALDITO!

Dr. Archie me olhava com pesar e mesmo que eu quisesse, não tinha forças para atacá-lo. Meu corpo todo ficou ainda mais mole do que estava antes e em questão de segundos eu estava apagada, novamente.

[...]

Acordei novamente, muito mais tonta e lenta do que da outra vez. Eu não fazia ideia de que horas eram, de quanto tempo havia passado. Só sabia que estava tão tonta e molenga que se tentasse ficar em pé, cairia no chão.

Nem um minuto passou e a porta se abriu, dando-me alívio. Vi Regina entrar e ao olhá-la, meu coração se encheu de esperanças e alegria, batendo acelerado, tão acelerado que doía meu peito.

Ela me deu um pequeno sorriso e com um olhar de amor e pesar, ela se aproximou lentamente, sentando na beirada da cama, tocando meu rosto suavemente.

— Acordou, pequena princesa — disse baixinho, alisando minha bochecha — Como você está? Como se sente? — apesar da preocupação, seu tom de voz era bem ameno.

— Me sinto... Tonta... Minha cabeça... — ergui a mão, apontando com o indicador para minha cabeça — Não sei... Tô confusa...

— É normal, meu amor — pegou minha mão que não estava machucada e a levou até seus lábios, depositando um beijo terno — Os remédios que você está tomando são fortes, te apagaram, por isso ainda está confusa e tonta.

— Quantas horas eu dormi? — perguntei ainda confusa, encarando seus olhos.

— Você dormiu dois dias seguidos, Emma e está aqui desde sábado. Hoje é quarta — murmurou. — Como a sua última crise foi muito ruim, Dr. Archie achou melhor aumentar a medicação e te deixar descansar.

Balancei levemente a cabeça, assentindo, sentindo o calor de suas mãos na minha.

— Ele mudou minha medicação — deduzi — O último surto foi... — prendi a respiração por um instante ao lembrar e Regina apertou minha mão com força. — Terrível.

— Foi... Eu fiquei tão preocupada com você... — confessou, e seus olhos brilharam com lágrimas — Tão preocupada. Você deu um soco no espelho, machucou a mão. Eu não consegui impedi-la — parecia culpada.

— Regina... — mexi-me na cama, me ajeitando um pouco. — Você não tem culpa. Como poderia me deter? Eu estava em um surto psicótico e ainda por cima... Eu te empurrei... Me lembro disso... — falei com tristeza, abaixando a cabeça. — O meu maior medo sempre foi de te machucar...

— Você não me machucou, Emma.

— Eu te empurrei, você caiu.

Regina ergueu meu rosto pelo queixo.

— Olhe para mim — pediu, manhosa e eu obedeci. — Você não tem culpa.

— O fato de estar em um surto psicótico e não responder pelos meus atos não me faz me sentir menos culpada por isso — falei com tristeza. — Eu não posso, eu não quero te ferir. E você corre esse risco ficando perto de mim quando eu surto.

— E o que queria que eu fizesse? Que fosse embora quando percebi que você não estava mais ali comigo? — elevou um pouco o tom de voz, séria. — Eu não iria te deixar. Eu não vou te deixar.

— Deveria... Será que vale a pena mesmo correr todo esse risco? — olhei para ela com um nó na garganta.

— O que está querendo dizer, Emma? Está questionando nossa relação, de novo? — Regina olhava-me intensamente, com grande tristeza. — Eu já te disse que nada vai me fazer sair do seu lado.

— Mas Regina...

— Eu te amo. Você não entende? Não entende que isso é maior do que eu mesma? Que vai além? Não é algo que eu possa controlar. Não posso decidir deixar de te amar só porque você tem medo de me ferir. Não posso simplesmente te tirar do meu coração só porque você tem essa doença, Emma. Eu amo você, amo demais. Como nunca amei nada e nem ninguém. Como não sabia que poderia ser capaz de amar um dia. Simplesmente amo você e isso é maior do que tudo. O tudo é você, Emma. Você que dá sentido a minha vida, à Psicologia, aos meus sonhos. Tudo está atrelado a você, Emma. Não me peça para fazer algo impossível. Não me peça para me suicidar, porque tentar tirar você de mim seria suicídio.

Sua declaração me fez chorar como uma criança, totalmente emocionada.

— Eu também te amo assim, da mesma forma, mas essa doença...

— É só uma doença, Emma. Ela é exatamente isso: uma doença. Nada mais que isso. Ela não é maior que o nosso amor.

— Mas ela dificulta tanto as coisas... Vai dificultar... Imagine nossa vida no futuro... — tentei argumentar, chorando e ela também chorava, mas voltou a agarrar minha mão.

— Emma, a vida é ínfima. A vida é um grãozinho no meio do Universo. Ela não dura quase nada. Passa voando. É efêmera. Ninguém é eterno. Todos nós vamos morrer e uma vida inteira passa em um piscar de olhos. Por que desperdiçar a vida? Com medos, inseguranças? Com ou sem doença, todos nós vamos morrer, Emma. Eu vou, você vai. É inevitável. A vida é passageira, e é isso que a torna valiosa. Não podemos desperdiçá-la. Temos que fazê-la valer a pena. Eu amo você e quero viver ao seu lado, mesmo que isso signifique lutar todos os dias contra a esquizofrenia. Mesmo que isso signifique ter que suportar surtos psicóticos e mudanças de humor suas. Eu sei que você tem medo, que quer me preservar. Todos querem. É como se vissem em mim uma jovem frágil, inexperiente, que não será capaz de aguentar. Mas eu posso, Emma. Eu posso aguentar. Eu sei que posso. Porque eu te amo e você me ama. Nós vamos superar essa doença.

Eu não conseguia parar de chorar. Quando eu soube que tinha esquizofrenia, quis morrer. Odiei a Deus com todas as minhas forças. Odiei a vida, odiei o destino, tentei encontrar culpados para aquilo, mas tudo não passava de uma infeliz coincidência, um acaso no Universo. Quando minha raiva passou, me dei conta de que eu era uma sortuda. Porque eu, uma simples humana como outro qualquer, apesar de ter uma doença terrível, havia ganhado o maior presente: o amor.

Regina estava sendo para mim um verdadeiro anjo. O que ela fazia por mim, eu tinha certeza que nenhuma outra pessoa faria. Ela estava lá, sempre ao meu lado, ela era minha força, minha fé, minha esperança, meu conforto, meu apoio, meu tudo. Regina sofria junto comigo, lutava ao meu lado, como se minha doença fosse dela também e isso me tocava tão profundamente...

Nós nos abraçamos. Um abraço forte, apertado, que durou um tempo infinito. Em seus braços, repousando meu rosto em seu ombro, aspirando seu perfume, eu me sentia em paz. E paz, para uma pessoa atormentada feito eu, era a coisa mais importante e mais difícil de se alcançar. Com ela, eu alcançava.

O efeito da forte medicação que me aplicaram fez com que a crise que eu havia tido se cessasse. Não ouvi mais nenhuma voz, não alucinei nem por um instante, graças a Deus, mas Dr. Archie quis que eu ficasse mais uns dias dormindo no hospital só para ter certeza que nada aconteceria.

Recuperada da última crise, fui liberada a voltar para casa e sempre ficava impressionada com os paparicos dos meus pais, que agora me tratavam como se eu fosse uma criança que deveria ser protegida. Mas eu não reclamava. Era melhor ser paparica e viver num ambiente harmonioso do que viver sob a pressão que eu vivia anteriormente.

Neal se instalou lá em casa e eu voltei a ter os meus dois irmãos perto de mim, o que me fazia bem. Apesar das diferenças, sempre nos demos muito bem. Lembro muito das nossas brincadeiras quando mais jovens, eu parecia mais moleque do que ambos juntos.

Por causa da doença, eu e minha família nos aproximamos profundamente, mudando totalmente a relação que tínhamos antes. Agora eu não me sentia mais um peixe fora d'água. Eu era diferente, mas todas as pessoas eram diferentes uma das outras. E independente dessas diferenças, eu era aceita e amada pela minha família.

O tempo foi passando depressa e logo eu e Regina completávamos dois anos de namorado. Dois anos de uma relação intensa, cheia de altos e baixos. E apesar de todos os obstáculos, nós nunca nos separamos. Nunca. Sempre estivemos uma do lado da outra, nos apoiando e nos amando incondicionalmente.

Regina também precisava do meu apoio, embora pudesse não parecer. As vezes ela ficava sobrecarregada de tanto estudar, do estágio, de tudo. Não era fácil o seu trabalho no hospital e a faculdade ficava cada vez mais difícil. Ela estava prestes a se formar e tinha de apresentar seu tcc, a parte mais trabalhosa. E adivinhem sobre o que ela resolveu escrever? Exatamente. Esquizofrenia.

Só uma coisa andava me incomodando nos últimos tempos. Um novo funcionário do hospital: Robin Hood. Ele era psicólogo, tinha o dobro da minha idade e ele ficava em cima de Regina, rodeando-a e eu sabia muito bem o que ele queria.

— Eu não vejo essa malícia que você vê, Emma — Regina dizia. — Eu e Robin somos só amigos e colegas de trabalho.

— Você não repara na maneira como ele olha para você? — perguntei um pouco irritada. — Eu não sou cega, Regina. Para mim as intenções dele com você são bem claras.

— Eu nunca reparei, de verdade — olhava-me com sinceridade. — Mas mesmo que exista segundas intenções como você diz, eu não ligo. Eu não ligo pra ninguém. Só tenho olhos para você, meu amor... — puxou-me pelas mãos e me abraçou pela cintura. — Você é o meu amor. Só você.

— Só eu? Mesmo? — fiz beicinho, louca para ser agradada por ela.

— Mesmo, minha coisa linda! — beijou meu beicinho e me apertou com força em seus braços. — Eu te amo, Emma. Sabe o que eu andei pensando?

— O quê?

— Nosso aniversário de dois anos está se aproximando...

— Sim!

— Pensei que nós poderíamos fazer uma viagem.

— Uma viagem? — abri um sorriso.

— A mesma viagem que fizemos no começo do nosso namoro.

— Você diz nossa fuga para à praia Encantada? — meus olhos brilharam e ela confirmou com a cabeça.

— Aquele lugar é lindo e simboliza tantas coisas para nós. Vivemos momentos únicos naquela praia.

— Foi quando tivemos nossa primeira vez... Quando você disse que me amava...

— Sim. Por isso eu gostaria de passar um novo final de semana com você naquele lugar. Que me diz?

Abracei seu pescoço e fiz cara de pensativa, até que abri um sorriso enorme.

— Claro! Vamos! Eu e você em uma praia deserta por um final de semana? Não tem nada melhor!

[...]

"Oh

Oh

We close our eyes

Nós fechamos nossos olhos

The perfect life, life

A vida perfeita, vida

Is all we need

É tudo que precisamos."

Dessa vez viajamos com o carro de Regina, que era maior e mais confortável. Ela abriu o teto do mesmo e como uma doida cheia de alegria, me pus em pé, apoiando as mãos no para brisa.

— Que você está fazendo, Emma? — questionou, olhando-me com preocupação enquanto dirigia pela estrada..

— Estou vivendo cada instante como se fosse o último! — garanti, lhe dando um sorriso aberto que Regina retribuiu.

— Viva cada instante como se fosse o último sem se arriscar, sua louca.

Notei que ela diminuiu a velocidade do carro, mas eu permaneci em pé e em dado momento apoiei meu traseiro na parte superior do banco para poder abrir meus braços e sentir o vento gostoso que vinha ao meu encontro, bagunçando meus cabelos.

Dessa vez estávamos levando um kit e tanto de acampamento, porque ao contrário de nossa primeira viagem, agora não tínhamos que esconder nada de ninguém e nem viajarmos fugidas.

Regina fez questão que eu levasse meu cavalete e algumas telas em branco para pintar. Ela achava que aquela praia era inspiradora, e eu tinha de concordar com ela.

Assim que chegamos, meu coração batia fortemente, quase chegando na garganta. Foi só ver aquele mar imenso que senti um frio na barriga e uma nostalgia deliciosa.

Paramos o carro e largamos tudo para trás. Saímos correndo descalças pela areia fofa e logo agarrei sua mão e começamos a girar feito bobas em sentido anti horário. Rodamos tanto que ficamos tonta e caímos no chão. Regina caiu sobre mim e nós gargalhamos

— Quanto tempo acha que irá durar? — perguntei, e eu não estava me referindo a viagem.

— Por que você sempre me pergunta isso? — ergueu o rosto para me encarar.

— Porque as coisas são finitas, temporais...

— O meu amor por você vai durar enquanto eu viver.

— Isso é mais que suficiente para mim.