Notas iniciais
Olá, meninas! Bom dia! Tudo bem com vocês? Como estou muito boazinha e feliz por esses dias, vou postar um capítulo bonitinho (?) pra vocês. Aproveitem e muito obrigada pelo carinho e atenção! Amo vocês! Capítulo narrado por Emma Música do capítulo: Demons - Sam Tsui & Max

Os remédios, os antipsicóticos que eu tomava para prevenir o avanço da minha doença incurável, causavam-me efeitos colaterais ruins. Eu me sentia bem mais cansada do que quando não tomava medicação, ficava sonolenta, as vezes sentia fraqueza e contrações musculares e tremores, mas eu poderia me adaptar... Melhor do que passar o resto da vida delirando.

Acordei bem sonolenta, como se não dormisse há dias e minha vontade era de continuar dormindo. Abri os olhos e eu estava no quarto de Regina, havia dormido em sua cama pela primeira vez.

Sentei-me e apoiei as mãos no colchão, eu queria me levantar e ir atrás dela, porque Regina não estava ao meu lado, mas não consegui. Travei ao ouvir a voz de sua irmã. Não estávamos mais sozinhas em casa... Sua irmã estava lá, e eu não sabia como ela reagiria ao me ver ali. Eu, a namorada esquizofrênica de sua irmã.

Depois de alguns minutos Regina entrou no quarto carregando uma bandeja cheia de alimentos e veio até a cama com um sorriso radiante.

— Já acordou, pequena princesa? — colocou a bandeja perto de mim e eu não me movia, olhando para ela fixamente. — Algum problema, Emma? — tocou meu rosto delicadamente.

— Sua irmã... — falei baixinho, com medo. — Eu ouvi a voz dela...

— Ela chegou agora pouco da rua, como eu te disse ontem, ela estava farreando na casa de alguma garota — explicou, mas eu continuava com medo, meu corpo todo rígido. — Amor, não se preocupe. Ela sabe que você está aqui.

— E como ela reagiu?

— Como ela poderia reagir? Normal, ué. Zelena não é do tipo conservadora, né. Ela não se importa se você dormir aqui.

— Não é disso que estou falando, Regina — disse meio rígida, enquanto ela passava geleia em uma torrada. — Ela sabe... Da minha doença...

Regina deixou a faca em cima do pratinho e segurou a torrada quase pingando de geleia e olhou para mim, séria, o que me fez pensar que suas palavras sairiam rígidas, mas elas saíram bem suaves.

— Zelena sabe da sua condição e não se importa com isso. Ela entende que nós nos amamos e que queremos ficar juntas. O resto é história.

— Mesmo? — Regina sorriu nesse momento, seu sorriso mais amável.

— Abre a boca — pediu e eu obedeci, então ela me fez morder a torrada — Você é muito mau humorada antes de tomar café da manhã — brincou — Relaxa, Emma. Você não precisa se preocupar com Zelena ou meu pai. Eles adoram você.

— Mas a sua mãe... — falei de boca cheia, mastigando a torrada.

— Minha mãe que se dane — disse meio rebelde, dando de ombros. — Não precisamos dela para nada. Não precisamos de ninguém, ok? Nós podemos fazer isso.

— Espero que tenha razão, espero mesmo.

— Eu sempre tenho razão — brincou, sempre descontraindo o clima.

Depois do café da manhã na cama, tive que descer com Regina e socializar com sua irmã. Eu estava muito desconfortável, porque agora além de ser a pintora estranha e rejeitada da faculdade, eu era uma louca. Uma esquizofrênica e isso mudava o olhar das pessoas, obviamente. Mas Zelena me tratou da melhor forma possível, deixando-me mais relaxada, mas ainda assim eu não estava à vontade.

Sair do hospital e voltar ao mundo real era estranho. Mesmo antes de tudo aquilo acontecer, eu não me sentia à vontade no mundo, como se não houvesse lugar para mim. Poucas festas, como aquelas irlandesas, me agradavam. Eu quase não participava de eventos sociais e só tinha um único amigo além do meu irmão, o que não era muito convencional para minha idade. Talvez esses comportamentos estranhos fossem outros sintomas da minha doença...

Não sei. Eu realmente não sei muita coisa. Tudo que sei da esquizofrenia é o pouco que o Dr. Archie e os terapeutas vem me explicando ao longo dos meses. Regina também me explica algumas coisas as vezes, mas é difícil conversar sobre isso. Me sinto muito pouco a vontade e me entristeço com facilidade ao ter que enfrentar a realidade.

Alguns dias passaram e eu ainda não havia voltado à faculdade. Tinha medo de voltar. As pessoas sabiam da minha doença e se antes me tratavam como uma estranha, que dirá agora... Mas todos insistiam que eu deveria voltar... Ironicamente até o meu pai.

— Emma, eu sinto muito por tudo que fiz — disse-me com os olhos cheios de lágrimas certa tarde, quando estávamos em casa sozinhos. — Eu tenho sido um pai horrível para você, e eu sequer me dava conta disso até... Até... Eu não tinha o direito de jogar em cima de você todos os meus desejos e querer obrigá-la a satisfazê-los. Não podia ter te pressionado daquela forma. Se soubesse como eu me arrependo... Se eu pudesse voltar no tempo... — meu pai, o xerife Swan conhecido e temido por toda cidade chorava de soluçar, ajoelhado na minha frente.

— Pai... — coloquei a mão sobre seus cabelos grisalhos — Está tudo bem... Já passou. Não adianta ficar sofrendo pelo que já passou. Você não tem culpa — disse, como se o absolvesse de um terrível pecado e nesse momento ele ergueu os olhos azuis.

— Mas eu me sinto culpado. Sempre me sentirei. O que eu fiz a você foi terrível. Terrível, Emma. Você pode me perdoar por isso?

Deslizei os dedos até a lateral do seu rosto e usei o polegar para enxugar algumas de suas lágrimas. Eu não conseguia sorrir ou ter uma expressão de tristeza. Ultimamente eu andava muito apática, mas Dr. Archie dizia que isso era um dos sintomas da esquizofrenia. Um sintoma chamado de negativo.

— Está perdoado — disse, simplesmente, como se aquilo não fosse nada e mais então ele afundou o rosto em meu colo, totalmente angustiado.

Dessa vez eu não o toquei. Apoiei as mãos no sofá e fiquei encarando um dos meus quadros pendurados na parede, próximo à escada. Não sei quando tempo ficamos ali, mas eu podia sentir suas lágrimas molharem minha calça e de certa forma parecia aliviador para David chorar em meu colo, então eu não o interrompi até que ele se sentisse bem o suficiente para parar de fazê-lo.

Era estranho, mas as vezes, por mais que eu sentisse algo, não conseguia expressar isso. Como se tivesse perdido habilidades faciais. Só com Regina que a coisa melhorava, porque ela me fazia sorrir o tempo inteiro, me dava uma sensação de proteção diferente do que as outras pessoas.

Também não sentia vontade de sair, a menos que fosse para ir até o hospital fazer as atividades solicitadas. Eu gostava de conversar com Dr. Archie, a terapia em grupo também era bacana. Quando eu ia no hospital podia visitar Jefferson e meus outros amigos malucos, mas fora de lá eu não tinha nenhuma vontade de me relacionar, se eu pudesse ficaria na cama, em baixo das cobertas o tempo inteiro, mas Regina não deixava.

— Vamos para a faculdade, Emma — Regina dizia, enquanto praticamente me arrastava até seu carro. — De hoje você não escapa. Já passou da hora. Dr. Archie te deu uma semana de prazo e você já extrapolou... O que havíamos combinado?

— Eu sei, eu sei — resmunguei, entrando no carro, sentando-me e pondo o cinto. — É que é difícil. Eu não sinto vontade de sair, você sabe.

— Mas você precisa. Precisa sair, ver gente, viver. E retomar tudo aquilo que fazia antes que te dava prazer. Você anda sem pintar ultimamente...

— Não me sinto muito inspirada, eu nem sei se vale mais a pena — falei e Regina olhou-me chocada, como se eu tivesse dito algo inadmissível.

— Não vale mais a pena? Que conversa é essa? — virou-se para mim, deixando o carro de lado, ignorando o fato de estarmos atrasadas. — Emma, você sempre amou pintar. Sempre disse que a arte era tudo na sua vida.

— Isso foi antes... — resmunguei, fitando o nada fixamente. — Isso foi quando eu pensei que talvez pudesse ter um futuro no mundo da arte, que um dia, talvez, eu pudesse ser reconhecida pelo meu trabalho...

— Mas você pode! Você pode, Emma. Olhe o seu talento! Olhe os seus quadros, seus desenhos! Você é uma artista!

— Uma artista louca! — explodi, berrando e ela olhou-me assustada. — Uma artista esquizofrênica, que ouve vozes, que não sabe distinguir o que é real do que não é. Quem compraria quadros de uma louca?

— Emma... — disse entredentes, estava irritada mas ao mesmo tempo magoada — Sabe que eu detesto quando começa com esse discurso. Quantas vezes vamos retomar esse assunto?

— A culpa é sua que ignora o fato mais importante: eu sou esquizofrênica.

— E daí? — foi sua vez de berrar e eu me calei. — E daí? Sabe quantas pessoas no mundo sofrem das mais diversas doenças? Mentais ou não? E nem por isso elas deixam de viver! Você tem sorte, porque a sua esquizofrenia é a mais amenua de todas, ela te possibilita viver normalmente! Van Gogh se matou, Emma. Porque ele sofria de uma doença mental que na época ninguém compreendia, mas atualmente chegou-se no consenso de que Van Gogh tinha transtorno de personalidade bipolar, sabia disso? E mesmo assim ele foi um grande pintor! Ele é reconhecido no mundo inteiro!

Meu queixo começou a tremer muito, assim como minhas mãos e eu não consegui controlar as lágrimas que começaram a descer pelo meu rosto. De repente lá estava eu, uma criança assustada aos prantos, sem saber se controlar.

Regina me abraçou e me consolou como ela sempre fazia, como só ela fazia.

— Eu te amo, mas não posso fazer a sua parte. Por favor, faça a sua parte — implorou, com voz de choro e nesse momento foi que eu decidi que lutaria com todas as minhas forças, lutaria com todas as minhas forças para ter a vida mais normal e saudável possível, por Regina.

— Acho que nós estamos atrasadas para a aula — falei com um sorrisinho após nos soltarmos e ela me olhou surpresa enquanto eu secava minhas lágrimas. — Vamos logo com isso.

Sorriu para mim, dando um aceno de cabeça como concordância ao que eu falava. Ligou o carro e me levou para a faculdade. Nos despedimos com um beijo nos lábios e seguimos para prédios diferentes.

Com todos os meus músculos rígidos, dominada por uma tensão e uma ansiedade horríveis, pisei na sala de aula e fui ovacionada pelos meus colegas e pelo meu professor, todos me recebendo da forma mais calorosa possível, surpreendendo-me positivamente, fazendo-me chorar de emoção.

— Sentimos muito sua falta — Graham disse no meu ouvido quando me abraçou. — Você é a alma da nossa turma!

E aquela experiência foi mais um gás para que eu começasse a mexer a bunda e lutasse contra os sintomas da minha doença. Mesmo que eu sentisse vontade de ficar jogada na cama sem tomar banho ou ver o sol lá fora, eu me forçava todos os dias a levantar da cama, tomar banho, correr ao lado de Regina, ir a faculdade, à terapia, a tudo que me propus a fazer. E logo consegui voltar a pintar...

Peguei os quadros que eu já tinha pronto de Regina e levei-os para o meu quarto, que parecia ter se transformado num santuário. Seu rosto ficou exposto em todas as paredes possíveis, e além dos quadros, peguei fotos nossas que Regina havia revelado do celular e as coloquei no meu mural, substituindo meus pôsteres.

Quando mostrei meu quarto "novo" à ela, Regina mostrou-me todos os seus dentes perfeitos e seus grandes olhos escuros estavam cheios de lágrima.

— Eu te amo! — falou quase histérica, pulando em meu pescoço e me cobrindo de beijos.

Aos poucos eu sentia que as coisas estavam melhorando. Fui me adaptando, inclusive à nova medicação, porque esta também precisava ser adaptada na dosagem certa, de acordo com cada paciente. Eu sentia que estava progredindo na terapia, que conseguia aceitar melhor minha doença e apesar da resistência dos sintomas negativos, como a falta de interesse social e a apatia tentarem me abater, os sintomas positivos, que envolviam a alucinações haviam desaparecido. E eu dava graças a Deus por isso.

Em uma quarta-feira, quando meu pai estava trabalhando e com muita insistência minha mamãe aceitou ir ao mercado sem mim, deixando-me sozinha, eu aproveitei para pintar ao ar livre, em nosso jardim, o que era bem inspirador para mim. Mas logo fui interrompida por uma presença obscura, que era como uma nuvem negra que chegava de repente no céu, tapando o sol e impedindo a luz de entrar.

Cora Mills estava no jardim da minha casa, com toda sua arrogância e ar de superioridade. Olhou-me nos olhos como se me metralhasse e eu nem precisei perguntar o que ela estava fazendo ali. Nós duas sabíamos.

— Eu quero que você fique longe da minha filha — ordenou, como se eu fosse uma de suas empregadas. — Não quero mais você pisando na minha casa sem o meu consentimento, não quero mais você rondando minha filha. Quero que fique longe dela!

— Eu não me importo com o que você quer — falei simplesmente, tentando me manter calma, mas minhas mãos começaram a tremer e precisei largar o pincel e a palheta no chão. — Parece que a senhora não consegue entender que nós...

— Quem não consegue entender as coisas aqui é você! Minha filha é uma jovem normal, saudável, inteligente, rica, linda e brilhante. E eu não vou deixar que seu futuro seja arruinado por causa de uma paixão juvenil. Se antes eu já era contra esse relacionamento por causa da diferença de classe social, agora, então...

Minhas mãos e pernas tremiam, minha pressão estava baixando consideravelmente, eu podia sentir. Meu corpo todo fraco e ao mesmo tempo rígido, impedindo-me de me mover, me impedindo de sair correndo na direção contrária aquele monstro. Meus olhos se encheram de lágrimas.

— A senhora não pode vir até aqui me dizer essas coisas. E também não pode decidir pela Regina.

— Estou agindo como qualquer mãe no meu lugar agiria, ou você acha que a sua faria diferente? — sorriu ironicamente — Acha mesmo que se fosse o contrário, se Regina fosse... Louca, sua mãe iria adorar isso?

— Vá embora daqui, por favor — pedi, tentando me manter calma, mas o nervosismo que corria em minhas veias já estava além do que eu poderia suportar. — Me deixe em paz.

— Não antes de você me dizer que vai deixar minha filha em paz. Eu não quero ter que recorrer a medidas drásticas.

— ME DEIXA EM PAZ! — berrei, explodindo. — VOCÊ É SURDA? VÁ EMBORA! ME DEIXE EM PAZ! — Cora recuou vários passos, assustada. Chutei meu cavalete, derrubando-o junto com a tela que eu pintava. — ME DEIXA EM PAZ, ME DEIXA EM PAZ! — eu gritava descontroladamente aos prantos e Cora deu meia volta e fugiu, correndo.

Peguei a tela que havia caído no chão e comecei a batê-la contra a árvore, rasgando-a. Joguei-a longe novamente e comecei a andar de um lado para o outro sem parar, pondo as mãos sobre a cabeça, totalmente descontrolada, com uma descarga de adrenalina muito forte em meu corpo e então de repente o pesadelo recomeçou...

As vozes. Comecei a ouvir várias vozes, e elas eram tão reais que mesmo sabendo que eu tinha uma doença, não poderia desconsiderá-las. Não poderia acreditar que elas eram apenas fruto da minha imaginação. Elas eram reais! Reais pra caralho!

Comecei a ser xingada e debochada por várias vozes ao mesmo tempo, e o som da gargalhada deles era tão alto que cai de joelhos no jardim, cobrindo os ouvidos com minhas mãos.

— CALEM A BOCA! — berrei, dando tapas na cabeça, mas eles não paravam.

"Otária", "Louca", "Fracassada", eram os xingamentos mais frequentes. As vozes eram todas masculinas, mas as gargalhadas femininas.

Levantei-me depressa e sai correndo pelas ruas, com a sensação de estar sendo perseguida por aqueles malditos que me xingavam. Eu andava rapidamente, quase correndo, olhando para trás o tempo todo, mas eles eram mais rápidos que eu, se escondiam depressa e não paravam de me atormentar com suas ofensas vis.

Completamente assustada e suada, fui caminhando até a casa de Regina, ignorando totalmente as ameaças de sua mãe, e ao chegar na porta da sua casa, comecei a berrar seu nome até que ela apareceu, correndo.

— Emma! — olhou-me assustada e nem precisou olhar duas vezes para entender o que estava acontecendo.

Correu até mim e agarrou minhas mãos, que tremiam sem parar.

— Eles estão me seguindo, eles vieram até aqui, querem me pegar, querem, querem. Vão roubar os meus pensamentos — olhei para os lados, preocupada que pudessem nos ouvir, eu falava baixo, mas rápido. — Precisamos nos esconder, precisamos nos esconder, Regina! — apertei suas mãos com força.

— Emma, Emma, calma!

"When you feel my heat

Quando você sentir o meu calor

Look into my eyes

Olhe nos meu olhos

It's where my demons hide

É onde meus demônios se escondem

It's where my demons hide

É onde meus demônios se escondem

Don't get too close

Não se aproxime muito

It's dark inside

É escuro aqui dentro

It's where my demons hide

É onde meus demônios se escondem

It's where my demons hide

É onde meus demônios se escondem."

Regina poderia ter dito que tudo não passava de fruto da minha imaginação, que aquilo era um surto da minha doença, ela poderia ter ligado para alguém e pedido que simplesmente me dessem uma dose de remédio na veia e me apagassem, ela poderia ter ficado com medo de mim, mas ao invés disso, ela olhou dentro dos meus olhos.

— Olhe para mim — pediu, tocando meu rosto carinhosamente — Olhe para mim, ninguém vai nos pegar porque eu tenho um esconderijo perfeito — falou, dando-me um sorrisinho tranquilizador que instantaneamente fez com que eu me acalmasse.

— Tem? — perguntei esperançosa — Vamos, vamos, rápido!

Ela assentiu e segurou em minha mão, puxando-me para os fundos da sua casa e vi pela primeira vez uma grande casa na árvore, a qual eu não sabia que existia ali.

Subimos às escadas e nos enfiamos dentro da casinha. Regina me colocou no seu colo e me envolveu em um cobertor que havia lá dentro. A casa não era nem tão grande e nem tão pequena, mas incrivelmente perfeita para nós duas. E lá dentro me senti protegida, mas ainda podia ouvir as vozes...

— Elas não param — falei, chorando em seu colo — Elas não param, as vozes...

— Ignore elas — disse, acariciando meus cabelos — Preste atenção na minha voz, ok? — olhei para cima e vi seus olhos cheios de segurança.

— Ok.

"Your eyes, they shine so bright

Seus olhos, eles brilham tanto

I want to save their light

Quero guardar a luz deles

I can't escape this now

Não posso fugir agora

Unless you show me how

A menos que você me mostre como."

Surpreendentemente, Regina começou a cantar para mim. Ela acarinhava meus cabelos, olhava-me profundamente e cantava. Cantava com uma voz suave, mas alta e afinada o suficiente para me encantar e atrair meus sentidos e dentro da minha cabeça acontecia uma luta, eu queria ouvi-la cantar, mas também ouvia as vozes.

Me forcei ao máximo para prestar atenção somente na voz de Regina e logo reconheci a música, ela cantava Yellow do Coldplay.

— Olhe para as estrelas, veja como elas brilham para você e para tudo que você faz. Sim, e elas eram todas amarelas... — cantava, e notei que haviam lágrimas em seus olhos, mas Regina não parava de cantar e de alisar meu cabelo como se eu fosse um cãozinho. — Você sabe que eu te amo tanto... Eu nadei, e superei as barreiras por você...

Não faço ideia de quanto tempo passou. Regina repetiu a mesma canção por tantas vezes que perdi as contas. Sim, eu estava contando. Era outra forma de obrigar minha mente a trabalhar em outra coisa que não fosse prestar atenção nas vozes, naquelas vozes tão assustadoras e reais, mas que no fundo eu sabia que eram falsas.

Logo as vozes sumiram e o meu corpo ficou relaxado, como se eu tivesse tomado uns quatro comprimidos de clonazepam (o famoso rivotril), mas eu não havia tomado nada, pelo menos não desde que surtei e fui atrás de Regina.

Fiquei deitada com a cabeça em suas coxas durante todo aquele tempo, e me surpreendeu o fato de Regina não dormir, não se cansar ou reclamar. Ela simplesmente ficou comigo e fez o que pode para me tranquilizar, até conseguir.

Levantei devagar e ela me olhou surpresa e aliviada ao notar que eu estava melhor.

— Obrigada — falei com olhos cheios de lágrimas e o queixo trêmulo, emocionada ao reconhecer o que ela havia feito por mim. — Obrigada, obrigada...

Passei minhas pernas por cima das suas, nos encaixando uma de frente para a outra. Toquei seu rosto e lágrimas rolaram dos olhos de Regina, mas ela sorria para mim sem parar.

— Eu te amo, Emma. Você é tudo pra mim, tudo.

Ela me apertou com força nos braços e encheu meu rosto de beijinhos, fazendo-me sorrir.

— Eu te amo, eu te amo, minha linda — falei, envolvendo seu pescoço, lhe apertando tanto quanto ela me apertava. — Você tem sido minha força, minha esperança, minha felicidade. Você é que é tudo pra mim.