Notas iniciais
Uma riponga incomoda muita gente... Então imagina uma reunião delas?! Fuuuuuuu...

No começo, tudo era nuvem.

E nada parecia se opor à neblina densa que se depositava irredutivelmente sobre os pés do frágil e franzino garoto, exceto a sua vontade inútil de se livrar daquela situação em que ele mesmo se colocou.

Jack corria por um labirinto, sem saber exatamente o porquê, apenas sabia que não podia parar de fugir, ou sequer vacilar naquele ritmo traçado por seus apressados pés. Ofegava, exausto, entre uma passada e outra e a cada lugar que adentrava, percebia que havia escolhido o caminho errado. O concreto de cada passagem se fechava à medida que ele avançava, impedindo que retrocedesse e buscasse por novos trajetos.

Olhou à sua volta, completamente cercado pelas paredes do labirinto, que pareciam começar a se mexer, indo no sentido de esmagá-lo, massacrá-lo pelas escolhas erradas que fez ao buscar seu tortuoso caminho.

Seus músculos doíam, ardiam, na verdade, e tudo o que Jack conseguiu fazer foi cair, sem nenhuma reserva de força para dar mais um passo sequer. Deixou que sua cabeça se escorasse pesadamente em alguns tijolos da parede, notando a estrutura farinhenta do barro que se desfez ao mais leve toque, aumentando a frustração do garoto ao ver o quanto aquele lugar era frágil e ao mesmo tempo impenetrável, assim como a sua própria consciência parecia ser...

...E foi aí que as alucinações vieram, assombrá-lo ainda mais para o seu completo terror.

Viu o rosto de sua mãe, pálido, sem qualquer vestígio de sangue ou vida, acusando-o com uma voz tão cruel quanto sombria:

– Você me matou, Jack! – os olhos da mulher pareciam afundados dentro de suas órbitas, a pele enrugada estava esburacada, deixando à mostra pedaços de músculo e até mesmo de ossos, como se aquela fosse uma imagem de sua mãe já em avançada decomposição pelo tempo. O cabelo despontado e sem brilho se movia em torno daquele rosto mortífero, como se os fios estivessem submetidos a um vento que, na verdade, não existia.

– Não! – protestou, alarmado com a cena repugnante – Eu não tive culpa...

A risada da mulher foi sombria, evidenciando alguns dentes podres ainda presos em sua gengiva opaca, intercalados a espaços vazios. O hálito que se propagou pelo ar até o garoto era fétido e nauseante, mas ele resistiu à vontade de torcer o nariz.

– Sempre soube que você era igualzinho ao seu pai. Assassino! – o olhar que lançou a ele era de puro nojo, e os traços de seu rosto foram perdendo o foco, desaparecendo gradativamente, porém aquela palavra apenas ganhou força enquanto a forma de sua mãe desfalecia. Ainda podia ouvir a voz dura repetindo aquela acusação sem parar dentro de sua mente, fazendo-a ecoar ainda mais forte dentro de seu atordoado íntimo. "Assassino!"

Um desespero sem medida tomou conta do pequeno garoto, até que o ar começou a escassear em seus pulmões. Uma névoa escura penetrou todo o ambiente e Jack se viu sem saída, desistindo de encontrar um novo caminho, desistindo de si mesmo, sucumbindo à própria fraqueza que sabia conflitar dentro de si, tão inexorável quanto seu próprio e desgarrado destino.

Uma gargalhada escandalosa o fez erguer a cabeça, em alerta. Era Coringa que estava parado à sua frente, dando alguns passos para mais perto do garoto de feições assustadas. Era perturbador ver seu outro 'eu' diante de si, com aqueles olhos insanos e ao mesmo tempo extremamente racionais perscrutando-o, lendo-o, descobrindo-o da forma mais íntima que podia existir.

– Ela nunca foi uma boa mãe... – riu novamente, ampliando ainda mais as enormes cicatrizes com aquele simples gesto medonho.

– Eu a matei? Ou você?

Nós a matamos! – corrigiu, dando uma programada ênfase ao pronome – Eu sou seu futuro, Jack! Não há outra saída.

– E se eu não quiser me transformar nisso? – apontou para o Palhaço, que deu outra sonora gargalhada e se agachou, de modo a ficar na mesma altura de seus olhos de tonalidade idêntica, porém ainda sem o brilho altivo da insanidade para brindar-lhe.

– Nem sua mãe te quis, imbecil! Eu sou sua melhor opção, sua única escolha, sua melhor chance de saída. Somente através de mim você vai conseguir ver a verdade desse mundo cheio de falhas ao qual você insiste em fazer parte desta forma tão patética. A insanidade está logo ali, Jack. Basta apenas um empurrãozinho...

Imediatamente à menção daquelas palavras, um precipício materializou-se bem diante de seus pés, e logo que Jack deu-se conta da profundidade sem fim daquele abismo estendido até o infinito, sentiu as mãos traiçoeiras de Coringa em suas costas, exercendo a pressão que deu início à queda certa. Seus gritos do mais genuíno desespero se mesclaram à gargalhada doentia do Palhaço enquanto o garoto ainda caía, sendo levado para um caminho sem volta...


Coringa acordou trêmulo e suando frio, sem saber se aquele mal-estar era devido ao recente e perturbador sonho ou à febre que provavelmente havia aumentado segundo as suas percepções gélidas. Sentiu uma das mãos de Alice secando seu suor com um pano áspero, e gostou de saber que ela estava ali. Em outras circunstâncias, teria se irritado em profundidade com aquele sentimento, mas no estado agonizante em que seu corpo estava, nem mesmo parou para pensar naquilo.

– Você teve um pesadelo? – puxou assunto ao finalmente percebê-lo desperto.

– Não – decretou com a voz fraca, sentindo os dentes trincarem à mercê dos tremeliques involuntários – Por quê?

– Você se debateu muito, mal consegui tratar seu ferimento enquanto dormia... – respondeu, desviando vários cachos molhados de suor da testa do Palhaço – Agora você realmente não pode levantar e ficar passeando por aí! Sua febre aumentou de novo, o que indica que esse buraco em sua barriga infeccionou. – disse, usando o seu melhor tom irritado – Por isso, sugiro que desta vez leve as minhas recomendações a sério!

– Não há com o que se preocupar, eu quase não consigo me mexer, quanto mais levantar... – soltou um riso abafado que mais pareceu um gemido baixo.

"Patético, é o termo que me define!" – pensou, tão enfurecido quanto possível

– Fique tranquilo, Libélula, daqui a pouco você se sentirá melhor e um pouco mais disposto de novo! Só precisa ter um pouco de paciência, apesar de tudo o seu corpo está reagindo bem à cicatrização – sorriu para ele, tentando encorajá-lo — Se você ficar quieto e seguir as ordens médicas, vai ficar bom num instante...

– Eu nunca fui muito bom seguindo ordens... – riu, mas aquele som desafinado que saiu de seus lábios nem de longe assemelhou-se a uma risada.

– Bem se vê que alguém que se fantasia de Palhaço e tem uma cicatriz em forma de sorriso não é muito adepto a regras! – Alice deixou escapar um riso baixo pelo seu comentário maldoso, a fim de tentar distraí-lo dos infortúnios da terrível dor que ele devia sentir – Mas quanto mais teimoso você for, mais tempo vai ter que ficar em recuperação, e mais tempo vai gastar tendo que seguir as minhas recomendações – a hippie avisou o óbvio, umedecendo o tecido para passar novamente no hóspede.

Após uns minutos de silêncio ela disse:

– Eu não demoro, vou ter que sair por alguns minutos! – disse bruscamente.

– Algum encontro? – era incrível como o desdém sobrevivia à febre cada vez mais alta... Alice tinha de admitir, o homem era a personificação da zombaria, em especial com aquele macabro sorriso que se estendia para além do limite de seus lábios.

– Se fosse não seria da sua conta – rebateu, enraivecida, achando ter visto um meio sorriso roçar o rosto do homem mesmo em meio ao desconforto – Não saia daí, é sério! – avisou, enérgica – Eu já volto...

Alice saiu apressada do recinto, deixando Coringa sozinho com as imagens ainda nítidas de seu último e segredado sonho. Era perturbador saber que a lembrança do antigo Jack havia retornado, ainda que brevemente, a assombrá-lo, lembrança essa que ele pensou estar enterrada há muito tempo...

Coringa já sentia-se um pouco melhor depois do sonho estranho, porém ainda incomodado, como se ele estivesse fraquejando diante de um passado que já havia sido superado, mais do que superado, aliás! Foram graças aos seus antecedentes, que para muitos seriam tristes e perturbadores, que Coringa se fortaleceu a um nível extremo e se tornou o que é hoje.

Sentia-se irritantemente confuso, mais a cada dia... E como detestava aquilo!

Coringa sempre desprezou a incerteza dos mais fracos, sempre enojou-se por aquela demonstração ridícula que levava à incompetência humana, e agora via-se como um daqueles que tanto odiou, à mercê de sua própria confusão. Porque tudo aquilo lhe mostrava que, assim como todos, ele era feito de carne e osso, e pior, que em toda a sua força poderia sucumbir à mediocridade humana.

Odiava se ver impotente, mas apenas com a sua condição física intacta novamente a sua mente voltaria a funcionar como sempre funcionou. Tudo o que podia fazer era esperar, por mais que isso o aborrecesse de modo tão explosivo quanto o seu humor...

Mais uma vez ele acabou entregando-se ao sono, talvez como uma defesa do seu organismo para fugir da dor e da própria consciência, como se buscasse um plano surreal, cansado da realidade e de suas constantes implicações. Nenhum pesadelo poderia ser pior do que aquele que experimentava em consciência!

Contudo, nem mesmo o conforto de estar desacordado pareceu disposto a brindar o Palhaço naqueles dias conturbados.

Pareceu que Coringa apenas piscou ao despertar, atordoado, com a fumaça de um incenso forte que estava rente ao seu nariz e várias ervas ao seu redor, ao centro uma Alice de olhos fechados, entoando um mantra num tom lamuriento e desafinado que parecia capaz de imobilizar os neurônios do Palhaço.

– Om Shri Dhanvantre Namaha... Om Shri Dhanvantre Namaha... Om Shri Dhanvantre Namaha...

Coringa, de imediato, não teve reação, assim como todos os que acabam de acordar, mas depois de finalmente entender que havia algo errado naquele timbre desarmônico, intensificado pelo aparelho de som que acompanhava a entoação das palavrasque não faziam o menor sentido a si, Coringa passou a procurar pelo rosto conhecido de Alice, e ao encontrá-lo naquela infernal balbúrdia, tentou superar a cacofonia com sua própria voz ainda fraca:

– Mas o que é isso?

Ela continuou gritando, esforçando-se para acompanhar o aparelho de som que entoava o mantra junto com ela.

CHEGA! – Ele gritou, inconformado, descrente de que conseguira elevar o tom de voz o suficiente para se fazer ouvir.

Alice parou, abaixando o volume do eletrônico aparelho de som até que o barulho se tornasse quase inaudível.

– O que está fazendo, sua louca? – conseguiu perguntar quando o silêncio finalmente reinou no aposento e deu uma chance à sua voz enfraquecida.

Alice pareceu surpresa com o timbre grosseiro do hóspede.

– Passando energia de cura para você, não é óbvio?

Nada é óbvio nesse lugar! – desabafou com fúria, não conseguindo manter o plano de manter-se cortês. Elevou uma sobrancelha, desacreditado e cansado de tamanha estranheza. Se realmente havia intervenção de algum tipo de justiça divina naquele caótico mundo, Coringa estava sendo levado ao mais profundo e maléfico inferno.

– A energia se manifesta através da nossa vontade e pensamento, e estou fazendo com que ela flua até você através do Ritual! Mas você interrompeu o fluxo, agora toda a energia foi perdida... – ela o fitava indignada, deixando claro que foi uma grande ofensa com ela e seus esforços.

Coringa estava boquiaberto com aquilo que ouvia. Alice, olhando para nada aparentemente específico, disse, tentando controlar a raiva que nitidamente despontava em sua voz:

– Obrigada por virem, espíritos de luz, mas o bebezão aqui estragou tudo! Desculpe por fazer vocês perderem seu tempo por nada... Vou acompanhar vocês até a porta, porque acho que atravessar paredes deve ser meio degradante, embora legal pra cacete... Enfim, quem quiser fique à vontade pra usar ou não a porta – Divagou, em seguida olhando com frieza para seu hóspede boquiaberto – Eu volto mais tarde.

Alice fez o caminho até a porta e se despediu das entidades que julgava estarem ali, enquanto Coringa ainda se mantinha em choque, cansado de ser surpreendido por aquela criatura esdrúxula. Detestava o fato de não entender um único aspecto sequer da mulher. Logo ele, que sempre soube melhor do que ninguém o que esperar das pessoas e, dessa forma, manipulá-las ao bel prazer de seus intuitos.

“Seria mais saudável se eu tivesse me entregado ao Batman de uma vez!” — considerou, embasbacado.

As horas transcorreram no mais completo silêncio no cômodo em que Coringa repousava após o desenrolar daquele estranho cenário. Alice permaneceu o resto da tarde sem ir examinar o Palhaço, somente depois que o sol se pôs, ela se dignou a aparecer no quarto para ver se ele havia apresentado alguma melhora na febre repentina.

– Como está? – sua voz era contida, controlada, e pela primeira vez o sorriso não estava presente na sua feição endurecida pelo péssimo humor.

– Já estive pior... – Coringa percebeu que Alice estava irritada e, sem conseguir resistir a irritá-la mais, rendeu-se à vontade de vê-la explodir – Você realmente acredita naquela estupidez que estava fazendo aqui? Ou só intencionava me acordar mesmo?

Alice virou a cabeça lentamente em sua direção, fuzilando-o com os olhos. Coringa se divertia em silêncio, ao menos naquele momento.

Estupidez?! Bom, então eu saio atrás de todas as entidades dispostas a ajudar em medidas paliativas para complementar o tratamento simplesmente porque acho que não vai ajudar em nada... Conclusão brilhante, senhor “Eu Quero Ser o Ronald McDonald, Mas Não Tenho Habilidades Com Um Pincel”!

Alice estava realmente furiosa com seu inquilino, e Coringa parecia adorar vê-la perder o controle daquela forma, sentindo que a compreendia um pouco melhor, como se ela não fosse de fato uma incógnita tão grande... Apenas era movida por razões muito diferentes e bem estranhas, por sinal... Continuou a irritá-la, satisfeito por perceber um ínfimo controle voltar a seu poder:

– Bom, só é difícil acreditar que uma médica formada em Harvard se incline a essas tolices... – constatou num tom programado pra soar inocente, contudo provocando-a com um sorriso de contentamento.

– Vá chupar meia, seu projeto mal rascunhado de palhaço! – Alice bateu os pés até a saída, parando para encará-lo uma última vez antes de sair – Se eu começar a ser assombrada por esses espíritos que você desrespeitou, eu juro que eu mesma recoloco aquela bala que tirei aí na sua barriga!

Bateu a porta com força, deixando seu paciente pra trás.