– Vou sair, se cuida!

– Por quê? Ainda irritada? – Coringa questionou com certa diversão, sempre mais confortável diante de sentimentos adversos. Era, afinal, o que ele conhecia sempre que interagia com alguém.

– Não! – avisou secamente, quase sentindo um rosnado ameaçar tremer sua garganta.

– Não me diga... – fitou-a com olhos que gracejavam, ainda demonstrando deliciar-se com a tamanha peculiaridade que residia naquela situação.

– Então não pergunta, inferno! – fitou-o com seriedade, posicionando as mãos na cintura – Ao invés de gastar sua preciosa saúde e energia fazendo perguntas toscas, podia simplesmente se desculpar!

– Tem razão. Me desculpe por saber o quão ridícula foi aquela cena de completo desequilíbrio mental, e por demonstrar de forma franca que sua fé em acreditar que eu melhoraria, simplesmente por enfiar um incenso no meu nariz e gritar enquanto eu dormia, era algo extremamente desconexo com a realidade – fez uma tentativa risível de reparação, arrancando um olhar irascível da hippie.

– Eu devo realmente levar isso como um pedido de desculpas? – cruzou os braços, parecendo crescer naquela posição superior e irritada, sentindo o próprio sangue ameaçar ferver enquanto circulava por cada veia, artéria e vasos menores. Mas mesmo com seu semblante endurecido, Coringa podia ver nitidamente que ela parecia, de algum modo, divertir-se em silêncio com a situação, embora jamais fosse admitir isso a ele.

Mesmo as interações mais absurdas pareciam a ela bem-vindas, para aplacar os longos anos de monólogo solitário dentro daquele mesmo casebre.

– Deveria! Eu não sou nada bom com pedidos de desculpa, e esse é o melhor que você pode extrair de mim! — avisou, num tom que visava encerrar o assunto.

– Bem se vê que você é mesmo péssimo nisso... – a hippie comentou, revirando os olhos, e um sutil sorriso já lhe escapava sem o seu consentimento. Era fato, aquele homem que escondia repletos mistérios no brilho perpetuante em seus olhos e naquelas padronizadas cicatrizes em seu rosto realmente fazia-a se sentir entretida, de um modo pouco convencional.

– Por mais divertido que tenha sido te ver perder o controle, a sua reação foi no mínimo... Exagerada! – completou, camuflando a verdadeira descrição que gostaria de dar a todo aquele poço de esquisitice que era Alice. Alice... Cada vez mais um delicioso alvo para as suas próprias atividades sádicas... Mal podia esperar para mostrar-se em verdade àquela contraditória mulher que, devido a um mero acidente, cruzara o seu caminho. E que inevitavelmente pagaria caro por sua bondade.

O rosto da hippie se suavizou de leve.

– Posso ter passado um pouco do ponto, mas a culpa ainda é toda sua. Você escolheu um péssimo momento pra me provocar. Tem noção de como concurseiros vivem à flor da pele? Cheguei ao ponto de fazer um desenho seu, grudar na parede e lançar dardos... Tinha até cogitado fazer voodoo, mas pra sua sorte eu não tinha nenhum pote de picles no armário...

– Acho que vou me arrepender amargamente da pergunta, mas... como um pote de picles se relaciona com voodoo? – inquiriu num tom monocórdio, sem saber exatamente por que dava corda aos delírios da mulher. Ao que tudo indicava, aquele cárcere provisório estava entediando o psicopata a tal ponto, que até mesmo Alice se tornava uma distração bem vinda.

– Qualquer pessoa minimamente estudada no assunto sabe que é assim que se faz um voodoo. Você nunca assistiu “Lilo e Stich”? – Alice citou o desenho como se referenciasse um documentário renomado sobre o tema.

– Eu ainda descubro o que foi que te deixou assim! – zombou, rolando os olhos ao constatar a cada novo dia que aquela mulher era real, e não um mero pesadelo.

– Não se incomode, eu mesma posso te contar! Tudo começou no dia em que eu encontrei um aspirante a palhaço gravemente ferido em frente à minha casa... Depois que eu resolvi cuidar desse ingrato, fiquei assim...

– E por falar nisso... Não sentiu medo de colocar para dentro de sua casa um completo desconhecido? – sondou, sem perceber curvando-se de leve na direção da mulher, como se estivesse imensamente instigado pela resposta – Não teve receio de acabar ajudando... não sei... um serial killer? De colocar sua própria vida em risco?

Alice lançou a mão no ar como se desprezasse a hipótese, chegando a rir um pouco por achá-la absurda, e a autenticidade do gesto pareceu extremamente genuína ao psicopata

– Até parece! Você, um serial killer? – gargalhou, agradada com o que julgou ser uma piada – Nunca comentei com você, mas eu tenho um faro muito apurado pra detectar gente ruim. Diria até que é um dom! – anunciou, orgulhosa, mal sabendo o quanto se equivocara – Você no máximo é um transformista frustrado que deve ter irritado um grupinho neonazista qualquer, e acabou nessa situação horrível. E sabendo que esse é o cenário mais provável, que tipo de pessoa eu seria se não me opusesse a Hitler?

O homem bufou, ainda desacostumado a ser desafiado, porém sentindo que era mais fácil conter seus impulsos violentos. Apenas até que o momento oportuno chegasse, e pudesse extravasar seus instintos até então silentes.

Coringa, esperando receber mais uma patada como resposta, ainda assim perguntou:

– Aonde vai? – questionou-a com certa propriedade, sabendo que seu tom arrogante provavelmente a consumiria em nova raiva. Porém, ela apenas o fitou com indiferença no olhar, em nada incomodada com o tom possessivo que lhe fora direcionado, muito provavelmente sequer chegando a percebê-lo.

– Eu quero ver o pôr do sol, lindo como ele só, e gente pra ver e viajar no seu mar de raio... – fez uma pausa contemplativa, retomando a fala em seguida – E depois, eu tenho um encontro hoje – contou após a tradicional estranheza que fugia à compreensão do Palhaço, piscando.

– Não me diga que finalmente criou coragem com seu professor... – troçou abertamente, apostando que a menção do idoso lhe provocaria algum sentimento doloroso.

– Quem me dera. O Aldo sempre vai ser minha paixão platônica, nada pode mudar isso, mas eu já me conformei que ele é muita areia pro meu caminhão. – Alice estreitou os olhos, como se refletisse sobre aquele assunto pela primeira vez – Eu até poderia propor fazer várias viagens com a areia, é verdade, mas com o valor atual da gasolina isso seria loucura... – divagou, balançando a cabeça como que querendo espantar o pensamento – Enfim, claramente não estou à altura do meu professor, mas do Bruce Wayne sim.

– Bruce Wayne? – Coringa arqueou uma única sobrancelha, incrédulo, bufando uma risada ofensiva que indicava que a hippie nem de longe chegava aos pés do bilionário.

– Escuta aqui, Libélula Saltitante, eu malho meus glúteos todo dia, e isso tem seu valor! – Com o dedo indicador Alice pressionou os músculos citados, como se quisesse comprovar o seu ponto – Durinhos, percebe? Posso não estar à altura de um homem do porte do Aldo, é verdade, mas se descermos a régua até o padrão Bruce Wayne, eu sou mais que suficiente!

– Ele deve ter perdido alguma aposta pra se submeter a isso, no mínimo... – comentou, revirando os olhos, porém nitidamente curioso com aquela situação. Um brilho cruel invadiu seus orbes – Que tipo de interesse real ele poderia ter em você, se pode sair com qualquer modelo num estalar de dedos?

– Já entendi por que te balearam, Libélula... – soltou enquanto ia em direção à saída, de fato entristecida por ser diminuída daquela forma e, principalmente, por um questionamento extremamente coerente. Encarou o hóspede um último momento antes de sair – E eu não culpo quem o fez... – saiu do cômodo, deixando seu hóspede a sós.

Naquele instante em que se viu sozinho, seu humor se transformou por completo. Sentiu crescer em si um indubitável desgosto e ira pela ausência de sua médica.

“Ela deveria ficar aqui, ao meu lado, pra qualquer coisa que eu precise! Quem esta tola pensa que é para sair enquanto eu estou ferido, nessas condições patéticas que me fazem um mero parasita de seus serviços?”

Coringa sentiu uma necessidade enorme de reaver seus pertences a fim de entrar em contato com os inúteis dos seus capangas e impedir aquele estúpido encontro...

Tão rápido quanto um piscar de olhos, o homem recordou-se de que o carro que protagonizara sua fuga não estava tão distante do casebre... Seria fácil encontrá-lo, mesmo à claridade esparsa daquele fim de tarde, e recuperar parte de seus pertences que certamente ainda jaziam no automóvel.

O Palhaço aguardou em completo silêncio até ter certeza de que Alice já havia saído, e só então arriscou dar seus primeiros passos cambaleantes para longe da cama. Seu abdômen já não incomodava com a mesma intensidade, apesar de cada passo tornar a dor um pouco mais aguda.

Sem se importar, prosseguiu.

Coringa passou pela sala e olhou para a parede, no mesmo ponto em que viu o diploma de Alice, como que para comprovar que ele não havia sonhado ou imaginado tal absurdo. Mais uma vez ele se surpreendeu ao vislumbre daquelas letras pomposas e garrafais, que anunciavam a formação de sua estranha anfitriã em Harvard.

Finalmente saiu da casa, e começou a tentar recompor seus passos no dia do acidente, percebendo ser uma tarefa mais difícil do que ele calculou que seria... naquela noite ele estava semi-inconsciente e não prestou atenção ao caminho feito, embora soubesse pelos seus cálculos que não poderia estar longe.

Andou por longos minutos, já cogitando desistir pela falta de resultado, com a dor agora bem mais marcante, novamente torturando-o a cada passo. Suas últimas passadas irritadas e impacientes quase o persuadiram a desistir, até que finalmente avistou o vulto característico do carro roubado há apenas alguns metros de distância, mesclando-se entre os troncos escuros e densos das árvores que fechavam aquele cerco e escondiam a sua maior preciosidade naquele fim de mundo.

Pegou rapidamente tudo de que precisava e tentou voltar para a casa de Alice o mais rápido possível, enquanto entrava em contato com um de seus capangas durante o trajeto cada vez mais aflitivo.

Coringa contou vários toques antes que fosse atendido, e sentiu a voz do capanga tremer do outro lado da linha.

– Chefe? – arriscou, hesitante.

– Quem você achou que seria, a rainha da Inglaterra, imbecil? – rugiu com fúria, já desacostumado à habitual idiotice de seus homens.

– Não... bom, é que... Todos nós achamos que você estava morto... – Coringa percebeu a decepção alastrada na voz do capanga.

– Acha mesmo que eu ia deixar Gotham com uma classe de criminosos tão medíocres quanto vocês? – bufou, risonho – Escute, eu não tenho muito tempo para me divertir te humilhando agora... Preciso de um servicinho pra acabar com a folga de vocês, bando de inúteis! Quero que você e os outros encontrem Bruce Wayne e o mantenha ocupado essa noite. Ele passará pela estrada a norte da cidade, não o perca! – avisou, sentindo a ira crescer sem maiores motivos aparentes – Divirtam-se, podem fazer o que bem entenderem com ele, e se por acaso o Wayne estiver acompanhado de uma mulher, não a machuquem, entendeu? – "Ela é por minha conta!"

– Sim, chefe. – assentiu, visivelmente desanimado, talvez por conta da nova tarefa, ou mais provavelmente pela inesperada manifestação do Palhaço.

– Se não fizerem exatamente o que eu mandei, pode apostar que eu vou saber. E vou fazer questão de recompensar pessoalmente a incompetência de cada um. Por que tão sério, Tom?

E dizendo essas últimas palavras, Coringa desligou o aparelho e continuou caminhando, com um pouco mais de dificuldade, mas satisfeito pela perspectiva de estragar a noite de Bruce e Alice.

Coringa finalmente chegou na casa e arrastou-se com ímpeto até a cama, exausto com a pequena caminhada, na mesma proporção em que se sentia contente consigo mesmo.

“Agora só é preciso esperar, e consolar a pobre Alice quando ela chegar abalada por conta do encontro decepcionante!” — sorriu apenas para si.

E com esse pensamento, Coringa adormeceu, totalmente convencido de que logo a hippie voltaria sem muito bom humor. E caberia a ele confortá-la!


A poucos metros da cabana, Alice caminhava, o ritmo focado de seus passos competindo com o estado absorto de sua mente, esta vagando sem um rumo definido através de lembranças triviais. A hippie permitiu-se deliciar com a conhecida sensação de presenciar cada pôr do sol... Era um espetáculo realmente lindo, ainda mais naquela porção totalmente isolada da cidade, que a maioria das pessoas desprezava. A hippie fazia questão de vê-lo todos os dias, quando a limpidez do céu ajudava, e era mais do que um momento de paz, era a única hora em que sua mente se esvaziava completamente, eximindo-a das parcas preocupações de seus dias normalmente tranquilos. Ela fechou os olhos por um instante e sorriu, aproveitando os últimos raios de Sol que esquentavam sua pele. Esses momentos sempre afloravam o cerne dos instintos mais hippies de Alice.

– Um dia vou me tornar hare krishna e usar aquele rabinho de cavalo engraçado, aí quero só ver alguém ser mais riponga do que eu. Talvez eu até cultive baratas no meu cabelo em homenagem ao grande Bob Marley, que Jah o tenha...

– Garanto que seria um tanto inusitado! – uma voz aveludada e cortês soou pelo ambiente, sobressaltando-a com notória facilidade. Quase se esquecera do encontro combinado com Bruce.

– Poxa, eu falei aquilo alto? Você chegou em ótima hora, que timing maravilhoso... – disse sarcasticamente, virando o rosto na sua direção ao ver que ele aproximava-se com um sorriso caloroso.

Bruce riu, e no instante em que Alice o fitou mais de perto, já se arrependeu profundamente de ter aceitado o convite. Nada naquele homem parecia minimamente desalinhado, como uma completa antítese de Alice, que se percebia como uma verdadeira bagunça... Sentiu-se extremamente inadequada ao lado do homem que valia bilhões. Seu hóspede tinha razão. Era impossível haver um interesse genuíno por parte do homem, aquilo não passava de uma espécie de caridade pra ele. Até mesmo a gravata que usava parecia valer mais do que sua casa.

No momento em que decidiu dar alguma de suas brilhantes desculpas para se livrar do compromisso – sempre funcionava dizer que tinha que cortar as unhas do pé de sua bisavó –, Bruce deu um enorme sorriso em sua direção e deu início ao seu discurso, parecendo quase tímido pelo teor de suas palavras.

– Obrigado por aceitar me encontrar... Nada mais justo do que compensá-la pelo incidente que causei! – avisou pomposo, disposto a consertar seu comportamento imprudente.


O incidente mencionado tratava-se de um dia aparentemente comum, em que Bruce vagava pelas ruas de Gotham dirigindo o Rolls Royce negro pertencente à extensa coleção de automóveis de que dispunha na enorme garagem de sua mansão. Alice caminhava pelas proximidades e, talvez por conta da distração de ambos, Wayne bateu a lateral do carro na moça no momento em que ela se aventurava a atravessar a rua com os ares avoados que lhe caíam tão bem. Chegou a percebê-la momentos antes do baque, mas não fora capaz de frear o veículo a tempo, e a mulher agora se encontrava caída no asfalto, massageando o braço.

"– Por Deus, me perdoe, senhorita! – o moreno imediatamente saiu do carro, praguejando por ter se permitido distrair tanto com a conferência travada por telefone com Lucius Fox, seu braço direito na empresa que herdara – Sinto muito! – desculpou-se, ajudando a bela moça atordoada a levantar-se com um olhar deveras preocupado – Você está bem?

– Meio xoxa, capenga, manca, anêmica, frágil e inconsistente! – respondeu, aceitando a ajuda de bom grado – Mas podia ser pior... Não é todo dia que podemos nos gabar por ter sido atropelada por um carro desse porte! – comentou risonha, sorrindo ainda entontecida ao bater a poeira do asfalto que impregnara-se na sua roupa com a queda, e arrancando uma risada macia do famoso empresário que ainda a segurava pelos braços.

– E é justamente esse porte tão robusto que me preocupa! Por favor, entre no carro e eu a levo imediatamente ao hospital! – propôs, parecendo não saber o que fazer para consertar o erro.

– Hospital? Não, obrigada, não foi nada! Posso provar que estou bem se isso o tranquilizar. Sou perfeitamente capaz de perceber que você tem sete dedos nesta mão – zombou, apontando para a mão esquerda de Bruce e novamente fazendo-o rir.

Contudo, no segundo seguinte, Alice soltou um agudo de dor ao tentar dar um passo. Bruce a amparou com mais força, os olhos bem negros tomados de aflição e arrependimento. Vislumbrou, naquele momento, um filete de sangue emaranhando o cabelo da mulher bem acima de sua orelha direita, e sua preocupação apenas se intensificou.

– Precisamos ir a um hospital!

– Nem pensar, eu não tenho convênio e qualquer bandaid que te colocam no hospital é uma fortuna, a gente chega lá com um arranhão e precisa se desfazer do rim, e quando você percebe está com vários órgãos a menos, a casa hipotecada e uma dívida gigante com um agiota que...

– Calma... – interrompeu a torrente desesperada de pensamentos da mulher, tentando tranquilizá-la – O erro foi todo meu, você não precisa se preocupar com nenhum gasto, tem minha palavra!

– E quem me garante que você não é um traficante de órgãos e tudo isso não tenha passado de encenação pra você me usar como mercadoria?

O homem estancou, parecendo divertido.

– Não sabe mesmo quem eu sou?

– Deveria saber? – Pareceu momentaneamente confusa, os olhos passando a brilhar intensamente quando sussurrou – Não me diga que é o Batman?

Bruce pigarreou, disfarçando em seguida com um riso honesto diante da empolgação quase infantil da mulher.

– Bruce Wayne, prazer! – sorriu da forma mais gentil que Alice já vira – Posso perguntar o seu nome?

– Alice. Pode chamar só de Alice, vamos fingir que nem existe um sobrenome.

– Muito bem, só Alice... Está vendo aquele prédio ali? – Apontou para a Wayne Enterprises não muito ao longe, mantendo aquele mesmo sorriso gentil e fácil de confiar – Sou o dono daquela empresa, e posso te garantir que ela não tem nenhum tipo de envolvimento com tráfico de órgãos ou nada ilegal, minha única intenção aqui é te levar ao hospital e, claro, arcar com todas as despesas.

Ela o analisou por longos segundos, parecendo considerar se seus órgãos corriam algum risco. Bruce, ainda sorrindo, sussurrou como se confessasse algo:

– E se eu fosse um traficante de órgãos, você não conseguiria ir muito longe com esse pé, então pra que se dar ao trabalho de fugir? – gracejou, e Alice riu em resposta, um pouco mais à vontade.

– Tudo bem então! – deu de ombros, reticente – Afinal, eu nunca tive uma mãe para me avisar a não aceitar carona de estranhos... – sorriu antes de adentrar o carro com a ajuda de Bruce."


A breve lembrança fez com que Alice perdesse a coragem de dispensá-lo. Bruce Wayne não só a levara até o hospital, custeando todo o atendimento e tratamento, como ainda fora visitá-la durante o período em que se mantivera em observação por conta da lesão na cabeça. Foram apenas três dias internada, contudo o homem se demonstrou extremamente atencioso e preocupado. Alice até mesmo acreditava que havia sido mantida aquele tempo no hospital a pedido do empresário, por puro zelo.

“Bom, ele só quer se desculpar, eu sobrevivo...”

Sem resistir, ela perguntou:

– E então, qual o plano?

– Pensei em levá-la para jantar no meu restaurante preferido da cidade. Conhece o Monarch Theatre? – citou o restaurante extremamente elitista, com aquela voz sempre tão lapidada pela cortesia, inspirando algumas dúvidas em Alice sobre a autenticidade de toda aquela tão impecável educação.

– Misericórdia, e eu de bata e jeans... custava pelo menos ter penteado o cabelo, Alice...? – grunhiu baixo, incomodada com a situação.

– Perdão? – Seu acompanhante a olhou com interesse, como se não houvesse nada mais estimulante no mundo do que ouvi-la – Desculpe, eu não entendi...

– Nada, nada...

– A ideia não te agrada? – perguntou Bruce, que ainda esperava por alguma reação de sua parte.

– Não, tudo bem! Só acho que não vão me deixar entrar assim... – apontou para si mesma, constrangida – Verdade seja dita, eu sou o tipo de pessoa mais apropriada pra frequentar uma barraquinha de cachorro quente... – riu, imaginando o quanto se sentiria mais confortável em lugares mais singelos.

– Podemos ir aonde quiser, Alice. Mas por favor, não se prenda a questões tão banais quanto padrões de etiqueta. Não tenho dúvidas de que você seria a pessoa mais interessante de todos os ambientes que eu frequento, e espero que você possa se divertir na minha companhia, tanto quanto eu aprecio a sua – pediu com amabilidade, abrindo a porta do veículo para que ela entrasse.

Alice apenas sorriu em resposta, aceitando o convite.

A mulher olhou pela janela, pensativa enquanto o carro se movimentava. Permitindo-se conjecturar sobre a diferença gritante entre os miseráveis que habitavam Gotham e aquele carro de luxo passando indiferente por suas ruas.

Bruce arriscou iniciar uma conversa enquanto dirigia pela estreita estrada, realmente se esforçando em agradá-la.

– Como você está, Alice? Espero que não tenha sentido mais dores desde a minha imprudência... – referiu-se aos ferimentos que causara à mulher que, mesmo superficiais, haviam pesado forte em sua consciência.

– Bom, meus órgãos estão aqui, não estão? Acho que isso já é um ótimo sinal, não posso reclamar...

– Estão aí ainda... – retrucou com humor, dando um sorriso cúmplice que ao mesmo tempo pedia desculpa pelo gracejo, caso ela julgasse inadequado.

Alice riu em resposta, aconchegando-se ao banco extremamente confortável do lamborghini azul que cruzava a cidade. De repente se deu conta de que estava sentada em milhões de dólares, e aquela percepção levou mais seriedade ao seu semblante.

– Qual é a sensação? – Ela perguntou baixinho, mais como um pensamento que escapou dos limites de sua mente.

– Qual a sensação do quê? – Bruce franziu as sobrancelhas, sem entender.

– De ter tudo disponível... De nunca precisar se preocupar uma única vez na vida com boletos, por exemplo... De ver tudo que o mundo oferece de braços abertos pra você enquanto vira as costas pra milhares?

Bruce se manteve um tempo em silêncio, e Alice percebeu um traço de tristeza invadir seu rosto.

– Eu não quis te ofender... – ela complementou – Você parece ser uma boa pessoa. Só vive num mundo muito diferente do meu, tanto que eu nem consigo imaginar como é.

– Não se preocupe, não ofendeu – deu um sorriso triste, olhando de soslaio para sua convidada, novamente levando o olhar para a estrada. – Eu mesmo ainda consigo me surpreender com meus privilégios. Você perguntou qual a sensação... Eu diria que solitária. Muito solitária – respondeu, admirado com a própria honestidade. – Sempre me vejo cercado por muitas pessoas, é verdade, mas de intenções e sorrisos vazios. Sempre me perguntando até que ponto elas dissimulam só por estarem diante de um Wayne, e sempre concluindo que só posso confiar em raríssimas pessoas. Trocaria todo meu patrimônio pelas pessoas que ele me fez perder – fitou-a novamente com um sorriso em nada alegre.

– Eu sinto muito pelos seus pais.

– Eu também. Às vezes ainda me pego pensando se é possível superar.

Mantiveram silenciosos pelo resto do caminho. Bruce atento às ruas, e Alice de cabeça baixa, arrependida por trazer à tona aquele assunto. Quando finalmente chegaram ao local, Bruce saiu do carro e Alice o acompanhou logo em seguida.

Quase imediatamente, dois homens encapuzados aproximaram-se do casal, apontando uma arma para Bruce. Um deles disse:

– Ora, ora, quem temos aqui... nada mais nada menos do que o formidável senhor Wayne, e acompanhado apenas de uma fedelha... Deve ser mesmo o nosso dia de sorte! – disse, olhando para o comparsa.

– Fedelha é a senhora sua mãe! – a hippie rebateu, irritada. Até mesmo bandidos dispensavam um tratamento respeitoso ao empresário, e se referiam a ela de forma pejorativa.

Nem mesmo entre a escória da sociedade era digna de algum respeito.

– Alice, entra no carro. – pediu Bruce, dotado de tensão na voz.

– Me perdoe a honestidade, Bruce, mas você não tem cara de quem sabe se defender! Pode deixar que eu cuido disso, eu falo a linguagem das ruas! – Passou a encarar os bandidos, novamente retomando seu discurso – Eu entendo vocês, de verdade! Vocês olham pra esse rapaz e veem um cifrão humano, e faz todo sentido do mundo que vocês se sintam tentados e até mesmo no direito de tomar o que é dele. Porque ele é podre de rico e sua mera existência desafia as tentativas de uma distribuição de renda justa. Porque ele tem mais dinheiro do que todos nessa cidade juntos. Porque uma pequena parte da sua fortuna gigantesca seria capaz de deixar todos em Gotham sem ter que trabalhar pelo resto de suas vidas, assim como seus descendentes. Porque esse tipo de fortuna alimenta a miséria alheia. Eu mesma pensei quando o conheci: "roubar esse homem não é crime, é um dever cívico"... – Alice parou abruptamente seu discurso, dona de um semblante extremamente confuso. Virou-se para Bruce com um olhar derrotado. – Desculpa, é muito difícil defender bilionário, não sei onde eu pretendia chegar quando comecei a falar...

– Alice, por favor, entre no carro...

Depois que os dois assaltantes se recuperaram do choque daquela interação extremamente inusitada, um deles disse:

– Ninguém se mexe! Perdeu, playboy! Passa tudo!

– Deixe a moça fora disso! – Bruce disse num tom que tentava ser apaziguador, os braços erguidos em rendição à medida que se colocava à frente de Alice.

Um dos mascarados sorriu com lascívia e desafio.

– E se quisermos a moça também? – O homem sorriu largamente, demorando o olhar na hippie – Se topar dividir a garota, pegamos leve com você.

Bruce, em movimentos muito mais ágeis do que qualquer um ali esperava, lançou-se contra o homem que empunhava a arma, golpeando o braço em riste com o próprio cotovelo, desarmando-o num instante.

Pareceu que Alice simplesmente piscou, e o primeiro mascarado já estava no chão, desarmado. Bruce partiu em direção ao outro, mas este deu passos para trás, inibido com o revólver que Bruce agora segurava longe do alcance de seu comparsa.

Os bandidos saíram correndo no minuto seguinte, e Alice direcionou um olhar espantado para Bruce.

– E eu com medo de ficar entediada no mesmo ambiente que o seu...

– É muito cedo ainda pra descartar essa hipótese, não subestime minha capacidade em ser maçante – sorriu com carinho, gostando de ver o olhar de admiração da mulher – Não sei você, mas eu estou faminto. Me daria a honra de comer um cachorro quente comigo? Dizem que a barraquinha da praça tem o melhor!

O olhar de Alice se iluminou de imediato.

– Jura? Bruce Wayne, o grande empresário, comendo o cachorro quente de uma barraquinha de esquina qualquer? Cuidado, as pessoas comentam!

– E quem disse que homens de negócio não gostam de pão amanhecido recheado com aquela carne de procedência duvidosa e cancerígena?

Alice riu do comentário, surpreendendo-se ao perceber o quanto conseguia apreciar a companhia do homem. Os dois dirigiram-se à barraca de cachorro quente, conversando animados.


Coringa acordou com o suave ronco de um motor, e não percebeu de imediato do que se tratava, pois o recente despertar brindava-o com a incoerência que lhe era tão habitual. Como odiava saber que gastava praticamente todos os dias dormindo, completamente inútil em cima daquela cama vagabunda...

Somente quando ouviu as risadas de Alice e Bruce entendeu que seus capangas haviam falhado mais uma vez na missão que ele confiara a eles... Mais uma vez! Já estava mais do que na hora de tomar providências acerca da incompetência de seus subordinados.

Esperou impacientemente que Alice entrasse em casa para extrair a história do que acontecera, e só depois do que pareceu uma hora ela entrou no quarto para ver Coringa.

Assim que percebeu o vulto hesitante da mulher lhe encarando da porta, como se temesse acordá-lo, Coringa logo perguntou:

– E então, como foi com o Wayne?

– Wayne? – perguntou brevemente, como se não ligasse o nome à pessoa por um momento. Adentrou o quarto ao perceber seu paciente desperto – Ah, sim, o Bruce! Foi extremamente fora do padrão, mas até bem divertida! Difícil acreditar que um almofadinhas daquele tenha senso de humor e um conhecimento tão bom em artes marciais – disse, sorrindo com as lembranças.

– Fora do padrão? – conteve o ódio que já queria transbordar por suas palavras, cerrando fortemente o punho para extravasar a descomunal raiva que nascia em si.

– Pois é, íamos num restaurante chique, mas ele preferiu comer cachorro quente só pra me agradar, tenho certeza que o pobre homem vai ter azias pelo resto da noite! – Contou, logo em seguida recordando-se do que para ela pareceu ser um mísero detalhe da noite – Ah, quase esqueci. Além disso dois trombadinhas abordaram a gente pra assaltar, ou sei lá o quê... Enfim, não importa, mal sabiam eles que Bruce é ótimo em defesa pessoal, e se viram obrigados a fugir da investida. Claro que o discurso diplomático que eu fiz também deve ter pesado na consciência daqueles pobres infelizes, tenho certeza que fui um divisor de água na vida de crimes daqueles dois rapazes – contou, parecendo orgulhosa.

Coringa estava boquiaberto, seus sentimentos confundindo-se entre a raiva e a surpresa. Pigarreou, tentando disfarçar a irritação, porém sem grande sucesso. O sangue fervia com a informação de que não só seus capangas falharam, como haviam desobedecido ordens expressas do psicopata, quando ele mandou que todos fossem atrás de Bruce e apenas dois homens cumpriram sua determinação.

Coringa despertou de seus devaneios com a voz retumbante de Alice:

– ... hein, Libélula?

– O que disse?

– Você está bem? Parece meio... abalado... – inquiriu, preocupada com a lividez de seu rosto – Precisa de alguma coisa?

– Só estou com um pouco mais de dor do que o normal hoje. Nada que algumas horas de sono não resolvam... – despejou, ainda fazendo um enorme esforço para não grunhir de frustração.

– Certo, vou te deixar descansar – começou a retirar-se, hesitando um pouco antes de sair. – Se precisar de alguma coisa me chame, está bem? Boa noite, Libélula Saltitante!

Alice saiu logo após a despedida, e Coringa permitiu-se ser invadido pelo ódio que experimentara desde que descobriu que seus planos mais uma vez foram frustrados. Foi inundado por um forte ímpeto de torturar seus capangas da forma mais lenta e dolorosa que pudesse imaginar... Ao contrário de todas as suas intenções, ele próprio havia ajudado na aproximação de Bruce e Alice. Mas não por muito tempo...

Notas finais
E essa maré de azar que Coringa está passando vai até quando? =P Peço desculpa aos corinthianos, não resisti a essa piadinha!