Notas iniciais
O tão esperado encontro de Alice com o Palhaço depois de sua fuga... 0_0 Cabeças vão rolar? =P

— Quando tudo isso acabar eu quero que você coloque a Sam num desses programas de Proteção à Testemunha, ou qualquer coisa do gênero! – Alice disse séria para Gordon, que a olhava com um misto de perplexidade e aborrecimento.

— Você só pode estar brincando... – o Comissário entortou o bigode de um jeito cômico ao responder – É uma planta! Nós não temos nenhum programa para proteger plantas.

— Pouco me importa! São os meus termos – Alice avisou, em infinita teimosia.

A discussão permaneceu intensa, e Alfred aproveitou-se da distração do Comissário e da Hippie para se aproximar de Batman e sussurrar baixo, perto de seu ouvido, para que apenas o Justiceiro Mascarado o ouvisse:

— O que o senhor está fazendo?

— Como assim? – a voz do Morcego saiu ainda mais bizarra do que o habitual ao forçá-la rouca, porém tentando manter exatamente o mesmo tom contido que Alfred usava.

— O senhor pretende colocar a vida da senhorita Alice em perigo para tentar capturar Coringa! – o mordomo disse, como se suas palavras pudessem despertar o Morcego de suas últimas atitudes.

— Não se preocupe, está tudo sob controle – Batman afirmou, encarando por um momento o rosto enfurecido da hippie enquanto ela ainda discutia animadamente com o Comissário, que parecia violentamente rubro em sua raiva.

— Será que está mesmo? – Alfred diminuiu ainda mais o tom de sua voz, deixando transparecer a desaprovação que havia nela. Ele era como um pai para Bruce, desde que o seu havia morrido, o mordomo sempre foi um porto seguro e a sua principal ponte com o passado, por isso Alfred não se importava em dar alguns puxões de orelha em seu patrão, e Bruce tampouco se incomodava em recebê-los.

— A Alice é só uma isca para atrair o Palhaço, eu nunca vou deixar que ele a machuque!

— O senhor não está se ouvindo? Usar uma pessoa como isca de um criminoso doentio?! – Alfred o olhava como se não o conhecesse mais.

— Eu sei que parece cruel com ela, mas eu tenho certeza de que posso protegê-la do que está por vir.

— Protegê-la de quem? – perguntou, unindo as sobrancelhas – O senhor acabou de contar ao Comissário que a senhorita Alice foi a responsável pela recuperação de Coringa... – argumentou – Percebeu como Gordon olha pra ela desde que chegou aqui?

— Foi o único meio de conseguir a ajuda da polícia – defendeu-se, suspirando – Eu até poderia não ter contado nada, mas eles acabariam ficando de mãos atadas... Nós fizemos um acordo, ele não poderá acusá-la de nada depois que tudo isso acabar, eu me certifiquei disso antes de deixá-lo a par da verdade.

— Mesmo que suas intenções obtenham êxito, isso pode acarretar num perigo ainda maior para a senhorita Alice. Coringa nunca fica preso tempo demais, o que o senhor acha que ele vai querer fazer depois de sentir-se enganado por ela?

— O Palhaço já tem a intenção de matar Alice, Alfred, nada do que ela faça agora pode mudar ou abrandar isso.

Alfred se espantou com a frieza de seu patrão, encarando-o como se houvesse levado um doloroso soco de seu filho em consideração.

— O senhor está cada vez mais obcecado nessa busca. – disse, parecendo decepcionado – Acho que me enganei quando acreditei que o senhor gostava dessa moça... No começo até podia ser, mas agora o senhor está usando-a como uma marionete, e sem nenhum remorso... Não deixe que as atividades de Batman destruam quem o senhor é de verdade, Patrão Bruce! – disse, diminuindo ainda mais a pouca intensidade de seu timbre, deixando-o quase inaudível até mesmo para o homem mascarado ao seu lado.

O Morcego ficou em silêncio, pensativo com o baque que aquelas palavras surtiram nele, totalmente confuso quanto à credibilidade de suas intenções.

Estaria ele realmente se aproveitando de toda aquela situação de vulnerabilidade por qual Alice passava, apenas com o intuito de conseguir finalmente prender o Palhaço? E se, porventura, não conseguisse poupá-la do que estaria por vir ao tentar protegê-la de forma avessa – colocando-a de frente para o perigo?

Seus pensamentos foram brutalmente interrompidos ao ouvir a voz alterada de Alice dirigindo-se a Gordon:

— Se vira! Esse foi o nosso trato, eu só ajudo se a minha samambaia tiver uma escolta policial para protegê-la! – intimou, sua voz agora dura, despistando a antiga desolação antes tão discernível – Ela estava presente em todas as minhas conversas com o meliante, ele vai querer se livrar dela! Queima de arquivos, você nunca ouviu falar? Que tipo de policial é você?

O Comissário deixou que a raiva transbordasse em sua voz ao responder, já fora de si com a estupidez daquela situação.

— Tudo o que exige é a proteção da sua samambaia? – bufou de raiva, sentindo o bigode acompanhar os movimentos odiosos de seus lábios – Pois bem, é exatamente isso que você terá, mas a autoridade aqui sou eu, e ninguém mais vai decidir como isso será feito!

— Oh, mas que mau humor, você dormiu de jeans hoje? Ou será que esse bigode é tão grande e pesado que te impede de pensar com clareza?

— Se eu fosse você tomaria mais cuidado com suas palavras – disse numa ameaça evidente, presente tanto na voz quanto na única sobrancelha arqueada.

— Se você fosse eu, seria uma pessoa mais alegre e menos peluda! – atacou, sentindo-se fora de si com a arrogância de Gordon – Agora, custa ter um pouquinho de compreensão? Caramba, eu sou a vítima nessa história e não a tirana!

O Comissário negou aquelas palavras apenas com o olhar que lançou à hippie, e Batman notou que Alfred estava coberto de razão – mais uma vez! – Ele a olhava com extrema hostilidade, sem nem se preocupar em disfarçar o seu desagrado, mas o Morcego também percebeu que Gordon mantinha sua fúria controlada, o que vinha a ser, sem dúvida, um bom sinal! Uma pequena garantia de que ele honraria com o prometido e deixaria Alice em paz.

Ela virou-se para Batman, desconsiderando a evidente desaprovação que o Comissário demonstrava, e disse:

— Eu acho melhor ir sozinha para esse encontro! – sua voz ainda despontava rígida, como se esquecesse de amenizá-la após o término da discussão com Gordon.

— De jeito nenhum – Batman rebateu imediatamente, tentando encerrar o assunto ao mostrar que não estava aberto a nenhum tipo de negociações neste quesito.

— Pois fique sabendo que quem está no controle dessa situação sou eu. – avisou, irritada e ao mesmo tempo cansada por sentir que todos tentavam dominá-la de acordo com os próprios interesses – É a mim que esse palhaço está afetando, e mais ninguém! Eu vou sozinha me encontrar com ele, você ficando feliz ou não. Ele deixou bem claro que mataria a Sam se eu aparecesse acompanhada, e pode apostar, não vou correr esse risco.

— Eu não vou deixá-la sozinha com o Coringa, isso está fora de questão.

— É mesmo, Batman Split?— Alice percebeu um sorriso discreto, quase travesso, formar-se no rosto de Alfred, e ela riu baixinho também com a própria anedota, o que contribuiu em amenizar seu tom quando retomou seu discurso – Olha, eu não estou pedindo que vocês simplesmente me abandonem lá, ok? Eu só quero que ele tenha certeza de que eu cheguei sozinha! Eu quero apenas tempo o suficiente para fazê-lo acreditar que eu não estou acompanhada! Vocês me dão alguns minutos de vantagem e depois pegam o trombadinha de surpresa, é perfeito, não tem como dar errado.

Batman olhou para Gordon procurando por qualquer vestígio de desaprovação, porém o Comissário nem por um minuto deixou de encarar Alice, daquele mesmo modo desconfiado. Ainda encarando-a firmemente, ele deu seu veredicto.

— Deixe que ela faça isso! – assentiu – Pode dar certo, e nos dará uma vantagem!

Alfred, repleto de pesar, encarou o chão e balançou a cabeça negativamente, em sinal de profunda reprovação com aquela demonstração certa de descaso pela vida e segurança de Alice. Ela reparou em seu movimento sutil e tentou tranquilizá-lo, com a voz suavizada por um sorriso sem muita confiança:

— Não precisa se preocupar comigo, Alfred! Eu vou conseguir, você vai ver! – sua voz saiu com muito mais convicção do que realmente sentia.

— Posso me oferecer a fazer algo pela senhorita? – perguntou, com toda a eficácia que lhe cabia.

— Na verdade pode fazer três.

— Basta pedir! – sorriu, eficaz.

— A primeira é: por favor, me chame só de Alice, nada de senhorita e afins! A segunda: me espere com algum quitute daqueles que você me prometeu.

O mordomo sorriu.

— Posso perguntar qual seria a terceira?

— Me arranje um Raid!

Alfred pareceu desconcertado com o pedido, franzido as sobrancelhas ralas em desentendimento.

— Trata-se daquele spray para matar insetos? – questionou, na dúvida.

— Isso mesmo! Se vou enfrentar uma Libélula, é melhor ir preparada... – trocou mais um sorriso divertido com o mordomo.

Depois que Alice já havia se aprontado para o inevitável, ainda teve que escutar algumas recomendações óbvias e inúteis de Batman, que por alguma razão parecia ter se arrependido de pedir a ajuda da hippie naquela missão de captura.

— Não o provoque, entendeu? — avisou pela centésima vez, fazendo Alice revirar os olhos — Tudo o que ele quer é se vingar, e se você tirá-lo do sério antes que a nossa presença se revele, podemos não chegar a tempo de impedir essa vingança.

— Não, mas veja bem, isso é impossível! — revirou os olhos uma segunda vez com o comentário incoerente do Morcego.

— Por quê? – Batman pareceu intrigado.

— Já tiraram ele do sério há muito tempo, ou você nunca percebeu que ele está sempre sorrindo? — Alice deu um sorriso com o comentário e socou animadamente o ombro do Cavaleiro das Trevas.

Batman sequer alterou sua expressão apática com a piada ou o gesto de Alice, que gargalhava sonoramente. Depois que o baque da notícia do sequestro de sua Sam passou, ela voltou a encarar a situação como sempre havia feito; muitas infâmias e pouca cautela.

— É exatamente esse tipo de comentário que você deve evitar fazer... — repreendeu-a, seu tom cortante como o mais afiado gume.

— Ah, como você é problemático... Nunca se dá ao luxo de rir, não?

— Está certa de que quer mesmo fazer isso? – perguntou de repente, aparentemente duvidando da capacidade da hippie, e também tentando provar a si mesmo, e a Alfred, que se preocupava com a segurança da azarada mulher.

— Eu não saio por aí vestida de morcego-fêmea, mas sou tão capaz quanto você, seu projeto mal feito de Drácula!

— Só quero alertá-la do perigo! Ainda está em tempo de desistir...

— Eu rio na cara do perigo! — debochou, desconsiderando-o.

— Como você vai fazer para chegar lá? — Batman desviou do assunto, transmitindo leve interesse pela resposta.

Eu vou pegar um táxi!— Alice tentou imitar a voz que Batman reproduzia, mas a experiência lhe levou a uma crise de tosse logo em seguida ao sentir sua garganta se arranhar dolorosamente – Caramba, como você aguenta falar assim o tempo todo...?

Sua voz se perdeu no ar quando olhou de volta para o Morcego e percebeu que ele já havia desaparecido, tão rápido quanto um piscar de olhos.

— Ele sempre faz isso? — inquiriu, perplexa com a sensação terrivelmente estranha que tal mania proporcionava.

Sempre... — Gordon e Alfred responderam ao mesmo tempo, num uníssono condescendente com a confusão da hippie.

Alice aguardava a chegada do táxi, apenas acompanhada por Alfred — que se manteve firmemente ao seu lado durante toda a espera, como o verdadeiro cavalheiro que aparentava ser. — O Comissário também já havia partido da mansão, provavelmente para planejar melhor como seria a captura do Palhaço, sabendo que aquela era uma oportunidade única de finalmente trancafiar Coringa atrás de uma cela.

O elemento surpresa era a única esperança que eles possuíam, nesse ponto qualquer deslize poderia significar o fracasso da emboscada e, mais uma vez, a fuga do psicopata.

Sem querer pensar muito no que estava prestes a fazer, Alice resolveu antecipar sua inevitável despedida ao Mordomo, porque independente do que acontecesse naquele restinho de madrugada, Alice não voltaria mais à Mansão Wayne – somente pela manhã para buscar seus cachorros, e apenas – Ela sabia melhor do que ninguém que essa era a melhor decisão que poderia tomar em prol de todos os envolvidos. Já se arrependia sinceramente em ter aceitado a proposta de Bruce, e não via a hora de retornar à sua humilde casa – que definitivamente era o seu lugar.

— Queria agradecer por tudo, Alfred! – começou a despedir-se, sentindo na pele o quanto aquele momento era difícil, mesmo conhecendo o adorável inglês há tão pouco tempo – E se eu morrer hoje, deixo toda minha herança para você – ela sorriu, esperando que aquele comentário não passasse de uma brincadeira.

— Não se preocupe! – tentou tranquilizá-la o melhor que podia – Batman não costuma falhar quando a questão é proteger alguém. Você estará bem segura, por mais contraditório que isso pareça – a angústia na expressão de Alfred traía a verdade que ele tentava transmitir em suas palavras, mas ainda assim elas não deixaram de ser reconfortantes. Alfred a agraciou com mais um de seus sorrisos, que pareciam programados para exercer um efeito calmante.

— Isso pode soar estranho, mas nesse pouco tempo que fiquei aqui, você foi como a figura paterna que eu nunca tive... – suas bochechas coraram ao pronunciar o desabafo em voz alta – Se eu pudesse escolher um pai, com certeza você seria o segundo da lista, logo atrás do Willy Wonka.

Alfred sentiu o rosto arder, simplesmente surpreso e lisonjeado ao ouvir aquela demonstração de afeto vinda de Alice – mesmo com a tradicional zombaria no final. Um sorriso afetuoso delineou os lábios do mordomo antes que este respondesse.

— E se eu pudesse escolher ter uma filha, você também seria minha segunda opção, logo atrás de Bruce.

Alice deixou-se levar por uma gargalhada gostosa, sentindo a descontração percorrer seu corpo tenso e lhe dar mais mobilidade. Alfred viu-se imediatamente contagiado, acompanhando o riso da hippie de modo carinhoso. O som da buzina do táxi preencheu o aposento, indicando que seu transporte sem escala até o inferno já havia chegado.

Ela, sem prévio aviso, deu um forte abraço no mordomo, que ao superar mais essa surpresa pelo repentino movimento, correspondeu ao gesto, tentando tranquilizá-la de todas as maneiras que lhe eram possíveis, assim como tentava transmitir confiança a si mesmo.

— Vai dar tudo certo, Alice. Mas tenha cuidado, está bem?

— Não se preocupe, Alfred! O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraída...

Mirou uma última vez aqueles olhos penetrantes e um pouco misteriosos, e não pôde deixar de pensar que Alfred realmente seria um ótimo pai, com aquele jeito único de encantar as pessoas e todo o zelo que fazia dele tão especial...

Sem dizer mais nada e evitando prorrogar ainda mais aquela inevitável situação, ela foi em direção ao táxi, evitando olhar para trás e pensar em toda loucura que havia tomado as rédeas da sua vida, transformando a hippie numa mera observadora do caos que se instalava, cada vez mais irredutível, ao seu dia a dia.

— Odeio palhaços... – disse baixinho ao entrar no carro, esforçando-se para manter a calma.

— Como disse? – o motorista perguntou, confuso.

— Nada... Por favor, me leve até a entrada da cidade o mais rápido possível – pediu, encarando o rosto de Alfred uma última vez através do vidro, enquanto a sua imagem tranquilizante ainda não havia se perdido pela distância.

O automóvel começou a andar pelas ruas ganhando velocidade, e se afastando cada vez mais da Mansão Wayne. Alice começou a balançar o pé involuntariamente, num claro sinal de nervosismo. O motorista percebeu sua aflição, e tentou dar início a uma conversa, um pouco preocupado ao imaginá-la sendo vítima de um infarto em seu veículo de trabalho.

— A senhorita está bem?

Tentando controlar o tremor na sua voz, Alice respondeu:

— Ótima! Não podia estar melhor. Por favor, me chame de Alice, eu não gosto muito de formalidades...

O taxista sorriu.

— Eu também não, mas o serviço exige... Meu nome é William, mas pode me chamar de Will – ele disse, simpático.

— Will... – Alice repetiu o nome, reparando bem em cada um de seus traços extremamente juvenis – Você destruiu o meu estereótipo de taxista. Sempre imaginei todos bem velhinhos e gordos... – este estava bem longe de ser qualquer uma dessas duas características. Na verdade, era exatamente o oposto; um tanto magricela e alto, e parecia jovem demais para ter permissão de dirigir um carro.

— Bom – William disse em meio a um sorriso –, normalmente os taxistas são assim mesmo, mas eu tive que ser uma exceção à regra. — comentou despreocupadamente, dando de ombros – Não é fácil juntar dinheiro para uma boa faculdade sozinho, e dirigir é tudo o que eu sei fazer no momento...

— Ah, sim, a faculdade é mesmo uma época cruel! Por qual curso você se interessa? – Alice perguntou, deixando que toda a sua atenção se voltasse ao garoto de cabelos rebeldes. Aquela conversa havia caído do céu, ela precisava se distrair um pouco e eximir seus pensamentos do encontro cada vez mais próximo que teria com o Palhaço.

Sem tirar os olhos da rua, ele respondeu com mais um sorriso.

— Eu pretendo cursar Engenharia Automobilística – disse, com uma expressão inflada de orgulho – É complicado dar conta de tudo, mas acho que no final todo esse esforço vai valer a pena!

— Deve ser um curso e tanto! – sentiu seus olhos se arregalarem – Mas seus pais não te ajudam a juntar o dinheiro?

Will deu de ombros mais uma vez enquanto se concentrava em fazer uma curva mais fechada.

— Eles me ajudam com o que podem na moradia e alimentação, mas o salário de mecânico não é suficiente para arcar com a faculdade, então quando eu não estou estudando, estou dirigindo.

Alice percebeu que seu semblante estava realmente muito cansado, com enormes olheiras marcando intensamente a curva inferior dos seus olhos castanhos, e o cabelo rebelde e desarrumado moldavam as suas feições jovens e ao mesmo tempo exaustas... Porém o sorriso parecia nunca abandonar o rosto do jovem, e esse otimismo encantou Alice.

— Eles devem ter muito orgulho de você. – concluiu, sincera.

— Quem dera... Eu sou a ovelha negra da família! A maior pretensão do meu pai era que eu assumisse a oficina e deixasse de lado a graduação, mas como o bom filho que sou, fiz exatamente o inverso...

Os dois riram, e Alice já começou a simpatizar com aquele garoto, tão jovem e já tendo que lidar com problemas financeiros, que sempre acabam barrando oportunidades.

Sem querer, comparou o jovem William a Bruce, que desde pequeno teve acesso a muito mais recursos do que precisava, mas, em contrapartida, perdeu seus pais quando ainda não passava de uma criança, e agora vivia sempre com receio de confiar plenamente nas pessoas... Qual deles era o verdadeiro digno de compaixão?

Will cortou o silêncio, despertando Alice de sua breve abstração:

— Sabe, Alice, é um pouco perigoso te deixar sozinha na entrada da cidade a essa hora... Você não prefere ir a outro lugar?

— Está tudo bem, eu vou encontrar um... velho amigo lá perto! – disse, sendo incapaz de evitar uma sutil careta, o corpo em leve tremor.

O táxi parou bem na marca indicativa da entrada de Gotham, que desenhava-se ligeiramente macabra com aquela estrada totalmente deserta e fracamente iluminada. Will entregou um cartão para Alice, com seu nome e telefone gravados.

— Meu contato, caso você precise de mim para voltar à civilização. Pode me ligar a qualquer hora!

— Obrigada, Will! – Alice guardou cuidadosamente o cartão na bolsa e tirou cinquenta dólares da carteira, entregando-lhe o pagamento – Pode ficar com o troco!

William arregalou os olhos sem sequer aceitar encostar no dinheiro.

— Isso é mais do que o dobro do valor da corrida... – pestanejou, atônito.

— É a minha contribuição para a sua faculdade! – vendo ainda a recusa em seus olhos, ela insistiu – Vamos, aceite! Se você soubesse como essa conversa me fez bem, cobraria bem mais.

Will pegou o dinheiro, ainda relutante – parecia ser extremamente orgulhoso, exatamente como Alice, que aprovou o gesto com um sorriso.

— Obrigado – disse por fim, admirando a nota com gratidão.

— Nos vemos por aí, Will. Foi um grande prazer!

— O prazer foi bem maior pra mim, pode apostar! – sorriu jocosamente enquanto abanava o dinheiro que ostentava em brincadeira.

Alice saiu do carro rindo, porém um pouco triste por trocar a companhia saudável de Will pela presença doentia de Coringa, embora ao mesmo tempo desejasse o desfecho daquela história o quanto antes. Ela começou a se afastar, mas parou ao ouvir a voz do taxista, virando-se na direção do automóvel.

— Se mudar de ideia e quiser sair daqui, você tem meu número!

Alice sorriu mais uma vez, acenando enquanto Will manobrava o táxi e se afastava do local.

Somente quando não viu mais sinal do carro, Alice começou a caminhar até sua casa. Seria uma viagem razoavelmente longa a pé, mas ela não queria correr o risco de acabar envolvendo mais alguém naquela situação, ainda mais uma pessoa tão cativante quanto William, completamente inocente de todo o perigo que a ilhou sem qualquer remorso.

Enquanto caminhava começou a pensar em sua pobre samambaia, que havia sido sua única companheira durante muitos anos de solidão, e agora era vítima de um sequestro hediondo e desumano... Sam certamente estaria apavorada!

— Pobrezinha... Se aquele trombadinha encostou numa única folha dela, ele vai ver só uma coisa. Vou mostrar com quantos palhaços se faz um circo!

A estrada estava completamente coberta pela penumbra, e uma densa névoa se depositava sobre seus pés, tornando ainda mais obscuro o seu objetivo de encontrar-se com o psicopata e resgatar sua samambaia, mas nem por isso Alice deixou de caminhar.

Cada passo era uma batida frenética de seu coração, que parecia querer saltar pela boca e reclamava do perigo iminente que se aproximava. Alice fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes ainda em meio aos passos que não permitia que vacilassem, tentando conter o nervosismo e o arrepio de seu corpo, avisando do risco e implorando para que ela retrocedesse.

Avistou sua casa ao longe e achou ter visto um vulto, mas não sabia ao certo se tal vislumbre se tratava de Coringa. Porém, fosse ou não, de alguma forma aquela visão do seu lar teve um efeito calmante sobre ela, que conseguiu controlar melhor os nervos e dar mais firmeza ao passo; Enfim aquele tormento logo acabaria, de uma maneira ou de outra.

Quando chegou perto o suficiente da sua humilde cabana, teve que controlar uma vontade muito forte de rir, ou pior, de gargalhar. Todo o medo havia se dissipado e Alice começou a se perguntar por que havia deixado que aquele homem a afetasse tanto em meio às várias torturas psicológicas que quase a fizeram enlouquecer, mas que agora só esclareciam o quão tola ela havia sido...

Coringa estava parado em frente à porta da casa, exatamente como no dia em que a mulher o havia encontrado desmaiado no seu portão – com o terno roxo, a maquiagem borrada e o cabelo pintado de verde.

Sem conseguir mais controlar seu impulso, começou a rir de modo descontrolado, uma risada que colocava em dúvida sua saúde mental, já que estava próxima demais ao pior criminoso da cidade. Coringa, ao ouvir o som, virou-se lentamente para encarar Alice, parecendo divertir-se.

— Não me teme agora que sabe quem eu sou, Docinho?

Em meio à gargalhada, que nem Alice sabia explicar, ela conseguiu responder:

— Eu já passei da fase de ter medo de insetos... Pra mim você sempre vai ser a Libélula Saltitante, e não esse tal de Coringa.

— Bom, então ou você é muito corajosa ou é muito estúpida. Eu fico com a segunda opção. – dizendo isso deu passos curtos até Alice – Estou curioso... Como você se sentiu quando descobriu quem de fato eu era?

A riponga parou um pouco de rir ao responder, franzindo a testa, como se a pergunta fosse realmente digna de atenção.

— Na verdade, fiquei intrigada...

O Palhaço pareceu surpreso.

— Não era bem a resposta que eu esperava... – admitiu, ainda interessado, um brilho algoz e profundo se estendendo por todo o seu olhar.

— Fiquei intrigada com a carta que você escolheu... – ela continuou como se não tivesse sido interrompida – O coringa não combina com você.

Ele riu, divertindo-se.

— Tudo se trata de um símbolo. Uma mensagem que se espalha como um rastilho de pólvora em chamas – explicou, dotado de mais paciência do que achou ser capaz naquelas circunstâncias.

— Só estou dizendo que o coringa não é a carta que melhor te representa – repetiu veementemente – Faria muito mais sentido se você tivesse escolhido a Dama de Paus!

Alice voltou a rir, ainda mais incontrolavelmente, sentindo que sua barriga agora doía pela nova gargalhada intensa e, com muito esforço, conseguiu dizer entre os risos:

— Dama de Paus, entendeu?

Coringa aproximou-se dela vorazmente, já sem paciência para diplomacias, imaginando que Alice tentaria se esquivar, porém ela manteve-se exatamente no mesmo lugar, sem se distanciar um único passo com o movimento repentino do Palhaço. Ao perceber que Alice ainda ria, Coringa diminuiu ainda mais a distância que os separava, e assim que chegou perto o suficiente, pegou alguns cachos que se projetavam para a frente do ombro da hippie, podendo enfim sentir o aroma floral do seu cabelo novamente, aspirando aquele perfume profundamente e fazendo Alice estremecer e finalmente cessar sua nova crise de riso, partindo para o outro extremo quando o fitou com seriedade.

— Vamos acabar de vez com isso! – esquivou-se do contato com o psicopata, séria – Cadê a Sam?

Agora foi a vez de Coringa rir, de um jeito um tanto escandaloso.

— Pensa que vai ser fácil assim? Sabe, antes de sair da sua casa eu fiz uma promessa a mim mesmo... – disse, diminuindo novamente a distância entre os dois e se aproximando dos lábios fartos de Alice ao retomar seu discurso agora sussurrado – Jurei que lhe provaria minha virilidade antes de te matar, Docinho. E eu sou um homem de palavra! – sorriu maliciosamente.

Sem dar nenhum tempo de reação para Alice, ele amassou sua boca contra a dela, num beijo veloz, urgente, há muito tempo cobiçado. Tão bruscamente quanto deu início àquele contato rude entre seus lábios, Coringa separou-os, como se fizesse um breve intervalo para deliciar-se com as reações enojadas de sua bela médica.

Porém, tudo o que se evidenciava dentro dos grandes olhos de Alice era a surpresa do ato e um enorme e inesperado desejo insano, queimando em brasa dentro do negrume de suas íris agora indomadas pelo desafio, um desejo que nem mesmo ela sabia existir, arrebatando-a de seu bom senso já duvidoso. A hippie puxou novamente o rosto de Coringa para si, deixando que sua língua se entrelaçasse à dele de bom grado, enquanto sentia a surpresa confundir-se com o capricho do homem de tê-la ali. Imediatamente, Alice sentiu-se perigosamente presa ao movimento impetuoso de seus lábios, e tudo o que pôde fazer foi simplesmente corresponder àquele êxtase que havia tomado conta de sua mente de forma tão abrupta. Surpreendeu-se ao sentir um completo deslumbre invadir e turvar seus sentidos, vendo-se completa e irremediavelmente intoxicada pelo cheiro do Palhaço, tornando o momento doentio na sua essência, mas impossível de controlar.

O gosto era similar ao de uma droga capaz de viciar logo na primeira dose... Alice ainda o puxava para si, mas sentia necessidade de mais, e sua razão parou completamente de comandar suas ações, que se manifestavam apenas pelo instinto, pela obrigação que sentia de manter seu corpo colado ao dele pelo maior tempo possível. Uma de suas mãos foi até as costas de Coringa, arranhando o seu paletó com posse, trazendo-o para mais perto na ânsia de seus novos e vigentes desejos.

Coringa apertou a nuca de Alice com força, emaranhando sua mão nos longos cabelos sedosos que envolviam seu belo rosto, tornando ainda mais íntimo aquele momento ao passar a outra mão livre pela cintura que antes estava coberta.

Coringa pressionou ainda mais o corpo da hippie contra o seu, proporcionando um arrepio de puro prazer em ambos quando seus dedos correram intrusos pelas curvas macias do corpo da sua médica. Todo o sangue de Alice pareceu latejar em cada vaso, apenas por conta do toque úmido de sua língua que lhe fazia perder o ar. O beijo se prolongou, mas a hippie não soube calcular o tempo, somente correspondia, ciente apenas de que deveria ceder aos toques de Coringa, que por mais que soubesse ser errado, mostrava-se o certo naquele instante.

Foi a voz de Batman que quebrou o momento e trouxe Alice de volta à realidade.

— Larga ela, Palhaço! – Alice se afastou de Coringa repentinamente, como se tivesse levado um choque, e ao se distanciar, pôde sentir toda a culpa por ter se permitido envolver daquele jeito recair sobre suas costas. Mas além da culpa, a extrema incompreensão lhe envolvia, incapaz de fazê-la entender por que se deixou levar naquela medida. Ela estava ofegante, e a vergonha fez seus olhos se desviarem da imagem resoluta do Cavaleiro das Trevas. Batman foi para cima de Coringa, desferindo um brutal soco em seu rosto.

O Palhaço respondeu apenas com o som gutural de sua gargalhada.

— Como eu posso largar essa delícia se foi ela quem me agarrou? – provocou – Aliás, você não foi chamado para a nossa festinha, Batsy. Volta pra caverna, que já vai amanhecer. – riu novamente, degustando ao máximo a fúria que fez os olhos de seu oponente inflar.

— Cretino... – Alice disse baixinho, ainda mirando o chão e tentando extrair a tinta que havia passado para seu rosto. "Por que eu fiz isso?"

Gordon esboçava uma expressão diferente, quase de triunfo, e seu bigode se deslocou com o sorriso que deu. Segurou o braço de Alice com firmeza ao dizer:

— Então era por isso que queria se encontrar a sós com ele! Vocês são muito mais do que cúmplices, não são? – sua voz se descontrolou, tentando a todo custo conseguir uma confissão ali mesmo.

— Eu... Eu só vim aqui pela minha samambaia, não tenho nada com ele, a não ser a culpa de ter salvado a vida imprestável desse Palhaço.

Coringa riu, agora imobilizado pelo Morcego.

— Não era o que me dizia na cama, Docinho!

Alice o fuzilou com os olhos e foi na sua direção, dando um chute bem no local baleado que havia sido tratado por ela há pouco tempo. Coringa gemeu, sentindo prazer com a dor. Ela estava pronta para o próximo chute quando Gordon a afastou.

— Não me segura, bigodudo! É hoje que eu acabo com a raça desse parasita!

A fúria consumia Alice, mas não era nem tanto raiva do Palhaço, era na verdade uma profunda ira de si mesma por se dar conta do estranho poder que ele exercia sobre ela e na sua sanidade mental, em tese comprometida por toda aquela loucura. E o pior de tudo; sabia que Coringa teve plena consciência do domínio e do controle que exerceu sobre ela naquele momento íntimo que precedeu a chegada de Batman. De repente, lembrou-se do motivo de estar ali.

— Cadê a minha samambaia, seu verme?

— Você acha mesmo que eu seria capaz de ferir a graminha de estimação da minha parceira? Ela está bem aonde você deixou, dentro de casa e intacta, minha querida.

Alice desconsiderou aquelas provocações que punham em risco sua imagem, e entrou furiosa em casa, querendo pegar logo Sam e sair dali o mais rápido que seus passos permitissem, mas Gordon a seguiu, parecendo um segurança de loja que desconfia de um cliente mal intencionado.

— Você está encrencada, Alice! – avisou friamente.

— Eu já disse, não tenho nada a ver com esse idiota, tudo isso não passa de um de seus joguinhos sujos para me incriminar, você não percebe?

Ela avistou a samambaia e de imediato começou a analisá-la cuidadosamente, verificando que, de fato, a bela planta estava intacta. Pelo menos isso...

O Comissário manteve seus olhos fixos em Alice, procurando por qualquer indício de traição em seu rosto, e por fim disse:

— Não me pareceu que você estava sendo obrigada a beijar Coringa. Essa é uma explicação que ainda vou fazer questão de ouvir!

“Merda! Mais essa agora...”

— Eu vou dar todas as explicações que quiser, Comissário, mas isso não é hora nem lugar para esse tipo de coisa. Com licença!

Ela passou pela porta, enfurecida, com Gordon ainda em seu encalço.

Surpreendeu-se ao ver Batman caído no chão, sem qualquer sombra do Palhaço. Alice correu até o Morcego, ainda arfando sem saber o exato motivo.

— Cadê ele?

— Fugiu! – Batman levantou-se com dificuldade – Mas não se preocupe, eu o encontrarei, e desta vez ele será preso. Gordon, leve Alice de volta para a Mansão Wayne, aqui não é seguro.

— Eu não vou voltar! – protestou – Chega dessa loucura.

— Você não pode ficar aqui, não com o Palhaço ainda solto.

— Não me interessa! Eu cansei de ser uma marionetezinha nas mãos de vocês. Vou ficar bem aqui, e pela manhã eu só volto na mansão para buscar meus cachorros. Sinto muito se eu não correspondi aos seus planos de capturar o Coringa, Morcegão, só isso importava para vocês, não é? Prender o Bozo era tudo o que valia, e que se exploda a garota. Pra mim já deu!

Batman a olhou, parecendo entristecido.

— Foi um erro permitir que você viesse sozinha, mas eu me preocupei com a sua segurança, Alice. Não duvide disso.

— Vá contar essa história a alguém que acredite ou que se importe! Agora vocês podem ir embora, eu quero ficar sozinha.

Antes de sair, Gordon ainda sussurrou na direção da mulher:

— Isso ainda não acabou!

— Ah, vai se barbear e me deixa em paz! – grunhiu, farta de tudo e de todos.

Ela entrou em sua casa e bateu a porta num estrondo, sem esperar pela resposta de nenhum deles, e bufando de raiva.

— Esse palhaço me paga, vamos ver quem ri por último... – Mesmo irritada, Alice acabou rindo com aquele mero comentário... Coringa sempre riria por último, o sorriso estava marcado em seu rosto permanentemente.

A momentânea espiritualidade da hippie partiu no instante seguinte. Ela sabia que tinha pouquíssima chance de enfrentá-lo... Mesmo conhecendo superficialmente o psicopata com sua breve convivência, Alice era capaz de enxergar que ele sempre estava um passo à frente e sabia manipular como ninguém, e agora com certeza sabia que tinha uma arma poderosa contra ela. Ele podia destruir sua sanidade a qualquer momento com aqueles joguinhos, e o pior...

...Alice ansiava por isso!

Notas finais
Fazia tempo que eu não escrevia, espero que esse capítulo esteja bom o suficiente para justificar a demora... Adoro a opinião de vocês, por favor, não deixem de comentar! Beijoos! ;)