Notas iniciais
Obrigada àquelas pessoas que ainda aturam tão pacientemente os meus delírios nessa fanfic! x]

Alice mantinha-se estática, esforçando-se em entender e digerir todos os acontecimentos da noite, principalmente no que dizia respeito à presença de Coringa – e todos os sentimentos confusos que preencheram sua cabeça a cada toque trocado, tão perturbadoramente confusos que ela se sentiu a própria “Alice no país das maravilhas” –, porém, por mais que se esforçasse, não obteve sucesso em conseguir uma explicação plausível para o rumo que sua vida insistia em tomar.

Tudo estava virando um jogo de xadrez perigoso e fora de controle, mas Alice não conseguia sequer cogitar a hipótese de abandonar o tabuleiro, até porque, pelo pouco que estava entendendo de Coringa, ele não a deixaria sair enquanto ele mesmo não desse o Xeque Mate.

Desde o encontro com o Palhaço, ela nem mesmo conseguiu pregar o olho, ficou apenas recordando a sensação de não ter domínio nenhum de seu próprio corpo, de perceber a si mesma dominada por cada capricho daquele homem, sem saber ao certo em que medida isso a assustava ou fascinava.

– Talvez eu deva sair da cidade, antes que tudo isso fuja ainda mais do meu controle... – lembrou-se do largo sorriso do Palhaço ao admitir que intencionava matá-la, e sentiu um arrepio passear ao longo de seu corpo, um tremor que curiosamente não se associava a medo, mas sim uma ansiedade doentia pelo próximo encontro, e aquele sentimento sim a assombrava.

– Maravilha! Agora fiquei maluca de vez! – disse com raiva, começando a criar consciência de como estava beirando a insanidade com aqueles pensamentos. Passou as mãos ao longo do rosto, segurando com firmeza algumas mechas do próprio cabelo – Eu quero me encontrar com um criminoso que pretende me matar...

Olhou para sua samambaia e disse:

– Você tem sorte por ser uma planta, Sam. Os humanos são idiotas demais...

Já estava quase amanhecendo quando a hippie resolveu sair de dentro da casa para tomar um pouco de ar fresco, e quem sabe conseguir despistar todos os estranhos sentimentos que a acompanhavam e pareciam cada vez mais querer fazer parte dela... Nunca se sentiu tão sufocada dentro de seu próprio lar, e tal sensação beirava a claustrofobia. Mas havia nela a suspeita de que essa pressão extra em seu peito não tinha relação alguma com a falta de espaço...

No instante em que ultrapassou a porta, pulou de susto ao ver quem estava na sua frente, parado feito uma perfeita estátua negra, iluminada pelos primeiros raios tímidos da manhã.

– AH! – o grito escapou pela extensão de sua garganta antes que ela pudesse controlá-lo – Pelo amor de São Longuinho, hoje é mesmo meu dia de ver assombrações...

Batman a fitava inexpressivo, e o tom de voz que usou para fazer aquela pergunta denunciava a intensidade de sua desconfiança, e ao mesmo tempo a incredulidade pela cena que havia presenciado horas atrás.

– Qual a sua relação com o Coringa? – sua ameaçadora voz carregava algo a mais, algo que Alice não compreendeu de imediato.

A hippie fixou seus olhos nos dele, séria.

– Nós somos sócios em um circo! Ele é o palhaço e eu sou a domadora de morcegos. Arquitetamos esse encontro para te atrair até aqui e prendê-lo à força no picadeiro, assim ficaríamos ricos quando o mundo inteiro pagasse para ver essa sua cara estúpida. Já até fizemos o letreiro: “O homem que queria ser morcego”. E aí, o que vai fazer agora que sabe da terrível verdade?

– Você não devia encarar um assunto dessa seriedade com infâmias – Batman a repreendeu.

– E você devia aceitar que não é um mamífero voador – Alice rebateu, encarando-o com uma profundidade perturbadora. Se pudesse expressar o quanto estava farta...

– Você nunca se cansa disso? – era possível sentir a raiva e a frustração tingindo a rouquidão de sua voz.

– Pra falar a verdade, não. Acho bem relaxante tirar uma da sua cara, e ultimamente é uma das poucas coisas que tem me dado prazer.

O Cavaleiro das Trevas encarou um ponto além de Alice, como se vislumbrasse uma cena triste que apenas seus olhos eram capazes de assistir. Por fim pareceu desistir de tentar manter uma conversa séria e civilizada com a mulher, por isso permitiu-se ir direto ao ponto, tentando desvendar a incógnita que havia se instalado nas últimas atitudes da hippie.

– Por que você quis se encontrar a sós com Coringa? – lançou a pergunta que, após a cena presenciada, ganhara um novo e brutal significado.

– Tudo bem, eu assumo! – ergueu as mãos em rendição, com os olhos em brasa – Ele me pediu umas dicas de maquiagem, então achei melhor chegar antes e me encontrar sozinha com ele para contar meus segredos. Sabe, reunião exclusiva de garotas. Você está convidado para a próxima, se quiser. Podemos fazer uma festa do pijama, aí eu pinto suas garras e...

– Chega de zombarias, Alice! – ele a interrompeu – Eu preciso saber o que está acontecendo entre vocês para ser capaz de te proteger.

Alice riu com frieza, e sua voz transbordava sarcasmo.

– Acha mesmo que eu vou cair nessa? Por acaso eu tenho cara de ser “amiga do Zorro”? Todo esse papo de querer me proteger já deu o que tinha que dar, de verdade. Nem um zigoto acreditaria nisso, então, por favor, me poupe desse sermão. Já não basta aquele bigodudo metido a Flanders pegando no meu pé...

Alice de repente se sentiu tonta, e uma fraqueza se alastrou rapidamente pelo seu corpo, como se estivesse o tempo todo lá, apenas esperando um momento oportuno para se manifestar – Há quanto tempo ela estava sem dormir e sem comer? – Juntando tudo isso ao seu organismo já debilitado e desregulado pela tensão daqueles últimos dias, Alice perdeu completamente o seu ponto de equilíbrio, e começou a sentir que caía em câmera lenta, indo de encontro ao chão. Porém, o Morcego foi mais veloz à queda e, com movimentos rápidos, a segurou, impedindo que a gravidade cumprisse o seu intuito.

– Você está bem? – rosnou, mantendo-a firme em seus fortes braços.

“Pergunta idiota...” – Alice não pôde deixar de pensar.

– Não... Posso sentir a rotação da Terra nesse exato momento – tudo parecia girar de modo violento em volta da riponga, seu corpo visivelmente reclamava pelos maus tratos recentes, e o sangue pareceu fugir de seu rosto extremamente lívido.

Alice olhou para o Cavaleiro das Trevas, percebendo que, além de todos os infortúnios pelos quais passava, ainda estava com visão dupla. Ao ver o segundo Batman, resmungou raivosa.

– Ninguém merece, um Morcego só já é bastante irritante, que dirá dois...

– Você está com uma cara horrível...

– Muito obrigada! Mais uma dessas e você corre o risco de que eu me apaixone...

Amparando firmemente a cintura de Alice – coisa que não a agradou nem um pouco, já que o gesto a fazia parecer e se sentir vulnerável, porém não reclamou, pois sabia que não conseguiria andar sem ajuda naquele momento –, Batman entrou na casa e colocou-a delicadamente sobre o sofá, sem sequer ameaçar desviar os olhos atentos de seu rosto abatido.

– Você precisa descansar! E comer algo...

– Eu até te ofereceria alguma coisa, mas infelizmente o meu estoque de sangue já acabou – deu-lhe um sorriso ligeiramente perverso.

O Morcego encarou-a por um segundo que mais pareceu uma eternidade. Ao perceber o olhar inquisidor que não se desviava de si, Alice suspirou, impaciente.

– O que foi? – perguntou aos “dois Batmans”. A visão dupla ainda se mantinha teimosamente presente, porém sem dúvida mais atenuada.

– Eu posso confiar em você, Alice? Posso acreditar que não está envolvida com o Palhaço? – A pergunta soou como uma súplica, e Alice viu novamente a tristeza percorrer seus olhos. De repente entendeu o que o afligia, por mais estranho que tal pensamento soasse em sua mente; ele parecia não querer usar seus métodos convencionais de interrogatório. Alice sorriu ainda mais largamente com aquela intuição.

– Você sempre tem meios muito úteis de descobrir o que quer, não é mesmo? Por que não os utiliza comigo? Está evitando me torturar, senhor Morcego? E se eu realmente for a parceira de Coringa, você vai correr o risco de sentir compaixão pela mulher que salvou a vida do criminoso e que possivelmente pode ser sua cúmplice?

Bingo. Alice percebeu ter tocado numa ferida aberta de Batman... Ele demonstrava não querer machucá-la, contudo acabaria seria obrigado a fazê-lo se ela não colaborasse de modo espontâneo. Ela riu, entendendo a aflição do Cavaleiro das Trevas, por mais estranha que fosse. E depois de rir, um brilho perverso depositou-se fundo em seus olhos assim que voltou a atacá-lo.

– Sinceramente, você é muito pior do que o Coringa. – disse, olhando fundo em seus olhos, movida apenas pela vontade de afetar aquele homem de alguma forma – Ele ao menos escolheu um lado, não teve medo de assumir que é um vilão. Já você... – fez uma pausa antes de continuar – Tenta ser herói agindo como criminoso, caminha sempre às margens das leis que quebra, não mede esforços nem sofrimento alheio para conseguir o que quer.

Vendo que Batman em momento algum se defendia, Alice continuou, aproveitando aquela ilustre aparição para despejar acusadoramente tudo o que pensava. Estava sendo revigorante desabafar, mesmo sabendo que poderia ter de enfrentar duras consequências posteriormente.

– Você é a verdadeira pessoa a ser temida. Nunca sabemos quando agirá como o vilão ou como o herói! Esconde-se atrás dessa máscara para fazer o que bem entende e tenta combater o crime de forma mais vil do que os próprios criminosos. Isso soa muito hipócrita, sabia? Escolha logo um lado, ao invés de ficar vagando em cima do muro e se valer de um conceito deturpado de pseudo-justiça, que criou unicamente para justificar suas próprias atrocidades.

Alice fechou os olhos com força e se encolheu em seu próprio corpo, esperando pela pancada que certamente viria em sequência, pronta para sofrer os efeitos daquelas palavras duras que proferiu de modo tão delator. Porém a dor não veio, o que intrigou a hippie.

– Não vai me bater? – perguntou abrindo um dos olhos.

– Pode parecer estranho para você a forma como eu ajo, mas eu não machuco inocentes, ou pelo menos faço o possível para protegê-los...

– Muito nobre de sua parte, mas ainda posso ver você mudando completamente para o lado negro da força! – ela o analisou de cima a baixo – Você é quase um Darth Vader...

– Não tenho tempo para discutir minhas motivações, só quero saber se posso confiar em você.

– Lógico que não, seu tonto! – Batman pareceu surpreso com a resposta – Eu estou envolvida com Coringa até o pescoço. Ou você se esqueceu de que provavelmente eu estou no topo de sua lista negra e sou a próxima a morrer?

– Isso não vai acontecer, não se preocupe.

– Muitas coisas já saíram do seu controle, Morcegão, não prometa o que não pode cumprir.

Os objetos já haviam parado de girar sozinhos, e Alice aos poucos foi recobrando seu equilíbrio, conseguindo finalmente sentar-se no sofá e ver apenas um Batman à sua frente.

– Por favor, se não for me torturar para descobrir se eu sou ou não a “Garota Coringa”, vá embora! – pediu, ainda com uma frieza atípica envolvendo suas feições enrijecidas – Você mesmo disse que eu preciso descansar.

Batman assentiu, apesar de um pouco relutante, e dirigiu-se até a porta, parando para prestar atenção em Alice uma última vez e dizer:

– Vou ficar de olho em você.

Antes que ele pudesse sair, Alice perguntou, mais interessada do que gostaria de expressar:

– Você conseguiu capturar Coringa?

Ela soube a resposta antes mesmo de ouvir.

– Não – disse curto e grosso –, mas ainda estou procurando, e não pretendo desistir da busca.

Batman sumiu na escuridão que já se transformava em luz com os primeiros raios de sol, e Alice não soube identificar se aquela despedida havia sido uma ameaça ou uma tentativa de tranquilizá-la.

– Acho que se eu ainda estiver viva quando tudo isso terminar, vou fazer um seriado de TV chamado “Todo Mundo Odeia a Alice”, com certeza ganharia muito dinheiro! – dizendo isso, acariciou uma folha de sua samambaia, distraidamente, suspirando com olhos entristecidos conforme se permitia analisar a própria situação – Posso até imaginar a música de fundo: “Everybody hates hippies...” – ela cantarolou baixinho.

Olhou para Sam mais uma vez, agora intrigada.

– Por que será que o Morcegão quis me poupar da dor? – Franziu a testa, nitidamente confusa com as palavras que acabara de pronunciar, e mais confusa ainda quando se lembrou de, de certa forma, reconhecer o olhar do Cavaleiro das Trevas, ainda que este fosse inexpressivo. – Deve ter alguém fazendo uma macumba muito forte pra mim, viu...

– Eu te avisei, senhor – Alfred já tinha perdido a conta de quantas vezes havia verbalizado aquelas três primeiras palavras ao seu patrão.

Bruce removeu a armadura de Justiceiro Mascarado, deixando à mostra os inúmeros hematomas que havia colecionado com suas saídas noturnas, e o Mordomo começou a costurar um ferimento no seu ombro, aberto pelo Palhaço quando conseguiu fugir.

– Você estava coberto de razão, Alfred. Eu coloquei Alice num perigo ainda maior – disse balançando levemente a cabeça, tentando negar cada realidade que fazia questão de apunhalar sua mente através das lembranças – Quando eu cheguei lá... – ele parou de falar ao recordar a cena nítida – ... eles estavam se beijando, Alfred – finalmente conseguiu pronunciar aquelas palavras em voz alta, e a sensação de ouvi-las foi terrível, como se dizê-las fosse o mesmo que concretizar o desprezível fato.

O Mordomo parou o que estava fazendo e pareceu preocupado com aquela informação.

– Mas certamente ele a forçou a isto, não?

– Sim... Ou não. Pode ser. Eu ainda não estou certo de nada... – Bruce parecia desconcertado, quase não falando coisa com coisa – Eu não sei até que ponto posso considerar essa possibilidade, e é essa dúvida que corrói. Eu prefiro acreditar que ela é inocente, mas... – deixou a conclusão no ar, nunca antes se sentindo tão confuso quanto a alguém.

Bruce não tardou a contar ao fiel mordomo toda a história desde o momento que havia chegado – incluindo sua reação inesperada de ódio desmedido ao presenciar o beijo – até a fuga do Palhaço.

Alfred voltou a perfurar o ombro de Bruce com a agulha, enquanto tentava tranquilizar o patrão com meias verdades.

– Criminosos como o Coringa não são fáceis de compreender, patrão Bruce. Nem sempre é possível negociar com eles, e tudo o que querem é ver o circo pegar fogo, e foi exatamente isso que o Palhaço fez esta noite. Tenho certeza de que a senhorita Alice foi mais uma vítima da manipulação dele, principalmente por desconhecer sua fama de bom estrategista.

– Espero que você tenha razão...

Um vinco formou-se na testa idosa de Alfred, e este fingiu ofensa.

– Após todos esses anos trabalhando na Mansão Wayne, já era de se esperar que o senhor soubesse que eu sempre tenho razão!

Os dois riram, enquanto o Mordomo ocupava-se em partir a linha da agulha, terminando finalmente de costurar a ferida. Assumindo um semblante sério novamente, deu um novo aviso a Bruce, enquanto ele vestia uma camisa branca e caminhavam em direção à saída do esconderijo:

– Agora o senhor sabe que a senhorita Alice corre um sério perigo com Coringa, não sabe?

Bruce pareceu desconcertado, e encarou o mordomo com o cenho fortemente franzido em sua evidente confusão.

– Ela já estava, Alfred, desde o dia em que começou a cuidar de seu ferimento.

O Mordomo sorriu, percebendo que não se fez claro na sua colocação.

– Agora a situação é muito mais séria, senhor. Antes dessa noite, o Palhaço almejava somente se vingar da senhorita Alice, apenas lhe dar um susto, ou mais provavelmente matá-la, e enquanto não passasse disso seria mais fácil protegê-la. Mas depois dessa noite... – Alfred hesitou, sentido pelo o que estava prestes a dizer – Se Coringa percebeu que ela significa alguma coisa para Batman... Bom, ele não vai contentar-se com uma mera vingança despropositada. Vai tentar de todas as formas atingir o senhor através dela.

Bruce ficou chocado com aquela lógica, sabendo que mais uma vez o mordomo estava coberto de razão em seus argumentos lineares. Foi quando se deu conta de algo que já estava evidente dentro dele, mas que só notou agora.

– E ele vai conseguir... – disse aquela frase mais para si mesmo, coçando o alto de sua cabeça num gesto perturbado, os olhos negros agora tingidos de receio.

– Como disse, patrão?

– Ele vai conseguir me atingir... – explicou, ainda um pouco aéreo – Eu estava muito confuso com relação à Alice, mas depois de ver o Palhaço e ela... – não conseguiu terminar a frase, o asco o impedindo de tal feito – Eu acho que gosto dela, Alfred. Não como gostei de Rachel, nem chega perto, mas pela primeira vez consigo me imaginar com outra pessoa.

– Já pode-se julgar este um ótimo começo, Mestre Wayne! – Alfred disse, oferecendo um de seus sorrisos simpáticos, satisfeito pelo que ouvira.

– Como eu pude arriscar a vida dela com tamanha imprudência? Fiz tudo o que fiz e nem ao menos fui capaz de prender Coringa...

– De nada adiantará se culpar agora, patrão Bruce. O importante é zelar pela segurança de Alice, e manter os olhos bem focados para qualquer tentativa de aproximação do Palhaço.

Bruce encarou o Mordomo, parecendo bem humorado.

– Sabe, Alfred, estou começando a desconfiar seriamente de você... Você desvenda muito bem a mente sádica de Coringa! Quem me garante que não é você que anda se vestindo de palhaço por aí nas horas vagas? Afinal, é de praxe que a culpa seja sempre do mordomo...

Alfred sorriu, sem perder a compostura ao respondê-lo com seu tom sempre calmo.

– Não precisa se preocupar, patrão. Eu não teria paciência de fazer e desfazer aquela maquiagem todas as vezes que saísse para atormentar a cidade. Sem contar que, se eu fosse o Coringa, já teria acabado com o senhor há tempos! – disse ainda sorrindo.

– Eu só não o demiti ainda porque adoro seu chá, você sabe disso, não?

– Certamente! Por esta mesma razão eu nunca ensinei ao senhor como fazê-lo – sorriu.

O motorista da mansão entrou no aposento, interrompendo a espirituosa interação entre os dois e anunciando o que foi a melhor notícia do dia para Bruce.

– Senhor Wayne, a Doutora Alice está aqui e pediu para vê-lo.

Perto dali, Alice esperava impacientemente na estonteante entrada da mansão, rezando para que Bruce a recebesse logo e ela pudesse ir para casa – tentar – adormecer. Não conseguia esse luxo há bastante tempo, e sabia que teria dificuldade para descansar quando finalmente se dispusesse a isso. Ainda mais com o turbilhão de pensamentos regendo sua mente a lugares não muito agradáveis.

Avistou Bruce se aproximando com um enorme sorriso iluminando seu rosto. Quando chegou perto o suficiente, disse:

– Bom dia, fugitiva! Pensei que não voltaria mais...

Alice reparou de imediato em seu semblante cansado, parecia que, assim como ela, ele não dormia há um bom tempo. Sem querer prolongar a visita, apenas disse:

– Desculpe o incômodo, eu só vim buscar meus cachorros e já vou. E também quero aproveitar para saber quanto eu te devo pelos estragos do Satanás...

– Você me deve uma segunda chance...

Ela analisou aquela expressão de “gatinho de botas do Shrek” sem se convencer em segundo algum da credibilidade de suas intenções. Como a hippie prolongou o silêncio, Bruce disse:

– Eu sei que você está brava por conta da noite passada...

Alice o interrompeu, o próprio orgulho ardendo a fundo em seu íntimo, como se ele a queimasse a ferro:

– De jeito nenhum, eu não tenho nada a ver com o que você faz ou deixa de fazer... – a mágoa na sua voz traiu a credibilidade do que dizia, tamanha a confusão que havia se instalado em si – Enfim, só quero retomar minha vida da onde parei, e não tem espaço pra mais ninguém nela, não depois de toda essa confusão.

– Eu te devo uma explicação, Alice. Prometi que não a machucaria, lembra?

– Como podia me esquecer? Você foi o cara que conseguiu quebrar essa promessa mais rápido do que qualquer outro, meus parabéns, aliás... Espero que pelo menos a noitada tenha valido a pena! Estou te devendo uns belos golpes de Kung Fu, seu Almofadinha!

Bruce riu, apesar da acusação.

– Alice, você vai ter que confiar em mim! Eu não tive a menor intenção de fazer você pensar que eu estava “na noitada”.

– Eu sei que não! Você esperava que eu engolisse alguma desculpa escrota, como parece empenhado a fazer agora.

– Me deixe explicar antes de tirar alguma conclusão.

– Sou toda ouvidos – arqueou uma sobrancelha, esperando pela explicação que ela sabia que não ia convencer.

Alfred chegou ao local nessa hora, e Alice voltou sua atenção ao mordomo, sorrindo em cumprimento. Ele retribuiu o sorriso.

– Bom dia, senhori.... Alice – corrigiu a tempo, fazendo a afeição se alastrar junto ao sorriso que abria.

– Bom dia, Alfred! Como os meus pestinhas se comportaram enquanto eu estive fora?

– Bem até demais, eu diria. Aposto que sentiram sua falta.

– Alguém tem que sentir, não é? – riu – Por isso que sempre vale a pena ter a companhia de animais, eles são totalmente sinceros com seus sentimentos – fitou Bruce de soslaio, sem se preocupar em disfarçar o olhar indiscreto e ferido que lançou ao Bilionário.

– Eu vou trazê-los aqui para a senhorita. – Alfred saiu, de modo a permitir que os dois continuassem a conversa, percebendo que havia chegado numa péssima hora.

– Obrigada, Alfred!

Quando os dois ficaram outra vez a sós, Alice olhou novamente para Bruce, parecendo bem menos tolerante agora.

– Pode começar, senhor Wayne – disse com sarcasmo.

Ele segurou sua mão, acariciando-a. Alice rompeu o contato, afastando suas peles bruscamente. Bruce suspirou, e começou a falar, tentando ser o mais honesto possível.

– Lembra que quando você chegou aqui, me colocou contra a parede, dizendo que não aceitaria ficar hospedada na mansão por muito tempo?

Alice assentiu, sem se dar ao trabalho de responder com palavras.

– No momento em que você impôs essa condição, eu sabia que não conseguiria protegê-la. Sabia que não haveria tempo suficiente de capturar Coringa nesse pequeno prazo, e que no instante em que você fosse embora daqui, correria sério perigo.

– Continue – Alice o encorajou, parecendo um pouco mais disposta pela história.

– Então eu fiz a única coisa que consegui pensar para ajudá-la. Eu sabia que não seria capaz de mantê-la aqui pelo tempo necessário, por isso decidi que o melhor a fazer era buscar ajuda com a polícia de Gotham e Batman.

Alice estava começando a encaixar as coisas, ela era obrigada a admitir que aquele ângulo que Bruce lhe elucidava fazia sentido.

– Então foi por isso que o Batman e o Comissário vieram aqui sabendo que eu ajudei Coringa... – deduziu, conseguindo perceber os fatos com maior clareza.

– Sim. Me perdoe, eu não tinha a intenção de envolver você mais ainda nessa história, mas não teve outro jeito, precisava arrumar uma forma de capturar o Palhaço antes que você resolvesse partir.

– Mas e depois que você conseguiu a ajuda deles, por que não voltou para a mansão junto com os dois? – perguntou, ainda desconfiada.

Agora ele teria que contar uma pequena mentira, mas estava satisfeito por ter conseguido falar várias verdades sem revelar o maior de todos os seus segredos.

– Eu tive que ficar na delegacia para depor, e essas coisas demoram – Alice o encarava, ainda em dúvida – Fiquei preocupado com você! – Bruce colocou uma mecha solta do cabelo de Alice atrás de sua orelha – E então, será que eu não sou digno desse voto de confiança?

– De jeito nenhum! – disse, embora sua feição já se suavizasse e um sorriso discreto aparecesse em seu rosto – Você vai ter que fazer por merecer para reconquistar minha confiança, meu bem!

Bruce arqueou uma sobrancelha, adotando um tom de falsa ameaça.

– Não se esqueça de que eu ainda estou em posse dos seus cachorros, senhorita!

– Oh! – levou a mão ao peito, fingindo uma ofensa exagerada – Está chantageando uma pobre moça indefesa, senhor?

– Apresente-me a moça indefesa, e quem sabe... – disse rindo.

– Mas que audácia... – meneou a cabeça em reprovação.

O Bilionário pegou Alice de surpresa ao envolvê-la num gentil aperto, e dessa vez ela não recusou o toque, correspondendo àquele abraço que a fazia sentir totalmente protegida e segura. Talvez esse fosse o caminho certo para se livrar do domínio doentio que Coringa tinha exercido sobre sua sanidade e que tanto a assustara... Bruce poderia se tornar para ela uma espécie de “Bozóticos Anônimos”, e quem sabe até mesmo livrá-la aos poucos de sua nova condição, desfavorável em cada mínimo aspecto.

Bruce sussurrou junto ao seu ouvido ao mesmo tempo em que mordiscava o lóbulo solto de sua orelha.

– Fica comigo, Alice!

– E eu não estou com você...? – falou rindo.

Alice sentiu um sorriso enviesar o rosto do Bilionário, e não pôde deixar de sorrir também ao imaginar aquela expressão.

– Mas não oficialmente. Estou te pedindo em namoro, Doutora Romanov! – Ele se soltou parcialmente do abraço, apenas o suficiente para testemunhar a reação da hippie, ainda mantendo o sorriso estonteante no rosto.

Isso de fato surpreendeu Alice. Bruce Wayne – o maior galináceo da história de Gotham – demonstrando querer algo sério, ou pelo menos fingindo estar interessado... Ela o encarou embasbacada, sem saber o que responder. Estava confusa, como se um pane tivesse danificado seu cérebro ainda mais. Bruce voltou a falar e Alice começou a organizar novamente sua cadência de pensamentos, buscando por alguma reação coerente que não fosse aquela repentina paralisia que a fazia parecer ridícula na situação em questão.

– Então eu acabo de deixar a hippie mais abusada da história de Gotham City sem palavras? – gabou-se com um sorriso esnobe de triunfo.

– Você precisa comer muito arroz com feijão pra me deixar sem palavras, Maricas. Eu só estou analisando minhas alternativas... – dizendo isso fez uma pausa, parecendo pensativa – Estou confusa entre me tornar freira ou aceitar seu pedido!

– Nenhum convento te aceitaria, eles têm uma reputação a prezar, sendo assim, só lhe restou a segunda opção! – Brincou, sentindo-se descontrair com cada riso que sempre se associava àquela companhia que vinha lhe fazendo tão bem.

– Quando foi que você ficou tão abusado, senhor Wayne?

– Acho que esse comportamento se associa às minhas atuais companhias... – disse, bem humorado – Mas não se esquive do assunto. Qual é a sua resposta?

– Eu tenho que resolver uma... questão pendente antes de saber o que responder – Alice disse, um pouco misteriosa e cheia de cautela, porém decidida, e Bruce não pôde deixar de arregalar os olhos de surpresa. Ele estava acostumado a ser assediado por todas as mulheres que quisesse, mas com Alice era sempre diferente, ele tinha que correr atrás.

– Pode pensar o tempo que quiser – Bruce parecia conformado, apesar de um repentino temor se fazer presente com a resposta evasiva –, e quando tiver a sua resposta me procure, está bem? – passou a mão pelo rosto de Alice, carinhosamente – Você não quer mesmo continuar hospedada aqui? Juro que não vou me aproveitar da situação!

Ele abriu um sorriso malicioso que fez Alice cair na risada, e desejou, para a sua surpresa, sempre poder contar com a companhia agradável de Bruce, mesmo que fosse apenas para serem amigos. Ela nunca conseguiria agradecer por tudo o que ele havia feito até então para protegê-la.

De repente teve seus pensamentos interrompidos por seis pequenos filhotes, que vieram correndo em disparada lhe dar as boas vindas, todos com a língua pendendo para o lado por conta do cansaço que o arranque da corrida provocou. Alice se agachou, sorrindo para eles e revezando carinhos atrás dos seis pares de orelhas. Capitu andava devagar em sua direção, e Alice reparou que ela não mancava tão intensamente como antes.

– Obrigada por cuidar deles, Bruce. E Alfred também, claro! – sorriu para o mordomo que acabara de chegar, junto com os cachorros.

– Foi um imenso prazer, Alice – Alfred retribuiu o sorriso, cada vez mais afável.

– Bom, acho que eu preciso levar os demoniozinhos para casa agora! – voltando-se para Bruce, perguntou – Posso usar seu telefone para chamar um táxi?

– Lógico que não. Eu faço questão de levar vocês.

– Não precisa, Bruce, você está com a cara mais cansada do que a minha – deu um soco em seu ombro, no mesmo lugar costurado por Alfred há pouco tempo, e percebeu o breve gemido de dor que ele soltou – Caramba, eu nem bati tão forte assim...

– Não... claro que não! – tentando desviar o assunto, temendo levantar suspeitas, disse: – Eu levo vocês. Vamos.

– Prefiro chamar um táxi. Assim eu posso resolver de uma vez aquela... coisa pendente de que lhe falei!

_ Eu deixo os cachorros na sua casa e depois te levo para resolver esse assunto misterioso!

– É que eu prefiro fazer isso sozinha – tentou explicar, mas sem saber exatamente como o faria sem se complicar com o Empresário.

Bruce sentiu-se ligeiramente incomodado com aquilo, mas tentou não deixar sua desconfiança transparecer.

– Tudo bem, então. – disse, educado e cedendo ao desejo da mulher – Eu levo os pestinhas para sua casa e você fica livre para fazer o que tem que fazer. E eu não aceito um não como resposta – ele adiantou-se ao perceber que Alice ameaçava protestar – Vai ser bom pra mim, eu aproveito para me despedir deles no caminho.

– Já que insiste... – não teve argumentos melhores, e por fim cedeu – Obrigada por tudo, Bruce.

Despediu-se dele dando mais um longo e forte abraço, adorando a sensação protetora que ele lhe proporcionava. Passeou os dedos de forma suave pelos sedosos cabelos negros do empresário, permitindo-se perder por um instante naquela reconfortante posição. Quando finalmente se afastaram, foi a vez de Alfred abraçá-la.

– Adeus, Alfred! Espero que me convide para tomar mais um daqueles chás...

– Será sempre bem-vinda, Alice!

Virando-se para os cachorros, Alice despejou algumas instruções, tentando parecer séria e no comando da situação:

– E vocês, capetinhas, tratem de se comportar no carro do Bruce. Aprontem o que quiserem com ele, mas deixem o carro intacto, se não a mamãe vai à falência!

Acenou mais uma vez antes de sair da mansão, e quando sumiu de vista, Bruce apressou-se a colocar os cachorros dentro de seu carro, se perdendo em devaneios.

Começou a dirigir a caminho da casa de Alice, e depois daquele encontro, somente uma pergunta atormentava os recantos mais paranoicos de sua mente, ferindo-a...

“Será que essas pendências que Alice precisa resolver têm alguma relação com Coringa?”

Notas finais
É isso aí, mais um capítulo! Espero que não se cansem da fic, que eu sei que é meio esquisitinha, mas me traz muitas sensações boas, por isso não consigo parar de escrevê-la! Beijoos a todos, e por favor, façam essa pseudoautora mais feliz com reviews! ;)