Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
31 O Dom Do Ostracismo – Parte I
Notas iniciais
A fuga de Logan e Alice de Arkham foi muito mais fácil do que ela imaginou. Os corredores do manicômio estavam estranhamente desertos, era como se os vigias simplesmente tivessem evaporado para algum tipo de realidade paralela... Parecia que finalmente o universo conspirava ao seu favor, abençoando-a com pelo menos aquele momento de sorte.
Afastaram-se do prédio em silêncio, com passos apressados, completamente focados e concentrados no objetivo de se ver longe daquele presídio disfarçado de hospital psiquiátrico. Alice simplesmente não acreditava que finalmente iria se livrar de todas as paredes brancas e irritantes, além de toda a loucura contagiante daquele lugar! Logan a conduziu até uma bela Mercedes prata que estava estacionada estrategicamente dentro das dependências de Arkham, e os dois entraram no automóvel em completo silêncio, como se ainda temessem a possibilidade de serem flagrados.
Qualquer ruído era capaz de fazer com que uma pequena corrente elétrica percorresse o corpo assustado de Alice. A paranoia estava tatuada em seu rosto, e até mesmo o ronco suave do motor foi amplificado com potência naquela noite muda, fazendo com que a hippie pulasse de susto no luxuoso banco de couro da Mercedes.
Somente quando o automóvel se afastou três quarteirões do manicômio, Alice conseguiu expelir o ar que estava travado dentro de seus pulmões em um sonoro suspiro de alívio, sentindo, ao mesmo tempo, que cada perímetro de seu corpo relaxava gradativamente, e somente quando a tensão se esvaiu totalmente de seus ombros, ela percebeu o quanto eles estavam doloridos pelo esforço inconsciente de travá-los.
– Não precisa se preocupar, Alice. Nós conseguimos – Logan comentou, triunfante, percebendo que a hippie massageava com vontade a curva de seu pescoço.
– Você não acha que tudo fluiu fácil demais? – perguntou baixinho, como se pudessem estar sendo observados ou ouvidos – a gente não topou com nenhum vigia, segurança, ou qualquer coisa assim... – Alice curvou as sobrancelhas ao ver um sutil sorriso travesso se formando no rosto de Logan – Meu Deus, você matou todos eles? – sua voz saiu histérica e seus olhos estavam levemente arregalados.
– Claro que não... – o médico riu.
– Já sei então! – Alice inclinou o corpo no banco de um modo que a permitisse encarar melhor o seu ex-psiquiatra – você fez um caminho de rosquinhas no chão até a sua antiga sala, e quando todos os aspirantes a policiais entraram lá, você trancou todos! Brilhante – a hippie elogiou, quase sem fôlego – mas você não acha que eles podem ter chamado a polícia?
– Por que você sempre tem que pensar na teoria mais esquisita? – Logan franziu a testa, ainda rindo – eu simplesmente subornei as pessoas certas...
– Ah... isso faz sentindo também! – concordou – mas seria mais divertido se você tivesse prendido os guardinhas no armário, ou qualquer coisa assim.
– Alice, tente esconder o seu rosto, está bem? – Logan mudou bruscamente de assunto, parando o carro em um posto de gasolina – melhor não arriscar que alguém te reconheça!
– Não se preocupe, eu sei ser super discreta! – ela elogiou-se enquanto posicionava o cabelo castanho na frente do rosto, parecendo uma versão hippie da Samara em ‘O Chamado’ – e então, o que acha do meu disfarce?
– Nós estamos ferrados! – Logan resmungou bem-humorado enquanto abria a porta da Mercedes – só por precaução eu vou trancar o carro! – avisou enquanto saía.
– Mas que ousadia! – reclamou consigo mesma enquanto via o médico se afastar em direção à bomba de gasolina.
A hippie endireitou as costas, de modo a ficar bem rente ao banco do carro, aconchegando-se o melhor que pôde. Sentiu que sua cabeça pendia teimosamente para o lado, deslizando suavemente pelo couro que a apoiava. Fechou os olhos por alguns poucos minutos, incapaz de resistir ao peso que suas pálpebras adquiriam, e concentrou-se em contar as arfadas de ar que puxava para dentro. Talvez assim a sua cabeça parasse de latejar... afinal, parecia que o pior finalmente havia passado!
Alice sentiu seus lábios se contorcerem em um sutil sorriso ao se dar conta de que finalmente estava livre. Mas aquele sorriso foi muito mais breve do que ela gostaria...
Alice abriu os olhos, assustada, ao ouvir fortes batidas na Mercedes, bem ao seu lado. Seu coração deu um salto incômodo dentro do peito quando os seus olhos captaram a imagem distorcida de Coringa através do vidro embaçado do carro, encarando-a com um sorriso letal e divertido. Fracas gotas de chuva começaram a cair, e um estrondoso relâmpago iluminou por alguns segundos aquela cena macabra.
E foi naquele breve instante em que o clarão do relâmpago cintilou no ambiente, que Alice viu que a mão esquerda do Palhaço segurava com força o cabelo de Logan, de um modo que o seu pescoço ficasse parcialmente retorcido para frente. A mão direita apareceu logo em seguida, e esta agarrava com força uma enorme faca pontuda, que ia em direção à garganta desprotegida do médico.
– NÃO! – Alice gritou, prevendo o que viria a seguir – LARGA ELE, SEU DOENTE! – Coringa gargalhou sonoramente diante dos berros inúteis da hippie, adorando cada pequeno traço de desespero que marcava o seu rosto desconsolado. Alice tentou a todo o custo abrir a porta do carro, mas a maçaneta sequer se movia... – está trancado – praguejou, sentindo os olhos começarem a marejar com intensidade – trancado... – repetiu, inconformada, procurando sem sucesso algum pela trava que abriria a Mercedes.
– Por que tão séria, Docinho? – a voz do Palhaço chegou baixa e abafada aos ouvidos de Alice – que tal um belo sorriso para animar o seu dia?
Para o completo desespero da hippie, Coringa encostou a ponta da faca na lateral do pescoço do médico – aonde se encontrava a sua veia jugular – sem desviar os olhos sádicos de Alice por um único momento, como se saboreasse vê-la naquele estado impotente e arrasado. Logan apenas fechou os olhos com força, esperando pelo inevitável.
Alice desistiu de continuar procurando a trava do carro, e começou a socar freneticamente o vidro molhado do automóvel, xingando-se por estar tão perto e mesmo assim ser incapaz de impedir a tragédia que estava prestes a acontecer bem ali, na sua frente.
– Já chega – sua voz saiu engasgada, quase inaudível em meio aos socos barulhentos que dava – Deixe-o em paz!
O Palhaço intensificou ainda mais seu sorriso doentio, aproximando o rosto do psiquiatra para que Alice pudesse vê-lo melhor em seus últimos momentos, e com um movimento rápido e preciso, rasgou profundamente a garganta de Logan, sem esforço algum, deixando um longo rastro vermelho pela sua faca. O enorme volume de sangue imediatamente tingiu de vermelho vivo a bela camisa azul do médico, e Alice ainda foi capaz de ver o momento em que a vida abandonou os olhos de Logan, deixando-os vazios, incompletos... para sempre...
– Não... – Alice posicionou a palma de uma das mãos no vidro frio, como se pudesse tocar o rosto gélido e pálido de Logan, sentindo que seus olhos começavam a arder intensamente e lágrimas grossas caíam pelo seu rosto, embaçando ainda mais a visão – você não... – soluçou, sem desviar a atenção da expressão mórbida de seu doce médico.
Alice quase havia se esquecido da presença do Palhaço, e ela somente se deu conta de que Coringa ainda estava ali, quando ele apertou o ferimento aberto, encharcando a própria mão com o sangue que escorria furiosamente da garganta de Logan. Com os dedos manchados de vermelho, Coringa desenhou um largo sorriso de sangue no vidro do carro, que se sobrepôs ao seu próprio sorriso enquanto o Palhaço encarava Alice com uma expressão de triunfo e fúria ao mesmo tempo.
O olhar de Alice ficou desfocado – perdido na imagem do rosto morto e ensanguentado de Logan – enquanto ela se culpava mentalmente por ser a responsável por tudo aquilo, ao som das gargalhadas de Coringa...
– Alice! Alice! – uma voz familiar a chamava em meio a vários cutucões – vamos, acorde, Alice! – Ela abriu os olhos bruscamente, sentindo que seu corpo tremia violentamente e um suor frio roubava o calor de sua pele. O rosto também estava molhado, mas não era por culpa da transpiração – você está bem? – a voz aveludada e preocupada de Logan foi como música para os ouvidos da hippie.
– Logan! – ela se jogou em cima dele para um abraço, e quase inconscientemente examinou o pescoço do médico com uma das mãos. Estava intacto, nada de cortes, sangue ou hematomas. Ela suspirou, aliviada, ao perceber que aquela cena horrível havia sido um sonho, uma piada de mau gosto de seu subconsciente. Alice ainda mantinha o abraço bem apertado, recusando-se a largá-lo. Sentir a pele quente e viva dele contra a sua era reconfortante, assim como saber que seus sinais vitais estavam em perfeita ordem.
– O que aconteceu? Você está tremendo...
Alice apoiou a cabeça junto à curva do pescoço de Logan, começando a chorar com intensidade, e em resposta ele apertou ainda mais o abraço, acariciando suavemente a sua nuca.
– Me desculpe – a hippie conseguiu dizer, entre os vários soluços que se intercalavam com sua voz chorosa – você não deveria estar aqui... nós não deveríamos estar aqui! – Alice afastou-se do abraço e analisou cada pedaço do rosto intrigado do psiquiatra, e a preocupação de reviver aquele sonho a arrebatou com tudo – você precisa se afastar de mim enquanto ainda pode...
– Do que você está falando? – Logan franziu a testa e pendeu a cabeça sutilmente para o lado, como uma criança que não entende algo complexo.
– Do Coringa – sua voz saiu mais baixa do que um sussurro, como se falar o nome dele em voz alta pudesse atraí-lo de alguma forma – ele vai me achar mais cedo ou mais tarde, aonde quer que eu tente me esconder, e se você estiver junto... – Alice não conseguiu terminar a frase, lembrando-se da nítida imagem da garganta dilacerada e do rosto extremamente pálido e sem vida do psiquiatra.
– Foi com isso que você sonhou? – ele perguntou gentilmente, alisando uma mecha castanha da hippie entre os seus dedos, e ela apenas assentiu, sentindo novas lágrimas brotarem em seus olhos – isso não vai acontecer! – disse com firmeza, limpando o rosto molhado da hippie com o polegar – nós vamos para algum lugar bem longe de Gotham, ninguém vai nem ao menos saber por onde começar a nos procurar.
– Você não conhece o Coringa. Aquele Palhaço está obcecado em me deixar tão louca quanto ele, e o meliante não vai descansar até que tenha conseguido.
– Como seu psiquiatra, eu posso garantir que ele já conseguiu isso – Logan riu baixinho da própria piada, e até mesmo Alice o acompanhou no riso, mesmo em meio ao choro ainda presente. Em seguida, o tom do médico voltou a ser sério e intenso – Não se preocupe com isso, Alice. Foi só um sonho, e eu não vou permitir que nada de ruim aconteça... nós vamos tomar todo o cuidado do mundo para não deixar rastros por aí.
– Isso não vai impedi-lo... – murmurou para si mesma, como se tentasse encontrar a resolução para um enigma complicado – ele sempre consegue o que quer... – Alice pensava alto, perdida em suas próprias conjecturas.
– Não seja boba. Nós dois somos mais espertos do que aquele Palhaço – Logan empurrou o ombro da hippie com o seu próprio ombro – eu vou dizer qual é o plano genial: nós nunca passaremos tempo demais no mesmo lugar, e nunca ficaremos próximos de Gotham ou da última cidade que saímos. Arranjaremos novas identidades e o que mais for preciso para manter o anonimato.
– Você não existe mesmo... – Alice sorriu para o médico, ainda sentindo o rosto um pouco inchado e vermelho graças ao choro recente – mas antes de qualquer coisa, eu preciso saber se você gosta de cachorros... sete, para ser mais exata!
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Os meses passaram tensos para Alice e Logan. A cada nova cidade em que se refugiavam, havia o medo de acabarem sendo descobertos – por mais que tomassem todas as precauções possíveis para que isso não ocorresse, ainda assim, o receio se fazia presente na rotina perturbada dos dois...
Não passavam mais do que um mês em uma mesma cidade, e por um bom tempo conseguiram viver por meio de pequenos trabalhos que arranjavam, mas conforme a barriga de Alice aumentava, os dois percebiam que não poderiam continuar nessa situação por muito tempo.
Já havia passado sete meses desde que os dois fugiram de Gotham, e parecia apenas sete dias, já que o temor de serem descobertos não diminuiu em nada nesse meio tempo. Era como se Alice e Logan tivessem acabado de escapar de toda a loucura daquela cidade, pois ela ainda influenciava cada um de seus passos.
– Fala a verdade, eu estou parecendo uma bola de boliche... – Alice comentou, percebendo pela primeira vez que a enorme barriga tampava quase que completamente a visão de seus pés.
– Podemos fazer um teste... que tal arranjar uns pinos? – Logan riu, e a hippie fez uma careta com aquele comentário.
– Você sabe que eu posso te matar e alegar que os culpados são os hormônios da gravidez, não sabe? – Alice levantou ameaçadoramente uma sobrancelha, tentando não rir da expressão falsamente assustada de seu amigo.
– Tudo bem, não está mais aqui quem falou...
– Bom mesmo! – respondeu, satisfeita, sentando-se perto de Logan na improvisada mesa de jantar. Todos os cachorros vieram deitar-se em torno de seus pés, e era quase impossível acreditar no quando aqueles filhotes haviam crescido em tão pouco tempo. Acariciou todos eles, e logo em seguida olhou curiosa para Logan – o que você está fazendo?
– Mapeando todas as regiões que ainda nos resta... – respondeu, encarando um mapa rabiscado em cima da mesa. Com uma caneta vermelha, começou a explicar os pontos borrados no mapa – Os círculos representam todos os lugares pelos quais nós já passamos, e a parte tracejada é a nossa zona de segurança, por onde não podemos passar. Ainda nos resta algumas opções, mas acho que o melhor agora seria sair do país...
– Eu não sei se as nossas identidades falsas são boas o suficiente para atravessar uma fronteira – a hippie suspirou, observando todos aqueles pontos vermelhos.
– Acho que teremos que arriscar... não é seguro continuar nos Estados Unidos.
– Bom... – Alice inclinou-se com certa dificuldade sobre a barriga para visualizar melhor as opções de fuga que ainda restavam – nós podíamos continuar no país pelo menos até o bebê nascer, e depois pensamos melhor no que fazer – sugeriu.
Logan voltou sua atenção para Alice, parecendo extremamente sério e pensativo, e encarando-a de uma forma totalmente nova... como se a acusasse de algo apenas com o olhar.
– Sabe, Alice, às vezes parece que você não quer se afastar do seu passado...
– Do que você está falando? – ela franziu a testa, estranhando o modo rude e brusco de Logan.
– Você sempre procura ficar o mais próximo possível de Gotham, desde o começo rejeitou a ideia de sair do país, mesmo sabendo que era o mais sensato a se fazer... acha que eu não percebo o modo como você está sempre atenta aos noticiários, procurando por qualquer notícia a respeito do Palhaço, como se implorasse por esmolas da imagem dele?
– É lógico que eu procuro saber o que acontece ao redor do Coringa! Supostamente ele está me caçando, esqueceu? – levantou-se da cadeira apoiando o peso da barriga com uma das mãos, indignada com aquelas acusações sem sentido – O que deu em você?
– O que deu em mim? – levantou-se também, aproximando-se de Alice e recomeçando suas críticas – Você parece cada dia mais obcecada, mais sedenta pelo seu passado... às vezes parece que você quer que o Coringa te encontre!
– Pelo Dread do Capitão Jack Sparrow, eu que estou grávida e é você quem está sensível... isso pode ser andropausa, sabia?
– Quando você resolver conversar sério, me avise! – dizendo isso, deu as costas para Alice e saiu pela porta, ainda com a caneta vermelha entre os dedos.
– Alguém entendeu o que aconteceu aqui? – ela perguntou aos cachorros depois que ele saiu. Sete pares de olhos brincalhões a encaravam com interesse. Satanás latiu, como se respondesse à pergunta de Alice, e sua enorme língua ficou pendida para fora de sua boca – foi o que eu pensei... – resmungou.
Alice tinha consciência de que era constantemente assombrada pelos espectros do seu passado, mas tentava não admitir a si mesma o quanto sentia falta dele... que esses sete meses em que Coringa simplesmente desapareceu de sua vida foram extremamente difíceis de serem suportados. Talvez porque Alice havia se acostumado a ser envolvida por um furacão todas as vezes em que estava junto do Palhaço... e essa nova calmaria não a agradava nem um pouco – nem mesmo a adrenalina de todas as fugas podia se comparar à sensação inebriante de encarar os olhos frios do Palhaço.
Talvez Alice realmente quisesse ser encontrada... mas a derradeira verdade era que ele finalmente havia se cansado da hippie, como ela sabia que aconteceria a qualquer momento... o pensamento de ser tão dispensável e insignificante como todas as outras vítimas do Palhaço era perturbador, por mais estranho que isso pudesse parecer. Alice sabia que Coringa poderia tê-la encontrado quando bem entendesse, mas ao invés disso, manteve-se tão anônimo quanto ela.
Mesmo que seu subconsciente ansiasse por um novo encontro com o psicopata, essa não podia ser uma opção, não depois de tudo o que Logan arriscou por ela.
Alice caminhou lentamente até o seu quarto, pensando em como havia sido imprudente e egoísta com Logan até então... ele tinha todos os motivos do mundo para acusá-la daquele modo, para manter viva a desconfiança sobre seus últimos atos. A hippie respirou fundo enquanto girava a maçaneta, imaginando se a raiva do psiquiatra podia ser reversível, ou se ela havia conseguido estragar de vez o relacionamento com a única pessoa que fazia de tudo para ser o seu porto seguro, o seu ponto de apoio em meio a todo o desequilíbrio insano que insistia em derrubá-la.
Quando finalmente abriu a porta e pressionou o interruptor – iluminando imediatamente o aposento – a imagem que se formou diante dela fez com que o coração da hippie saltasse com o susto. Como nos velhos tempos...
– Mais assombração – resmungou, segurando a enorme barriga e encarando a figura tão conhecida do Homem Morcego bem a sua frente – o que você está fazendo aqui?
– Acho que eu poderia fazer a mesma pergunta – sua voz saiu rouca, como de costume, e Alice teve que se controlar para não começar a gargalhar. Agora que sabia que Bruce e Batman eram a mesma pessoa, parecia ainda mais ridículo imaginar que o Bilionário estava por trás daquela máscara, disfarçando a voz daquela forma patética.
– Eu acho que não... – desafiou-o – por que deveria lhe dar alguma satisfação? Você realmente acha que pode simplesmente aparecer aqui e... aliás, como você me encontrou? – franziu a testa.
– Não foi a coisa mais difícil do mundo – bufou.
– Ah, é mesmo? – Alice cruzou os braços, e percebeu o olhar de Batman demorando-se em seu ventre – se foi tão fácil assim me encontrar, por que levou sete meses para fazer isso?
– Na verdade, eu levei menos de uma semana para encontrá-la – voltou a encarar os olhos da hippie – assim que a notícia de sua fuga se espalhou.
– O quê? – perguntou, confusa – como assim?
– O Doutor Arkham fez o possível para abafar a sua fuga e a do doutorzinho – disse, com desdém – mas não conseguiu conter a notícia por muito tempo... – explicou brevemente, sem esboçar qualquer emoção.
– Ah, entendi – ela riu, sem humor algum – então quando você ficou sabendo que eu fugi, veio atrás de mim para me prender de novo... – a hippie concluiu, sendo incapaz de deixar de sentir um aperto doloroso no peito, ainda mais sabendo que era Bruce quem estava ali. Ele nem sequer se preocupou com a sua segurança, apenas queria fazer o seu trabalho hipócrita de ‘justiceiro’ de sempre...
– Não tem nada a ver com prendê-la! Você não entende... não sabe o que a sua fuga significa para a paz de Gotham...
– Acha que eu me importo? – balançou a cabeça, sem acreditar no que ouvia – as pessoas daquela cidade só me humilharam e nem se importaram em cogitar se eu era inocente daquelas acusações, tudo o que importava para eles era encontrar alguém em quem descontar todas as idiotices que Coringa já fez... Vá embora, Morcegão! Eu ainda tenho uma chance de refazer a minha vida longe de Gotham, não me peça pra voltar... a não ser que você faça isso à força, não vai conseguir me convencer do contrário.
– A questão é que Coringa não é mais uma ameaça – tentou convencê-la novamente, e agora era impossível não vislumbrar sua imagem e relacioná-la com Bruce. Se Alice fechasse os olhos, poderia imaginar tranquilamente o rosto do Bilionário tentando reconfortá-la com aquela falsa esperança – ele está preso em Arkham agora, não há com o que se preocupar! Voltar para Gotham não lhe ofereceria riscos.
Alice gargalhou, realmente achando graça nas palavras de Batman.
– Eu fugi de Arkham! – riu novamente – Você realmente acha que aquele manicômio pode segurar um vilão como o Coringa por muito tempo? E me parece muito cruel você dizer que eu não correria riscos... eu seria presa, não é mesmo, senhor Morcego?
– A vigilância aumentou muito por lá depois da sua fuga. Nesses últimos meses, Arkham se tornou uma fortaleza! E a sua prisão poderia ser revogada... nós podemos provar que você estava sendo ameaçada pelo Palhaço.
– O Palhaço vai fugir quando bem entender – avisou, lembrando-se da facilidade com que ele entrou e saiu de sua cela – vocês precisam parar de subestimá-lo, esse é um dos motivos dele sempre estar a um passo a frente de todos vocês.
– Não dessa vez – teimou – finalmente nós o temos sob controle.
– Voltamos a falar sobre isso quando ele escapar – debochou – mas enquanto isso não acontece, não temos mais nada para conversar, então por que você não vai caçar frutinhas, ou sei lá o que mais os morcegos comem...
– Alice, eu posso ajudá-la... – Batman a interrompeu – você não precisa viver fugindo, se escondendo em uma identidade falsa.
– Vindo de você, isso é realmente muito lindo – revirou os olhos – eu não quero a sua ajuda – disse rispidamente, e logo em seguida estreitou os olhos, passando a analisar a proposta do Morcego por um momento. Sorriu sarcasticamente para Batman, sem conseguir resistir ao seu próximo comentário – pensando bem, tem uma coisa que você pode fazer – encarou aquele par de olhos frios e distantes, perguntando-se como nunca havia reconhecido Bruce dentro deles antes... – só mande lembranças ao Alfred por mim!
Alice sentiu uma enorme onda de satisfação ao perceber a sombra de perplexidade que preencheu o olhar do Cavaleiro das Trevas assim que aquelas palavras foram ditas, e o sorriso da hippie abriu-se ainda mais diante daquela situação inusitada, em que ela se sentiu no controle da situação, pela primeira vez em muito tempo. Depois de um embaraçoso silêncio, Alice voltou a falar, desta vez com a expressão séria:
– Volte para a sua caverna e me deixe em paz... – Alice teve que sorrir quando viu que Satanás mordia com vontade a capa preta de Batman, rosnando furiosamente para o pano negro – antes que o Satanás estrague sua bela fantasia de Halloween...
Alice mal terminou a frase, e o Cavaleiro das Trevas não estava mais lá, havia sumido na escuridão da noite como sempre fazia, e até mesmo Satanás pareceu confuso com o sumiço repentino de seu brinquedo em forma de capa.
– Acostume-se, demoniozinho – a hippie apertou as enormes bochechas do ‘filhote’ entre suas mãos – ele tem mania de fazer isso.
Jogou-se em sua cama – que soltou um sonoro rangido, como se fosse quebrar – e lá permaneceu, esperando o momento em que Logan voltaria para casa... Satanás saltou do chão para o colo de Alice em um único pulo, rápido e preciso, apoiando a cabeça sobre o peito da dona, e lá permaneceu, encarando-a com um tipo fiel de adoração.
– Ele vai voltar, não vai? – perguntou, preocupada, aos enormes olhos cor de mel que pareciam penetrar fundo dentro de Alice, como se eles soubessem exatamente tudo o que a afligia... e naquela posição, os dois pegaram no sono, cada um deles embalando-se na respiração profunda do outro.
Antes mesmo que Alice acordasse completamente, ela sabia que havia algo errado.
Pontadas agudas percorriam seu ventre, como se pequenos objetos cortantes penetrassem pela sua pele, invadindo o seu útero. Alice arfou, tentando mudar de posição, acariciando a própria barriga. Quando se mexeu sobre o lençol, percebeu que ele estava molhado, um líquido incolor encharcava aquele pedaço do lençol, e uma nova contração a fez perder o fôlego.
– Hey, você não pode querer nascer agora... ainda faltam dois meses, seu apressado! – disse, tentando levantar-se com um pouco de dificuldade. Finalmente conseguiu se sentar, e respirou fundo algumas vezes na tentativa inútil de espantar a dor. A hippie ouviu passos hesitantes perto de seu quarto, e logo em seguida algumas batidas tímidas na porta.
– Alice? – Logan abriu um pouco a porta – Posso entrar?
– Deve! – respondeu, voltando a controlar a respiração.
– Eu queria pedir desculpas pelas coisas que falei hoje mais cedo – disse enquanto entrava no quarto – sabe, eu sei que exagerei, você não merecia ouvir nada daquilo. É que eu realmente me importo muito com você, e não quero que nada de ruim aconteça...
– Cala a boca, Logan – Alice o interrompeu, com a voz levemente histérica.
– Sim, eu sei que você tem todo o direito do mundo de ficar brava comigo depois de hoje, mas acho que ainda podemos nos entender...
– Não... – ela tentou organizar os pensamentos antes de falar novamente – Cala a boca e me leva para o hospital! O bebê vai nascer...
– O quê? – Logan ficou pálido – Tem certeza? Mas ainda faltam dois meses...
– Explica isso para o Ligeirinho aqui! – disse, irritada por causa da dor e dos hormônios desregulados da gravidez – vai me levar para o hospital ou prefere fazer o parto você mesmo?
Antes que Alice pudesse falar mais qualquer coisa, os dois já estavam a caminho do carro, rumo à maternidade.
Após alguns quilômetros da mais pura aflição, chegaram ao hospital ainda com uma boa vantagem de tempo. A hippie foi conduzia até a sala de cirurgia em uma cadeira de rodas, e mesmo com as contrações ainda presentes em intervalos irregulares de tempo, estava mais tranquila somente pelo fato de ter conseguido chegar ao hospital a tempo.
Depois de trocarem a roupa de Alice, ela foi colocada sobre uma maca, e Logan ficou ao seu lado, segurando sua mão, com olhos arregalados. O rosto do psiquiatra estava coberto parcialmente por uma máscara hospitalar, e aquilo incomodou um pouco a hippie.
– Você precisa mesmo usar isso?
– São as regras do hospital – deu de ombros – se você preferir eu saio...
– Não se atreva – ameaçou, e uma nova contração a fez ranger os dentes e esmagar a mão de Logan – você fica!
Um médico entrou na sala, terminando de vestir suas luvas descartáveis tranquilamente, sem a menor pressa. Antes mesmo de falar com Alice, começou a ler a ficha da paciente, e a lerdeza do homem não podia ser mais irritante, ainda mais no estado alterado em que o humor da hippie estava.
– Então, nós temos um bebê precoce a caminho... – o médico falou arrastado, demorando-se em cada sílaba, e Alice o fuzilou com os olhos.
– Na verdade, eu acho que o bebê previu que você seria o médico, e começou a nascer agora para o senhor conseguir fazer o parto nos dois meses que ainda restam – cuspiu, e Logan a encarou um pouco perplexo, assim como o médico – e então, vai ficar aí parado, ou vai começar ainda hoje?
– Desculpe por isso – Logan cochichou para o médico – ela está um pouquinho alterada hoje...
– Sem problemas, isso é mais normal do que você imagina – o médico sorriu, e em seguida olhou para Alice, que voltou a apertar a mão de Logan com força exagerada – na próxima contração, eu quero que você empurre com toda a força que conseguir, tudo bem? – perguntou, cobrindo o seu rosto com uma máscara igual a que Logan usava.
Alice assentiu, e quase no mesmo instante, sentiu a nova pontada. Conforme empurrava, sua pele ficava cada vez mais coberta por grossas gotas de suor, e o ar escapava com os grunhidos que dava.
– Muito bem – o médico elogiou, comprimindo a barriga da paciente – continue assim, você está indo muito bem – incentivou.
– Se ele não calar a boca, eu juro que vou enfiar o meu pé na cara dele! – Alice sussurrou para Logan, que foi incapaz de conter uma risada baixa.
Vários minutos se passaram naquele mesmo esquema, até que após uma das contrações em que Alice fez mais força do que julgava ser possível, finalmente ouviu o choro agudo do bebê preencher a sala, e as dores que antes pareciam torcer cada víscera de seu corpo simplesmente sumiram. Ela relaxou sobre a maca, de olhos fechados, aliviada por, enfim, ter acabado.
– É um menino – o médico anunciou, animado, levando o garoto até a mãe.
“Por favor, que ele não tenha nascido com as cicatrizes do Palhaço, por favor!” – Alice implorou mentalmente antes de ver o seu filho pela primeira vez. Suspirou de alívio ao perceber que ele parecia uma criança normal, exceto pelo tamanho...
– Como você vai chamá-lo? – Logan perguntou baixinho, sem conseguir desviar a atenção da criança que ainda estava coberta com o sangue da mãe.
– O nome dele vai ser Krusty! — avisou de imediato, e logo após aquela resposta houve um considerável silêncio de ambas as partes, até que Logan o quebrou num tom que beirava a dúvida.
– Você está brincando, não é? Krusty não é o nome do palhaço dos Simpsons?
– Não e sim, respectivamente.
– Você não pode colocar o nome de um palhaço no seu filho... – argumentou.
– Claro que posso! Melhor isso do que registrá-lo com o nome de Hidrogênio e em seguida colocar pra adoção... – retrucou, encerrando o assunto e voltando a admirar a pequena vida entre seus braços.
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