Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
32 O Dom Do Ostracismo – Parte II
Notas iniciais
A cada dia que passava, Krusty ficava cada vez mais parecido com Coringa. Cada risco delicado de seu rosto parecia uma versão infantil e imatura dos traços firmes do Palhaço. Seu cabelo, aos poucos, tomou a forma definida de pequenos cachos loiros, que caíam rebeldemente em volta da maçã de seu rosto, tornando a semelhança ainda mais incrível e assustadora.
Alice sentia-se intimidada e ao mesmo tempo fascinada pela enorme similaridade entre eles, sem saber ao certo se isso a incomodava ou a satisfazia... era como ver um ‘Mini-Coringa’ todos os dias, e a hippie ainda podia sentir o coração disparar a cada vez que associava a imagem do filho com a do psicopata. Bastava pensar nele que borboletas invadiam seu estômago ferozmente, com a mesma intensidade de quando o conheceu, e todos aqueles sentimentos confusos simplesmente se apoderaram de sua mente sem pedir licença.
Alice amava o filho, amava muito mais do que podia imaginar ser possível, porém algo a impelia de manter um relacionamento completo com o seu Pequeno Palhaço... era como se o seu subconsciente a avisasse constantemente de que a simples existência de Krusty não passava de um grande erro. Um erro grosseiro que jamais deveria ter ocorrido!
Três anos se passaram desde o seu nascimento, e em todo esse tempo, Alice foi incapaz de encarar os olhos de Krusty de forma direta. Tinha medo de encontrar Coringa dentro deles, de ver a mesma maldade que circundava o Palhaço em seu pequeno e doce menino... aquilo destruiria a hippie, muito mais do que se o próprio Coringa aparecesse na sua frente e lhe desse um tiro de bazooca.
Talvez aquele não fosse o melhor modo de enfrentar a situação, mas era dessa forma que Alice conseguia conviver com a culpa de amar e temer o seu filho tão intensamente, sentimentos tão opostos que pareciam querer enlouquecê-la de vez. Detestava com todas as forças o fato de sentir-se impossibilitada de olhar seu próprio filho nos olhos, mas era incapaz de fazê-lo. Tudo não passava de um inconveniente mecanismo de defesa que tentava a todo custo protegê-la do que teria que enfrentar, caso encontrasse qualquer vestígio de Coringa dentro de Krusty. Afinal, se os olhos realmente são o espelho da alma, o melhor seria não correr o risco de encontrar a essência do Psicopata refletida no filho.
– Krusty! – Alice gritou em meio às próprias tosses, abanando uma das mãos em frente ao seu rosto para tentar dissipar o ar enfumaçado que a envolvia. O cheiro forte de queimado parecia querer sufocá-la a todo custo, e seus olhos começaram a lacrimejar, de tão secos que estavam – o que você está fazendo, seu pestinha? – tossiu mais uma vez, semicerrando os olhos para conseguir visualizar melhor a imagem de seu filho queimando o tapete da sala.
– Foi sem querer... – defendeu-se imediatamente, com sua voz infantil e olhos arregalados de medo.
– Você acendeu um fósforo em cima do tapete por acidente? – perguntou, cética, arqueando uma sobrancelha enquanto batia uma almofada em cima do fogo recente, conseguindo apagá-lo antes que se espalhasse completamente e aumentasse o estrago. A sala ficou ainda mais turva graças ao acúmulo de fumaça, e Alice imediatamente escancarou todas as portas e janelas para que o ar circulasse.
A hippie ajoelhou-se de modo a ficar na mesma altura de Krusty, focando sua atenção no rosto do filho como um todo, sem nunca analisar seus olhos diretamente.
– Como você conseguiu esses fósforos? – perguntou, tirando a caixinha destruída de sua mão. Pela umidade do papelão, Alice soube qual seria a resposta antes mesmo de ouvi-la.
– O Satanás estava mastigando, e eu tirei da boca dele...
– Vocês dois ainda vão me deixar maluca, sabia... não sei qual é mais travesso, você ou o Satanás! Vou ter que pensar em um bom castigo para os dois...
– Desculpa, mamãe... eu não faço mais! – sua voz, combinada com os cachos loiros, faziam com que ele parecesse um ser angelical, e Alice teve que se controlar para não rir da situação inusitada que era ver o diabinho do seu filho se escondendo atrás de um par de asas e uma auréola, a cada vez que ficava encrencado.
– Dessa vez eu vou deixar passar porque você teve um cúmplice muito astuto, mas não quero ver você brincando com fogo de novo, combinado?
– Tá bom! – seu rosto se iluminou ao entender que estava livre da punição, e na mesma hora ele correu para brincar com os cachorros no quintal, como se temesse que a mãe pensasse melhor sobre o assunto e mudasse de ideia.
– Começa com um tapete, aí depois ele fica louco que nem o pai e passa a queimar dinheiro... – Alice resmungou baixinho para si mesma, observando o filho montar no dorso de Satanás, que começou a correr, adorando a brincadeira. Ela não pôde deixar de sorrir quando viu Logan chegando e levantando Krusty até a altura que os seus longos braços permitiam.
O pequeno tinha veneração por Logan, e o sentimento era recíproco. Alice adorava ver a interação perfeita entre os dois, como se com esses pequenos momentos, ela pudesse acreditar em sua própria mentira, acreditar que Logan era realmente o pai, e que toda aquela loucura que viveu com Coringa havia ficado em um passado distante. Mas esses sentimentos não duravam mais do que alguns poucos segundos, e logo a hippie era novamente tragada de volta à realidade que ela tanto queria evitar.
Era praticamente impossível manter essa sua fantasia por muito tempo, até mesmo porque Krusty nunca havia chamado Logan de ‘pai’. Alice ficava cada dia mais intrigada com essa distinção que o filho fazia, como ele simplesmente sabia que o psiquiatra não era o seu pai.
Certo dia, quando estavam sozinhos em casa, Krusty foi até Alice, parecendo triste e um pouco hesitante.
– O que houve, meu pestinha? Você está quieto demais, só pode estar aprontando alguma...
– Por que o papai não mora com a gente? – foi direto ao ponto.
– Claro que mora... – Alice franziu a testa, sem entender muito bem aquela pergunta – só que agora ele está no trabalho...
– Não... eu não estou falando do tio Logan – Krusty respondeu, impaciente.
– Como assim? – a hippie sentiu seu coração pular – ele é o seu pai!
Krusty apenas encarou a mãe, descrente de suas palavras. Nesse momento, Alice se sentiu uma completa incapaz.
“Pelas barbas de Dumbledore, eu não consigo mentir nem para uma criança que mal saiu do berço...” – pensou, preocupada com aquela certeza estranha que o filho tinha. Alice suspirou, percebendo que ele não seria convencido do contrário, e resolveu ceder da melhor maneira que podia.
– Escuta a mamãe, Krusty, você ainda é muito novo para entender as confusões que os adultos fazem... um dia, quando você for mais velho, eu te explico tudinho, está bem? Mas me responda uma coisa, você gosta do Logan?
– Gosto! – ele assentiu na mesma hora, sem precisar pensar duas vezes na resposta.
– E o Logan não cuida direitinho de você? Não está sempre brincando com você?
– Sim!
– Então ele é o seu pai, certo?
– Não! – Krusty cruzou os braços teimosamente – Ele é o tio Logan!
– Tudo bem, garotão – Alice suspirou, dando-se novamente por vencida – vamos fazer o seguinte: se eu te mostrar uma foto do seu pai, você esquece essa história?
Krusty pensou por um minuto, e logo concordou. Alice começou a vasculhar uma pequena caixa de metal quadrangular, aonde eles guardavam o baralho. A hippie olhou cada carta, uma por uma, e quando finalmente encontrou a Carta Coringa, entregou a Krusty.
– Essa é a única foto que eu tenho do seu pai, sinto muito – a hippie avisou antes que ele pudesse protestar.
– Isso é uma foto? – Krusty perguntou confuso, virando a carta de baralho de um lado para o outro, em busca de alguma fotografia escondida, mas tudo o que havia ali era uma figura de um palhaço estranho com umas letras que Krusty ainda não conseguia entender, mas que diziam Joker.
– Não é exatamente uma foto, mas posso garantir que é uma representação fiel do seu pai – a hippie explicou da melhor maneira que pôde, fazendo uma careta diante da situação estranha.
Desde então, Krusty jamais tocou novamente nesse assunto, mas a Carta Coringa estava sempre com ele, e por mais que isso incomodasse profundamente Alice, ela ficou satisfeita por perceber que o filho havia deixado essa história de lado. Pelo menos por enquanto...
Mas toda vez que via Logan e Krusty brincando juntos, simplesmente não conseguia acreditar que eles não eram pai e filho. Os dois tinham uma ligação tão perfeita que conseguia ultrapassar qualquer barreira de sangue que insistisse em afirmar que não havia nenhum indício de parentesco entre eles! Às vezes, Alice até sentia uma pontada de inveja dos dois, inveja por não conseguir se entregar completamente ao amor que sentia pelo seu filho.
Por mais que o adorasse, Alice não podia deixar de pensar que Krusty era a personificação de todos os maiores erros que cometeu no passado, e cada um desses sentimentos controversos martelando sua mente eram bem mais do que perturbadores. Eram, no mínimo, corrosivos.
– Vamos lá, meu pequeno aviador – Alice chamou a atenção de Krusty, que agora fingia que o corpo de Logan era um avião, e ele, um bravo e corajoso explorador dos céus – hora de voar até o banheiro e tomar um bom banho antes do jantar!
– Mas mamãe... – ele começou a protestar.
– Nada de ‘mas’, mocinho! Você acha que Santos Dumont construiu o primeiro avião sem lavar as orelhas antes? – deu um beijo carinhoso e barulhento em sua testa – você vai ter o dia inteiro para continuar sua incrível aventura amanhã, mas para isso precisa estar limpo e bem alimentado, não é verdade? – sorriu – vai indo na frente que a mamãe já vai te ajudar, ok?
– Tá bom... – respondeu, cabisbaixo, caminhando o mais lentamente possível até o banheiro. Logan e Alice riram, e quando Krusty finalmente sumiu de vista, a hippie voltou-se para o psiquiatra.
– Nós precisamos conversar!
– Eu juro que não fui eu! – o médico defendeu-se, sem saber exatamente do quê – já estava quebrado quando eu cheguei...
– Deixa de ser besta, Logan – Alice revirou os olhos, rindo – nós precisamos decidir o nosso próximo destino... já estamos aqui há tempo demais. Eu sei que essa casa é ótima e espaçosa, mas precisamos encontrar outro lugar o quanto antes.
– Sim, eu queria mesmo falar com você sobre isso... – Logan olhou-a hesitante, com um ar risonho – bom, não fique brava comigo, está bem?
– Ai, caramba, lá vem... o que você aprontou? Já não basta eu ter que dar bronca no Krusty e no Satanás, agora você também vai fazer o possível para me deixar louca...?
– Eu comprei essa casa – ele falou rápido demais, esperando ansiosamente pela reação da hippie.
– Você fez o quê? – sua voz saiu histérica – Tá bêbado, homem? – perguntou, farejando o ar em volta do psiquiatra, em busca de algum odor de álcool.
– Não, Alice, é sério! Nós somos fugitivos há quase quatro anos, e nesse meio tempo não tivemos qualquer problema com o Coringa ou seus capangas...
– E nós não tivemos problemas com nenhum deles porque nós não paramos de fugir – Alice argumentou, mesmo não acreditando nem um pouco em suas próprias palavras. Sabia que Coringa poderia encontrá-los quando bem entendesse, e que todas aquelas fugas constantes não passavam de um meio para tentar tranquilizá-los psicologicamente.
– Você sabe que isso não é verdade, Alice – Logan disse, como se tivesse lido os pensamentos da hippie – em nenhum momento nós esbarramos com dificuldade alguma, isso só pode indicar que nem as autoridades e nem o Coringa estão interessados em nos caçar.
– Mas talvez ele esteja esperando justamente isso, que a gente se sinta seguro, abaixe a guarda e facilite as coisas para ele...
– Quatro anos, Alice – o psiquiatra ressaltou, quase rindo – é tempo demais até mesmo para alguém obcecado como o Coringa.
– Eu não sei, Logan... mesmo a sua teoria sendo válida, não acho seguro corrermos esse risco à toa...
– Não é um risco, e muito menos à toa – argumentou – o Krusty está crescendo rápido! Daqui a pouco vai chegar a hora de matriculá-lo em uma escola, e como vai ser a vida dele mudando de ambiente praticamente a cada mês? Ele nunca vai se adaptar a lugar algum...
Alice abriu a boca para responder, mas tornou a fechá-la. Uma metade de si gritava “Perigo!”, e a outra metade dizia que Logan estava coberto de razão... mais uma vez! Como o silêncio se estendeu, Logan voltou a falar:
– Acho que está mais do que na hora de nos darmos essa folga! Não se preocupe com o Palhaço, ele certamente está ocupado demais azucrinando outras pessoas... – Logan posicionou algumas mechas de cabelo para trás da orelha de Alice, encarando-a com intensidade, e seus olhos brilharam profundamente enquanto o fazia.
– Talvez... – Alice fez uma pausa, tentando organizar seus pensamentos incoerentes, que estavam seriamente bagunçados sob a influência daqueles olhos ofuscantes – talvez você esteja certo...
– Você já devia ter aprendido que eu sempre estou certo – gabou-se com um sorrisinho metido.
– Além de tudo é humilde – revirou os olhos, e em seguida socou o ombro do psiquiatra com toda a força que conseguiu juntar. Logan soltou um baixo gemido de dor e a encarou surpreso – Isso é por você ter tomado uma decisão dessa importância sem falar comigo! Aposto que essa casa não foi nem um pouco barata, e se alguém devia ter arcado com essa dívida, esse alguém era eu!
– Caramba, bastava um ‘obrigada’... – disse, massageando o ombro no local atingido.
– Não, essa foi a bronca, o ‘obrigada’ vem agora.
Para a completa surpresa de Logan – e até mesmo de Alice – a hippie alcançou os lábios do psiquiatra, sentindo-os macios entre os seus. Apesar de toda a surpresa que Logan sentiu com aquela atitude totalmente inesperada, o beijo foi imediatamente correspondido, com tanta gentileza e zelo que Alice nem sabia que seria possível existir.
A típica barba mal feita de Logan roçava de um jeito gostoso no rosto de Alice, deixando um leve rastro de formigamento por onde passava. Ele encaixou as mãos nas curvas de sua cintura, trazendo-a mais para perto de si, enquanto Alice acariciava o ombro recém-socado do psiquiatra, dançando com a ponta dos dedos entre o ombro e o pescoço do médico.
Alice sentiu-se muito mais envolvida por aquele beijo do que ela poderia imaginar. Nada se comparava ao que ela experimentava na presença de Coringa, mas soube no mesmo instante que aquilo que sentiu com Logan era algo extremamente real, saudável – características palpáveis e reconfortantes que ela jamais provaria com o Palhaço! – seus lábios se moviam em sincronia, e ambos foram arrebatados por aquele momento.
"Something in your eyes makes me want to lose myself
Makes me want to lose myself in your arms
There's something in your voice
Makes my heart beat fast
Hope this feeling lasts the rest of my life
If you knew how lonely my life has been
And how long I've been so alone
If you knew how I wanted someone to come along
And change my life the way you've done
Feels like home to me
Feels like home to me
Feels like I'm all the way back where I come from
Feels like home to me
Feels like home to me
Feels like I'm all the way back where I belong
A window breaks down a long dark street
And a siren wails in the night
But I'm alright cause I have you here with me
And I can almost see through the dark there's light
If you knew how much this moment means to me
And how long I've waited for your touch
If you knew how happy you are making me
I've never thought I'd love anyone so much
Feels like home to me
Feels like home to me
Feels like I'm all the way back where I come from
Feels like home to me
Feels like home to me
Feels like I'm all the way back where I belong
Feels like I'm all the way back where I belong"
(Feels like home – Chantal Kreviazuk)
Eles ainda mantiveram o contato visual por algum tempo, quase incapazes de desviar o olhar. Alice se sentia quente, aconchegada em uma sensação de segurança que não experimentava há um bom tempo. Logan, por sua vez, mal podia conter o sorriso bobo que se formou em seu rosto, evidenciando o quanto ele ansiou por aquele momento, mesmo sem ter qualquer esperança de que, de fato, ele ocorresse. A voz aveludada do psiquiatra cortou o silêncio, e seu tom era um sussurro brincalhão.
– Nunca pensei que eu diria isso, mas esse foi o melhor soco da minha vida...
– Não por isso, eu posso te dar mais alguns! – Alice respondeu, bem humorada.
– E vai terminar assim...? – perguntou, dando-lhe um beijo suave e rápido.
– Isso vai depender de quantas casas você vai comprar... – ela disse, e os dois riram.
Logan a encarou por mais um breve momento de silêncio, como se temesse que aquele instante não fosse real, que ele percebesse, de uma hora para a outra, que tudo não passou de um sonho ao acordar. Alice sentiu o rosto esquentar. Era como se Logan fosse capaz de enxergar a fundo sua alma com aqueles olhos atentos de águia, que pareciam querer tragá-la.
– Sabe... – Logan umedeceu os lábios, sorrindo em seguida – por mais que eu odeie dizer isso agora, acho que você devia ir ver o Krusty, antes que ele pegue uma pneumonia esperando pelo banho!
– Caraca, esqueci o moleque! – Alice exclamou, de olhos arregalados, e saiu correndo em direção ao banheiro, aonde Krusty a esperava.
Algumas horas mais tarde, logo depois de jantarem, a hippie conduziu o filho para o quarto, a fim de colocá-lo para dormir. Ela cobriu o pequeno corpo de Krusty, dando um beijo na ponta do seu nariz.
– Boa noite, filhote! – disse, apagando a luz do abajur que se encontrava na cabeceira ao lado de sua cama infantil.
– Mamãe... – Krusty chamou, com uma vozinha sonolenta – me conta uma história? – pediu, com olhos insistentes.
– Uma história? – a hippie sentou-se na beirada da cama, pensativa – Ah, sim, eu conheço uma história ótima! – sorriu – se chama “A Chapeuzinho Adormecida”, ou qualquer coisa do gênero! – Alice limpou a garganta, preparando-se para começar sua narração – Era uma vez, uma garotinha que conhecia três porquinhos... não, espera, não é assim! Certo dia, a madrasta malvada contratou um lobo que queria se transformar em príncipe – Alice calou-se, de testa franzida – isso também não está certo. A vovozinha tentou dar uma maçã envenenada para um sapo que... não, também não! – após mais alguns minutos de tentativas frustradas, Alice irritou-se – Olha, Krusty, tudo o que você precisa saber é que no final todos eles vivem felizes para sempre, ok?!
– Mas...
– Já está muito tarde, filho! Eu não quero estragar o seu sono com essas histórias sem sentido. Eu até saberia contar várias delas, mas já passou da hora de você dormir...
Alice deu um beijo na bochecha carnuda do filho, e logo em seguida saiu do quarto, pensando em como era uma mãe inútil, que nem sequer sabia contar uma história para dormir.
Talvez, um pré-requisito importante para uma maternidade bem sucedida fosse ter convivido de forma saudável com os próprios pais... A única lembrança que Alice tinha de sua mãe era o dia em que ela tentou arrancar dinheiro da hippie através de seu namoro com Bruce, e essa, certamente, não era uma lembrança que a ajudasse a lidar com o filho...
Caminhou devagar pelos aposentos da casa, pensando nos inúmeros erros que cometia diariamente com Krusty... desde erros bobos até falhas graves, que a assombravam constantemente. Como por exemplo, não conseguir, de forma alguma, encará-lo nos olhos. Parecia cruel demais que uma mãe tivesse esse tipo de aversão pelo próprio filho, mesmo sendo capaz de amá-lo incondicionalmente...
Alice sentou-se no chão do quintal, admirando as poucas estrelas que brilhavam timidamente no céu, e acariciando algumas folhas de sua samambaia. Uma brisa leve e primaveril fez com que algumas mechas de seu cabelo esvoaçassem, atingindo o seu rosto com delicadeza, como se tentasse reconfortá-la de todos aqueles pensamentos cruéis que a afligiam.
Logan aproximou-se devagar, sentando-se ao seu lado, e a hippie nem ao menos notou a presença do psiquiatra.
– Está tudo bem? – perguntou, fazendo-a pular de susto.
– Sim... – respondeu sem convicção alguma – tirando o fato de que eu sou uma péssima mãe e que o Krusty me odeia, eu não podia estar melhor...
– Do que você está falando? – ele pareceu surpreso – aquele menino simplesmente te adora! Você nunca notou o jeito que ele te olha?
Alice não respondeu, apenas voltou a prestar atenção nas estrelas que iluminavam fracamente o céu. Como poderia notar, se nem mesmo conseguia analisar o olhar do filho por mais do que alguns milésimos de segundo?
– Eu sei por que você está assim! – Logan a encarou, analisando atentamente cada traço de sua expressão – Você tem medo de ser nociva para o Krusty da mesma maneira que sua mãe foi para você. Tem medo de que, no futuro, ele a veja como alguém que apenas falhou como mãe...
– Você está me analisando? – a hippie esquivou-se daquela verdade, dando um meio sorriso – eu achava que essa fase já havia passado!
– Nunca vai chegar o dia em que você não precise mais de um psiquiatra! – Logan disse, entre os próprios risos.
– Você só pode estar querendo levar mais um soco... – bufou.
– Não é uma má ideia... – sorriu maliciosamente, arqueando uma única sobrancelha.
– Besta! – riu baixinho, deixando que a sua cabeça pendesse para o lado, apoiando-a no ombro direito de Logan e sentindo-se reconfortada por tê-lo ali, sempre ao seu lado. Ele suspendeu de leve o queixo da hippie com o dedo indicador, e novamente se beijaram, no mesmo ritmo suave e doce da primeira vez.
Parecia certo apostar em Logan... pela primeira vez, Alice não tinha qualquer receio de se machucar em uma relação. Era como se os dois realmente pudessem se completar. Para a hippie, o psiquiatra passou a ser um pequeno ponto de luz em meio a uma vasta e densa escuridão, e com o tempo, esse pequeno ponto difuso poderia até crescer e ganhar uma forma definida, iluminando tudo ao seu redor. E aquele sentimento nada mais era do que esperança. A esperança de ver que finalmente tudo podia começar a dar certo.
Uma ventania forte, de uma hora para a outra, atingiu os dois, carregando algumas folhas secas e grãos densos de poeira para a região dos seus olhos, parcialmente fechados devido à intensidade do vento – que mais pareciam pequenos chicotes invisíveis ao contato com a pele.
– Melhor entrar... – Alice disse, protegendo o rosto com os braços da melhor maneira que conseguiu.
– Vamos! – Logan concordou. A hippie tirou sua samambaia do chão, e logo em seguida os dois entraram na casa, completamente desgrenhados, como se tivessem acabado de atravessar o olho de um furacão.
O vento continuava intenso do lado de fora, uivando com uma energia imprópria e exagerada – uma mudança repentina nos ares, que há poucos minutos estava ameno e aconchegante – Logan e Alice atravessaram a bela casa de mãos dadas, detendo-se apenas quando chegaram na porta do quarto da hippie. Ela colocou-se na frente do psiquiatra, sorrindo para ele enquanto ainda tinha as mãos do médico entre as suas.
– Boa noite, Doutor! – disse, apoiando-se na ponta dos pés para compensar a diferença de altura que havia entre eles, sentindo imediatamente a respiração do psiquiatra esquentar sua pele, e novamente o roçar de sua barba fazendo cócegas no rosto da hippie enquanto seus lábios se mantiveram unidos.
– Boa noite... – ele respondeu com uma leve sugestão de decepção incontida, ciente de que Alice ainda não estava preparada para dar novas chances à sua vida amorosa... Não ainda. – Boa noite, Doutora... – o enlace que conectava as mãos dos dois finalmente se desfez, e Alice entrou em seu quarto, dando um último sorriso para Logan antes de fechar a porta diante de si.
A hippie colocou Sam ao lado de sua cama, passando de leve os dedos entre algumas folhas da planta, sem perceber que sorria. Jogou-se em cima dos lençóis, sentindo que cada pedaço de seu corpo estava exausto, implorando por algumas horas de sono. Fechou os olhos, incapaz de conter o peso insustentável de suas pálpebras, e sorriu novamente ao pensar que finalmente as coisas pareciam estar entrando nos eixos... e quase que imediatamente, Alice perdeu-se no próprio sono, adormecendo sobre as próprias esperanças.
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Uma condição pré-desperta a fez ter ciência de que havia uma perturbação errada no ar à sua volta. Juntando o pouco de força que tinha, Alice abriu os olhos com certa dificuldade, analisando, sonolenta, o próprio quarto, até que demorou-se um pouco mais na figura de terno arroxeado que a encarava. Somente depois de longos segundos, Alice foi capaz de associar aquela imagem à pessoa que pertencia.
– Como vai, Docinho? – Coringa perguntou, lançando a ela um olhar cruel.
– É só mais um pesadelo – a hippie convenceu-se daquilo, tornando a fechar os olhos.
O Palhaço aproximou-se da cama, sem parar de encará-la por um único momento, e sua expressão era indecifrável. Ajoelhou-se ao lado de Alice, e sua voz estava mesclada com uma pitada de frieza, ameaça e crueldade.
– Se eu fosse você, levaria a sério essa minha visitinha, se não quiser que eu perca de vez a minha paciência com você...
– Pelo amor de Chuck Norris, você é tão chato nos sonhos quanto na vida real – reclamou, virando-se na cama ainda de olhos fechados, acreditando que tudo realmente não passava de mais um de seus pesadelos, dentre tantos que já tivera com aquela mesma figura.
Coringa apertou com força o braço da hippie, e de repente foi como se uma corrente elétrica atravessasse cada um de seus músculos. Tanto a dor inesperada quanto o simples contato físico com o Palhaço foram mais do que suficientes para fazê-la perceber o quão real era aquele momento. Alice virou-se novamente na direção do psicopata, vendo que o brilho cruel de seus olhos ainda estava lá, exatamente como ela se lembrava, tão atroz quanto o seu sorriso.
– Ainda acha que é um sonho? – ele perigosamente sussurrou, aumentando ainda mais a pressão sobre o braço da hippie.
– O que você quer? – perguntou num arfar, impaciente, concentrando-se em demonstrar o máximo de indiferença possível, porém quanto mais queria se manter distante, mais era evidente que não conseguia.
– Sabe... – ele umedeceu os lábios – eu estava no quarto do seu filho, e não pude deixar de pensar no quanto as crianças são indefesas, não é mesmo? – ele franziu a testa, sorrindo como se aquela fosse uma conversa casual e cotidiana, mas a ameaça em suas palavras era mais do que perceptível. Alice sentiu o corpo inteiro enrijecer e o coração palpitar como se tentasse buscar o caminho até sua boca, e o estrondo de suas batidas soava quase tão alto aos seus ouvidos como se vários tambores retumbassem em uníssono dentro de seu peito.
– Fique longe do Krusty, seu doente! – sentou-se na cama num único movimento, desvencilhando-se do aperto em seu braço e encarando-o com o mesmo porte ameaçador.
– Krusty? – ele franziu a testa, momentaneamente intrigado com o nome, e logo em seguida deu de ombros, como se nenhuma esquisitice vinda da hippie fosse capaz de surpreendê-lo – Pouco importa... a questão é: por quanto tempo você ainda pretende brincar de casinha?
– Pelo mesmo tempo que você cismar em brincar de circo – desafiou.
– Eu vou te dar dois dias – o Palhaço disse, ignorando completamente a provocação de Alice.
– O quê? – a hippie franziu as sobrancelhas, sem entender.
– Você tem dois dias para voltar a Gotham. Caso contrário, o seu filho e o seu namoradinho sofrerão as consequências.
– Posso saber por que você quer que eu volte? – perguntou, rindo diante daquela ameaça improvável, ainda se perguntando se tudo aquilo de fato não passava de um sonho.
– Digamos que era muito mais divertido quando todos acreditavam que eu tinha uma cúmplice. O caos era muito maior, pelo simples fato de as pessoas imaginarem que você era um tipo de aprendiz disposta a seguir meus passos, e que sempre existirá alguém desonesta como você para ocupar esse posto. Isso por si só é suficiente para gerar o medo.
– Você realmente tem problemas... – Alice balançou a cabeça em sinal de reprovação – Depois de quase quatro anos de silêncio, você simplesmente aparece e acha que pode me chantagear a voltar para Gotham? – perguntou, descrente.
– Dois dias! – ele repetiu, como um lembrete – E sinta-se grata por esse prazo! Não espere que eu seja tão complacente na minha próxima visita...
A hippie ficou observando o psicopata desaparecer pela sacada, completamente confusa com o que tinha acabado de acontecer ali. O desinteresse do Palhaço por ela durante os anos que viveu longe daquela guerra fez com que Alice acreditasse não ser mais um alvo de Coringa, depois de todos esses anos de ausência, Alice julgou-se completamente dispensável para ele, como todas as outras vítimas que o Palhaço tão orgulhosamente colecionava... ela simplesmente não sabia o que deduzir desse estranho encontro, e muito menos entendia por quais razões o psicopata fazia tanta questão que ela voltasse para Gotham...
Talvez Alice estivesse enganada ao acreditar que um dia Coringa iria deixá-la em paz. Estava mais do que claro agora que ele não desistiria dela, pelo menos não até que cumprisse seu objetivo de destruí-la por completo.
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