Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
8 Libélula Assassina
O casal entrou na Lamborghini, ambos completamente sujos de tinta e ainda rindo com a pequena guerra que haviam travado com aquelas bolas viscosas cobrindo algumas extensões de suas peles. O Bilionário começou a dirigir com uma das mãos e com a outra acariciou uma porção especialmente melecada do cabelo de sua oponente.
– O que você acha de passar na Mansão Wayne? Alfred está nos esperando com um lanche – comentou, fazendo Alice rir internamente com o modo com que Bruce sempre tinha tudo metodicamente planejado.
– Bem que eu queria, mas não posso... – disse, dando um meio sorriso sinceramente triste pela recusa.
Bruce a encarou por um instante, desconfiado, e logo voltou a mirar a estrada.
– Você vai passar a vida inteira me dispensando ou é um hábito provisório? Espero que dessa vez ao menos tenha bolado uma desculpa melhor...
– Não, dessa vez não dá mesmo, eu preciso cuidar do meu paciente.
– Paciente? – uniu as sobrancelhas, seriamente curioso, revezando olhares entre a estrada e a sorridente hippie.
– Uhum... – assentiu, recostando-se preguiçosamente ao estofado confortável do carro – Há algumas semanas encontrei um homem baleado na porta da minha casa e eu estou cuidando do ferimento dele desde então... – avisou despreocupadamente – Não posso deixá-lo sozinho por tanto tempo. – concluiu, notando com surpresa que gastaram toda a tarde na engenhosa batalha que travaram.
Bruce pareceu incomodado com aquela informação tão despreocupada vinda da hippie. Seu corpo imediatamente enrijeceu junto ao volante, sua feição adquiriu um porte duro, e ele pareceu ausentar-se dentro de seus próprios pensamentos por um breve instante antes de finalmente manifestar-se.
– Há algumas semanas? – seu tom era vago, e foi quase impossível notar a pitada de reprovação que ele tentava camuflar naquela voz gentil – Quanto tempo exatamente?
Alice começou a conjecturar em silêncio, fazendo algumas contas mentalmente e encarando o teto do carro, como se olhar para cima fosse um modo mais fácil de visualizar com clareza os próprios pensamentos.
– Faz duas semanas e meia, três... – disse, surpreendendo-se com a rapidez com que o tempo havia corrido – Caramba, eu aguento aquele abusado há quase um mês!
Bruce entortou sutilmente os lábios enquanto ainda mirava a estrada, sentindo uma incômoda e forte má impressão sobre aquela terrível coincidência. As datas, mesmo que fossem imprecisas, batiam com o dia em que Coringa havia escapado da polícia, sendo visto pela última vez desde então, e Bruce não pôde deixar de ser invadido por maus pressentimentos...
– Como é esse homem, Alice? – perguntou rápido demais, sem se preocupar em esconder a sombra que tingia sua voz cada vez mais desconfiada e agora urgente – Por acaso ele tem uma cicatriz no rosto em forma de sorriso? – Bruce sabia que ela provavelmente nunca havia ouvido falar no psicopata, pois era nova na cidade e morava em um lugar relativamente isolado.
– Mas será possível? – Alice o olhou incrédula – Vocês realmente tiveram um caso? Ele ficou muito irritado quando eu falei que tinha um encontro com você, e agora você está aí todo interessado nele... – bufou, indignada.
– Alice, eu preciso ver quem é esse seu paciente! – olhou rapidamente para a hippie mais uma vez, ignorando completamente os resmungos baixos e irritadiços que ela dava.
– Saco, agora vocês vão se reconciliar, é? E na minha presença?
– Você não está entendendo...
– Estou entendendo perfeitamente bem! – ela o interrompeu – Vocês já tiveram um caso no passado que por algum motivo não deu certo, daí você começou a sair com um mol de garotas ao mesmo tempo para tentar disfarçar que o que você gosta mesmo é de queimar a rosca, mas agora que eu mencionei essa sua paixão antiga você vai tentar reatar com ele! – Ela disse tudo rápido demais, num único fôlego, se odiando por ter aceitado se envolver com Bruce, ainda mais prevendo que terminaria mal. Só não esperava que terminasse tão rápido assim...
Bruce acabara de chegar na casa dela, e em silêncio, estacionou o carro rapidamente e olhou para Alice, que estava com os braços cruzados e o rosto virado na direção da janela, mirando a paisagem através do vidro do carro e desprezando a presença do Bilionário.
– É melhor você esperar aqui! – Bruce pediu, já saindo do automóvel de luxo.
– Vai sonhando! – replicou, seguindo um Bruce apressado – Eu é que não vou facilitar as coisas pra vocês dois.
– Eu não tenho tempo de te explicar agora, Alice, tudo o que eu posso dizer no momento é que eu preciso me certificar de quem é esse homem que você diz.
– ...E ainda vai ter a pachorra de me dispensar na minha própria casa... – resmungou novamente, parecendo conversar consigo mesma.
– Assim que puder eu explico tudo!
Bruce, sem mais delongas, foi apressado em direção ao quarto indicado, puxando Alice pela mão com uma pressa exagerada.
Abriu a porta com tudo, preparado para qualquer reação do Palhaço ao vê-lo. Colocou-se na frente de Alice antes de entrar, e viu a única coisa que não esperava ver...
...O aposento estava vazio, sem qualquer vestígio de Coringa, ou até mesmo qualquer indício de que alguém havia passado por ali e ocupado o recinto. Alice entrou logo em seguida e, ao perceber a cama vazia, franziu a testa, indignada.
– Mas aonde aquela ameba se meteu? Ele devia continuar em repouso! – exclamou, parecendo confusa e um tanto aborrecida com o sumiço de seu imprevisível hóspede.
Bruce se dirigiu até a cama, vendo que uma carta de baralho se destacava sobre a brancura alva do lençol que a cobria – a carta coringa, claro – com uma mensagem no seu verso.
Ele leu rapidamente e olhou preocupado para Alice.
– Vamos para a minha casa. Você não está segura aqui! – replicou, sem maiores explicações quanto aquele comentário.
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Bruce dirigia ainda mais rápido do que antes pelas ruas, sem nunca desviar o olhar do caminho, completamente focado naquele serviço. Alice nunca o viu tão sério... Sua expressão um tanto absorta era intrigante, e ao mesmo tempo um pouco ameaçadora. Parecia errado interromper aquele momento intenso de reflexão, mas quem disse que a hippie se importava?
– Você pode explicar por que acabou de me raptar? – perguntou baixo, reparando em cada mudança na expressão de Bruce.
– Quando chegarmos à mansão... – foi tudo o que ele disse, tentando encerrar o assunto antes mesmo que Alice tivesse chance de iniciá-lo.
– Posso pelo menos ver o que ele escreveu? – tentou novamente, sem ser capaz de desviar os olhos da carta de baralho, que já estava amassada por conta do aperto excessivo com que Bruce a segurava enquanto dirigia.
Ele cedeu sem prolongar mais aquela conversa, jogando a carta coringa no colo de Alice, e imediatamente ela olhou intrigada para aquele desenho, sem entender exatamente o que ele podia representar...
– Por que alguém escreveria um recado em uma carta de baralho? Será que acabou os cartões de visita? – pensou alto demais, e sem conseguir mais conter-se em sua curiosidade, a hippie virou a carta coringa, dedicando-se a decifrar a grafia apertada em forma de recado. Um recado tolo e conciso – "Você terá o agradecimento que merece. Nos vemos em breve!" – leu em voz alta, como se isso pudesse fazê-la entender melhor as palavras ali gravadas – Mas que mal agradecido, nem para se despedir direito...
Eles permaneceram em silêncio até chegarem à enorme e imponente Mansão Wayne, e quando finalmente a avistaram, Alice ficou boquiaberta com tamanho esplendor e beleza do imóvel de proporções exageradas.
Alfred imediatamente os recepcionou, sorrindo gentilmente para Alice ao avistá-la ao lado do patrão, parecendo entusiasmado em conhecê-la. Logo que a hippie reconheceu o mordomo, já se encantou com aquele sorriso convidativo, se vendo obrigada a sorrir também.
– Espero que a senhorita tenha se divertido! – disse, ainda em meio àquela expressão cálida e calorosa.
– Sim e não pra falar a verdade! – deu uma risadinha, que pareceu boba aos seus ouvidos por causa da contradição que havia nela – Seu patrão acaba de me trocar por uma espécie rara de travesti... – disse, e Alfred a fitou confuso – E por favor, me chame só de Alice!
Bruce desconsiderou aquele comentário, ainda parecendo exageradamente abalado com a situação.
– Vamos entrar, Alice! Nós temos muito o que conversar.
– Senta que lá vem história... – rolou os olhos.
– Isso é sério, Alice! Você está correndo um perigo real – Bruce alertou, colocando muito mais seriedade em seu tom que há poucas horas era tão informal e alegre.
– O que houve, patrão Bruce? – Alfred perguntou, agora preocupado.
– Lá dentro eu explico para vocês. – respondeu, deixando que o mistério envolvesse suas palavras e os deixassem ainda mais confusos.
Depois que ele e Alice estavam acomodados na enorme e elegante mesa da sala de jantar, Bruce adotou uma voz um pouco mais suave, como se estivesse arrependido do alarde precoce que pareceu disseminar a preocupação entre o mordomo e a hippie.
– Sente-se, Alfred, por favor. Você vai me ajudar a ter essa conversa com a Alice.
Alfred obedeceu em silêncio, mas de forma alguma saberia como poderia ser útil àquela conversa sem estar à par da situação primeiro. Ainda assim, o mordomo sentou-se, esperando pacientemente por algum esclarecimento convincente ao comportamento estranho de seu patrão. Alice, por sua vez, não estava gostando nada daquilo. Ser trocada por um homem já era bastante humilhante, imagina receber essa notícia com plateia... Bruce despejou um longo suspiro antes de começar a falar.
– Eu sei que você se mudou há pouco tempo para Gotham – iniciou o seu discurso, fazendo uma pequena pausa irritante e logo voltando ao assunto –, e sei também que você não se atém muito às notícias locais, mas por acaso você já ouviu falar num criminoso de codinome Coringa?
– Coringa? – perguntou, adotando uma postura inquisidora, e indiretamente dando uma resposta negativa com o franzir confuso de sua testa.
– Foi o que pensei... – Bruce suspirou, inclinando o corpo para trás em desânimo na cadeira macia – Trata-se do criminoso mais procurado e perigoso de Gotham, e ele usa essa alcunha por se caracterizar como o próprio coringa do baralho – disse, apontando para a carta que ainda estava presa à mão de Alice – Há mais ou menos três semanas ele foi baleado por um policial enquanto tentava explodir um hospital, mas conseguiu escapar. – a hippie ficou pensativa e Bruce virou-se para Alfred, dando uma breve explicação para incluir o contexto que o mordomo ainda não possuía – a Alice estava tratando do ferimento do Palhaço sem saber...
Alice disse, mais para si do que para os dois ali presentes, encarando a figura alegre do bobo da corte que ocupava praticamente todo o espaço disponível na carta:
– Então a Libélula Saltitante é um criminoso procurado... – cerrou os olhos enquanto refletia pensativamente – Me enganou direitinho aquele palerma...
Bruce e Alfred arregalaram os olhos, encarando-se mutuamente com evidente choque.
– Por favor, me diga que você não o chamava assim...
– Sim, desde o primeiro dia eu chamei o trombadinha de Libélula Saltitante... – respondeu, dando pouca importância àquele fato.
Alfred olhou para Bruce, verbalizando aquilo que o Bilionário também pensava, e que só não era óbvio para a hippie:
– Ela não pode voltar para aquela casa, patrão... Não é seguro!
Bruce concordou de leve com a cabeça, e mais um suspiro saiu de seus lábios extremamente sérios.
– Foi o que eu pensei também.
– Ei, espera aí, nada de drama! – Alice inclinou-se para mais perto deles, rindo com certo nervosismo – Talvez nem fosse esse tal de Coringa. Talvez só uma estranha... E muito estranha, devo admitir... Coincidência.
– Quando você o encontrou, como ele se apresentava? – o Bilionário perguntou, mais como uma forma de convencer Alice de sua teoria do que a si mesmo. Estava mais do que provado para ele que o tal paciente não passava do delituoso homem vil que vinha assolando Gotham com suas investidas psicóticas.
– Ele usava uma maquiagem borrada, um terno roxo meio ridículo e o cabelo tinha um tom esverdeado. Mas isso não quer dizer nada, certo? Existem muitas pessoas excêntricas por aí...
Alfred a olhou com uma mescla de preocupação e compaixão.
– Não... – disse um pouco baixo – A senhorita acabou de descrever exatamente o Coringa, e essa mensagem na carta do baralho é a confirmação da qual não há como refutar...
– Exatamente! – concluiu Bruce, concordando com o mordomo em todos os aspectos – E agora com certeza ele vai querer ir atrás de você para buscar se vingar.
– Então vocês nunca tiveram um caso? – Alice arqueou inquisidoramente uma de suas sobrancelhas ao perguntar, esperando ansiosa pela resposta.
– Não... – Bruce ficou desconcertado com aquela pergunta inesperada, e agora era o seu rosto que estava confuso.
– Sério, que alívio! – suspirou longamente, sorrindo ao sentir os músculos relaxarem da tensão repentina que havia se instalado neles.
– O quê? – encarou-a com uma inquietação crescente dentro dos seus olhos – Eu acabei de dizer que tem um psicopata querendo acertar as contas com você, e me diz que está aliviada? – pronunciou a palavra como se não conhecesse o seu significado.
– A situação me parecia pior com o meu antigo ponto de vista! – Alice precisou rir ao ver a doce expressão de incredulidade no belo rosto do Bilionário – Olha, Bruce, não precisa se preocupar! Eu já precisei me esquivar de toda a máfia japonesa, não vai ser um maluco que acha que é o Bozo que vai me intimidar! A Libélula quer me matar? Pega a senha e entra na fila!
Alfred segurou a mão de Alice de modo reconfortante e olhou fundo em seus olhos, tentando transmitir a complexidade da situação em que ela acidentalmente se metera.
– O Coringa controla a máfia japonesa e todas as outras, Alice. Ele realmente é o criminoso mais perigoso que Gotham já teve o desprazer de abrigar, e não me surpreenderia se fosse o mais perigoso do país também. – ele parou de falar por um instante, apertando um pouco mais os dedos da hippie entre suas próprias mãos, em um gesto mais do que caridoso – Ele não faz o tipo que pega senha quando quer livrar-se de alguém.
Alice ficou sem reação, comovida com a preocupação que emanava de Alfred, e ao mesmo tempo tentando compreender a dimensão de suas palavras. E pior ainda – tentando entender o peso que elas ganhariam sobre os seus ombros a partir daquele momento.
– Você não pode mais voltar para sua casa – Bruce interveio, interrompendo seus pensamentos – Não se preocupe, você ficará segura aqui, eu prometo!
– Oi? – a hippie desviou os olhos de Alfred, passando a encarar Bruce como se ele fosse um completo insano em estágio avançado, sem mais nenhum controle sobre suas faculdades mentais – Eu não vou ficar aqui! – riu, em dúvida se tal proposta não passava de uma espirituosa piada.
– Por favor, seja sensata. – replicou exaustivamente, com tanto pesar que sua voz chegou a sair cansada quando voltou a falar – Eu não posso deixar aquele maluco te machucar.
– Eu agradeço muito a preocupação que vocês estão tendo comigo, mas se isso for verdade e esse Palhaço realmente vier atrás de mim, eu vou colocar todos vocês em perigo! – avisou, tentando a todo custo ordenar os pensamentos difusos e assimétricos que vagueavam sem rumo certo pela sua mente, e a confusão crescente em sua cabeça a fez acreditar que não estava seguindo uma linha coerente de raciocínio – Quer dizer, como vocês acham que eu vou me sentir se alguma coisa de ruim acabar afetando-os por minha culpa?
– Alice, pode acreditar, essa mansão é o lugar mais seguro da cidade, o Coringa jamais seria capaz de burlar a segurança e entrar aqui! – Bruce disse, retomando a mesma voz misteriosa e vaga que usara há pouco tempo.
– E eu vou ter que me esconder pelo resto da vida? – riu, sem humor algum – Uma hora ou outra ele vai conseguir o que quer, e eu prefiro não envolver ninguém nisso.
Ela estava certa, e Bruce sabia muito bem disso! Pelo o que conhecia da personalidade de Coringa, sabia que ele não descansaria até apagar Alice de vez, pelo simples fato de ter cruzado o seu caminho...
– Fique aqui só por um tempo! – encarou-a intensamente por segundos o suficiente para fazê-la desviar o rosto enquanto refletia, tamanha a complexidade daquele olhar — Pelo menos até que eu pense em alguma alternativa melhor... – Bruce pediu, colocando gentilmente uma mecha solta do cabelo de Alice atrás de sua orelha ainda manchada de tinta – Por favor.
– Eu não vou abandonar meus cachorros! – balançou negativamente a cabeça, encerrando de vez aquele contato visual perturbador ao passar a encarar os próprios pés – Eu acabei de adotá-los... – fungou, birrenta.
– Não tem problema, a mansão é enorme, eu mando buscá-los agora mesmo se este for o empecilho.
– Bruce, são sete cachorros! — levantou novamente a cabeça em sua direção, com as sobrancelhas praticamente unidas em uma só. Sem dúvida, aquela atitude a surpreendeu... E de uma forma gostosa, até!
– O espaço é grande o suficiente para um canil! – repetiu, agora com um sorriso que deixava à mostra grande parte de seus dentes perfeitamente brancos – E eu simpatizo com cachorros! Talvez você até tenha um problema para tirá-los daqui depois – brincou.
Alice olhou para o Bilionário em dúvida, sem saber que resposta daria. Bruce a deixou completamente sem reação com aquela demonstração de interesse, de preocupação sincera com o seu bem-estar e segurança. Seus olhos até chegaram a arder de um modo incômodo enquanto ainda pensava em uma resposta, que não veio. Bruce interpretou seu silêncio como vitória e, sem esperar pela confirmação da hippie, chamou o motorista, que se fez presente em menos de um minuto.
– Preciso que vá até a casa da Doutora Alice e traga os cachorros que tem lá.
– Tudo bem, senhor – assentiu de forma respeitosa – Quantos são?
– Sete. – avisou, ameaçando sorrir.
O motorista olhou para Alice com feições espantadas, mas não disse nada, apenas assentiu novamente e saiu em direção ao carro, já atendendo à ordem.
– Isso não está certo... – a hippie disse, um pouco tarde demais. Não lhe agradava em nada a ideia de depender de outra pessoa para que conseguisse se manter em segurança...
– Vai ser uma honra hospedá-la aqui pelo tempo que for necessário – Bruce olhou carinhosamente para a hippie, que retribuiu com um sorriso triste – Alfred, por favor, mande que arrumem um dos quartos de hóspede para Alice.
– Sim, senhor! – levantou-se imediatamente, pronto para acatar ao pedido de seu patrão. Antes de sair, o mordomo virou-se para Alice e piscou em sua direção – Providenciarei iguarias tão saborosas que a senhorita nunca mais vai querer partir!
– Ah, por que não disse antes? – os dois riram, enquanto Bruce parecia um pouco alheio ao que ocorria, novamente mergulhado na imensidão de seus devaneios – Mas eu só fico se você parar de me chamar de senhorita... – Alice avisou, usando o seu melhor tom de ameaça.
– Farei o possível – Alfred prometeu, com certo receio de abandonar os seus costumes tão enraizados. Direcionou mais um de seus sorrisos simpáticos à nova hóspede, e em seguida retirou-se do aposento.
Os dois ficaram a sós e Alice sentiu que o sorriso fugiu de seu rosto assim que Alfred ausentou-se. Olhou preocupada para Bruce antes de quebrar o silêncio – ou interromper os pensamentos que pareciam pulsar vivamente no íntimo do Bilionário...
– Você não tem obrigação alguma de tentar me proteger... – disse, um pouco aflita com toda aquela situação, que caiu pesadamente sobre sua cabeça não mais do que de repente.
– Você acha mesmo que minha ajuda é gratuita? – levantou o queixo, adotando um ar pedante e ao mesmo tempo brincalhão ao encarar Alice de cima, – Faz parte de um dos itens na minha extensa lista de vingança! – ele riu maldosamente.
– Acho que eu tenho mais medo de você do que desse tal Coringa... – riu junto com ele, contagiando-se pelo som agradável – Melhor voltar para a minha casa mesmo!
– Nada disso, você perdeu o direito da escolha – sorriu de forma maliciosa, e aquela expressão realmente não combinava com ele. Mais uma vez Alice foi obrigada a rir de seu jeito cativante.
– Já entendi, você quer que eu seja sua escrava sexual, certo? –apontou para ele de forma acusadora – Já vou avisando, senhor Wayne, eu não vou fazer uma cicatriz no meu rosto para satisfazer seus fetiches com aquele palhaço...
Os dois riram, e de repente Alice sentiu o peso real daquela decisão, arrependendo-se de ter cedido – mais uma vez! Céus, será que ela ficava mais tonta do que o normal na presença de Bruce, ou aquela era uma característica que ela percebia acentuar-se apenas diante do ilustre e afamado empresário?!
– É sério, Bruce, eu vou ficar aqui só por uns dias, se a gente não conseguir pensar em nada melhor eu vou embora, com ou sem risco de acabar fazendo parte de um circo sádico.
Bruce a abraçou forte, como se pudesse protegê-la do mundo inteiro à sua volta, e passando tanta confiança naquele simples gesto, que fez Alice acreditar que nenhum problema podia ser grande demais. Não enquanto aquele abraço perdurasse, pelo menos...
Tudo nele era reconfortante... O sorriso, o toque, a voz suave, o odor perfumado de sua pele... Um conjunto perigoso de fatores que parecia ter o poder de fazer com que Bruce sempre conseguisse tudo o que queria.
– Nós daremos um jeito, eu prometo! – ele disse baixinho, rente ao seu ouvido, arrepiando instantaneamente o local em que seu hálito quente atingiu a pele de Alice. Ele ergueu o queixo da hippie delicadamente, puxando o rosto dela para mais perto do seu, mantendo a boca entreaberta ao fazer com que seus lábios se roçassem, dando início a um beijo com gosto de tinta, porém tão doce quanto o mais delicioso manjar.
Na verdade, Bruce sabia que não haveria nada seguro o suficiente para Alice além dos muros de sua mansão. Nenhum outro lugar seria capaz de abrigá-la com tanta eficácia naquele objetivo de mantê-la salva no meio de todo o furacão que ameaçava se formar ao seu redor. Agora existiam apenas duas opções: ou ele capturava Coringa de vez, ou teria que enrolar Alice ali pelo maior tempo que conseguisse, e no momento, a segunda opção parecia ser a mais árdua...
Ela afundou o seu rosto no ombro de Bruce, aconchegando-se à curva de seu pescoço enquanto ele apertava ainda mais o abraço que os envolvia.
"Isso que dá tentar ajudar completos desconhecidos armados que aparecem misteriosamente desacordados na porta da sua casa... Por que eu sempre acabo sendo perseguida por algum psicopata?"
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