Notas iniciais
Casa da Hippie, antes de Coringa fugir.
Um bufar descontentado ecoou no silêncio e solitude do aposento de parcas medidas, traduzindo algumas frustrações daquele polêmico ser. Coringa sabidamente dava-se conta de que a proximidade repentina que se firmara entre Alice e Bruce certamente ainda prejudicaria sua estada na casa daquela que o abrigava tão inocentemente... Hora ou outra, inevitavelmente ela descobriria quem o Psicopata de fato era, e essa era uma questão que não poderia ser ignorada.
De fato, não era sua intenção partir daquela cabana tão cedo. O Palhaço sabia que ainda podia tirar muito proveito de sua estadia ali – e mais ainda, beneficiar-se com o tratamento que Alice dedicava ao seu ferimento –, mas tudo já havia ido longe demais. Estava mais do que na hora de partir, e muito em breve retornar, para o tão esperado acerto de contas... Que sem dúvidas seria no mínimo delicioso!
A oportunidade não podia se mostrar tão propícia quanto esta! Coringa ouvia nitidamente que Bruce tentava convencer Alice a sair com ele uma segunda vez, e ele sabia perfeitamente qual acabaria sendo a resposta, mesmo que a mulher parecesse relutante... Calafrios de raiva acometeram-lhe ao imaginar os dois juntos, ao pensar neles como um casal! E cada vez mais esses sentimentos incontroláveis e sempre repentinos o enfureciam de tal maneira, que tornava ainda mais difícil controlar-se.
Finalmente percebeu, com um sorriso que mesclava contentamento e irritação, que a Lamborghini preta do Bilionário entrou em movimento, e como era de se esperar, Alice foi com ele...
– Aproveite enquanto pode, minha querida! – disse, quando não podia mais ouvir o ruído do carro – Nosso próximo encontro será de matar...
O ferimento no seu ventre ainda o incomodava, mas ele era obrigado a admitir que Alice havia feito um ótimo trabalho, e Coringa sabia que agora ele mesmo estava apto a cuidar da ferida sozinho apenas com algumas manutenções e cuidados necessários, sem maiores problemas, como já havia feito inúmeras vezes em suas afrontas às leis. Realmente, o melhor que ele podia fazer era sair dali, e claro, voltar muito em breve para concluir aquilo que, sem qualquer controle, começara.
Depois de esperar com enorme impaciência alguns demorados minutos para certificar-se de que os dois não retornariam, Coringa começou a juntar seus poucos pertences que estavam no aposento, dando uma boa verificada no local conforme o fazia.
– Um hospício seria mais saudável para minha saúde mental do que essa cabana! – ele riu enquanto ainda analisava o pequeno quarto em que ficou internado, nos menores aspectos – Vai ser delicioso voltar e proporcionar um último encontro à minha doutora particular... – sorriu, lambendo o lábio inferior de forma intimidadora enquanto ainda se deliciava ao imaginar a insolência dar lugar ao terror dentro daqueles olhos sedutores que tanto o aprisionaram – muitas vezes em recantos que passaram longe de seu agrado.
Ele terminou de juntar suas esparsas tralhas, as mesmas que havia ido buscar no carro há poucos dias, e pegou uma das cartas coringa que sempre levava consigo, com o intuito de rabiscar um bilhete para Alice. Nada como um pequeno cartão para despedir-se...
...Por enquanto!
Escreveu um recado simples, pouco declarador, e colocou a carta sobre a cama, reparando em como o baralho colorido destoava na brancura do lençol. Esquivou-se daqueles pequenos devaneios que ainda o prendiam ali, saindo de uma vez daquele quarto que foi o seu manicômio particular, porém, ao mesmo tempo, mais estimulante do que qualquer cela.
Ao invés de dirigir-se diretamente para a saída, julgou conveniente vasculhar o quarto de Alice e procurar por qualquer relevância que se mostrasse útil na sua vingança, ainda embrionária. Buscava por qualquer coisa que pudesse usar contra a hippie no momento em que voltasse.
– Essa estúpida riponga tem que ter um vínculo com alguém, algum ponto fraco... – resmungou enquanto revirava suas gavetas e armário, sem se preocupar com a bagunça que deixaria para trás na sua urgência.
Coringa encontrou a foto de uma Alice sorridente em sua radiância tão típica, segurando orgulhosamente o diploma que hoje jazia pomposo numa das paredes do casebre. Sem saber exatamente o porquê, dobrou-a, guardando a foto de tamanho médio no bolso interno de seu paletó arroxeado, e assim que o fez, continuou sua procura pelo desconhecido.
Sentou-se na cama e começou a folhear um considerável bolo de fotos junto àquela que o Palhaço acabara de furtar, e chegou à conclusão de que Alice era realmente problemática, de uma forma que ia muito além da interpretação superficial do Psicopata...
– Ela tirou uma foto com a máfia japonesa... – sorriu, quase achando graça – Acho que eu devo me apressar se quiser ter prioridade em matá-la...
Na foto em questão, Alice segurava sua samambaia fortemente com uma das mãos e, com a outra, uma pequena caixa amarela intitulada: “Kit de inverno!”, que exibia orgulhosamente, como se aquela invenção fosse digna de um Nobel. Os integrantes da máfia estavam com uma expressão de extremo ódio em suas faces displicentes, e Coringa nem soube imaginar como Alice conseguiu sair viva desse encontro, mesmo sabendo que Batman interveio...
Coringa não encontrou nada relevante que pudesse lhe servir de alguma ajuda, alimentando ainda mais a sua frustração a respeito da hippie! Ela era a primeira pessoa que ele não sabia como afetar psicologicamente com seu sadismo, seu tipo favorito de tortura, e isso o incomodou intimamente. Não lhe agradava nem um pouco a sensação de ser incapaz de decifrar os desejos e temores de alguém, mas aquela guerra estava apenas começando, e bastaria um pouco de tempo e paciência para que o psicopata soubesse a melhor maneira de atingi-la com seus joguinhos sórdidos. E como ele ansiava por isso...
Por ora, desistiu de sua busca ao sentir-se movido pela pressa em abandonar o casebre, saindo em direção à porta. Seus passos se detiveram quando Coringa deparou-se com Satanás à sua frente, que o encarava corajosamente e rosnava – como um perfeito esboço de cão de guarda que futuramente ainda poderia tornar-se –, e tal quadro fez com que Coringa subitamente percebesse o melhor jeito de afetar Alice, e ainda se vingar do cachorro por ter mijado tão maquiavelicamente em sua roupa... Ao menos enquanto não encontrasse um laço mais fortemente enraizado na vida da hippie, ele conseguiria atingi-la por meio de seus amados filhotes!
– Me aguarde, pilantra! – sussurrou a ameaça – Quando eu voltar você vai ser o primeiro a morrer na frente da sua querida dona, e aí veremos quem será o alfa!
Coringa traçava o caminho já conhecido em direção ao carro roubado, enquanto discava o número do capanga no celular, já mal humorado pela precisão de contatar aquele que, assim como os demais, eram a mais pura personificação da incompetência, a voz trêmula de seus comparsas sempre soando a ele como uma lembrança irritante de que todos ainda estavam vivos. Ainda! Dessa vez foram necessários apenas dois toques para que a chamada fosse atendida.
– Chefe? – sua voz saiu controlada dessa vez, sem demonstrar o mesmo desapontamento por saber que o Palhaço em breve voltaria à ativa.
– Me encontrem no lugar de sempre daqui a meia hora. Eu quero todos presentes, entendeu? – rosnou, e sem esperar pela resposta, encerrou a chamada, começando a dirigir de volta a Gotham.
Ele dirigia com uma concentração excessiva, imaginando qual seria o melhor tratamento aos inúteis dos seus capangas. Sabia que não poderia matá-los agora, não antes de resolver seu problema com Alice...
Não... Mas matar Alice não seria um problema! Coringa queria isso, mais do que quis com qualquer outra pessoa... Não queria?
Ele balançou a cabeça, como se pudesse afastar aquela hesitação idiota de seus pensamentos. Parecia que sua mente fazia questão de lhe pregar algumas peças, o que era decididamente irritante. Nada o deixaria mais satisfeito do que ver o pavor no rosto de Alice, nada seria mais saboroso do que vislumbrar seus olhos implorando por algum tipo de clemência, e imaginá-la engolindo aquelas piadinhas horríveis que sempre soltava fez com que o psicopata tremesse de prazer. Queria ouvir a melodia de seus gritos, sentir seus últimos momentos de vida abrandarem a pulsação de seu sangue. E, mais do que tudo, naquele processo necessitava transformar a hippie na mesma figura patética que notava em todas as outras vítimas que já cruzaram o seu caminho, firmando de uma vez por todas dentro de si a certeza de que nada de especial residia naquela estranha pessoa.
Sim, matar a riponga seria algo prazeroso! Até mesmo por que, a segurança de Coringa dependia disso, além do seu orgulho, totalmente ferido enquanto esteve lá! Não havia outra possibilidade para Alice, mesmo que o Palhaço realmente quisesse poupá-la... De qualquer forma ela estava condenada pelo seu próprio azar.
Aquele longo trajeto já estava começando a aborrecer seriamente o Palhaço...
– Ela precisava morar tão longe assim? – o mau humor era evidente no seu tom de voz – Quando eu voltar para acabar com ela vai ser outra viagem... Pelo menos será por um bom motivo! Quem sabe nós até não brincamos de médico? – ele riu sozinho, e o som foi abafado pelas peças de metal que o envolviam.
Coringa já estava próximo ao depósito abandonado onde havia marcado com seus capangas, e finalmente poderia descontar sua ira pela incompetência deles. Aquilo, ele sabia, seria imensamente revigorante! O Psicopata lambeu o canto dos lábios, repleto de expectativa pelo que viria a seguir.
Finalmente estacionou o carro dentro do depósito e foi apressado ao ponto de encontro, porém antes de procurar por seus capangas, gastou consideráveis minutos na tarefa de recriar sua tradicional maquiagem no rosto, quase se esquecendo de que deveria refazê-la, por ficar muito tempo sem precisar usá-la. Assim que cada porção da sua pele escondeu-se atrás da tinta, Coringa foi de encontro aos inúteis que certamente já o esperavam.
Ficou satisfeito ao ver que todos se encontravam lá, meio tensos, sentados na enorme mesa retangular. Nenhum deles ousou encarar os olhos de seu chefe quando Coringa fez a sua entrada quase triunfal. Patéticos! Ridiculamente patéticos!
– Aqui estão vocês, meus fiéis comparsas! – todos o olharam intrigados, e Coringa continuou seu discurso, andando pela mesa e olhando cada um deles nos olhos, sorrindo por dentro com o medo que eles emanavam pelo simples contato visual. Pulou certeiramente na cadeira da ponta que se mantinha vazia, ocupando o espaço de maneira largada e folgada, fazendo os seus pés descansarem, cruzados, sobre a mesa – Por que a surpresa? Vocês merecem ser aclamados! – Coringa retirou uma faca larga de dentro do paletó, rolando-a entre os hábeis dedos distraidamente – Afinal, a competência de vocês é de fato espantosa!
Agora ele encarava seus capangas com fúria, mas ainda controlando a voz. Aquilo certamente era muito pior do que gritar... O tom comedido do seu discurso provocava muito mais temor pela forma como o psicopata extravasaria seu ódio ao final daqueles pavorosos dizeres...
– Se formos listar... – reclinou-se, ignorando a pontada em seu ventre – Primeiro, no dia do atentado ao Hospital de Gotham... – citou, sem desviar a atenção do afiado gume que ainda manejava – Uma eficiência digna de nota! Eu mando que vocês distraiam os policiais no momento da explosão, e justamente quem aparece? – deixou a pergunta no ar, mas não esperava que alguém a respondesse.
– A culpa foi do Batman... – um dos capangas o interrompeu, voz desesperada para se fazer ouvir – Ele descobriu a armação e estava acompanhado de um policial, que comunicou o distrito policial inteiro...
Coringa apenas fitou com intensidade o homem que falava freneticamente e, sem dizer uma única palavra, sacou uma de suas armas de fogo e acertou um tiro bem no meio dos seus olhos, cessando aquela explicação enfadonha. Uma trilha grossa de sangue desceu pelo buraco rubro e recém-aberto na testa do capanga, fazendo-o cair no chão, inerte. O Palhaço olhou para os outros, que voltaram a ficar tensos. Coringa disse, como se confessasse um defeito:
– Detesto ser interrompido... Onde eu estava mesmo? – parou um momento para refletir – Ah, sim, falando da incompetência de vocês! Eu sou um cara bem tolerante, por isso vou deixar que vocês me expliquem o que aconteceu quando eu disse para todos irem atrás do Wayne, com a única tarefa de frustrar a noite dele e, ao invés disso, fico sabendo que mais uma vez vocês falharam... Podem começar! – esperou.
Ninguém parecia disposto a ser o primeiro a se manifestar, ainda mais após o tiro que Coringa acabara de disparar. Ele suspirou, dizendo:
– Minha paciência não está das melhores hoje, meus caros, então a menos que mais alguém queira se juntar ao defunto, é bom alguém começar a falar... – intimou, já posicionando novamente o indicador junto ao gatilho e mirando aleatoriamente.
Imediatamente àquela ameaça, um deles tentou se explicar:
– Não dava pra saber que a garota ia lutar daquele jeito... E precisamos dividir o pessoal para cobrir os possíveis pontos em que Bruce apareceria, não fazíamos ideia de onde encontrá-lo! – disse, parecendo realmente desesperado em mostrar o seu ponto de vista – Pensamos que dois capangas seriam mais do que suficientes para dar conta do serviço.
Coringa gargalhou alto, de um modo que parecia beirar a mais genuína insanidade.
– Não me diga, vocês pensaram? – riu novamente, como se essa fosse a piada do ano – Isso sim é novidade! – batendo fortemente a arma na mesa e provocando um baque surdo, disse com ódio – Acontece que vocês não são pagos para pensar, e sim para me obedecer!
Ele voltou a brincar com a faca, encarando-a com uma expressão agora indiferente.
– Vocês são realmente uma decepção atrás da outra... – balançou a cabeça em uma reprovação evidente – Mas vocês têm muita sorte por eu ser tão compreensivo! – voltou a encarar a corja de inúteis que o cercava, tentando falar o mais devagar possível para que eles pudessem entender – Estou disposto a lhes dar mais uma chance, e para o bem de vocês, é bom que não me desapontem mais! Eu garanto que vai ser a última vez...
![]()
O motorista voltou da casa de Alice e, ao escancarar a porta do carro, saíram em disparada os seis filhotes, correndo desajeitadamente pelo jardim lindamente projetado da mansão, e logo atrás a mãe, que mancava graças aos machucados ainda recentes.
Por fim, foi a vez de o motorista descer do veículo, e Alice precisou segurar a risada ao encarar o estado deplorável do pobre homem. Ele estava completamente exausto, e seu uniforme — que antes estava impecável — agora não passava de um trapo amassado e sujo de terra sobre seu corpo, e misturado a isso, parecia ligeiramente descabelado e dono de uma lividez preocupada. Com certeza aquela havia sido a viagem mais cansativa que ele já fizera na vida, mesmo com a distância sendo consideravelmente pequena...
O funcionário foi na direção do patrão, transbordando apreensão.
– Senhor Wayne, um dos cachorros destruiu o estofamento do carro... – avisou, temendo levar alguma advertência pelo seu descuido em vigiar os filhotes e ao mesmo tempo dirigir.
Alice reparou que Satanás caminhava alegremente pelo enorme gramado, e no canto de sua boca era possível ver uma tira de couro dançante à mercê dos passos saltitantes do filhote, tira esta que provavelmente pertencia ao banco do carro. Ela olhou para Bruce, envergonhada, nem reparando que Satanás se engajava em rolar na terra com compulsão.
– Me desculpe por isso! Não se preocupe, eu vou pagar! – Como ela ia arranjar dinheiro para pagar o estofamento destruído de uma Lamborghini do ano, era um detalhe que Alice ainda não sabia como resolver... – Talvez eu consiga parte do dinheiro vendendo meus órgãos... – riu, tentando quebrar o gelo.
– Fique tranquila, Alice, não foi nada – Bruce nem parecia ter se abalado em saber que aquele carro incrível fora destruído por dentro por um furacão de orelhas caídas.
– Não interessa, é bom você aceitar o dinheiro se quiser que eu fique aqui – avisou autoritária, sabendo que ao menos ainda poderia sentir-se um pouco que fosse no controle ao usar sua própria situação como chantagem para tudo.
– Depois falamos nisso – tentou desviar o assunto – Estão todos os cachorros aqui?
Alice conferiu, chamando pelos seus nomes e identificando-os.
– Capitu, Madruguinha, Nhonho, Rasputin, Chiquinha, Stitch, e... – Satanás agora estava cavando as rosas importadas do jardim da casa... Aquele lindo jardim, antes impecavelmente harmonioso e elaborado, agora estava parcialmente destruído – Aquele ali eu não conheço! – apontou para o demoniozinho e começou a assoviar.
“Para com isso, pestinha! Desse jeito você vai me levar à falência...”
O filhote endiabrado veio correndo ao encontro de Alice, com o focinho cheio de terra e pulando para lamber a mão de sua mais nova dona. Ela riu, incapaz de enraivecer-se com ele.
– OK, monstrinho, você venceu! – disse enquanto acariciava sua orelha também suja de terra e ao mesmo tempo úmida – Põe as flores na minha conta também, Bruce! Ou se preferir, coloca na conta do Papa... – riu, ainda acariciando o doce e travesso filhote que se esticava prazerosamente conforme Alice o esfregava.
– Vamos, vou mostrar o seu quarto... – ele a puxou para dentro da mansão, segurando sua mão enquanto ria junto com ela.
– Espero que seja bem perto do quarto do Alfred, assim vai ficar mais fácil esconder nosso caso secreto de você e planejar melhor sua morte! – Brincou, enquanto o seguia por aqueles imensos corredores, um mais lindo e impetuoso do que o anterior. Era difícil acreditar que um imóvel podia ser tão grandioso assim!
– Posso perguntar o motivo de você querer me matar, senhorita Romanov?
– Na verdade não deveria, é muito óbvio, mas já que você é tonto eu explico... Alfred e eu estamos de olho na sua fortuna, só por isso. Primeiro eu vou fazer você se encantar com meu jeito excepcionalmente meigo e cativante. Você, ingenuamente, vai alterar seu testamento me tornando a única beneficiária. Quando isso acontecer, Alfred e eu iremos “te suicidar” e transformar a Empresas Wayne num cassino. Não tem erro! – sorriu com a genialidade de seu plano.
Bruce, dotado de um meio sorriso cheio de humor, abriu a porta de um enorme aposento, reproduzindo um gesto exagerado com a mão, convidando Alice a entrar no quarto que seria provisoriamente seu. Ela percebeu o leve esboço de um novo sorriso em seu rosto, e disse, enquanto passava pela porta:
– Obrigada, Bruce, você é mesmo uma Lady...! – sua voz sumiu ao reparar naquele quarto, e seu queixo sentiu a potência da gravitação, caindo de vez.
– Gostou? Mandei que arrumassem o melhor quarto da mansão.
Com muito esforço ela encontrou sua voz novamente, mas não antes de engolir em seco.
– Oh, Deus... isso é maior do que a minha casa inteira... – ela olhava tudo em volta sem acreditar, dando um leve tom de exagero ao seu comentário.
– Espero que goste, você sabe que pode ficar o tempo que quiser aqui, certo?
– Uhum... – ela sequer prestava atenção ao que Bruce dizia. Ok, a hippie tinha noção de que aquela mansão era monstruosamente grande, mas ver um único aposento que quase superava a extensão de sua humilde casa fez com que ela percebesse as dimensões reais do imóvel de Bruce, sem conseguir parar de admirar cada canto do ilustre cômodo.
Ele percebeu a fascinação de Alice, e disse enquanto saía fechando a porta:
– Vou deixar vocês a sós... – riu enquanto se retirava.
Alice percebeu que tudo ali era extraordinariamente maior do que realmente precisava ser: a cama, num formato King Size, ocupava o centro do aposento de forma respeitosa, com um lençol de seda macio cobrindo-a por completo. Havia também uma janela enorme, que dava diretamente para uma varanda muito bem arejada e com uma vista fantástica do jardim, agora parcialmente destruído, da Mansão Wayne. Um closet enorme também usava um espaço considerável do quarto, e Alice teve a impressão de que ele seria capaz de armazenar as roupas de todos os habitantes de Gotham...
Mas foi com o banheiro que a hippie de fato se encantou. Mais parecia uma piscina com aquela banheira gigante ocupando um espaço farto.
– Um banho é tudo o que eu preciso agora... – cochichou para si mesma, aprovando a ideia com entusiasmo.
Alice explorou cada sal de banho como pôde, notando maravilhada a espuma formar-se com deliciosos odores, adorando-a ainda mais ao experimentar o tato. Enfim entrou na banheira mergulhando completamente, até se sentir totalmente submersa na água quente e relaxante, como a mais alentadora consciência limpa.
A sensação foi maravilhosa! Nada nem ninguém poderia atingi-la ali, Coringa não parecia um problema de proporções tão graves agora e Alice nem sequer lembrou-se de que deveria respirar. Talvez a prioridade agora fosse manter-se naquela protetora situação, sem mais se preocupar, como sua vida costumava ser.
“Eu poderia ficar mergulhada aqui para sempre...”
Infelizmente, o para sempre chegou mais rápido do que ela podia imaginar. Seus pulmões reclamaram por ar e ela, contrariada, saiu de seu momentâneo estado de transe, fazendo-a perceber que agora sua paz seria tão artificial quanto aquele momento breve. Ela sempre precisaria retornar ao caos que sua vida se transformou, nenhuma fuga seria o suficiente para afastá-la de seu real problema...
Fale com o autor