Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
27 Filme Triste: O Diabo Veste Hábito
Notas iniciais
O relógio foi mais generoso para Alice durante os dias que vieram. As horas ainda passavam numa lentidão pouco comum, porém a rotina maçante aos poucos deu lugar à conformidade de saber que ela não sairia dali tão cedo – se saísse! – e que o melhor seria aceitar de vez sua condição de clausura, e poupar forças para tentar revertê-la.
A hippie acostumou-se a falar pouco, a esconder-se dentro da própria insatisfação que a sufocava cada vez mais, que a revoltava e corroía por dentro. Surpreendeu-se ao perceber que ansiava pela próxima consulta do Doutor Logan, que queria vê-lo e aspirar um pouco da normalidade e conforto que sua presença serena transmitia...
Os dias desde sua última consulta foram difíceis! Harley fazia o possível para tornar sua vida um inferno durante as refeições, cada vez que tinha alguma oportunidade – por menor que fosse – de atormentá-la com suas rixas infantis. As expressões que a loira dirigia à hippie eram sempre maldosas, e seu ar exalava superioridade, porém Alice era capaz de enxergar uma combinação perigosa de inveja e ódio dentro de seus olhos cruéis.
Alice simplesmente ignorava cada tentativa de provocação de Harley, o que tinha o enorme poder de irritá-la ainda mais.
– Por que você não olha por onde anda? – a loira esbarrou propositalmente em Alice, demonstrando estar com nojo de ter encostado-se a ela. A hippie assoviou baixinho, com total indiferença à hostilidade infantil vinda de Harley – Hey, eu estou falando com você! – rosnou, cega de raiva.
Em resposta, Alice cantarolou distraidamente, demonstrando o quanto a sua presença era insignificante para a hippie.
– Encontrei minha mulher com seu amante, na minha cama, com meu pijama de bolinhas... Aí eu gritei: Alto lá, seu cafajeste! Pode ser que ela não preste, mas o pijama é meu... foi minha mãe que deu!
– Você se acha realmente engraçada, não é? – o rosto de Harley, que antes era pálido, agora estava num tom escarlate devido à intensa vermelhidão que se formou subitamente.
– E essa é uma das razões do Coringa gostar tanto de mim! – piscou para ela, entrando em seu jogo de provocações com um sorriso maldoso, ao mesmo tempo em que se acomodava no banco duro do refeitório. Observou, satisfeita, a expressão da loira perder a superioridade e reduzir-se a um olhar descontrolado.
– Se ele gostasse tanto assim de você, não a deixaria ficar presa em Arkham não é mesmo? – o homem sentado ao lado de Alice intrometeu-se na briga, com um irritante ar sarcástico de quem se acha o dono da razão. Harley deu uma gargalhada doentia, e aquele som lembrava muito a risada debochada do Palhaço...
A hippie sentiu o corpo estremecer com a semelhança. E o pensamento de que talvez enlouquecesse de vez – e ficasse daquele mesmo jeito com o passar do tempo – era desesperador... Balançou a cabeça, tentando espantar a má impressão que se formou dentro de si, e concentrou-se no homem de sorriso irritante.
– Eu estou falando com a mula, e não com seus carrapatos! – Alice disse, brava, voltando a ignorar as novas provocações de Harley. O homem ainda a encarava, agora com uma curiosidade profunda, que o fazia explorar cada pequeno detalhe nas expressões da hippie numa tentativa de conseguir desvendá-la por completo – Aliás, quem é você? – cruzou os braços sobre o peito e curvou uma única sobrancelha, em sinal de desafio.
– Pergunta interessante essa – olhou para cima, com a mão no próprio queixo – você não deve ser uma conhecedora exímia da história de Gotham, não é?
– Deixa eu tentar adivinhar: você é mais um “vilão celebridade” que se julga tão importante que acredita que todos têm a obrigação de reconhecê-lo? – perguntou com irritação, enquanto se esforçava para enfiar uma garfada daquela comida intragável na boca.
– Talvez você chegue a me reconhecer se eu colocar a minha máscara! – sorriu de um jeito macabro.
– Pessoalmente, eu o aconselho a andar de máscara! Seria um enorme favor para as pessoas que precisam olhar essa sua cara tosca todo o dia – Alice rebateu, mostrando a língua como uma criança mimada. O homem detinha uma aparência bem alinhada e quase elegante se não fosse pelo uniforme do manicômio, mas a hippie achou melhor manter esse pequeno detalhe em segredo.
O homem estava prestes a responder alguma coisa mal educada, porém foi interrompido pela voz de Charada, que se colocou bem atrás dos dois sem que nenhum deles percebesse, de tão envolvidos que estavam na pequena discussão.
– Olá, Alice! – cumprimentou com uma voz animada, como se fossem amigos de infância, enfiando-se no meio dos dois ao sentar no banco – Vejo que já foi apresentada ao Doutor Crane... ótimo psiquiatra, você deveria conversar mais com ele!
Alice arregalou os olhos, de repente sentindo o pânico atravessar toda a sua espinha dorsal, paralisando-a no mesmo instante.
– Ele é médico aqui? – a hippie fez uma careta, e Charada riu ao ver seu nervosismo, enquanto Crane não disfarçava a irritação que sentiu pela interrupção.
– Acha mesmo que ele comeria essa comida horrível se fosse contratado de Arkham? – riu ainda mais alto ao fazer aquela pergunta retórica – Além do mais, o manicômio seleciona muito bem quem trabalha aqui... não entra qualquer um! – Crane rosnou baixinho, tentando controlar os próprios nervos. Tentava ao máximo conter a vontade de não começar uma confusão com Charada, porque em breve poderia ter a chance de receber alta do manicômio, com a condição de que se comportasse. No mesmo dia em que Charada soube que Crane estava prestes a ser liberado do tratamento, começou a fazer o possível e o impossível para tirá-lo do sério, com a intenção de dizimar qualquer chance que ele tivesse de sair de lá.
A hippie soltou a respiração que havia ficado presa, sentindo o alívio devolver-lhe todos os movimentos de seu próprio corpo.
– Então por que você disse que ele era médico? – brigou, encarando Charada com raiva.
– Você precisa conhecer melhor os seus colegas de manicômio – o vilão balançou a cabeça, reprovando a falta de informação de Alice – Crane já esteve do outro lado! Já foi um psiquiatra famoso, mas agora está aqui ocupando o lugar que lhe é de direito: o de paciente – sorriu com desdém para o homem ao seu lado, que fazia um esforço visível para não ceder àquelas provocações.
– E imagino que você tenha algum nome esquisito de vilão também, não é? – Alice dirigiu-se a Crane, que empurrava a comida compulsivamente para dentro, na tentativa de canalizar toda a sua atenção apenas no almoço e suprimir o enorme desejo de dar uma lição em Charada.
– Espantalho – Crane respondeu secamente, sem olhá-la, ainda de boca cheia, porém conseguindo enfiar mais comida dentro dela.
– É VOCÊ! – a hippie virou-se com tudo na direção de Crane, apontando para seu rosto com um incisivo indicador em riste, e até mesmo Charada ficou surpreso com o gesto e o grito repentinos de Alice.
– Eu o quê? – Crane agora parou de comer para encarar a hippie, e quase era possível ver um enorme ponto de interrogação em sua testa. Charada apenas prestava atenção, interessado.
– Você é aquele maluco que se veste de Espantalho! Aposto que antes de se tornar vilão, você ganhava a vida como garoto propaganda da Elma Chips! – estreitou os olhos, tentando imaginá-lo no pacote de fandangos. Charada, e todos os pacientes em volta que prestavam atenção na conversa, caíram na gargalhada, aumentando ainda mais o alvoroço no refeitório.
– Você de fato desconhece o perigo quando cruza seu caminho, não é mesmo, garota? – Crane sussurrou em tom ameaçador, apertando com força o talher que estava em sua mão. Charada respondeu no lugar de Alice, sem se preocupar em manter o mesmo tom de voz baixo:
– Cuidado com sua condicional, Doutor Crane! – ameaçou, usando o título de médico com um evidente deboche na voz – Creio que você só receberá alta do manicômio se continuar se portando como o cordeirinho manso que tem sido! – riu de satisfação ao ver o olhar de ódio do Espantalho.
O ex-psiquiatra levantou-se na mesma hora, bufando de raiva e sumindo da vista de todos os outros pacientes, a fim de não estragar sua chance de se ver livre daquele ambiente insano, não depois de tanto trabalho para consegui-la.
– Falei algo de errado? – a hippie perguntou, sem ser capaz de segurar a risada, enquanto via Crane desaparecer entre os corredores, seguido de um segurança.
– Sabe... – Charada a olhou sorrindo – eu gostei de você! Seu único defeito foi ter se interessado pelo Coringa... você merece um vilão de verdade – piscou para ela, com segundas intenções.
– Quando você encontrar esse “vilão de verdade”, me apresente! – respondeu, bem humorada.
Dessa vez o segurança responsável por acompanhar Alice até a sala de Logan não atrasou nem um segundo sequer, e quando o relógio marcava a hora exata da consulta, ele a deixou na sala do psiquiatra, anunciando porcamente a sua presença.
A porta estava entreaberta e Logan parecia completamente concentrado com as próprias anotações, encurvando-se de um jeito exagerado sobre a mesa, como se com esse gesto ele fosse capaz de entrar nelas.
– A paciente está aqui – avisou, e antes que Logan pudesse responder, o segurança já havia sumido de seu campo visual. Alice ficou parada em frente à porta, sem saber exatamente o que fazer.
– Pode entrar, Alice – Logan disse, vendo-a hesitar diante da entrada de seu pequeno consultório – e fique à vontade! – completou quando ela já estava próxima o bastante, apontando para a cadeira à frente dele.
Alice sentou-se, respirando profundamente o ar agradável de sua sala, enquanto Logan levantou-se para fechar a porta a fim de deixá-los com maior privacidade durante a sessão. Era impressionante como a hippie era capaz de sentir a diferença de ambiente quando estava na sala de Logan... era só entrar lá para sentir-se imediatamente renovada! Era como se na sala do psiquiatra ela não se sentisse presa em um manicômio, por mais irônico e contraditório que isso fosse.
– Como foi a semana? – Logan perguntou educadamente, retornando ao seu lugar.
– Já tive melhores... – Alice riu, achando graça da pergunta.
– Imagino que sim – sorriu – mas você está aqui para receber ajuda, tente aproveitar essa fase do melhor modo possível, está bem?
– Por que eu não posso receber ajuda do lado de fora dessas paredes irritantemente brancas? Esse lugar já é enlouquecedor por si só... – desabafou, sem saber exatamente o motivo de falar aquilo para o psiquiatra. Logan riu com o comentário, e seu rosto parecia ser iluminado a cada vez que o fazia. Seus traços perfeitamente harmônicos ainda tinham o poder de hipnotizar a hippie. A voz de Logan a fez despertar do breve momento de transe.
– Vou confessar uma coisa – disse com uma voz travessa, inclinando-se em cima da mesa para que a paciente pudesse ouvir o seu sussurro – Eu também não suporto o monocromatismo desse lugar... o Doutor Arkham quase me demitiu quando eu reformei esta sala.
Os dois riram por um tempo, e Logan sentiu-se estranhamente completo ao ver a diversão nos olhos de Alice. Olhos que antes se mostraram tão tristes... De repente, foi tomado por sucessivas ondas graves de preocupação... Seu comportamento estava absolutamente errado! Ele jamais deveria contar coisas a seu respeito, por mais banais que elas fossem. Seu trabalho ali era apenas ouvir o que o paciente tinha a dizer, e fazer as intervenções necessárias para tratá-lo, mas nunca deixar que o envolvimento deles ultrapassasse a barreira de médico e paciente. Nenhum laço a mais podia ser criado, por mais inocente que fosse...
Pigarreou, adotando o semblante mais sério que conseguiu, tentando disfarçar para si mesmo o quanto foi bom ouvir a risada de Alice, como foi maravilhoso vê-la em um momento de felicidade – mesmo que breve.
– Melhor começarmos a sessão – desviou os olhos da hippie rapidamente, mas mesmo assim foi capaz de ver a confusão preencher seu rosto com a mudança repentina da expressão de Logan – Podemos avançar com a parte em que você saiu da casa da senhora que cuidou de você? Gostaria de ouvir um pouco sobre o orfanato agora...
Alice piscou por um momento demorado, e foi capaz de ver com nitidez a imagem do orfanato se formar na escuridão dos seus olhos ainda fechados. Ao abri-los, percebeu que a figura do lugar ainda estava estampada com detalhes em sua cabeça.
Eu fui levada para um orfanato de freiras, e na época não sabia muito bem o que isso queria dizer, tudo o que rondava meu fraco entendimento de criança era o fato de que eu estava novamente sem lar. Somente depois de muitos anos eu fui descobrir que nunca tive um lar realmente...
Fui deixada lá com toda a maturidade de uma garota de cinco anos, sem conhecer ninguém e tentando me esconder a todo custo da ameaça que o desconhecido me fazia sentir... eu era a criança mais nova dali, por isso ninguém queria se aproximar de mim ou mesmo falar comigo.
Mas de certa forma, eu preferia a solidão... talvez acreditasse que aceitar o isolamento me pouparia de futuros abandonos, de novas decepções ou sofrimentos.
Senti muito medo quando me vi em um ambiente repleto de mulheres exatamente com a mesma roupa estranha – uma espécie de túnica comprida, sempre branca e preta – e todas elas com uma expressão assustadora de quem nunca foi feliz na vida, e que faria o que estivesse ao alcance para não deixar ninguém ali ser. No mesmo instante em que as vi, compreendi que o bicho papão não era tão aterrorizante quanto eu acreditava!
Quando cheguei, imediatamente me senti perdida e sem saber o que esperar daquele lugar tão feio e hostil. Uma das freiras me levou para conhecer o local, tagarelando coisas que, para mim, não faziam o menor sentindo...
– Temos regras aqui, está claro? – sua voz era dura – não pense que você terá mordomias só porque está num orfanato! Todos têm que pagar pela comida e pela cama de algum modo, e não admitimos reclamações quanto a isso.
Eu sentia dificuldade em acompanhar o passo apressado da mulher, e por várias vezes precisei correr para voltar a ficar ao seu lado. Ela fingiu não perceber que eu ofegava de cansaço, e acelerou ainda mais a caminhada – coisa que para mim virou uma corrida.
– Você dormirá aqui – ela finalmente parou, escancarando uma porta, que revelou um ambiente escuro e pouco arejado, me fazendo sentir falta de ar na mesma hora em que cheguei perto. Os dormitórios pareciam pequenas celas superlotadas, eu nem conseguia imaginar como cabiam tantas camas em um espaço tão minúsculo...
Após alguns segundos, a freira fechou novamente a porta, voltando a andar – ainda mais rápido do que antes – pelos corredores mal cuidados do orfanato. Fui obrigada a correr novamente cada vez que ficava para trás, e a freira recomeçou a falar, sempre parecendo muito irritada.
– Já vou avisando que nós temos castigos severos para aqueles que não cumprem a carga de trabalho, e principalmente – ela parou de andar, e eu quase esbarrei nela por causa da freada brusca. A freira se ajoelhou para olhar diretamente nos meus olhos, e quando eles se cruzaram, testemunhei toda a frieza do mundo naquelas duas bolas castanhas, e imediatamente eu senti cada pedaço do meu corpo congelar de medo – é inadmissível que você vá para o dormitório masculino, entendeu? – semicerrou os olhos, e eu assenti, assustada – está avisada! Não espere receber advertências... qualquer regra quebrada resultará num castigo imediato – levantou-se novamente, me fazendo penar para retomar o ritmo e acompanhá-la.
Quando ela finalmente terminou de me mostrar todas as instalações da propriedade – sempre vomitando regras e falando dos terríveis castigos que me esperavam – eu pude me refugiar no dormitório, que por sinal já estava lotado graças ao toque de recolher das seis. Depois desse horário, todos já deveriam estar em suas camas, e exatamente às 6h10min, todas as luzes seriam apagadas. Nem me atrevi a dizer que eu morria de medo do escuro...
As meninas do dormitório – bem mais velhas do que eu – me olhavam com descaso enquanto eu procurava pela minha cama, rezando para que eu conseguisse dormir antes que o escuro dominasse de vez o lugar. Ouvi alguns comentários maldosos a meu respeito enquanto eu passava pelas camas já ocupadas.
– Olha só, Amanda! Agora isso aqui virou uma creche... – as garotas soltaram risinhos abafados, tentando não fazer muito barulho para não chamar a atenção de nenhuma freira.
– Mas tem um lado bom, Karen. A pirralha pode ser nossa empregada... ela tem o tamanho certinho para lustrar os vãos dos móveis! – mais risos, e eu passei reto, fingindo não ter ouvido nada.
Encontrei minha cama e me afundei nos lençóis remendados, cobrindo-me até a cabeça e me encolhendo o máximo possível sobre meu próprio corpo – em posição fetal. Tentei dizer a mim mesma que tudo não passava de um pesadelo de mau gosto, e que no dia seguinte eu teria minha vida de volta assim que acordasse.
Bom, o dia seguinte chegou, e eu estava exatamente na mesma posição protetora em que adormeci... sobressaltei-me com o som de um alarme que propagava-se alto em algum lugar, e foi aí que me dei conta de que eu não acordaria do pesadelo, porque a realidade era que o verdadeiro pesadelo resumia-se às horas em que meus olhos estivessem abertos.
Fechei os olhos na tentativa de ignorar o alarme irritante, mas logo em seguida os abri novamente, sentindo alguém chacoalhar minha cintura sem a menor delicadeza.
– Levanta, pirralha! – uma das garotas falou – já são três da manhã, e temos muito trabalho para você hoje! – Eu gemi ao sentir que a garota puxou meu lençol e me tirou da cama à força – vamos logo, eu não sou sua babá! Se você não estiver pronta em quinze minutos vai sofrer seu primeiro castigo.
Ao som daquela palavra, eu despertei completamente e comecei a vestir uma das poucas roupas que levei. Já era castigo o suficiente morar ali, eu não tinha a menor intenção de ser punida ainda mais!
À medida que as garotas terminavam de se arrumar, saíam em direção ao pátio. Eu segui um grupo qualquer, mantendo uma distância segura delas – que nem sequer pareceram notar a minha proximidade.
Senti o frio típico da madrugada arrepiar minha pele quando ultrapassei a entrada do orfanato – meu inferno particular! – a escuridão ainda tingia fortemente o céu, mas mesmo assim era possível ver cinco freiras em pé no pátio – com a mesma expressão arrogante – esperando que todos chegassem, e já manifestando impaciência pela demora.
Poucos minutos depois, todos já estavam lá fora, a maioria tremendo de frio. Dividiram-se em quatro filas indianas perfeitas – duas femininas e duas masculinas, sem nunca misturar os sexos ou mesmo manterem-se próximos. Tudo isso não passava de precauções exageradas para evitar que os dois grupos fossem capazes de se comunicar.
– Hoje vocês vão receber a divisão de trabalhos. Quando ouvirem seu sobrenome, venham depressa buscar a lista. Os horários das aulas também estão aqui – falou alto, para que todos ouvissem – depois que vocês receberem a lista de tarefas, quero que se dirijam imediatamente ao local designado e comecem a trabalhar, entenderam?
Todos assentiram, e outra freira começou a chamar as pessoas pelo sobrenome. Eu fui uma das últimas a ser chamada, e já não estava sentindo a extremidade congelada dos meus dedos quando finalmente ouvi meu último nome – que eu tanto detestava.
– Romanov!
Eu literalmente corri até a freira, tropeçando em meus próprios pés, e não vendo a hora de sair dali. Quando estava de frente para ela, senti mais uma vez que seus olhos eram bem mais gelados do que o orvalho frio daquela manhã. Estendi meu braço para pegar a tabela com meus deveres, mas era meio inútil, pois eu ainda não sabia ler... antes de me entregar o papel, ela me olhou fundo nos olhos, de um jeito intimidador.
– Você vai ser a responsável pela estufa, Alice. Eu quero aquele lugar impecável, e por Deus, é bom que você cuide bem das plantas!
– Sim, senhora... – respondi, sentindo que meus olhos estavam arregalados e assustados.
Saí apressada quando ela finalmente me deu o papel, querendo ver-me livre da frieza do ar e principalmente da freira, que me observava como se eu fosse um amontoado inútil que servia apenas para ocupar espaço. Um espaço que poderia ser melhor aproveitado caso eu não estivesse nele.
Conseguia lembrar mais ou menos o caminho que levava até a estufa, e segui meus instintos, sem me atrever a pedir informação para quem quer que fosse. Demorei um pouco em algumas voltas desnecessárias, mas finalmente vi a “casa de vidro” à minha frente, e cheguei a sentir um sorriso de alívio escapar pelos meus lábios.
Abri a porta pesada com esforço, e assim que entrei na estufa senti meu corpo ser aquecido na mesma hora. Olhei em volta enquanto me aliviava com a temperatura agradável e percebi o quanto teria trabalho com aquele lugar...
Mesmo o ambiente sendo pequeno, abrigava diversas plantas, e eu percebi que elas eram infinitamente mais bem cuidadas do que os próprios órfãos! Se uma folhinha saísse do lugar, certamente sentiria na pele um dos famosos castigos das freiras. Olhei ao meu redor e vi um balde largado no canto esquerdo da parede, e do lado um esfregão que tinha, no mínimo, duas vezes a minha altura.
Suspirei e comecei a trabalhar, sentindo dificuldade em segurar o pesado esfregão entre minhas mãos pequenas. Passei longas horas para conseguir terminar de limpar o local, e meu estômago reclamava alto pela falta de comida. Quando achei que o chão já estava limpo, procurei pelo regador para jogar água nas plantas – essa era a única coisa que eu sabia que deveria ser feita para impedir que elas morressem.
Reguei uma por uma, tomando cuidado para não exagerar na dose. Eu estava exausta, meus músculos ardiam de dor pelo trabalho pesado, mas eu nem cogitei a hipótese de parar, não enquanto não acabasse de vez com o serviço. Tinha medo de que alguém estivesse me observando de longe, por isso continuei com minhas tarefas, ignorando os protestos de minhas articulações cansadas e buscando energia sabe-se lá de onde.
Nunca me senti tão sozinha quanto naquele lugar. Enquanto meu corpo fazia o trabalho braçal, minha mente viajava longe rumo à vida que eu tive até alguns dias atrás, e que agora parecia tão distante – irreal até! – como se tudo o que eu vivi com a Vó não passasse de um sonho difuso, criado pelo meu subconsciente como uma tentativa de me proteger da atual realidade.
Enfim terminei a sessão tortura, e me permiti cair no chão, incapaz de permanecer em pé ou mover mais algum músculo. Minha cabeça pendeu para o lado, e vi uma pequena plantinha esquecida em uma parte escura da estufa. Suas folhas pareciam secas e de um tom amarronzado e sem vida – pouco saudável para uma planta. Ela estava tão frágil e doente quanto eu mesma. Sem dúvida, era a única planta mal cuidada dali!
Me arrastei até o pequeno vaso no chão, e quando cheguei perto o suficiente, acariciei de leve a folha quase morta. Eu conhecia aquela planta... tinha uma bem parecida na casa da Vó – só que era maior e bem mais bonita – e tinha um nome bem engraçado! Acho que se chamava ‘samambaia’, ou algo assim...
– Olá, amiguinha – sorri para ela, ainda passando meus dedos calejados pelas delicadas folhas adoecidas – não se preocupe, eu vou cuidar de você! – fechei meus olhos, sem conseguir controlar o peso de minhas pálpebras – eu vou te chamar de Sam! – sorri para mim mesma – Sam, a samambaia! – disse, antes de adormecer ali mesmo, ao lado de minha nova e única companhia.
E foi nesse ambiente que eu passei longos anos da minha vida, a cada novo dia torcendo para que fosse o último, e tendo como única companhia uma samambaia – que provavelmente foi a responsável por manter a minha mente o mais saudável possível.
Alice sentiu um aperto na garganta ao se lembrar de Sam... era a segunda vez que a abandonava, depois de passar anos grudada com a planta, levando-a junto consigo para qualquer lugar que fosse.
Dessa vez Logan não anotava mais nada em sua prancheta quando a hippie terminou de contar a história, mas mesmo assim mantinha a base da mão apoiada a ela, com a caneta tocando levemente a folha no mesmo ponto em que fez sua última observação.
– As freiras te colocaram para trabalhar com cinco anos de idade? – o psiquiatra não foi capaz de esconder a repulsa que sentiu.
– Colocaram, sim – Alice confirmou – mas, sinceramente, o tempo que eu ficava na estufa era o único momento do dia que eu me sentia bem naquele orfanato! Preferia mil vezes passar minhas horas com as plantas do que com as pessoas... – riu, sem humor algum.
– Você não tinha nenhuma relação afetiva lá dentro? Ninguém com quem conversar?
– Tinha a minha samambaia, só. Mas já era o suficiente para mim... ela sempre foi uma ótima ouvinte! E nunca me julgou mesmo com todas as minhas burradas... – disse, e logo em seguida riu do próprio comentário.
Logan achou intrigante – e ao mesmo tempo fascinante – o modo bem-humorado com que Alice tratava daqueles assuntos traumáticos. Percebeu, com pesar, que estava mais uma vez se distraindo com um caminho perigoso para a sua profissão, e tentou focar-se novamente no assunto principal da consulta.
– Por quanto tempo você ficou no orfanato?
– Mais ou menos dez anos – respondeu, fazendo algumas contas mentalmente – eu saí de lá logo depois de completar quinze anos...
Logan fez algumas anotações, e logo em seguida voltou a encarar sua paciente – que desta vez não havia desviado o olhar do psiquiatra um único momento sequer. Era evidente que Alice se sentia muito mais à vontade para falar sobre o seu passado com o médico, e isso certamente era um grande avanço – que ele não esperava obter tão cedo.
– Então você saiu do orfanato ainda menor de idade – pensou alto – você fugiu, ou alguém te adotou?
– Acho que um pouco das duas coisas – sorriu, ao lembrar-se do dia mais feliz de sua vida: o dia em que se viu livre daquela clausura disfarçada de orfanato, e principalmente das mulheres demoníacas vestidas de pinguim.
– E você, em algum momento, se sentiu culpada por ter sido abandonada?
Alice estancou um pouco com a pergunta, mas não se recusou a respondê-la.
– Quando eu era criança, me sentia totalmente culpada pelo que aconteceu... era como se o problema estivesse em mim, pelo o que eu era. Eu tinha certeza de que ninguém me queria por eu ser problemática – seu rosto adquiriu a mesma feição de tristeza que em nada combinava com aquela mulher.
– E você ainda se sente assim?
– Às vezes... – admitiu – Porque, de uma forma ou de outra, esse padrão sempre se repete comigo... eu sempre sou abandonada de alguma forma – lembrou-se de sua relação mal sucedida com Bruce, e todas as outras que seguiram esse mesmo modelo – então o problema deve estar em mim – deu de ombros, como se aquela conclusão fosse a mais óbvia.
Logan apoiou os cotovelos sobre a mesa, coçando brevemente o queixo enquanto se deixava levar por devaneios incautos. Não conseguia se desligar do forte sentimento de compaixão que nutria por sua paciente, por mais errado que fosse! Sem pensar, o psiquiatra pousou a própria mão sobre os dedos de Alice, apertando-os com força, como um sinal de apoio. A hippie sorriu para ele ao sentir seus dedos entrelaçados naquele aperto reconfortante – um sorriso repleto de tristeza e agradecimento, ao mesmo tempo, pelo gesto complacente do médico – e Logan sentiu-se preso àquela teia complexa de sentimentos formada nos olhos de Alice e, de uma hora para a outra, seu coração parecia querer sair pela boca.
O segurança que sempre acompanhava Alice entrou na sala sem se anunciar, e Logan imediatamente sobressaltou-se, soltando a mão da paciente e olhando irritado para o homem – que nunca demonstrava o respeito de pelo menos anunciar-se antes de entrar! Mesmo com a reação rápida de Logan, o segurança ainda viu os últimos segundos daquela cena no mínimo peculiar entre os dois, e imediatamente ficou desconfiado do que realmente acontecia durante as sessões.
– Eu preciso levar a paciente de volta – o segurança fingiu-se de desentendido, trajando o mesmo olhar de despeito – a sessão já deveria ter acabado há dez minutos.
– Por hoje já está bom – o psiquiatra disse, olhando para a hippie – Até a próxima semana, Alice! – sorriu enquanto se despedia, e ela retribuiu o gesto a tempo, antes de ser novamente arrastada para fora pelo segurança.
O sorriso morreu no rosto de Logan quando a paciente saiu de sua sala e ele ficou sozinho com seus pensamentos incômodos. O psiquiatra estava se sentindo cada vez mais próximo dos problemas de Alice, tomando-os totalmente para si, e isso era algo inadmissível no que dizia respeito ao código de ética da Psiquiatria.
E a parte mais perigosa daquilo tudo, é que Logan estava sendo tomado pelo sentimento duvidoso da culpa de Alice. Simplesmente não conseguia assimilar e correlacionar com certeza os crimes citados àquela que sofrera as acusações... estava começando a ser tomado pela suspeita de que a hippie não precisava ficar trancafiada em Arkham...
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Alice ficou emocionada com a preocupação que Logan sempre demonstrava durante as consultas! A cada nova sessão, ele comprovava não ser o tipo de médico que escolheu seguir essa profissão apenas pelo dinheiro e prestígio... Logan realmente parecia se importar com seus pacientes, e isso fazia toda a diferença no tratamento.
“Queria tê-lo conhecido em outras circunstâncias...” – a hippie pensou, com amargura, enquanto faziam novamente o caminho para sua cela.
O segurança, durante todo o percurso, incidia sobre a hippie olhares desconfiados, e ela não entendeu muito bem o porquê disso, mas também não sentia a menor disposição para tentar descobrir...
Alice entrou em sua cela, já ouvindo a porta sendo novamente trancada. Estava psicologicamente pronta para ser prisioneira de seu próprio silêncio mais uma vez, porém soltou um grito abafado ao ver uma figura colorida deitada sobre sua cama. A hippie foi obrigada a admitir que o terno roxo e a maquiagem borrada era uma visão reconfortante no meio de sua clausura extremamente branca.
– Você deveria estar preso! – acusou-o, olhando diretamente para a porta trancada à procura de algum sinal do segurança, que pelo jeito não estava mais lá.
Coringa riu, e pela primeira vez Alice sentiu raiva dele. Ótimo sinal! Pelo menos sua sanidade não estava completamente destruída.
– É assim que me recebe depois de tanto tempo? – o Palhaço aproximou-se com o mesmo ar arrogante de sempre – não sentiu minha falta? – perguntou baixinho, próximo demais à orelha da hippie.
Naquele momento, mesmo entorpecida mais uma vez pelo cheiro de Coringa, Alice sentiu-se no controle da situação. Sabia que a parte racional de seu cérebro estava no comando, de um jeito que nunca havia acontecido antes, não com o vilão tão próximo. Ela aproveitou-se da situação, entrando no joguinho de Coringa.
A hippie se aproximou de seu rosto como se fosse beijá-lo – e seus lábios até chegaram a se roçar por um breve momento – porém no último segundo, a meio milímetro de distância, a hippie encarou seus olhos, e usou o mesmo tom de sussurro quando falou.
– Talvez você devesse visitar a Harley. Com certeza ela está com saudade – dizendo isso, Alice o empurrou para longe de si, sentindo a fúria aumentar a potência de sua força. O Palhaço pareceu levemente surpreso com o auto-controle dispensado por ela, e começou a gargalhar sonoramente.
– Então você está com ciúme? – perguntou, incrédulo, ainda rindo.
– Você é um idiota! – Alice socou seu peito, mas sua mão ficou dolorida e Coringa nem se mexeu – você acha que pode fazer comigo a mesma coisa que fez com ela, mas isso não vai acontecer – sua voz saiu alterada, e ela massageava a mão que agora estava dolorida – Apesar de você amanhã há de ser outro dia!
– Você pensa que está lidando com quem, Alice? – o Palhaço segurou o braço da hippie com força, encarando-a de modo ameaçador – Você realmente acreditou que eu te pouparia por alguma razão sentimental? – perguntou com escárnio, e aumentou ainda mais o aperto sobre a pele de Alice, fazendo com que o local começasse a latejar.
– Eu sou tonta o bastante pra acreditar que você me pouparia por motivo algum – rebateu, esforçando-se para desconsiderar a dor em seu braço – mas você não vai conseguir me transformar em uma versão “Harley”! Eu vou sobreviver a você, Libélula Saltitante – usou o antigo apelido, sabendo que irritaria o Palhaço.
Coringa cravou as unhas no braço de Alice, fazendo-a soltar um gemido de dor.
– Você resolveu medir forças comigo, Docinho! Agora aguente o tranco – soltou seu braço, empurrando-a para trás. Alice cambaleou, e finalmente caiu no chão. O sangue voltou a circular normalmente pelo seu braço, mas ele ainda latejava insistentemente. Percebeu as marcas irregulares e avermelhadas se formarem imediatamente no perímetro de sua pele.
Coringa caminhou rápido em direção à porta, e Alice surpreendeu-se ao vê-lo tirar uma cópia da chave de sua cela de um dos bolsos... como alguém poderia ter tanto controle sobre tudo assim? Antes de sair, Coringa deu um sorriso debochado em direção à hippie.
– Espero que continue aproveitando a estadia! Sugiro que você se acostume com esse ambiente. – fez menção de que ia sair, mas parou por um momento e voltou a encarar Alice – Qualquer dúvida, você pode pedir conselhos à Harley... vocês terão muita coisa em comum aqui dentro.
Alice conseguiu ouvir a gargalhada abafada de Coringa se afastando através da porta trancada. E sentiu medo. Medo pelo seu próprio destino. Medo pelas torturas que ainda teria que passar. Medo por não ser forte o bastante para sobreviver a elas...
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