Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
28 Filme Triste: Uma Luz No Fim Do Túnel
Notas iniciais
Logan andava de um lado para o outro de sua sala, como se isso pudesse ajudá-lo a pensar melhor em qual procedimento deveria tomar. Naquele momento, ele travava uma forte batalha interior, aonde seus princípios teimavam em lhe fazer tomar a decisão que parecia ser certa... o psiquiatra saiu de sua sala, decidido a resolver o motivo de sua aflição.
Caminhou rápido pelos corredores brancos, totalmente focado e concentrado no seu objetivo. Cada passo apressado correspondia a uma respirada irregular em seus pulmões, além de uma batida nervosa de seu coração, mas mesmo sentindo-se nervoso pela decisão tomada, continuou andando em frente, determinado a ir até o fim.
Respirou fundo quando chegou ao seu destino, tentando reencontrar a coragem que moveu suas pernas até ali. Sabia que essa seria uma conversa difícil – e que teria grandes chances de colocar em dúvida a capacidade de Logan como psiquiatra. Mas era o certo!
Ele bateu na porta, e esperou pacientemente até ouvir a voz do Doutor Arkham vindo de dentro da sala, permitindo que Logan entrasse. O psiquiatra girou a maçaneta, hesitante, e finalmente entrou no ambiente amplo e completamente arejado que era a sala do dono do manicômio.
– Bom dia, Dr. Arkham – cumprimentou, aproximando-se de sua mesa.
– Bom dia, Logan – respondeu enquanto mantinha sua atenção a uma enorme pilha de papéis, que ele analisava rapidamente e assinava – Algum problema?
– Gostaria de falar com o senhor a respeito de uma paciente, se não for incomodá-lo.
O Dr. Arkham desviou os olhos da papelada, encarando a expressão atormentada de Logan por alguns segundos, enquanto ajeitava seus óculos no rosto.
– Sente-se – o homem de cabelos grisalhos convidou, e imediatamente Logan obedeceu – Pode falar.
– É sobre a Alice, a paciente que chegou aqui há apenas algumas semanas – o psiquiatra foi direto ao ponto.
– Sabia! – o Doutor Arkham bufou – Tinha certeza de que cedo ou tarde essa garota traria problemas... ainda ontem eu recebi reclamações do psiquiatra do Crane a respeito dela!
– Reclamações? – Logan perguntou, interessado, ajeitando-se na cadeira.
– Sim... parece que ela teve uma pequena discussão com ele, e quando descobriu que Crane era o Espantalho, começou a chamá-lo de “Fandangos” – o Dr. Arkham apoiou os cotovelos sobre a própria mesa – e agora todos os pacientes estão se referindo ao Crane por esse apelido – Logan fez o possível para controlar a vontade de rir, mas foi incapaz. Conseguiu reverter a situação fingindo que as risadas eram na verdade uma crise de tosse – e então, qual é o problema dessa vez?
– Não tenho nenhuma reclamação – disse, ainda tossindo para tentar suprimir a crise de riso. Concentrou-se no assunto e conseguiu controlar a vontade de rir – na verdade, é exatamente o oposto. Acho que não tem nenhuma razão para continuarmos mantendo a Alice presa aqui.
– O quê? – franziu as sobrancelhas, sem entender – ela foi acusada de ser cúmplice do Coringa, e você vem me dizer que ela não deve ser tratada?
– Sinceramente, eu desconfio de que talvez ela tenha sido mais uma vítima do Palhaço. Ela não corresponde ao perfil do qual foi acusada, eu vejo isso claramente durante as sessões! – Logan respirou fundo, fazendo o possível para manter-se claro e objetivo – Vim pedir ao senhor permissão para liberá-la das sessões e encerrar o tratamento aqui no manicômio.
– Eu já entendi o que está acontecendo – o Dr. Arkham disse calmamente, reclinando-se na cadeira enquanto analisava atentamente a feição preocupada de seu funcionário – você quer se livrar da paciente, não é? Não precisa se envergonhar, isso é muito comum na nossa profissão! – Logan ia protestar, mas seu chefe o interrompeu – Quer um conselho? Se estiver difícil de aturar a garota, entupa-a de remédios! Aliás, isso é o tipo de coisa que você já deveria ter feito desde o começo...
– Não se trata disso – Logan suspirou – eu realmente acredito que a paciente não tem qualquer razão para estar aqui.
– Vamos deixar uma coisa bem clara – encarou-o com um ar de impaciência – mesmo que eu acreditasse que ela é inocente de tudo o que foi acusada, ainda assim, a Alice seria mantida no Arkham! – fez uma pausa dramática, percebendo a confusão estampada no semblante de Logan, e logo em seguida começou a explicar – A questão é que essa paciente solta representa um enorme caos para a ordem de Gotham, trata-se mais de uma questão... política. Ela foi acusada de ajudar o pior criminoso que essa cidade já teve, e se a soltássemos, estaríamos provocando a revolta dos habitantes, que acreditam que Alice tem sua parcela de culpa em tudo o que Coringa já aprontou. Com Alice presa aqui, todos se sentem mais seguros.
– Então o senhor vai manter uma pessoa inocente presa apenas para impedir que ela espalhe um medo sem sentido entre os habitantes ignorantes dessa cidade? – ele perguntou, sentindo uma súbita onda de asco do chefe.
– Em nenhum momento eu disse que acreditava na inocência de sua paciente – rebateu – mas se fosse, seria exatamente isso. Não posso arriscar que o Asylum Arkham seja o palco de uma revolta popular, isso nunca – aumentava gradativamente o tom de voz enquanto falava – não vou arriscar a credibilidade do lugar por causa de uma garota insolente que achou que seria divertido envolver-se com um psicopata!
– Mas... – Logan ia recomeçar seu protesto, porém foi interrompido novamente.
– Escute, Logan, você é um dos melhores psiquiatras que esse manicômio já teve, não me faça mudar de ideia a seu respeito, está bem? Nem mesmo Bruce Wayne conseguiu me persuadir a reconsiderar a sentença dela.
– Bruce Wayne esteve aqui? – perguntou, meio intrigado com aquela informação.
– Sim... – assentiu, parecendo entediado – ele estava convencido de que podia me fazer interceder por Alice na decisão do juiz – encarou Logan com escárnio – como se o dinheiro dele pudesse resolver tudo... – resmungou mais para si mesmo do que para Logan.
– Mas talvez essa realmente seja a melhor opção – o psiquiatra sentiu-se mais confiante por ter alguém influente como o empresário Wayne lutando pela mesma causa que ele, apesar da incômoda pontada de ciúmes que sentiu – realmente não faz o menor sentido continuar mantendo a Alice aqui...
– Já chega, Logan! – deteve novamente o seu discurso, com autoridade e nitidamente irritado pela insistência do médico – Esse assunto está encerrado, e a paciente fica aqui pelo tempo que eu julgar necessário! – decretou.
Com essa última palavra, o Doutor Arkham voltou a encarar os papéis, deixando claro que aquele assunto havia acabado. Logan entendeu que não seria capaz de convencê-lo – pelo menos não agora – e saiu da sala, sentindo-se completamente impotente diante da reação extremista de seu chefe.
Logan sabia que seria uma conversa difícil desde o começo, mas não esperava ouvir atrocidades daquele tipo vindas do próprio Doutor Arkham – um grande psiquiatra reconhecido internacionalmente por sua competência. Enquanto caminhava sem um rumo certo, sentiu o desânimo preencher-lhe o corpo ao pensar que não poderia fazer nada para ajudar sua paciente a sair dali... duvidava até mesmo que suas sessões pudessem mudar alguma coisa.
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– Pelo Espinafre do Popeye, essa comida consegue ficar pior a cada dia! – Alice resmungou enquanto concentrava-se em engolir sem vomitar.
– Com o tempo você se acostuma – Charada respondeu de boca cheia, como se não se alimentasse há semanas, e a hippie fez uma careta com aquele comentário.
– Eu não pretendo ficar tanto tempo assim aqui, pelo menos não a ponto de me acostumar com essa lavagem de porco... isso levaria uma eternidade!
– Você está pensando em fugir de Arkham? – Charada arqueou uma sobrancelha, debochando do comentário de Alice.
– Quem sabe?! Eu sou a Garota do Coringa, não sou? – ela piscou para ele de um modo brincalhão e deu um soco em seu ombro.
– A Harley também era! – alfinetou, entre seus próprios risos – parece que isso é um padrão com as garotas dele, não é mesmo? – Charada a encarou, ainda rindo com maldade.
– Isso é um mísero detalhe, seu bocó! – Alice mostrou a língua infantilmente – E se você não calar a boca, eu juro por São Longuinho que jogo essa gororoba na sua cabeça... não vai ter shampoo capaz de tirar a gordura do seu cabelo!
– Não está mais aqui quem falou – Charada riu, enfiando a última garfada de comida na boca, enquanto o prato de Alice ainda estava praticamente cheio – você não vai mais comer isso aí? – perguntou, vendo que a hippie brincava de fazer esculturas com a comida.
– Como você consegue ser tão esganado? – revirou os olhos, empurrando o próprio prato para Charada, que já recomeçou a comer vorazmente – você estragou a minha miniatura do Everest! – reclamou, mas não obteve resposta, pois Charada continuou concentrado em devorar a medonha refeição.
Alice reparou que Crane evitava passar perto dela e de Charada, mas às vezes lançava olhares hostis na direção dos dois. E a hippie era obrigada a admitir que ele tinha motivos para estar irritado! Desde a pequena discussão que tiveram, todos os demais presos passaram a chamá-lo de ‘Fandangos’... ele havia se tornado motivo de piada em todo o manicômio.
Crane buscava um lugar isolado dos outros, seu semblante demonstrava o quanto estava sem paciência para as piadinhas que haviam se tornado frequentes quando ele passava. Porém, mesmo passando longe de todos, ainda pôde ouvir aquele apelido detestável que se espalhou como uma praga pelo manicômio.
– Hey, Fandangos – um dos pacientes chamou, rindo – vem sentar aqui! Seria bom ter um tira-gosto para acompanhar essa comida insossa... – mais risos vieram da mesa, e a hippie percebeu que Crane fez o possível para não demonstrar a irritação que sentiu. Ele ignorou o grupo e continuou andando até o lugar isolado, mantendo o seu rosto com uma expressão indecifrável. Só era possível perceber sua raiva por causa da força exagerada com que ele segurava a bandeja.
– O que foi que eu fiz? – Alice perguntou para si mesma, preocupada, e ainda encarando a cena. Charada bufou ao seu lado.
– Você realmente está com pena do Crane?
– Não! – Alice desviou seu rosto para Charada, com as sobrancelhas completamente unidas e totalmente incrédula com aquela conclusão que ele chegou – ele mereceu isso. Eu estou preocupada com a minha imagem, isso sim.
– Por quê? – o vilão a olhou seriamente curioso, dando até uma pausa na sua compulsiva necessidade de colocar mais comida do que sua boca era capaz de armazenar.
– Eu. Fiquei. Popular. Num. Manicômio! – a hippie disse pausadamente e baixinho, de modo que somente Charada pudesse ouvir – você tem noção de como isso é doloroso para uma pessoa totalmente sã em suas faculdades mentais? Claro que não, você é louco! – Alice respondeu a própria pergunta, como se fosse óbvia demais. Charada gargalhou, e o som não se assemelhava nem um pouco à risada doentia de Coringa. A hippie se surpreendeu ao notar que estava comparando os dois.
– Então, talvez isso indique que...? – o vilão deixou a pergunta no ar para que Alice respondesse.
– Que eu preciso de companhias melhores durante o almoço? – a hippie arriscou, com cara de dúvida, e Charada revirou os olhos.
– Não! Isso indica que você não é tão normal quanto pensa, e que Arkham certamente é o lugar certo para você.
– Eu acho que ainda prefiro a minha teoria – disse, pensativa, enquanto Charada voltou a comer.
Passados cerca de um quarto de hora, Alice já estava na sala de Logan – e a sessão já deveria ter começado há pelo menos dez minutos – porém nem sinal do médico. Pela primeira vez o psiquiatra não estava esperando a paciente em sua sala, como de costume, e Alice não pôde deixar de se preocupar com sua ausência... Ele não parecia ser o tipo de médico que se atrasa por qualquer motivo bobo...
O segurança ao seu lado resmungava, insatisfeito por precisar vigiar Alice até que Logan aparecesse.
– Se fosse eu quem estivesse atrasado, provavelmente meu emprego já era – bufou – e como se não bastasse preciso ser babá de loucos agora...
– EI! – Alice protestou – eu estou te ouvindo, sabia?
– Como se eu me importasse – o segurança a olhou com desprezo – só sei que não tenho o dia todo para ficar aqui esperando que a celebridade resolva aparecer.
– Ah, sem drama! Ele só está atrasado há... – a hippie fez uma pausa para olhar o relógio pendurado na parede, e se admirou com a rapidez com que o tempo passou – quinze minutos... – falou, surpresa.
– Mais cinco minutos é tudo o que eu vou esperar! – começou a andar de um lado para o outro – Esses médicos arrogantes pensam que todos tem que estar à sua disposição – continuou resmungando, mais para si mesmo do que para a hippie.
– Tá querendo enganar quem? – Alice começou a se irritar – Você nunca tem nada pra fazer, fica sempre encarando seu trabalho de longe! Como no dia em que a Harley e eu quase saímos no tapa... sua obrigação era colocar ordem naquela bagaça, mas tudo o que você fez foi o de sempre: Nada! E agora fica aí reclamando como um garotinho mimado que tem que ficar à disposição dos outros... quer saber? Tem que ficar mesmo, isso não passa da sua obrigação aqui! – Alice puxou uma enorme arfada de ar para dentro, sentindo falta do oxigênio preenchendo suas hemácias.
O homem a encarava com um ódio letal nos olhos, como se a hippie tivesse atingido uma ferida aberta dentro do segurança – o que era bem provável, já que ele havia dado provas o suficiente de que não gostava nem um pouco de se sentir subordinado a alguém. Alice arfou de surpresa e indignação quando ele segurou seu braço com força.
– E você pensa que está falando com quem, sua pirralha atrevida? Você pode até ser a “protegida” do seu queridinho psiquiatra, mas não espere ser tão insolente assim e ficar impune. Pelo menos não comigo – o homem disse em tom ameaçador, e logo em seguida encarou o relógio, puxando o braço de Alice com força – Vamos! Minha tolerância de cinco minutos já acabou.
Alice estava prestes a protestar, socar o segurança, fazer o que fosse preciso para que ele a soltasse, porém a voz de Logan foi mais rápida – e certamente muito mais eficaz.
– O que você está fazendo? – Logan o encarou com repulsa, entrando na sala. O segurança soltou o braço de Alice imediatamente, com o rosto extremamente vermelho de raiva.
– Pensei que o senhor não viria mais para a consulta, então estava levando a paciente de volta para a cela – explicou, tentando controlar os nervos. Logan suavizou sua expressão, reconhecendo o seu erro.
– Me desculpem pelo atraso... – suspirou, ainda sentindo-se derrotado pela conversa frustrante que teve mais cedo com o Doutor Arkham – pode nos deixar a sós agora.
O segurança saiu na mesma hora, visivelmente aliviado por não precisar mais esperar ali. Logan manteve-se em silêncio, indo em direção ao seu lugar habitual sem desviar os olhos das próprias mãos, receando que o contato visual com Alice denunciasse a revolta que sentia por ser incapaz de ajudá-la.
– Está tudo bem, Doutor Lacan? – a hippie perguntou com cautela, percebendo que o psiquiatra parecia aflito. Ele a encarou no mesmo instante que ouviu seu sobrenome, um pouco incomodado com aquela formalidade.
– Pode me chamar de Logan... – disse, fugindo da pergunta. O psiquiatra permaneceu longos segundos encarando o teto, segundos tão demorados que fizeram Alice ter certeza de que aquele silêncio incômodo não seria quebrado tão cedo. Quando estava prestes a perguntar novamente se havia algum problema, Logan finalmente falou, ainda olhando para cima – Para dar continuidade à sessão, eu gostaria que você me contasse como conseguiu sair do orfanato.
Alice sorriu. Um gesto completamente involuntário ao ser remetida à única lembrança boa que tinha daquele lugar nojento. A única lembrança que valia a pena recordar. Conforme a hippie começou a contar, pôde se enxergar perfeitamente no cenário que ainda estava nítido em sua memória.
Eu bati a porta do dormitório com força exagerada ao sair, sentindo a raiva consumir todo o meu bom senso já seriamente comprometido pelo ambiente desagradável do orfanato. Segui o caminho que, para mim, tornou-se tão familiar e natural até a estufa, e logo que me deparei com toda a variedade de tons esverdeados e com o cheiro de terra, fui me acalmando aos poucos.
– Bom dia, Sam – cumprimentei, percebendo que minha voz ainda saia alterada – como foi a sua noite? A minha foi terrível! – Joguei meu material escolar no chão, provocando um baque surdo – Acredita que aquela freira caquética e demoníaca, que mais parece uma versão bizarra do “Senhor Burns”, me fez ganhar uma detenção?
Encarei a samambaia como se esperasse uma resposta. Como o silêncio se prolongou, continuei desabafando, irritada.
– É claro que você deve estar se perguntando o porquê – a olhei com compreensão – imagina que na aula de Estudos Religiosos com a “Pinguim Superiora”, eu fiz um pequeno comentário sobre a crescente incidência de padres pedófilos, e aquela v.a.c.a – eu não pronunciei a última palavra, apenas mexi os lábios como se fosse dizê-la, porém nenhum som escapou de minha boca – enfim, aquele ser desprezível me fez passar a noite inteira fazendo um resumo sobre todos os contos da Bíblia... – conclui, revoltada com minhas próprias palavras.
Sentei ao lado da minha samambaia, sentindo meus olhos e as articulações da mão arderem. Soltei todo ar que estava em meus pulmões, cansada, mas ao mesmo tempo sentindo-me renovada por estar ali. A companhia daquelas plantas – em especial a de Sam – era infinitamente mais agradável do que qualquer pessoa fora da casa de vidro.
Continuei contando trivialidades dos meus dias para Sam enquanto regava as plantas. Sentia orgulho de mim mesma cada vez que acariciava uma das folhas tão brilhantes e saudáveis dela – que antes não passavam de estruturas opacas e totalmente sem vida.
Eu havia completado quinze anos há alguns dias, mas – diferente das outras garotas – meu aniversário sempre passava em branco, e eu preferia assim. Simplesmente não via razão alguma para comemorar... não até aquele ano, pelo menos!
Enrolei o máximo que pude dentro da estufa, até perceber que já estava perigosamente atrasada para a próxima aula, que seria da Madre Superiora – ou “Pinguim Superiora”, como eu costumava chamar. Praguejei comigo mesma e corri para a sala, provavelmente a caminho de mais um castigo...
Percorri aquela trama de corredores intermináveis, já ofegando pela corrida, e antes que fosse capaz de frear o ritmo acelerado de minhas pernas, meu corpo foi de encontro à porta, e senti meu nariz sendo esmagado dolorosamente na madeira.
– Ai... – grunhi ao mesmo tempo em que girava a maçaneta e massageava a ponta do meu nariz com os dedos – desculpe o atraso, Madre... – falei enquanto entrava, já esperando pela bronca e uma possível humilhação, porém minhas expectativas morreram ao ver um homem de rosto simpático ocupando o lugar da freira – acho que eu entrei na sala errada – franzi a testa, sentindo que minha expressão era a mais idiota possível.
– Provavelmente não, Senhorita...
– Alice – eu completei após alguns segundos, atordoada com a amabilidade que aqueles olhos azuis transmitiam. A bondade era realmente uma característica nada comum ali, e a surpresa devia estar estampada no meu rosto... eu continuei parada, encarando-o com um pouco de curiosidade. O homem sorriu ainda mais gentilmente ao ver minha expressão confusa. O resto da classe me analisava como se eu fosse uma alienígena, e a Madre Superiora, que observava tudo do canto da sala, me encarava com ódio mortal pelo meu atraso.
– A famosa Alice... – me olhou satisfeito – Pode se sentar! – ele disse devagar para que eu entendesse, sem tirar o sorriso adorável do rosto.
– Ah... – eu despertei dos inúmeros pensamentos que cismavam em me puxar para dentro de minha mente – me desculpe – fui até o lugar mais distante de todos e me sentei na desconfortável cadeira fria.
“Famosa Alice?” – franzi a testa para mim mesma, tentando entender o que o professor quis dizer com aquilo. Mas de uma coisa eu sabia: ou esse “famosa” era algo muito bom, ou algo muito ruim... pelo meu histórico de azar, já me preparei para que fosse ruim.
– Bom, acho que posso começar, já que todos estão presentes agora! – o homem olhou diretamente para mim, e eu senti minhas bochechas corarem ao ser o alvo de seu tom extremamente descontraído e um pouco brincalhão. Era realmente muito estranho ver um rosto tão amigável depois de conviver apenas com a hostilidade das freiras e dos outros alunos – meu nome é Aldo – apresentou-se – Aldo Armani. E eu estou aqui hoje para fazer uma seleção entre vocês. Pelo que pude observar, tem muitos alunos promissores aqui – ele olhou para mim de novo, com um sorriso discreto – e eu vim justamente para dar a oportunidade a esses alunos de se transferirem para uma escola mais voltada para o ensino superior.
Eu ri baixinho. Podia ter sido apenas uma impressão, mas eu era capaz de jurar que o professor estava criticando sutilmente o sistema de ensino do orfanato – que se preocupava muito mais com matérias religiosas inúteis para uma vida acadêmica. Aldo continuou falando, certamente sem notar meu breve momento de humor e a expressão irritada da freira, que pelo jeito também havia entendido a crítica aos seus métodos de ensino.
– Eu vou aplicar um pequeno teste de conhecimentos gerais e lógica, apenas para avaliar como vocês se saem no raciocínio rápido. – dizendo isso, já começou a distribuir algumas folhas nas carteiras dos alunos, que pareciam achar tudo aquilo uma enorme perda de tempo. Será que eu era a única que havia entendido que aquela era uma oportunidade de sair dali?
Minhas mãos tremiam levemente pela expectativa de ir embora para sempre. Quando Aldo posicionou o teste virado em cima da minha mesa, eu acariciei a folha branca, como se ela fosse uma joia rara. E era! Aquela simples folha simbolizava a minha passagem para fora do inferno. A voz aveludada e gentil do professor me fez desviar a atenção do meu precioso teste para o seu belo rosto.
– Alguma dúvida antes de começar a prova? – eu levantei a mão rápido demais, e Aldo sorriu para mim – pode falar, Alice.
– Aqueles que conseguirem nota suficiente vão embora daqui, certo?
– Só se a pessoa quiser ir – Aldo ponderou, e eu ri de seu comentário. Como alguém não iria querer sair dali?
– Tudo bem, mas quando o senhor selecionar esses alunos, quanto tempo vai levar para eles irem embora do orfanato? – a minha pergunta saiu extremamente afobada, e eu pude ver uma pontada de divertimento transpassar os olhos do professor.
– Nós daremos o prazo de uma semana para vocês se organizarem, e ao final desse tempo eu voltarei aqui para buscá-los. – ao ouvir essa resposta, meus olhos brilharam de ansiedade. Pensar que talvez eu não estivesse mais no orfanato na próxima semana fez meu coração acelerar, de um jeito gostoso até. – mais alguma pergunta? – outra mão ergueu-se no ar, e Aldo assentiu para a garota, permitindo que ela falasse.
– Quem não tiver interesse em ir para essa tal escola precisa fazer o teste mesmo assim?
– Certamente que não. – Aldo respondeu, surpreso. Assim como Alice, o professor não imaginou que realmente houvesse alguém que não se interessaria pela oportunidade – Aqueles que não quiserem ir embora do orfanato estão dispensados – praticamente metade da sala levantou, suspirando de alívio e já conversando entre si enquanto saiam da sala de aula. Era difícil ver qual expressão era a mais incrédula: a minha ou a do professor.
“Idiotas...” – pensei com toda a sinceridade – “Melhor pra mim! Menos concorrência!”
Aldo se recompôs do choque que sentiu diante do desinteresse da classe, e voltou-se para os alunos que ficaram.
– Se não houver mais nenhuma questão, vocês já podem começar o teste. O tempo máximo é de oitenta minutos. – ativou o cronômetro do se relógio de pulso – Boa sorte! – Aldo sentou-se e ficou observando os alunos, que já analisavam a primeira página do teste.
Eu sentia meu coração pular sem o menor ritmo dentro do meu peito, enquanto rezava baixinho para ser uma das escolhidas. Respirei fundo, tentando me acalmar, e comecei a escrever compulsivamente na folha que antes era perfeitamente branca.
Eu passava de uma questão para a outra quase mecanicamente, redigindo as respostas com o máximo de cuidado e detalhes possíveis. Era como se o mundo a minha volta tivesse sumido, e só restasse aquela prova e eu dentro dele.
Não havia nada que pudesse me distrair do meu novo objetivo naquele momento. Eu nunca ganhei nada em minha vida, mas hoje seria um dia diferente! Finalmente senti dentro de mim que era capaz de mudar meu próprio destino, e que enfim viveria uma vida que eu mesma pude escolher, longe da intolerância daquele lugar, um lugar que eu nunca soube chamar de ‘casa’.
Os minutos foram passando sem que eu percebesse o quanto eles estavam rápidos. Apenas escrevia sem parar, como se minha vida dependesse disso. E de certa forma, dependia. Eu não havia dormido nada naquela noite por causa da detenção, mas a adrenalina que atravessava minha corrente sanguínea me impedia de sentir qualquer tipo de cansaço. Eu estava mais alerta do que nunca graças à minha mais nova obsessão de me ver livre daquela prisão disfarçada.
Continuei escrevendo, sem me importar com os protestos dolorosos da minha mão – que já havia escrito longas horas ininterruptas por causa do maldito castigo que recebi – Só parei de rabiscar o papel quando o relógio do professor apitou e sua voz gentil amenizou a tensão do momento.
– O tempo acabou. Podem deixar o teste virado no canto esquerdo da carteira que eu passarei recolhendo.
Somente quando me vi livre daquelas folhas – já meio amassadas por conta da minha pressa em escrever – senti toda a exaustão caindo sobre meus ombros repentinamente, sem dó nem piedade. Suspirei profundamente, com a consciência de que fiz o melhor que pude, mas ao mesmo tempo era assombrada pelo medo de que o meu melhor não fosse o suficiente.
Esperei todos os alunos saírem da sala, e somente quando o último antes de mim desapareceu através da porta, eu me levantei em direção à saída, com a cabeça latejando ferozmente. Percebi que a freira não estava mais vigiando o ambiente, e isso me deu coragem de fazer a pergunta que eu queria.
– Professor – hesitei por um breve momento em frente à porta, e o chamei baixinho. No mesmo instante ele veio até mim, olhando um pouco preocupado para meu rosto abatido.
– Você está bem? – perguntou com tanto zelo que eu tive que me segurar para não cair no choro. Há quanto tempo alguém não demonstrava que se importava comigo? Acho que eu nunca senti isso de ninguém, essa era a verdade.
– Tudo bem – minha voz saiu embargada, e eu tossi para disfarçar o choro que queria a todo custo encharcar meu rosto – só queria saber quanto tempo vai demorar para sair o resultado...
Aldo sorriu para mim e limpou uma lágrima que finalmente havia conseguido escapar. Eu sentia que meu rosto estava cada vez mais quente e vermelho.
– Bom... – o professor parecia considerar a minha pergunta – como metade dos seus colegas fugiram da prova, acredito que eu e os professores que vieram comigo podemos corrigir os testes ainda hoje. Assim que tivermos um resultado, colocaremos no Mural de Avisos do refeitório, está bem?
– Tudo bem, obrigada, professor – funguei e me virei para ir embora, mas me contive novamente, movida pela curiosidade e encorajada pela infinita bondade que o professor transmitia – posso fazer mais uma pergunta?
– Quantas quiser! – deu mais um de seus sorrisos que não eram só capaz de iluminar seu rosto, mas também todo o ambiente em volta de si.
– Por que o senhor se referiu a mim como “a famosa Alice” quando eu disse meu nome?
O professor riu baixinho, e o som era tão agradável que eu tive vontade de rir também.
– A Madre Superiora me falou muito de você... Aparentemente ela a julga como “uma erva daninha no jardim de Deus” – repetiu as palavras da própria Madre, e eu ri novamente, imaginando a cena ridícula que deveria ter sido, mas em seguida fiquei preocupada.
– Imagino que isso diminua as minhas chances de ir embora com o senhor, não é?
– De forma alguma! – ele me deu um sorriso travesso, que ficou simplesmente adorável em seu rosto – Na realidade, é algo que temos em comum, porque com certeza a Madre também não me suporta. E bom, digamos que seja um sentimento recíproco! – nós dois rimos, e eu fiquei mais tranquila – Não se preocupe, Alice! Vai dar tudo certo. Só de ouvir as reclamações da Madre sobre você, eu já percebi que tem muito potencial aí dentro! Você não se deixou levar por essa criação hipócrita que teve aqui, e isso já é um grande ponto ao seu favor – piscou para mim – agora vá almoçar, antes que você receba outra detenção...
– Obrigada, professor – agradeci e sai correndo para o refeitório. Por mais que as palavras dele tivessem a intenção de exercer um efeito calmante sobre mim, ainda assim eu duvidava da minha capacidade. Eu nunca recebi notas admiráveis, na verdade, o meu desempenho normalmente era um dos piores da sala, e as freiras sempre faziam questão de destacar minha burrice para o resto da turma. O pessimismo me dominou por completo, e simplesmente parecia improvável que minhas chances de sair do orfanato fossem relevantes... o que me fez ter esperanças, afinal?
No refeitório, eu nem sequer toquei na comida, apenas a empurrava de um lado para o outro do prato com meu garfo, completamente absorta em meus pensamentos cruéis. Nas aulas do período da tarde, esse padrão se manteve. Eu continuei distante demais para conseguir prestar atenção nas besteiras que a freira falava. Aquelas aulas de religião pareciam mais uma tentativa de lavagem cerebral do que de fato aulas.
Senti um alívio gigante ao ouvir o sinal barulhento que anunciava o final das aulas. Tudo o que eu queria agora era me afundar na minha cama e não levantar nunca mais! Estava cansada, mas não só fisicamente... O maior e mais doloroso cansaço era o psicológico – que me fazia sentir uma inválida – e não existia sentimento mais desesperador do que esse.
Caminhei continuamente em direção ao dormitório, sem a menor vontade de jantar essa noite, mas no meio do caminho mudei de ideia e decidi dar uma passada rápida na estufa. Desabafar com a Sam era a única coisa que poderia melhorar um pouco meu ânimo naquele momento.
Cortei caminho pelo refeitório, sem me importar com os rostos espantados que me encaravam conforme eu passava... nem sequer tive a curiosidade de saber a causa de todos aqueles pares de olhos abismados me fitando. Sinceramente, já estava tão acostumada a ser sempre vista como ‘a esquisita’, que aqueles olhares não me pareceram tão estranhos quanto deveriam. O que realmente chamou a minha atenção foi a aglomeração de alunos que estava formada no Mural de Avisos.
Foi quando a minha ficha finalmente caiu: o resultado dos testes já devia estar disponível!
– Ah, que droga! – reclamei ao sentir meu coração se manifestar com a mesma intensidade de um furacão dentro do meu peito. Mesmo com as pernas trêmulas, consegui abrir espaço entre a pequena multidão a minha frente, e encarei o papel de tamanho anormal pregado no mural, sabendo que aquela mísera folha seria capaz de decidir meu destino daqui para frente. Quase tive um surto quando vi que meu nome estava na lista dos aprovados, e eu nem percebi o quanto havia gritado alto!
Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu conferia meu nome na lista pela segunda, terceira, décima vez, como se ele pudesse desaparecer dali cada vez que eu piscasse! Mas meu nome realmente estava lá, e eu me surpreendi ainda mais ao ver que fui aprovada com a maior nota. Logo eu, uma das alunas mais estúpidas que aquele orfanato já teve, segundo as próprias freiras... naquele momento eu não encontrava distinção sobre as diferenças entre chorar e rir, apenas fazia as duas coisas ao mesmo tempo e intensamente, sem me importar com as feições de nojo que eram direcionadas para mim.
Sentia-me leve, como se um enorme peso saísse dos meus ombros, e pela primeira vez estava confiante sobre meu futuro, sobre as coisas novas que podiam estar a minha espera – fora do cativeiro que aquele orfanato representava para mim. Será que era assim que se sentiam as pessoas prestes a sair da cadeia?
Mas ao mesmo tempo em que a leveza tomou conta de mim, a impaciência chegou na mesma proporção. Eu não conseguia me imaginar nem mais um minuto naquele orfanato, quanto mais uma semana... tinha a sensação de que essa semana seria mais angustiante e demorada do que os dez anos que vivi aqui, e estava disposta a fazer qualquer coisa para não prolongar a minha estadia naquele inferninho de lugar.
Nunca corri tão rápido em toda minha vida! Não me surpreenderia se tivesse quebrado o recorde de algum daqueles famosos atletas de maratona...
Apenas queria a todo custo chegar ao meu destino, e não demorei muito para fazê-lo naquele ritmo acelerado em que estava. Freei com tudo quando me deparei com a ala destinada aos visitantes – que normalmente era destinada a religiosos que vinham até o orfanato para dar palestras, mas que agora devia estar sendo ocupada por Aldo e pelos outros professores que eu ainda não conhecia.
Tomei coragem e comecei a procurar pelo professor de olhos simpáticos, tentando acalmar o ritmo bagunçado da minha respiração. Escolhi uma porta aleatória e bati, dando leves socos na madeira meio apodrecida pelo descuido e passar dos anos. Contei duas respirações até que um japonês de baixa estatura e cabelo meio arrepiado abriu a porta.
– Posso ajudar? – perguntou, ajeitando o óculos na ponta do nariz e sorrindo de um jeito afável.
– Ah... – hesitei – o senhor sabe onde o professor Aldo está?
– Eu acredito que ele esteja em seu quarto nesse momento. É a terceira porta do lado direito desse corredor – me explicou, apontando o aposento certo.
– Muito obrigada – agradeci, tentando retribuir o sorriso do japonês. Não sei se eu tive sucesso, pois ainda podia sentir que meu rosto estava inchado devido ao choro recente. Caminhei mais alguns passos e bati na porta certa dessa vez, sentindo que se passou uma eternidade até ouvir o rangido da porta que finalmente se abria. O professor abriu um enorme sorriso ao me ver.
– Boa noite, Alice! Você já viu o resultado dos testes? – perguntou, ainda sorrindo.
– Vi – meus olhos voltaram a se encher de água e eu pude sentir que a ponta do meu nariz ficava vermelha. Tossi, espantando o choro que havia cismado em me perseguir hoje – eu vim fazer mais uma pergunta ao senhor a respeito disso.
– Perguntas são sempre muito bem vindas a professores! Pergunte o que quiser, Alice.
– Eu só queria saber se preciso mesmo esperar uma semana para ser transferida para essa nova escola... – tentei explicar – quer dizer, antes do teste o senhor disse que voltaria em uma semana para buscar os alunos, então eu fiquei pensando se não posso ir mais cedo com o senhor... – eu gaguejava e tropeçava nas minhas próprias palavras, e imaginei se esse meu estado patético de nervosismo seria capaz de fazer Aldo mudar de ideia a respeito de me levar com ele para a outra escola.
– Esse tempo de uma semana serve apenas como um período para que os alunos selecionados possam se organizar – ponderou – eu vou partir amanhã cedo, se até lá você estiver pronta para viajar, não vejo problema algum em já levá-la!
Antes que eu pudesse conter a inconveniência de meus braços, eles já estavam envolvendo o professor em um abraço apertado, e logo após Aldo se recompor da surpresa, retribuiu o meu gesto de afeto, rindo de minha própria insegurança por ter passado dos limites.
– Muito obrigada por tudo, professor! – interrompi o abraço, um pouco relutante. Eu havia me esquecido como era boa a sensação de abraçar alguém e ter o abraço retribuído...
– Vou sair às sete da manhã, tudo bem? Encontre-me na entrada do orfanato, e hoje mesmo eu comunico a Madre Superiora de sua decisão de ir mais cedo comigo.
– Ela vai adorar se livrar de mim mais cedo – ri de um jeito quase bobo, de tão feliz que estava – talvez ela até passe a gostar do senhor!
– Não é uma coisa que eu faça muita questão – ele riu também – e agora que eu sou oficialmente seu professor, pode me chamar de Aldinho. É como meus alunos me chamam.
Eu o abracei mais uma vez, sem saber se algum dia conseguiria demonstrar pelo menos uma ínfima fração da gratidão adimensional que senti por ele. Aquele professor representou a luz que eu tanto procurei dentro do meu túnel escuro. E naquele instante, eu soube que jamais admiraria alguém com tanta intensidade como àquele homem.
...
Eu não consegui dormir nada naquela noite. A ansiedade não me permitiu fechar os olhos um minuto sequer, e às seis da manhã eu já saía do dormitório, carregando meus poucos pertences junto comigo, sem aguentar ficar nem mais um segundo enrolando lá dentro. Havia ainda uma coisa muito importante que eu precisava fazer antes de ir embora... alguém para resgatar!
Tentei não fazer muito barulho enquanto caminhava até a estufa, e acho que consegui meu objetivo, já que não fui seguida por nenhuma freira bisbilhoteira no caminho. Abri a porta de vidro com cuidado, e não pude evitar o enorme sorriso que preencheu meu rosto quando olhei para Sam.
– Hoje é o nosso dia, pestinha! – acariciei uma de suas folhas antes de regá-la um pouco – eu queria poder levar todas vocês! – falei para as demais plantas sentindo um aperto na garganta – mas infelizmente acho que as freiras iam notar...
Peguei a minha samambaia e andei com pressa até a entrada do orfanato, aonde eu sabia que encontraria o professor ajeitando os últimos preparativos para a viagem. Como era de se esperar, ele estava lá com os demais professores – inclusive o simpático japonês que eu havia conhecido no dia anterior – e nenhuma freira se deu ao trabalho de ir até lá para se despedir, ou pelo menos desejar uma boa viagem. Aldo riu ao me ver segurando a planta com força, mas não fez nenhuma objeção quanto a isso.
Partimos quinze minutos depois, e meu coração se enchia de alegria conforme eu me afastava mais do lugar!
Alice cobria o rosto com as mãos, chorando e soluçando feito uma criança. Logan não entendia o porquê do choro, e ficou um pouco sem reação, afinal, aquela era a melhor lembrança que ela já havia lhe contado. A única lembrança feliz, e lá estava ela, se desmanchando nas próprias lágrimas.
– Qual é o problema, Alice? – ele perguntou, incapaz de suportar vê-la naquele estado.
A hippie balançou a cabeça em sinal de negação, sem conseguir responder. Aquela era a parte mais feliz de sua vida, porém contá-la desencadeou um processo doloroso de associação com o presente... falar de Aldinho, e do modo como ele acreditou nela, fez com que Alice se lembrasse do dia da audiência, da maneira decepcionada com que o professor a encarou.
Ela podia suportar decepcionar qualquer um, menos Aldinho – a única pessoa que acreditou de verdade nela, e que agora provavelmente achava que a aluna não passava de uma criminosa vil e sem escrúpulos por se envolver com Coringa... era algo triste demais para a compreensão da hippie.
– Eu só preciso descansar um pouco – respondeu ao sentir que o domínio do seu auto-controle estava voltando gradativamente – me desculpe por isso! Acho que estou um pouco farta de tudo... não é muito saudável para uma hippie ficar tanto tempo presa – tentou sorrir.
– Não se preocupe, é normal se sentir assim! Esse é um sentimento comum até mesmo para aqueles que não são hippies – Logan também sorriu, tentando disfarçar o quanto estava sem reação diante do desabafo da paciente, por mais que isso fosse contraditório para um psiquiatra. Tudo o que ele queria era envolvê-la num abraço que a protegesse de toda a confusão do mundo, mas ele nem sequer podia prometer que tudo ficaria bem, pois nem mesmo o médico estava no controle daquele caso – você passou por muita coisa em pouco tempo, qualquer um se sentiria revoltado...
Alice fechou os olhos, tentando suprimir a onda de enjoos e fisgadas na cabeça que a envolveram de uma hora para a outra. Sempre que seu emocional sofria alguma alteração nociva, seu corpo respondia por meio de diferentes formas de mal estar. Seu corpo era como um espelho que refletia todas as enfermidades do seu psicológico.
Quando a hippie finalmente abriu os olhos, percebeu Logan perto demais, encarando-a com uma preocupação visível.
– Você está pálida – ele disse baixinho, tocando de leve o queixo de Alice – e fria...
– Eu vou ficar bem – estremeceu ao sentir a mão quente do psiquiatra transferindo calor para o seu próprio rosto gelado pelo súbito mal estar. Logan aproximava cada vez mais o rosto, sem se dar conta do que estava prestes a fazer, ou talvez totalmente consciente, porém incapaz de controlar o impulso. Alice podia sentir o cheiro do médico cada vez mais perto, e a compreensão do significado daquela proximidade a deixou em alerta, desencadeando uma torrente de pensamentos de uma só vez. Não podia envolver-se com ninguém agora, ainda mais o seu psiquiatra. Sabia que isso destruiria a carreira dele em um piscar de olhos, e não deixaria que isso acontecesse a uma pessoa tão boa por um deslize tão bobo. Alice virou o rosto, olhando para o chão – eu acho melhor ir embora...
Logan pareceu despertar de seu momentâneo estado de inconsciência, tão deslocado e envergonhado quanto Alice. Afastou-se no mesmo instante, e sentiu ódio de si mesmo pelo que quase fizera. Agora provavelmente ele não teria mais a confiança de Alice nas sessões, e a culpa era exclusivamente dele por passar dos limites daquela forma.
– Me perdoe por isso, eu... – fez uma pausa, sem saber o que dizer – eu realmente nem sei como explicar. Sinto muito.
– Tudo bem – Alice sorriu, tentando consolá-lo – acho que nós dois precisamos de férias...
Logan nada disse, limitando-se apenas a chamar o segurança que a levaria de volta para sua cela. Um silêncio constrangedor tomou conta da sala enquanto esperavam, e os dois nem sequer tinham coragem de encarar um ao outro. Depois de intermináveis minutos nessa condição, o segurança finalmente chegou, e Alice imediatamente o acompanhou para fora da sala do médico.
“Se pelo menos eu tivesse tido a sorte de conhecê-lo sob outras circunstâncias...” – a hippie pensou com tristeza enquanto seguia mais uma vez para a sua agonizante cela acolchoada.
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