Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...

26 Filme Triste: Como Tudo Começou.


Notas iniciais
Ok, tenho mil recados antes de deixar vocês lerem o capítulo: Primeiro: quero dar as boas vindas à Júlia Fischer!!! Nem preciso dizer o quanto fiquei feliz em te ver aqui, né? *-* Seja muito bem vinda!!!! ;) Segundo: FELIZ PÁSCOA!!!! O/ Desejo muitos chocolates a todos aqueles que acompanham e comentam a fic!!! (se você acompanha sem comentar, espero que tenha ganhado uma garrafa de Dolly ao invés de ovos! xD) Terceiro: preciso dar uma explicação para que vocês entendam esse capítulo e alguns que ainda virão: Sempre que o nome do capítulo começar por "Filme Triste", haverá uma parte (em itálico) que será narrada pela própria Alice, contando um pouco do seu passado. Sei que esse tipo de narração pode ser cansativa, mas vocês vão passar a entender muita coisa a respeito da Riponga (inclusive algumas esquisitices dela) Bom, acho que não esqueci de nada... Meu Deus, essas Notas Iniciais ficaram maiores do que o capítulo!!! o.O hehehhehehe Espero que estejam gostando do rumo que a fic está tomando!! Agora chega, que venha o capítulo!!! hehehehehe

O primeiro dia de Alice em Arkham passou com uma lentidão desesperadora – de tão entediante... – e não saber por quanto tempo ainda teria que encarar dias como aquele era um enorme estímulo para enlouquecê-la ainda mais rápido. Na cadeia, a hippie podia distrair-se com a presença de Ducard, enquanto que ali, no famoso manicômio, contava apenas com seus próprios pensamentos, que cismavam em corroê-la por dentro, de tão cruéis.

Ver-se rodeada por aquele ambiente extremamente branco e reluzente fazia com que a hippie se lembrasse a cada segundo do motivo de estar ali. O real culpado pelo fracasso de seu julgamento – e pior – o responsável por destruir completamente sua credibilidade diante da cidade inteira, a uma hora dessas deveria estar rindo da cara da hippie, enquanto ela ocupava um lugar que era de Coringa por direito!

Alice encarava um ponto fixo qualquer, totalmente submersa no lado mais obscuro e sombrio de sua mente: a memória. Remoia pela centésima vez cada cena que viveu com o Palhaço, desde o dia em que o encontrou desmaiado em seu quintal até a noite que passaram juntos na cadeia...

E o pior era saber que, por mais que tentasse, não conseguia sentir qualquer indício de remorso por deixá-lo entrar em sua vida... precisava de Coringa para não retornar ao estado patético em que se encontrava antes dele, e se enlouquecer fosse o preço a pagar... bom, ela já havia conformado-se com isso! Apenas lutava contra o inevitável para satisfazer o pouco orgulho que ainda tinha dentro de si: um sentimento que Coringa jamais tiraria de Alice enquanto ela estivesse sã.

Um enfermeiro entrou na cela de Alice, fazendo com que ela retornasse à realidade absurda que sua vida havia se transformado.

– Hora do almoço – disse, simplesmente, sem nem olhá-la nos olhos.

– Não estou com fome, obrigada... – só de pensar em comida seu estômago reclamava avidamente.

– Terá que me acompanhar ao refeitório mesmo assim. Temos regras bem claras em Arkham a respeito dos horários das refeições, e como tal devem ser respeitadas e seguidas. – seu tom foi categórico.

Ela apenas assentiu, sem a menor força para começar uma discussão por tão pouco. Deixou-se guiar pelos corredores do manicômio – que mais parecia um labirinto – sem prestar muita atenção ao caminho feito. Apenas reparou que nada ali fugia do tom branco, e essa falta de vida estampada em todos os cantos já estava irritando Alice – que sendo uma hippie que se prezasse, acreditava fielmente no efeito das cores sobre o humor das pessoas.

Alguns poucos minutos e eles já estavam no refeitório. Mesas amplas ocupavam quase todo o espaço – e por Deus, eram brancas também! – Mas mesmo com aquela cor exclusiva preenchendo o local, o ambiente aonde eram realizadas as refeições parecia ser o único com um toque de normalidade... aparentava uma época remota para Alice, como se ela tivesse retornado aos tempos de escola naquele cenário quase infantil.

Praticamente todos os lugares já estavam ocupados, e o único som audível era o de talheres tocando o prato. Nenhuma conversa, nenhum ruído a mais. Talvez em Arkham, o silêncio fosse o pior dos castigos... Alice passou muito tempo de sua vida escondendo-se atrás da própria ausência de expressão, e foram os seus piores anos – somente a lembrança daquela época a fazia estremecer por dentro.

Serviu-se da comida mal-cheirosa e escolheu um lugar aleatório para sentar-se, sem sentir o mínimo de vontade de comer. Olhou com nojo para o prato e franziu o nariz ao se dar conta de que aquilo parecia lavagem de porco – tanto pela consistência quanto pelo cheiro nauseante... – um paciente aproximou-se dela, com um sorriso malicioso no rosto.

– Carne nova em Arkham! – disse, parecendo animado.

– Carne nova? – Alice perguntou, confusa – Você só pode estar brincando! Isso aqui está parecendo mais velho do que a carne da Dercy Gonçalves... – disse, referindo-se ao prato de comida.

– Eu me referia a você – o homem ajeitou-se no banco, parecendo intrigado com a hippie.

– Ahh... – ela não pôde deixar de rir ao entender – Bom, nesse caso, espero que eu pareça mais nova do que a Dercy! – falou enquanto brincava distraidamente com a comida.

– Por que você está aqui? – ele perguntou, enfiando uma enorme garfada daquele grude não identificável na boca. Alice fez uma careta de nojo ao imaginar o gosto que a “comida” deveria ter. Viu o entusiasmo do homem ao mastigar a gororoba com gosto, e perguntou a si mesma se os remédios usados nos tratamentos em Arkham tinham a capacidade de destruir o paladar...

– Nem eu sei o porquê – resmungou, passando a observar bem o homem sentado ao seu lado, com a estranha sensação de que o reconhecia de algum lugar – eu te conheço? – perguntou, rendendo-se à própria indiscrição.

– Talvez – disse, de boca cheia – quem sabe? Vejo que eu estou sendo uma charada para você nesse momento – riu, e Alice percebeu na mesma hora a indireta.

– Você é o Charada! – exclamou, sem esconder a surpresa que sentiu ao se ver almoçando junto com um dos grandes criminosos que assombraram Gotham num passado não muito distante. A convivência da hippie com vilões estava se tornando rotina...

– Prazer, Mademoiselle! – fez uma mesura exagerada, com um sorriso mais exagerado ainda, sem romper o contato visual – Agora é a minha vez de saber com quem estou almoçando – esperou pacientemente até que ela se apresentasse.

Alice sabia que não podia parecer frágil naquela cova de leões! Sabia que era em Arkham que os piores casos – como o de Coringa – eram mantidos, e mostrar-se fraca seria assinar um tratado de morte. No Asilo, a Lei da Selva – os mais fortes sobrevivem – era a única que vigorava. Se quisesse resistir ao caos do manicômio, precisaria impor respeito desde já.

– Eu sou a garota do Coringa – disse, parecendo inflar-se ao contar aquela meia-verdade. Charada engasgou-se com a própria comida.

– Fala sério? – gargalhou alto, atraindo o olhar de todos – Dá pra entender o motivo da sua internação!

– Hey, não fale assim! O Coringa não é tão ruim! Ele é... – “Cri, cri... cri, cri...”– ...sorridente... – uniu as sobrancelhas, espantada por não encontrar um adjetivo sequer para descrever o Palhaço.

– Você não se importa de dividir sua maquiagem com ele? – alfinetou, ainda entre o som de sua gargalhada.

– É impressão minha, ou toda essa hostilidade é uma forma de esconder a inveja que você sente do Palhaço? – Alice arqueou uma sobrancelha, totalmente na defensiva.

– Eu sou mil vezes melhor do que aquele circense patético – gabou-se com um sorriso metido.

– Se isso fosse verdade, seria você quem estaria solto e ele estaria preso aqui no seu lugar!

Na mesmo instante o sorriso presunçoso de Charada desapareceu, e ele fuzilou-a com os olhos. Naquele momento, Alice percebeu que havia passado de muitos limites se tratando da periculosidade do homem com que lidava – como sempre... – e que provavelmente tocou numa ferida aberta de Charada.

“Alice, aprenda a manter a língua dentro da boca!” – pensou, arrepiando-se ao olhar do vilão. E o pior de tudo foi o sorriso macabro que ele direcionou à Alice em seguida.

– Tem alguém que vai adorar conhecê-la! – abriu ainda mais o sorriso, fazendo o coração da hippie saltar dentro do peito – HARLEY! – gritou para o outro extremo da mesa, e uma loira, que deveria ter sido muito bonita antes de passar por Arkham, o olhou, entediada – Harley, vem aqui!

– Não enche, Charada! – gritou de volta, desviando novamente o olhar e voltando novamente a atenção para seu almoço. Se é que se podia chamar aquilo de almoço...

– Eu tenho notícias de Você Sabe Quem – cantarolou, e no mesmo instante o rosto da loira se iluminou, e em poucos segundos ela já estava ao lado de Charada, parecendo impaciente.

– O que você sabe sobre ele? – Harley perguntou, com lágrimas nos olhos – Ele vem me buscar, não é? – sorriu – Eu sabia que meu pudinzinho não me deixaria aqui por muito tempo! – riu e chorou ao mesmo tempo – Ele sente a minha falta!

“Isso definitivamente não vai ser bom!” – Alice pensou consigo mesma, revezando seu olhar de Charada para Harley.

– Ah não, Harley – Charada balançava negativamente a cabeça – Coringa não vem te buscar, e nem deve lembrar que você existe, aliás!

– Do que você está falando? – seu rosto transformou-se na mesma hora. Seus lábios tremiam de ódio, e aquele par de olhos azuis, ainda encharcados e desfocados, pareciam letais.

– Ele te trocou, querida – Charada passou a mão pelo maxilar da loira, fingindo que a consolava ao ser o portador de uma notícia ruim – você foi completamente descartável para o seu Mister J – reproduziu o apelido que ela usava com escárnio.

– MENTIRA! – gritou, descontrolada – Meu pudinzinho nunca me trocaria! Nós temos uma ligação muito forte, e você sente inveja dele por isso – cuspiu, em tom de acusação.

– Você nem quer saber por quem o Coringa te trocou? – Charada inclinou a cabeça enquanto continuava irritando a loira, parecendo divertir-se com aquela reação totalmente previsível de sua parte – ela está bem aqui, pertinho de nós – sorriu.

– Quem é? – Harley rendeu-se à curiosidade, rangendo os dentes de raiva.

Alice levantou-se devagar, tentando afastar-se dali sem ser notada, prevendo o barraco que a envolveria em breve. Maldito Charada! Enquanto a discussão entre os dois ainda era intensa, a hippie movimentou-se com cautela, esperando não chamar a atenção deles para si. Porém, mesmo tomando cuidado ao sair da mesa, esbarrou na bandeja intacta daquela comida estranha, derrubando-a em cheio na roupa de Harley, que a olhou com ódio e desprezo.

– Quem é você? – analisou Alice de cima a baixo, fazendo uma careta de desaprovação.

– Eu? – a hippie apontou em direção ao próprio corpo, nervosa – Não sou ninguém, não! Prossiga a sua discussão com o Charada, eu preciso ir agora, acho que ouvi alguém chamar meu nome ali, do outro lado...

– Mas já vai tão cedo? – Charada perguntou, sorrindo – Nem vai esperar pelas apresentações? Harley, você está diante do novo caso do Coringa. Foi por isso – apontou para a hippie com desdém – que ele te trocou!

– Ah, quer saber? – Alice revirou os olhos, verdadeiramente irritada com tudo aquilo – Sou eu mesma! Não gostou, queridinha? Pega eu!

Uma multidão de pacientes já estava constituída em volta dos três, formando um círculo nada perfeito. Todos ali tinham um brilho de expectativa nos olhos, sedentos por aquela briga entre as duas para distraí-los da rotina maçante de Arkham. Nem mesmo o segurança – que estava ali unicamente para manter a ordem no refeitório – se manifestou. Ao invés disso, permaneceu encarando as duas com um ar de leve interesse pela rixa entre elas, como se estivesse curioso para ver até onde aquela disputa as levaria.

– Então é por sua causa que o meu pudinzinho ainda não veio me tirar daqui? – Harley bufou de frustração, querendo matar a mulher ridícula à sua frente!

– Não, você não entendeu nada – Alice gargalhou – nem que você fosse a última opção do Coringa ele viria te buscar! Ele nunca teve a intenção de te tirar daqui... é bom você esperar sentada!

No momento em que Harley Quinn estava prestes a avançar em Alice – com os punhos cerrados e os olhos vidrados no seu alvo – Logan apareceu no refeitório, parecendo impaciente e interrompendo a briga com seu tom autoritário.

– O que está havendo aqui? – o psiquiatra perguntou, sem entender o motivo da confusão. Ninguém respondeu, e a multidão de pacientes começou a se dispersar dali, até que somente Charada, Alice e Harley permaneceram parados no mesmo lugar, ainda encarando-se mutuamente. Logan olhou irritado para o segurança – Por que você não levou a paciente até a minha sala? A sessão já deveria ter começado há 10 minutos! – brigou.

– Ora, doutor – o segurança revirou os olhos, rindo – eu não podia perder a chance de ver uma boa briga de mulher... a sessão que espere! Não é todo o dia que temos uma diversão como essas aqui em Arkham.

Logan sentiu uma necessidade enorme de socar o homem, mas conteve-se. Sua voz saiu fria e ameaçadora ao respondê-lo:

– Você não é pago para decidir quais são as prioridades de Arkham. Da próxima vez apenas cumpra as ordens, e se esse comportamento deplorável se repetir, considere-se demitido! O Doutor Arkham não é tão complacente quanto eu, e farei questão de comunicá-lo sobre sua irresponsabilidade com os pacientes, caso esse descaso torne a acontecer! – o olhou com desprezo – semana que vem eu quero que a Alice esteja na minha sala na hora certa.

O psiquiatra saiu irritado de lá, guiando a hippie até sua sala. O percurso foi realizado com o completo silêncio entre os dois – apenas o som de seus passos apressados podia ser ouvido. Logan olhava sempre em frente, parecendo concentrado, e Alice o analisava discretamente por meio de sua visão periférica, preocupada.

Certamente aquele não havia sido um bom começo para a hippie! O psiquiatra acabara de vê-la discutindo – e quase saindo no tapa – com uma das pacientes do manicômio... se restava alguma dúvida em Logan de que Alice era louca, aquela cena havia, no mínimo, lhe dado uma preciosa dica da condição mental da paciente. Agora provavelmente seria mais difícil para ela tentar convencê-lo da integridade de sua saúde mental.

Logan destrancou a própria sala, escancarando-a. Logo que Alice entrou, o psiquiatra fechou novamente a porta atrás de si, parecendo um pouco mais calmo agora. A hippie sentiu um ânimo instantâneo dentro de si ao passar os olhos pelo ambiente um pouco mais colorido... pelo menos não passaria suas sessões semanais vendo tudo branco, como o resto de Arkham!

As paredes eram de um tom bege claro – que parecia expandir o ambiente – tornando o seu tamanho aparentemente maior do que realmente era. O espaço amplo tinha como base um assoalho de madeira fosco e muito bem cuidado – o que renovava e dava vida ao ar do local, apenas pelo simples contraste de cores – e uma elegante mesa com tampo de vidro ocupava a parte central perto da parede, com cadeiras estofadas em volta.

– Pode se sentar, Alice! – Logan convidou gentilmente, apontando para uma das cadeiras e dirigindo-se para a sua.

– Obrigada... – respondeu com um sorriso simpático, decidida a mostrá-lo o quão normal era! Quando os dois já estavam acomodados em seus lugares, o psiquiatra sustentou os cotovelos sobre sua mesa, apoiando a cabeça com as mãos e encarando a hippie com olhos de águia, certamente já iniciando algum tipo de avaliação. Ela sustentou seu olhar por tempo indefinido, até que Logan quebrou o silêncio.

– Bom, como hoje será nossa primeira sessão, eu gostaria que você me contasse um pouco sobre a sua infância. Pode me dizer qual é a lembrança mais antiga e nítida, que você consegue se lembrar?

– Minha memória é péssima! – desviou o olhar – Eu não tenho lembranças tão antigas assim – Mentira! Alice possuía cada pequeno trauma de sua infância guardado dentro de si, e sabia exatamente qual era a lembrança mais antiga de todas! A mentira devia estar estampada em sua testa, pois Logan sorriu de forma suave, como se compreendesse a dificuldade que a hippie tinha em falar do próprio passado. Era difícil para ele acreditar que uma pessoa de traços tão doces pudesse ter se envolvido com um criminoso da magnitude de Coringa...

– Eu estou aqui para ajudá-la, Alice! – tentou convencê-la – Mas para isso, você precisa colaborar com o tratamento e me contar aquilo que eu julgar relevante.

– Mas eu não sou louca! – disse, manhosa – isso não passa de um terrível engano...

“Ela ainda está passando por uma forte negação... essa é a pior fase, eles nunca querem colaborar!” – Logan pensou, já acostumado com todos os estágios de loucura e doenças relacionadas à mente humana. Sorriu novamente, sempre demonstrando paciência.

– Veja por esse lado: de qualquer forma você terá que ficar em Arkham pelo tempo que eu julgar necessário, dependendo do nosso progresso aqui. Encare esse tempo em nossas sessões como uma oportunidade para tentar resolver os próprios problemas e traumas, e se você realmente não precisar do tratamento, eu a dispenso.

Era uma lógica razoável, Alice era obrigada a admitir! Além de ser uma oportunidade extremamente conveniente para mostrá-lo que era tão normal quanto ele...

– Eu vou precisar tomar remédios durante esse tratamento? – Alice questionou, receando a resposta que o psiquiatra daria. Logan inclinou a sua cadeira para trás, ponderando a pergunta da hippie.

– Podemos fazer um teste – disse por fim – começaremos nossos encontros sem o auxílio de medicamentos, e dependendo da minha análise eu os insiro no tratamento ou não. – negociou, sabendo que aquele seria o meio mais eficaz de conseguir extrair as informações de Alice, e ao mesmo tempo sem precisar entupi-la de drogas: uma técnica que ele não aprovava.

– Obrigada! – respirou aliviada. Se Logan fosse um daqueles psiquiatras que trabalham somente à base de remédios, Alice não teria a menor chance de tentar consertar o engano ocorrido no tribunal. Provavelmente ficaria no manicômio pelo resto da vida, enlouquecendo aos poucos.

– Mas para que isso dê certo você precisa colaborar com o que eu pedir que me conte!

– Eu sei – Alice assentiu – você terá as informações que quer! – seu olhar foi triste antes de começar a contar aquela lembrança que seu médico pedira no começo da sessão.

Eu tinha no máximo cinco anos, e já naquela época era capaz de perceber que não pertencia a um lar de verdade, que o meu lugar no mundo estava em algum lado bem distante – longe de toda a realidade que me rodeava naquele momento. Mas mesmo assim, ainda era capaz de sentir a felicidade tão típica de uma criança dentro de mim, mesmo com toda a consciência de abandono.

Até então, havia sido criada por uma senhora de curtos cabelos grisalhos, baixinha e pouco paciente – nunca cheguei a conhecer meus pais de verdade. E eu sabia que não era uma criança normal por isso, mas a verdade é que nem ligava... talvez a imaturidade dentro de mim ainda fosse muito grande para me permitir ver o quanto eu era diferente das outras crianças, o quanto eu era incompleta perto delas.

Em uma tarde de inverno, eu brincava na neve espessa que se formava todo ano no quintal da casa da Vó – eu a chamava de Vó por ser a correlação mais próxima que fazia de sua imagem idosa com as avós das famílias de verdade. – Jogada sobre o gelo branco, eu movia freneticamente os braços e pernas, na esperança de conseguir fazer um anjo de neve perfeito!

Foi quando ouvi a voz alterada da Vó vindo de dentro da casa, gritando com alguém. Levantei-me com cuidado para não estragar a obra-prima que deixei estampada no chão, e logo em seguida deixei a precaução de lado e corri até a casa, querendo saber qual era o motivo dos berros.

Espiei pela fresta aberta da janela – precisando ficar na ponta dos pés para alcançá-la – e percebi que Vó falava com uma mulher de rosto entediado, gesticulando e exaltando-se sem parar.

– Escuta, Lilian, isso não pode mais continuar assim! Ela é responsabilidade sua, e não minha!

– Você concordou em mantê-la aqui – a mulher contrapôs, cansada daquela conversa – eu queria me livrar da menina, mas você não deixou!

– As coisas mudaram! – andou de um lado para o outro, pensativa – Eu não tenho mais idade para suportar certas coisas, e a Alice é uma peste! Cada dia é uma surpresa nova...

Lilian bufou de impaciência ao retrucar, repleta de escárnio:

– O que de tão mau uma criança de apenas cinco anos pode ter feito para você?

– Pode acreditar quando eu digo que é muita coisa – irritou-se com o pouco caso que Lilian estava fazendo da situação. – Semana passada mesmo, ela se deitou no chão com uma escada portátil em cima da cabeça, e passou ketchup no rosto, para fingir que era sangue... e quando eu cheguei em casa, ela me disse que estava morrendo! Pode imaginar o meu susto?

Eu não consegui segurar o riso baixo ao me lembrar daquela peça que preguei na Vó! Sem dúvida, aquela havia sido a melhor de todas da minha lista gigante.

– Ah, por favor – Lílian exclamou – isso é coisa de criança! Você deveria saber que passaria por coisas assim quando resolveu ficar com ela!

– Não é bem assim... – replicou – estou cansada de ter que lidar com essa garota! E eu chamei você aqui justamente para comunicar isso. Pra mim já chega! Se você não quiser a Alice de volta eu vou mandá-la para adoção. A decisão é sua, Lílian.

– Essa conversa não faz o menor sentido! – levantou-se – Você sabe que eu nunca quis a garota, faça o que quiser com ela, e não me atormente mais com esse assunto – eu vi a hora em que a mulher ultrapassou a porta, batendo o pé e parecendo irritada.

Eu sabia que aquilo não podia ser bom! Fiquei parada no mesmo lugar, olhando para qualquer ponto, sem me dar conta do frio que de repente percorreu meu corpo encharcado pela neve. A Vó – minha única referência de família – não me queria mais, e apesar de eu não saber exatamente o significava “adoção”, sabia que não deveria ser bom, não mesmo...

Meu corpo tremia com o frio, mas eu estava um pouco alheia aos sinais de desconforto, imaginando por que seria rejeitada mais uma vez. Eram pensamentos cruéis para o entendimento de uma criança de apenas cinco anos, mas ainda assim eles estavam presentes em minha cabeça, tão cortantes quanto o fio de uma navalha.

– Alice! – Vó chamou meu nome, parecendo preocupada com a minha palidez – o que você está fazendo aqui fora nesse frio, menina? – envolveu-me em seu colo quente – vamos tirar essa roupa molhada, está bem?

Eu apenas assenti, sentindo grossas lágrimas dançarem pelos meus olhos e finalmente caírem no chão, fazendo um pequeno buraco na neve. Meu diminuto corpo se encaixava perfeitamente em seus braços curtos, e eu fechei meus olhos com força, tentando espantar a ideia de ser abandonada novamente... talvez eu tivesse entendido errado...

A minha confirmação veio quando eu já estava aquecida dentro de casa, tomando um chocolate quente que a Vó havia feito para que eu me esquentasse mais rápido. Ela observava meus goles de criança com pesar nos olhos. Triste pela sua decisão, mas determinada a segui-la até o fim. Eu não queria encará-la, com medo do que estivesse por vir.

– Está mais quentinha agora? – perguntou gentilmente, com um sorriso abatido.

– Sim – confirmei, com olhos grandes e assustados – Obrigada, Vó!

Ela detestava quando eu a chamava de Vó, mas dessa vez não reclamou, ao invés disso respirou fundo e mudou de assunto.

– Alice, amanhã um homem virá aqui para conhecê-la, e irá lhe mostrar sua nova casa – eu estremeci ao ouvir aquele assunto proibido.

– Eu não posso ficar aqui? – minha voz falhou de tal forma, que pareceu mais um choro baixo.

– Não... não pode. – me olhou com pena, e naquele instante eu passei a odiar aquele sentimento.

...

O dia seguinte veio rápido, e logo pela manhã um homem de terno e gravata pretos bateu à nossa porta, e parecia estar com pressa. Minha pequena muda de roupa já estava separada em minha cama, e eu a olhava como se não pudesse acreditar no que estava prestes a acontecer comigo – de novo...

Mesmo estando em meu quarto – que em breve não seria mais meu – eu consegui ouvir tudo o que se passava na sala entre os dois. Vó abriu a porta para recebê-lo, já sabendo de quem se tratava sem ao menos precisar de identificação.

– Bom dia. Eu sou o assistente social, e vim buscar a... – o homem fez uma pausa, procurando um pequeno papel no bolso interno do seu paletó, a fim de encontrar o meu nome nele – Alice! – ele disse metodicamente, lendo o pequeno cartão em sua mão – Ela já está pronta? – perguntou enquanto guardava novamente o papel parcialmente amassado em um de seus bolsos.

– Sim, eu vou chamá-la! Fique à vontade – Vó escancarou ainda mais a porta, convidando o homem a entrar e se acomodar enquanto esperava.

Ouvi seus passos barulhentos indo em direção ao quarto, e meu coração se apertava à medida que sua aproximação era cada vez mais evidente. Até que a porta abriu, e eu vi seu rosto sem expressão me encarando.

– Está na hora, Alice – foi tudo o que ela disse.

Eu queria chorar, me ajoelhar sobre seus pés e implorar que me deixasse ficar ali – que me quisesse como parte de sua família – mas ao invés disso eu simplesmente peguei meus poucos pertences e passei por ela sem trocar uma única palavra sequer, nem mesmo encarei seu rosto uma última vez. Aprendi que meu orgulho era minha principal – e única – defesa.

O homem engravatado levantou-se na mesma hora em que me viu chegando, nitidamente impaciente para sair dali. Seu terno preto e a expressão séria me fez imaginar se na verdade ele seria um M.I.B disfarçado...

Entramos no carro e eu nem ao mesmo dei uma última olhada no lar que me abrigou por aqueles anos. Senti o automóvel começar a tremer levemente quando o motor foi ligado, e logo a casa começou a ficar para trás, cada vez menor.

Meu rosto ficou encharcado por novas lágrimas quando o homem fez a primeira curva, me levando para o desconhecido. Lembrei-me da cena de um desenho que vi na TV um dia desses – o nome era Lilo & Stitch – quando Lilo olhava a foto da própria família, e insistia em dizer: “Ohana quer dizer família, e família quer dizer nunca mais abandonar... Ou esquecer!”

Então era isso! Agora eu precisava encontrar um jeito de conseguir esquecer...

Alice terminou de narrar aquela pequena parte de sua história que tanto a moldou, e Logan ainda fazia anotações misteriosas em uma prancheta cinza. Esperou, pacientemente, até que ele terminasse de escrever... a hippie baixou os olhos e encarou as próprias mãos – que estavam pousadas em sua perna – sentindo novamente o quanto seu passado a assombrava e corroía.

O som dos rabiscos parou, e Alice sentiu que o psiquiatra a encarava, mas não se atreveu a levantar o rosto e retribuir o olhar. Há muito tempo não falava sobre o seu passado, e agora que finalmente o fez, queria esconder-se em algum buraco e ficar sozinha.

– Essa mulher que você chamava de “Vó” não era sua avó legítima, era? – Logan perguntou, pronto para novas anotações, se necessário.

– Não! Eu acho que não, pelo menos... Acho que eram só devaneios infantis de minha parte – respondeu, na dúvida.

– Certo... – fez novos rabiscos na folha já meio amassada pela urgência com que escrevia – e essa Lilian? Você sabe quem ela é? – perguntou, mesmo já tendo noção de qual seria a resposta.

– Minha mãe – a hippie disse, sem ânimo algum.

– E você ainda sente raiva pelo abandono?

– Não – disse com toda a sinceridade – me colocar para a adoção foi a melhor coisa que elas fizeram por mim! – deu um sorriso triste.

– O que quer dizer? – Logan sentiu um arrepio ao ver o tamanho da angústia que tingia suas palavras e seu rosto. Teve que controlar a vontade que sentiu de abraçá-la forte e dizer que tudo ficaria bem. Será que aqueles anos trabalhando em Arkham conseguiram deixá-lo louco de vez? Alice foi acusada de ser a parceira de Coringa, certamente ela tentaria manipulá-lo com histórias tristes para comovê-lo, e ele não podia se deixar levar...

– Bom, acho que deu para perceber que eu fui uma gravidez indesejada – Alice deu de ombros – e eu acho que a melhor coisa que os pais podem fazer pelo filho nessa situação é dar a ele a chance de ser amado por outra família.

– E você chegou a ser adotada por alguém?

– Não exatamente – a hippie riu.

O psiquiatra ajeitou-se em sua cadeira, incomodado. Alguma coisa em Alice fazia Logan querer protegê-la daqueles problemas, e isso era inaceitável em sua profissão! Não podia, de forma alguma, apegar-se à paciente daquele modo – como se os problemas dela fossem seus... olhou para os ponteiros em seu relógio, vendo que a sessão ultrapassou alguns minutos de duração.

– Acho que por hoje já está bom – apertou um botão vermelho sobre sua mesa, que servia para chamar o segurança responsável por escoltar Alice de volta à sua cela – nos veremos novamente na próxima semana! – sorriu, se esforçando ao máximo para parecer impassível.

– Tudo bem. E obrigada por não me entupir daqueles remédios que provavelmente me tornariam um vegetal humano... – agradeceu, retribuindo o sorriso.

– Isso dependerá do nosso progresso! – avisou – Se for necessário, terei que me valer de alguns medicamentos...

O mesmo segurança que observou a briga entre Harley e Alice, mais cedo no refeitório, entrou na sala de Logan, sem ao menos bater, e segurou em um dos braços da hippie para conduzi-la novamente até sua cela. O psiquiatra o fuzilou com os olhos enquanto ele saía pela porta arrastando a sua paciente sem a menor delicadeza.

O segurança a conduzia com uma pressa e força exageradas, mas a hippie nem se deu ao trabalho de protestar. Já havia se acostumado com essas pequenas grosserias na cadeia, e sabia que em Arkham não seria diferente.

Agradeceu mentalmente quando eles pararam diante de sua cela. Finalmente ficaria um pouco sozinha! Era exatamente disso que Alice precisava no momento: refletir sobre tudo o que estava sendo responsável pelas sucessivas reviravoltas em sua vida – ou seja, Coringa! – e tentar encontrar alguma solução cabível para resolver sua precária situação...

Sem palavra alguma, o segurança a empurrou para dentro do cárcere, e trancou novamente a porta que a separava de qualquer realidade além das paredes de Arkham. Alice encarou, desgostosa, o mesmo ambiente branco e irritante que era comum em todos os lugares do manicômio – menos na sala de Logan, que tinha um pouco de vida!

E de repente a hippie se deu conta de um pequeno embrulho de jornal – que lembrava a forma de uma bola de futebol americano – no centro do chão, quebrando a monotonia vazia do lugar. Aproximou-se, curiosa e ao mesmo tempo hesitante, sem saber o que deveria esperar de um embrulho que aparece do nada em um manicômio...

Pegou-o do chão, levantando contra a pouca luz que entrava na cela para visualizar melhor o objeto entre suas mãos. Percebeu que o jornal que envolvia o conteúdo misterioso estava um pouco úmido e pegajoso.

Rasgou o jornal, sem conseguir mais conter a curiosidade, e ao ver do que se tratava, franziu a testa, unindo as sobrancelhas numa expressão realmente confusa.

– Um mamão? – perguntou a si mesma, segurando a fruta com um olhar de dúvida, desconhecendo por completo o significado daquilo.

Notas finais
Espero que o feriado de vocês tenha sido maravilhoso!!! x) E não é que o Coringa deu MESMO um mamão pra Alice?! 0_0 Que peste... rsrsrs Reviews??? ^^