Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
25 Desordem No Tribunal!
Notas iniciais
A figura do Palhaço ali, a encarando com aquele sorriso metido, foi aos poucos sendo distorcida. O foco ficou embaçado até que ele se perdesse por completo – e imagens difusas começaram a se formar em suas retinas, assim como os sentimentos de medo e raiva deram passagem para um estado dormente – marcado pela completa inconsequência de sentidos coerentes.
– Eu te conheço! – riu abobada para Coringa, e de repente arregalou os olhos para ele, boquiaberta – Pela maçã de Newton! – exclamou – Você é um dos irmãos Grimm!? – tateou rudemente o rosto do Palhaço, como se fosse cega.
Pacientemente ele afastou as mãos da hippie, sem esconder um sorriso de divertimento.
– Boazinha, Alice! – acariciou os seus cabelos, usando o mesmo tom que serviria para advertir uma criança travessa. Ela ainda estava parcialmente aconchegada em seu colo, com uma expressão confusa no rosto. Coringa havia sido cuidadoso com a dose da droga: deu apenas o suficiente para alterar seus sentidos e provocar algumas horas de alucinações, até porque não queria que ninguém no tribunal sequer desconfiasse de que a hippie estava dopada! Seu real objetivo passava muito longe disso, era muito mais complexo...
– Eu quero um mamão! – a hippie franziu o cenho, sem dar importância à repreensão que acabara de receber, e logo em seguida sorriu – pode arranjar um pra mim?
– Se você se comportar, quem sabe... – revirou os olhos com o pedido pouco convencional.
– Ah, por favor, não seja covarde, diz que sim!!! – Alice puxou a manga do uniforme de Coringa de um modo infantil – eu quero muito comer um mamão!
– Só se você fizer um pequeno... favor pra mim – sorriu maldosamente ao testemunhar a feição de súplica da hippie, percebendo como seria fácil manipulá-la sob o efeito da droga.
– Por um mamão? – ela levantou de seu colo na mesma hora, com a postura totalmente ereta – Faço qualquer coisa, Senhor Grimm!
– Boa menina! – o Palhaço deu um sorriso macabro, levantando-se também. Ele passou um de seus braços em volta dos ombros de Alice, e logo voltou a falar, pausadamente, para que seu raciocínio lento pudesse processar cada palavra – hoje você será levada para uma festinha – riu, imaginando a cena que ela faria no tribunal – e lá eles vão te perguntar sobre um tal de Coringa. Sabe quem é?
– Algum viciado em carteado? – arriscou.
– Não importa! Basta você dizer que era cúmplice dele e que não se arrepende de nada do que fez. Além disso, terá que confirmar tudo o que um loirinho lhe perguntar. Pode fazer isso?
– Você vai me dar o mamão? – perguntou desconfiada.
– Se você se sair bem nessa festa, sim! Então, preste atenção aqui – disse ao perceber que Alice perdia o foco da conversa, distraindo-se com a porta da solitária. Ela olhou de volta para o Palhaço, um pouco relutante – quando te perguntarem sobre o Coringa, o que você vai dizer?
– TRUCO! – gritou, divertida, entre seus próprios risos.
– Desse jeito você não vai ganhar o seu prêmio... – ameaçou, vendo os olhos da hippie se encher de água imediatamente após ouvir aquelas palavras.
– Não, eu vou fazer direitinho, prometo! Mas eu não posso ter o meu prêmio agora? – segurou seus braços com um olhar suplicante.
– Nada disso! Você está muito apressadinha... – o Palhaço colocou uma das mãos em suas costas e posicionou uma mecha que estava em seu rosto para trás de sua orelha – só depois da festa! – Coringa levantou levemente o queixo de Alice, obrigando-a a encarar seus olhos – vai fazer isso por mim?
– Por você, não! Mas pelo mamão eu faço! – gargalhou alto, como se tivesse contado a piada do ano, e Coringa gargalhou junto com ela, porém por motivos bem diferentes. Riu por saber o quanto sua bela hippie seria afetada em breve! Riu por vê-la tão inconsciente da perigosa armadilha que já estava armada bem diante de seus pés. Todo aquele joguinho de insanidade com Alice estava cada vez mais interessante, e seria ele o portador da ruína de sua oponente, aquela que resolveu medir forças com o Mestre do Caos, e agora pagaria muito caro por isso!
A hora da audiência estava se aproximando, e Smith ia em direção à solitária buscar Alice para escoltá-la até o tribunal, tendo absoluta certeza de que tudo aquilo não passava de uma grande perda de tempo! Não via necessidade alguma de dar a chance de defesa a uma pessoa cujas provas de culpa eram irrefutáveis. Somente o fato de contestar todas aquelas evidências já deveria ser um crime...
– Como alguém pode duvidar de que aquela hippie ridícula está envolvida com Coringa? Deviam prendê-la aqui e jogar a chave fora! – resmungou enquanto destrancava a cela. A cena que viu em seguida foi, no mínimo, estranha.
Alice estava sentada no chão apoiando a cabeça com uma das mãos e com as pernas cruzadas, encarando um ponto fixo na parede e parecendo intrigada. Smith se aproximou devagar, sem conseguir tirar os olhos da detenta. Ela percebeu a presença do policial atrás de si, e no mesmo instante virou-se para olhá-lo, com cara de dúvida.
– Moço, aquele azulejo está sorrindo pra você também? – piscou, confusa.
– O quê? – Smith perguntou, sem entender, e em seguida suspirou, cansado das esquisitices tão típicas da hippie – olha, se você puder parar com a palhaçada agora e me acompanhar para o tribunal eu agradeço!
– Ah, então a festa vai ser agora? – seus olhos brilharam – você já pode entregar meu mamão? – perguntou, manhosa.
– Você ainda vai pagar caro por todo esse desrespeito que destina às autoridades policiais, Alice! – bufou, sem saber se estava com raiva ou confuso pelos seus comentários sem sentido. Certamente ela devia estar zombando dele! – Vamos! Quanto mais cedo essa audiência acabar, mais cedo você volta pra cá, que é o seu lugar – disse, mal humorado.
– Ahhh, obrigada! – sorriu amplamente – é bom se sentir em casa... você é muito fofinho! AI, MINHA NOSSA SENHORA! – gritou de repente, apontando para o rosto do policial e fazendo-o pular de susto com o repentino berro – tem um pé na sua testa!
– Já chega! – irritou-se – se isso é uma tentativa patética de tornar o meu trabalho o mais insuportável possível, acredite, não vai funcionar! Antes de você nascer eu já lidava com gente da sua laia – olhou-a com desprezo e apertou a algema o mais forte que pôde, vendo a pele de seus pulsos enrugar-se. Ela retomou o seu olhar aéreo, parecendo alheia ao resto do mundo.
– A hora que você começar a ter frieira na cabeça, não diga que eu não avisei! – concluiu, despreocupada, fazendo Smith estreitar os olhos de impaciência – Agora me leve logo para essa festa! – sorriu, de um jeito feliz demais para quem estava prestes a ser julgada.
Foram a caminho da audiência, ambos igualmente confusos, porém por razões divergentes.
Todo o corpo do tribunal já estava presente: tanto a parte responsável pela acusação – o Promotor Harvey Dent – quanto a parte que cabia à defesa de Alice – a Advogada Jacqueline Pereira. Smith sentiu o próprio corpo gelar ao ver que até mesmo o juiz já ocupava seu lugar, esperando apenas a presença da acusada para dar início à audiência.
“Que ótimo!” – o policial pensou, com raiva – “Essa maluca nos atrasou e a culpa vai recair em mim...” – praguejou contra a hippie.
Jacqueline – ao ver que sua cliente havia acabado de chegar – suspirou de alívio e soltou uma longa arfada de ar, percebendo que ficou tempo demais segurando a respiração com o nervoso de toda aquela demora. Foi em sua direção a passos apressados.
– Alice! Até que enfim você chegou... o Juiz Benson já estava perdendo a paciência!
– Eu sabia que vocês não iam começar a festa sem mim! – deu mais um de seus sorrisos bobos.
– Festa? – Jackie franziu a testa, estranhando o adjetivo usado por Alice. Logo em seguida deu de ombros, já acostumada com certas esquisitices da amiga – seria impossível começar sem você, é meio óbvio, não?
– Então tudo isso é pra mim? – perguntou, parecendo comovida e completamente distante da realidade – vocês até contrataram o Sílvio Santos! – riu, apontando para o juiz.
– Você está bem, Alice? – a advogada a encarou, em dúvida.
A resposta de Alice se perdeu, pois nesse instante o juiz deu início à audiência.
– Ordem no tribunal! – o juiz Benson exclamou, a fim de abafar as conversas paralelas, porém a balbúrdia continuou intensa – Ordem! – repetiu, batendo o martelo de juiz em sua própria mesa, conseguindo um resultado imediato dessa vez – Esta sessão vai começar. Peço que a ré se aproxime!
Alice analisava tudo ali, e sinceramente, aquela festa não estava nada animada! Viu o homem de roupa estranha – e que parecia o Sílvio Santos – olhar irritado para ela e repetir o que havia acabado de falar.
– Que a ré se aproxime! – seu tom era irreverente.
– Vai, Alice! – Jacqueline cochichou em seu ouvido – é você!
– Ah, tá! – levantou-se distraída, e fez uma coisa que deixou todos ali boquiabertos: aproximou-se do juiz de marcha a ré, e quando estava perto o suficiente girou 180º em torno de seus próprios pés, para poder visualizar o homem, que a encarava com um olhar letal.
– A senhorita está tripudiando desta corte? – seus olhos faiscaram, e Alice pareceu desconcertada com a pergunta.
– Mas você não pediu que eu viesse até aqui dando ré? – algumas risadas abafadas puderam ser ouvidas da bancada dos júris.
– Vou adverti-la de que não admito gracinhas insolentes em meu tribunal, senhorita Romanov, e quando se referir a mim me chame de “Vossa Excelência”! – avisou, dando a entender que aquela seria a primeira e última advertência.
– Uh, entendi! Isso faz parte da brincadeira, não é? Tudo bem então, Vossa Insolência! – riu de uma piada que somente ela entendeu.
– Sente-se! – Benson apontou para a bancada ao lado, e quase era possível ver fumaça saindo de suas orelhas vermelhas.
Alice obedeceu, e logo que se sentou, um homem de farda simples veio em sua direção segurando uma enorme e pesada Bíblia com as duas mãos. Olhando para ela e tentando disfarçar um ar risonho, disse:
– Coloque sua mão direita sobre a Bíblia, por favor. – novamente Alice obedeceu, ainda achando aquela festa meio estranha, além de nada divertida – Você jura dizer a verdade, somente a verdade e nada mais do que a verdade?
– Eu juro por mim mesma, por Deus, por meus pais! – respondeu, quase cantarolando.
O policial a encarou parecendo chocado, e depois de passar alguns segundos boquiaberto, afastou-se da hippie, voltando ao seu lugar habitual.
– Alice Rubídia de Assis Romanov III – o juiz Benson deu início a audiência, olhando uma pilha grossa de papéis pardos sobre sua mesa – você está aqui sob a acusação de ser cúmplice do psicopata que se auto denomina Coringa. Tem algo a acrescentar antes de começar a sessão?
– Sim! Tenho uma dúvida – disse, parecendo séria pela primeira vez no dia.
– Qual seria? – Benson perguntou, entediado.
– Como foi que você... ops, Vossa Excelência – corrigiu, e recomeçou a pergunta – Como foi que Vossa Excelência sentiu-se quando a Maysa tirou sua peruca em rede nacional e ao vivo?
– O quê? – o juiz perguntou, sem ver qualquer sentido no que aquela garota insolente estava dizendo.
– Ora... Vossa Excelência é o Sílvio Santos, não é? A cara de esclerosado é a mesma... – mais risos foram ouvidos, agora um pouco mais altos. A semelhança era realmente incrível!
– Protesto! – Jacqueline interviu, parecendo desesperada e sem saber muito bem o que dizer. Ela conhecia muito bem o senso de humor da amiga: típico nas horas mais erradas, mas o que Alice pretendia com tudo aquilo afinal? Acabar com a própria vida e com a carreira da advogada?
– Você protesta contra sua própria cliente? – o juiz perguntou, adiando a bronca que daria na acusada.
– Sim! – a advogada tremia por dentro e por fora – está claro que por algum motivo a minha cliente não está em condições de ser julgada hoje. Peço um adiamento do caso.
– Protesto negado – Benson desviou o olhar de Jacqueline, passando a encarar a hippie com o típico olhar “Morre, Diabo!” – não estou achando a menor graça em suas piadas, senhorita Romanov, e sugiro que pare agora mesmo se não quiser que eu lhe mande para a prisão novamente por desacato.
– Que festa chata... – resmungou.
– O que disse? – o juiz perguntou, ao mesmo tempo em que descontava seu ódio no aperto forte em seu martelo. Apertava-o tão forte que era possível ver as articulações de seus dedos muito esbranquiçadas pela deficiência de sangue circulando no local.
– Nada não – respondeu rápido – prossiga!
– Promotor Harvey Dent, pode se aproximar da ré para fazer suas perguntas!
– Obrigado, Excelência! – agradeceu e em seguida focou-se na hippie, tentando afastar a lembrança do dia em que se conheceram – Alice Rubídia de Assis Romanov III, você confirma que está aqui por ser acusada de ajudar Coringa em seus crimes pela cidade?
– Ai, merda, o loirinho falou no Coringa... o que eu tinha que responder mesmo? – perguntou baixinho para si – acho que não era “Truco”...
– Responda à pergunta do Promotor! – o juiz deu a ordem, autoritário!
– Isso não é modo de tratar o seu auditório, sabia? – franziu a testa, e encarou Harvey, lembrando-se da resposta certa – sim, eu confirmo!
A respiração de todos, principalmente a de Jacqueline, ficou presa por longos segundos diante da imprudência da hippie. O que, afinal, ela estava fazendo?
– E você admite ser culpada dessas acusações? – o Promotor continuou o interrogatório, agora com os olhos brilhando de expectativa.
– Com certeza! – Alice sorriu, e muitos gemidos de surpresa foram ouvidos diante daquela revelação tão despreocupada de sua parte.
O policial Smith encarava a cena de longe, bem no fundo do tribunal, e parecia reviver o dia do julgamento da própria filha... Da mesma forma, Harley apresentou-se em frente ao juiz totalmente desequilibrada, e parecendo não ser capaz de medir as consequências de envolver-se com o Palhaço – como se não estivesse fazendo nada de errado. Sentiu os olhos arderem e o peito afundar com a lembrança daquele dia. E naquele instante, percebeu que essa era a essência de seu ódio por Alice: de certa forma, ela representava exatamente o que Harley foi quando começou a apresentar os sinais de loucura e toda aquela paixão doentia pelo Palhaço. Não suportava Alice porque era incapaz de conviver com a culpa de se ver novamente diante de uma “Nova Harley” para lembrá-lo de seu maior erro como pai. Coringa conseguiu novamente... destruiu mais uma vida!
– Protesto, Meritíssimo! – Jacqueline disse mais uma vez, agora se levantando.
– O que foi dessa vez? – o juiz perguntou, visivelmente irritado e sem paciência.
– O Promotor Dent está induzindo minha cliente ao erro com perguntas capciosas. – tentou, desesperada. Alice ainda a pagaria muito caro por isso! Um rim seria pouco!
– A pergunta do Promotor foi extremamente clara, e a menos que a Doutora tenha um protesto realmente válido, advirto que me permita seguir adiante com o julgamento sem interrupções desnecessárias!
– Sinto muito, Excelência! – a advogada tornou a sentar-se, completamente derrotada.
– Bom, então a senhorita confirma que foi cúmplice de Coringa? – o Promotor repetiu a pergunta, retomando o seu interrogatório.
– Por São Geovanni Street! – exclamou – já disse que sim, não é mesmo?! Bem que dizem que todo viado é surdo...
– E há quanto tempo você o ajuda? – Harvey continuou, sem se importar com a ofensa.
– Há quanto tempo? – olhou para cima, em dúvida – bom, talvez um ano ou dez... não tenho certeza!
– Isso não importa – o Promotor disse, empolgado – você pode me dizer os nomes?
– Eu tenho cara de lista telefônica por acaso? – gargalhou, e ninguém sabia dizer o motivo de sua alegria, tão imprópria para a ocasião.
– Escute, Alice – Harvey tentou explicar pacientemente – se você colaborar e nos indicar quem mais está envolvido com o Coringa, podemos reduzir sua pena consideravelmente! É um tipo de acordo que a polícia está disposta a fazer com você...
– Certo, tudo bem – a hippie massageou a testa com um dos dedos, como se fizesse um esforço extraordinário para se lembrar dos nomes que o loirinho tanto queria – Bom, tinha mais alguns envolvidos com o Coringa... – começou a citar, contando nos dedos – o Valete de Ouros, a Dama de Paus, o Às de Espadas e por fim o Rei de Copas!
Todo a olhavam perplexos, enquanto Alice quase tinha um ataque de tanto rir.
– Ela está zombando de nós... – Harvey concluiu brilhantemente.
– De jeito nenhum, que calúnia! – Alice se fingiu de ofendida pelo comentário do Promotor – Aliás, posso fazer uma observação?
– Seja rápida! – Harvey disse, com autoridade.
– Pode deixar! – Alice levantou-se da cadeira estofada, colocando a mão esquerda em cima das sobrancelhas, como se protegesse o rosto de fortes raios luminosos. Semicerrou os olhos e girou o corpo, usando os próprios pés de eixos, de modo a observar cada canto do ambiente, como se procurasse por algum objeto minúsculo entre a multidão. Sentou-se novamente e olhou séria para o Promotor – agora sim eu zombei de vocês! – caiu na gargalhada.
– Devo avisar que a próxima vez que a senhorita desrespeitar alguma autoridade aqui, será detida novamente, entendeu? – o juiz Benson rangeu os dentes, visivelmente no limite de sua paciência.
– Entendi, Vossa Santidade! – Alice respondeu, confundindo os pronomes de tratamento.
A advogada bateu na própria testa, odiando a antiga colega de Harvard! A defesa que ela havia preparado ficou simplesmente impecável, não tinha como perder aquele caso... até Alice enlouquecer e estragar tudo! Agora todo o seu trabalho duro foi jogado pelo ralo com o desrespeito ao tribunal e a confissão de culpa da hippie. Mas – mesmo sabendo que não havia mais esperanças para inocentar a amiga – Jacqueline não desistiu.
– Excelência, gostaria de ter sua permissão para interrogar a ré, caso o Promotor já tenha acabado...
O juiz Benson olhou para Harvey, esperando sua confirmação. Ele sorriu cheio de satisfação ao se dirigir à advogada de defesa:
– Fique à vontade, Doutora! – riu, com vontade – Ela acabou de confessar o crime, não tenho mais nada o que perguntar...
– Permissão concedida – Benson assentiu – Pode aproximar-se da sua cliente – disse, quase com compaixão pela advogada. Nada do que ela fizesse seria capaz de mudar a sepultura que Alice cavou para si mesma naquele tribunal.
– Obrigada, Excelência! – Jacqueline caminhou até a hippie, e Harvey saiu do caminho, voltando ao seu lugar com um sorriso satisfeito. Foi bem mais fácil do que ele sequer podia imaginar!
– Alice – Jacqueline usou um tom gentil, apesar de querer virá-la do avesso com as próprias mãos – preciso que você responda às minhas perguntas com toda a sinceridade e seriedade. Pode fazer isso?
– Eu posso fazer qualquer coisa – disse olhando as próprias mãos, admirada – está vendo como minhas mãos estão enormes? Se continuarem crescendo assim aposto que não vão caber nesse salão esquisito de festa! – riu, abismada, ainda observando seus dedos de tamanho perfeitamente normal para os outros.
– Alice! – a advogada chamou mais uma vez, vendo que conforme a hippie falava, suas chances que já eram praticamente nulas diminuíam ainda mais – por favor, se concentre nas minhas perguntas agora! – implorou.
– É, acho que eu posso fazer isso. Só preciso esconder minhas mãos dos meus olhos! – concluiu, ainda admirando-a com uma fascinação extra no olhar.
– Faça isso então! – disse, sem o menor ânimo de contrariá-la ou pedir alguma explicação para seu comportamento infantil – agora me escute: alguém te obrigou a agir assim? Você foi ameaçada para confessar que é culpada?
– Eu sou culpada de alguma coisa? – perguntou, perplexa – Juro que não fui eu! Juro pelo Sílvio Santos aqui mortinho!
– Você acabou de confessar um crime, Alice! Admitiu ser cúmplice do Coringa – falou devagar para que ela entendesse.
– E isso é uma coisa ruim? – encarou Jacqueline, em dúvida.
– Se você for inocente é muito ruim!
– Ok, eu vou contar a verdade então! – seu rosto parecia preocupado.
– Graças a Deus – a advogada sentiu o alívio percorrer o corpo. Talvez não estivesse tudo perdido afinal...
– Um dos irmãos Grimm apareceu na minha cela hoje de manhã e me disse que se eu confessasse ser cúmplice dessa tal carta de baralho, ele me daria um mamão!
Jacqueline, e todo o tribunal, estavam de queixo caído com a evidente loucura da hippie. O ambiente ficou alguns longos segundos em silêncio, até que o juiz Benson resolveu terminar de uma vez com aquela palhaçada. Já havia deixado tudo aquilo ir longe demais.
– Já chega – disse, com uma mistura de raiva e perplexidade na voz – a senhorita conseguiu transformar um ambiente sério e respeitoso em um completo circo! Essa sessão está encerrada, e eu a julgo culpada de todas as acusações! – decretou.
– Eu já sei por que Vossa Excelência está tão mal humorada! – Alice disse de forma categórica – aposto que está assim por que: "A pipa do vovô não sobe mais" – cantarolou desafinadamente – "A pipa do vovô não sobe mais... Apesar de fazer muita força, o vovô foi passado pra trás!" – riu descontroladamente.
– TIREM-NA DAQUI! – o juiz gritou, completamente vermelho de raiva – eu condeno a ré, Alice Rubídia de Assis Romanov III, a passar o resto de seus dias em Arkham, que é o lugar aonde pessoas insanas devem ser mantidas, ou pelo menos até que seu psiquiatra julgue que a senhorita pode voltar a conviver em sociedade, o que eu duvido muito – bateu o pequeno martelo de madeira na base grudada em sua mesa, selando sua decisão com aquele gesto, e qualquer novo protesto estava completamente fora de cogitação.
– Quer saber? Pra mim já chega! – Jacqueline juntou seus pertences, irritada – Eu não preciso disso, meu marido tem dois empregos! – saiu do tribunal batendo o pé, sem nem olhar para trás.
O alvoroço agora tomava o ambiente com a decisão do juiz. Praticamente toda a cidade de Gotham estava ali para assistir o desfecho daquela história, e com certeza ele não poderia ter sido mais surpreendente para os habitantes curiosos e sedentos de um pouco de vida alheia para apimentar a própria.
Alice viu a confusão à sua volta e não pôde deixar de ficar irritada! Agora que aquilo realmente parecia com uma festa estavam levando-a embora... Isso não era justo!
Estava pronta para protestar, quando viu a cena mais real daquelas últimas horas, e hipnotizou-se por ela! Olhos azuis profundos encarando-a – repletos de tristeza – no meio de toda aquela multidão. Cabelos grisalhos que mais lembravam algodão, de tão macios que pareciam ao mais leve toque. Alice sabia que conhecia aquele rosto, seu coração acelerou-se só de vê-lo ali, mas não conseguia reconhecê-lo naquele momento... não no estado em que ela se encontrava.
Sabia apenas de uma coisa: ver a decepção estampada diretamente para ela através daquele rosto angelical foi algo extremamente deprimente. Podia suportar aquele sentimento de qualquer pessoa, menos do rosto que a encarava agora. Ficou feliz em sair dali! Qualquer lugar em que a levassem seria melhor do que suportar esse olhar por mais um breve minuto que fosse.
No momento em que deixaram o tribunal, uma enxurrada de jornalistas cercou a hippie e o policial que a conduzia até a viatura, fazendo milhares de perguntas ao mesmo tempo. Alice olhava de um para outro, sorrindo com todos aqueles microfones brigando por um pequeno espaço perto de sua boca.
– Alice, como você se sente sabendo que ajudou Coringa a matar centenas de inocentes?
– Você traia Bruce com o Palhaço?
– O que você achou da decisão do Juiz Benson de mandá-la para o Asylum Arkham?
– Tem alguma declaração que gostaria de fazer antes de ser levada?
– Sim! – a hippie apontou para a repórter que fez a última pergunta – minhas últimas palavras são: GOOOOOL... – Alice gritou – de Pelé!
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A hippie percebia os efeitos da droga diminuindo gradativamente em seu organismo. Começou deixando de sentir aquela leveza e felicidade exagerada que a moveram a falar tanta besteira. Em seguida, as alucinações também pararam, e por fim todos os seus sentidos foram devolvidos, porém ainda com um resquício de confusão.
Alice finalmente se deu conta da cela branca e acolchoada circundando-a, além da incômoda camisa de força – que fazia com que seus braços envolvessem a própria barriga, e finalmente terminassem bem presos às costas – impedindo qualquer movimento mais elaborado e sufocando-a dependendo da posição em que ficava.
– Agora é oficial: eu sou louca – falou sozinha, quase sendo capaz de ouvir o eco baixo de sua voz repetindo aquela triste constatação – mas como eu vim parar aqui?
Alice lembrava-se apenas de cenas avulsas desde que Coringa injetou a droga em sua corrente sanguínea... e na realidade, tudo aquilo de que recordava podia fazer parte de um sonho confuso, exceto por uma única imagem, que fazia questão de mostrar à hippie o quanto aquele pesadelo havia sido real. O quanto este pesadelo seria real... A figura nítida de Aldinho – o único que um dia realmente acreditou nela – transferindo para dentro dos olhos de Alice todo o desapontamento que ele sentiu da aluna.
Ela realmente devia ter estragado tudo no tribunal... com toda certeza aquilo foi mais um dos sórdidos joguinhos de Coringa para destruir de vez os preciosos alicerces da hippie, para que assim, pudesse vê-la desabar de uma só vez, num único instante! Por mais que aquele palhaço maldito conseguisse dizimar a integridade de Alice por completo, ela nunca daria o gostinho de fazê-lo perceber o quanto ele a abalava! Se manteria firme e forte naquele manicômio, e mostraria ao Palhaço de uma vez por todas que ela também sabia jogar. E o jogo agora se chamava “War”!
Lembrou-se de como foi inútil tentar controlar os próprios desejos na presença de Coringa, e xingou-se por isso. A verdade é que sempre experimentava essa sensação de fraqueza e impotência quando ele sequer ameaçava chegar perto, e tudo não passou de mais uma armação sua para testar e dizimar as defesas da hippie. Talvez Alice realmente fosse louca... talvez Arkham fosse o seu lugar!
– Essa foi a última vez que você me manipulou desse modo, palhaço! – pensou alto, como se assim pudesse convencer a si mesma – e agora eu vou fazer uma coisa que eu sempre quis! – analisou as paredes acolchoadas em sua volta antes de correr de uma ponta da cela à outra, dando impulso para colidir o próprio corpo naquela muralha macia, porém impenetrável.
– Caramba – Alice surpreendeu-se ao cair de bunda no chão – não dói nada! – comentou, quase feliz com aquilo. Continuou se jogando contra a barreira, como uma forma de extravazar toda a raiva que sentia de si mesma. Detestava cada vez mais aquele lugar, que tanto lhe lembrava do Palhaço – ERA VOCÊ QUEM DEVIA ESTAR AQUI, SEU CRETINO! – gritou, ofegando, e jogando-se novamente, com uma força ainda maior.
Nem se deu conta de que a porta da cela estava aberta, e um homem alto de jaleco observava intrigado o comportamento violento da paciente. Ele resolveu interromper o momento de fúria da hippie, mostrando-se presente.
– Alice Rubídia de Assis Romanov III? – perguntou, mesmo já sabendo a resposta.
Seus olhos rolaram assustados na direção do homem, e sua respiração estava completamente sem ritmo e ofegante. Mesmo o médico conhecendo o histórico de Alice – e enojar-se por saber que teria que tratar a parceira de Coringa – ainda assim, achou adorável aquela expressão de criança perdida com que ela o olhava.
– Sim, essa sou eu! – disse, perdendo o pouco equilíbrio que lhe restava e caindo no chão – Eu só estava me aquecendo aqui – tentou explicar, encontrando dificuldade para levantar, já que suas mãos estavam amarradas atrás de seu corpo.
– Eu sou o doutor Logan Heidegger Lacan, e eu vim colocá-la a par da sua situação. – disse, enquanto ajudava a hippie a se levantar – Eu serei o seu médico de hoje em diante. Nossas sessões serão feitas todas as semanas, e se eu julgar necessário, aumento ou diminuo a frequência dos nossos encontros!
Alice reparou bem no homem diante dela, de queixo caído. Seus traços não eram exatamente o que se espera de um psiquiatra... A hippie imaginou que seu médico seria um velhinho barbudo ao estilo de Freud, porém aquele estereótipo acabava de ser quebrado. Logan tinha olhos negros – como os de Alice – e parte do cabelo castanho escuro caía sobre eles, rebelde. A barba mal feita nem de longe parecia desleixo, na verdade combinava muito bem com o formato de seu rosto... e o que não combinaria com aquele rosto?
– E quanto tempo eu vou ter que ficar aqui? – piscou rápido algumas vezes, percebendo que seus olhos estavam secos pela ausência de lubrificação, provavelmente causada pela forte distração que seu mais novo médico causara.
– Esse tempo ainda não está determinado. Caberá a mim decidir, dependendo do avanço nas consultas.
– Isso não passa de um terrível engano – lamentou-se, encarando a camisa de força.
– Não foi o que me pareceu quando eu entrei aqui – arqueou uma sobrancelha, referindo-se à pequena extravazada que a hippie deu ao se jogar inúmeras vezes contra a parede – Amanhã teremos nossa primeira sessão, logo após o almoço um segurança a levará até minha sala! Até amanhã, Alice – deu um sorriso educado.
– Mal posso esperar – retribuiu o sorriso, mas o seu era triste.
Logan virou-se em direção à porta, e seu jaleco aberto e extremamente branco acompanhou o movimento – oscilando com a rapidez do gesto – parecendo a capa de um super-herói. Um verdadeiro super-herói! Alguém que realmente merecia o título de Justiceiro... e naquele instante a capa negra de Batman parecia não ter mais o mesmo brilho.
“Talvez Arkham não seja tão ruim assim...” – Alice pensou, com uma pontada de humor, imaginando quanto tempo demoraria a enlouquecer de vez naquele ambiente propício, se é que esse momento já não havia chegado... será que era possível sentir a insanidade batendo à porta? Será que, imediatamente antes de enlouquecer, teria noção do que estava prestes a acontecer?
Alice tinha certeza de que ainda descobriria, na prática, as respostas daquelas perguntas, e sentiria na própria pele os efeitos de tanta imprudência... porque agora a loucura era somente uma questão de tempo! Seu encontro com ela seria inevitável, e a consciência daquele destino era angustiante... mais cedo ou mais tarde, Coringa conseguiria ultrapassar a fina barreira que a impedia de ser tragada pelo seu universo doentio e insano! Ele ganharia a guerra, e Alice não tinha a menor dúvida disso... Mas o enfrentaria, até que sentisse seu último fio de consciência se romper.
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