Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...

35 Criando Teorias, Testando Limites


Notas iniciais
E para começar com chave de ouro, quero dar as boas-vindas à Matryoshka nu se simt e caahbelchy!!! x) Obrigada por participarem da fic e começarem a comentar aqui! Me alegro muito! rsrsrs ;D Bom, o capítulo anterior deu muito o que falar e eu aposto que vários de vocês me xingaram (sim, eu senti a minha orelha esquentar várias vezes... o.O), só queria repetir aquilo que eu já disse para alguns de vocês: doeu demais escrever aquelas coisas, eu fiquei um tempão deprimida, mas infelizmente foi necessário, então dêem um desconto pra mim, ok?! =P Ah, e desculpem a demora... (de novo ¬¬')

Algo havia se rompido naquela noite...

Algo que jamais teria conserto, tamanha a intensidade com que havia se trincado e deixado uma enorme fenda exposta. E aquela fissura parecia pesar cada vez mais no peito apertado de Alice. Coringa ainda a encarava de um modo sedutor e divertido, como se a simples perspectiva de dar início a um novo jogo fosse o suficiente para estimular novamente a incidência daquele cruel sorriso em seu rosto...

Ela apenas o encarava friamente, sem entender ao certo o significado e as intenções de suas últimas palavras. Ele ainda sorria, ansioso por sua resposta.

– O que vai ser dessa vez? – Alice riu amargamente, sustentando aquele olhar que um dia já havia sido um de seus maiores vícios, mas que agora somente a enojava – você acha mesmo que pode me ameaçar depois de tudo o que eu já perdi? – aproximou-se dele e apertou com força e raiva o nó verde de sua gravata, fazendo o possível para extravasar tudo o que sentia naquele gesto. Mais uma vez foi possível sentir a respiração irritada e pesada do Palhaço envolvendo o ar à sua volta – não tem mais nada que possa me atingir – sussurrou, tentando conter a massa densa que ainda estava presente em sua garganta, sufocando.

Coringa tirou a mão de Alice de sua gravata, imobilizando os braços da hippie atrás de suas costas com agilidade, fazendo com que ela ficasse de costas para ele. Ao ser submetida àquela posição, seus olhos foram novamente atraídos pelo corpo diminuto de seu filho envolvido pelo sangue, e foi como se Alice tivesse revivido novamente a cena da morte de Krusty, com todos os detalhes possíveis que podiam assombrá-la... Assim que Coringa a viu totalmente impotente de se livrar do aperto excessivo em seus pulsos, ele posicionou o próprio queixo entre o ombro direito e o pescoço de Alice, levando sua boca bem rente ao ouvido da hippie ao sussurrar exatamente no mesmo tom baixo que ela havia usado.

– Eu ainda posso pensar em muitas formas de te atingir, Docinho! – lançou, como um aviso pouco amigável – mas dessa vez, meu alvo será outro – Alice pôde sentir um sorriso se formar no rosto do psicopata enquanto ele ainda estava rente à sua orelha – esse sempre foi o seu problema... você se acha importante demais, não é mesmo? – apertou ainda mais os pulsos da hippie, e a força exagerada a obrigou a se curvar sobre o próprio corpo, ou então sabia que acabaria quebrando algum osso de seu braço. Coringa acompanhou seu movimento, mantendo exatamente a mesma proximidade entre os dois – mas você não é nada, nunca foi! Não passa de uma garotinha fraca e perdida, que não sabe lidar com os próprios problemas.

– Pouco me importa o que você pensa de mim – tentou olhá-lo através de sua visão periférica, mas parecia impossível conseguir alguma imagem nítida do Palhaço – o que você espera afinal? Que eu caia no choro por não receber sua aprovação? – riu, e a cada vez que o fazia, percebia o quanto aquele som estava longe de ser feliz. Sua atenção recaiu novamente ao seu filho caído, deixando que seu corpo se curvasse um pouco mais pelo desânimo – pouco me importa o que você vai fazer agora! – concluiu, cansada, sem nem ao menos ligar para os protestos dolorosos de seus braços contorcidos atrás de si.

Coringa aproximou-se ainda mais de seu pescoço, e Alice sentiu a textura viscosa da tinta sendo passada para a sua pele. Ela até era capaz de visualizar a satisfação estampada nas feições do Palhaço com o próximo comentário que visava a todo custo afetá-la ainda mais.

– Você só torna as coisas infinitamente mais divertidas para mim fingindo que não se importa! – riu – Vamos ver se você realmente vai ser tão indiferente assim ao que está por vir.

– Você realmente não sente nada? – perguntou baixo, mais para si mesma, referindo-se ao rosto sem vida de Krusty e ao modo apático e frio com que ele reagiu à morte do próprio filho – você é tão oco por dentro quanto faz questão de aparentar?

– Eu não sucumbo a essas fraquezas estúpidas – retrucou, aceitando a mudança brusca de assunto – eu tentei lhe ensinar a enxergar a verdade, tentei lhe mostrar um mundo de liberdade, mas você é tão tola quanto todos lá fora. Provou que não merece nada do que eu tenho a oferecer.

– Maravilha... – revirou os olhos, sem ânimo – podemos pular logo essa parte em que você tenta acabar de vez com a minha autoestima? Só para variar um pouco...

A voz de Alice era fria, quase irreconhecível de tão distante. Parecia impossível que todo aquele sangue-frio em seu tom pertencesse à mesma hippie que há tempos sempre levou consigo um sorriso no rosto. A verdade é que uma transformação profunda se intensificava dentro dela. A cada novo minuto, Alice tornava-se uma completa estranha dentro de seu próprio corpo.

– Sabe que eu até gostei que você se recusou a revelar a identidade do Morcego? – mudou novamente de assunto, dando um sorriso diabólico – provavelmente eu o destruiria com a mesma facilidade com que destruí você, e isso me faz pensar que depois de um tempo eu ficaria extremamente entediado, sem ninguém à minha altura para me enfrentar... – concluiu aquele pensamento bizarro e contraditório.

– Você é louco... – bufou, sentindo que agora todo o seu corpo doía por causa da posição em que tinha que se manter ao aperto do Palhaço.

– E o que é a insanidade se não a maneira mais racional de lidar com toda essa hipocrisia social disfarçada em princípios? – questionou, achando graça de uma piada que somente ele entendeu – não, é melhor manter o Batman – voltou ao assunto anterior, como se apenas pensasse alto demais – Ele é muito mais divertido com a máscara! – sorriu, finalmente soltando os braços já dormentes de Alice. Ela cambaleou um pouco até reencontrar seu ponto de apoio, se dando conta de que Coringa era muito mais problemático do que ela imaginava.

A hippie nada disse, apenas virou-se a fim de conseguir encarar novamente o rosto do Palhaço. Seu sorriso transbordava sadismo, com uma ferocidade que seria capaz de estremecer de medo qualquer pessoa com o mínimo de instinto de autopreservação, porém Alice não sentia absolutamente nada... era como se aquela transformação dentro dela houvesse finalmente terminado, arrasando com qualquer sentimento com que esbarrasse pelo caminho, como um forte vendaval que carrega consigo as folhas soltas pelo chão. Qualquer sentimento, menos um: o desejo de justiça. Ou vingança. Naquele momento, aqueles dois conceitos – que antes eram tão distintos para a hippie – pareciam ser exatamente a mesma coisa.

– Você não está curiosa para saber o que vai acontecer agora? – Coringa perguntou diante do silêncio de Alice, e seus olhos irradiavam um brilho intenso de atrocidade mesclado com um tipo de ansiedade.

– Já disse que não me importo – deu de ombros, como se aquela resposta já estivesse entediando-a.

– Sabe, somente duas vezes eu vi o Batman se dedicar a proteger com tanto afinco uma pessoa – ele começou o seu discurso, desconsiderando totalmente a falta de interesse de Alice – uma delas é você, claro – voltou a se aproximar da hippie enquanto continuava falando – mas antes de você... – fez uma pausa, olhando pensativo para o teto, sem interromper sua breve caminhada até Alice – tinha uma garota bonita, meio ruiva – percorreu toda a distância que os separava, agora encarando Alice com um sorriso divertido – é difícil acreditar que ele trocou aquela garota por alguém tão sem graça quanto você... – alfinetou, satisfazendo-se ao ver que uma sombra de raiva transpassava os olhos da hippie.

– Imbecil... – xingou, percebendo que ainda havia algum resquício dos seus sentimentos dentro de si. Talvez só tivessem sobrado os ruins, como aquele ódio que parecia querer consumi-la a todo custo.

– Uhuuum – cantarolou de forma irritante – então eu estou certo quanto a essa garota, não é mesmo? – gargalhou – quem será que o Morcegão escolheria se tivesse que salvar apenas uma de vocês? – alargou ainda mais o sorriso doente de seus lábios – Como o virtuoso e perfeito Batman agiria se para salvar uma, ele fosse obrigado a sacrificar a outra? – perguntou, agora próximo demais.

– Ele salvaria a outra – respondeu automaticamente, sabendo que era a mais pura verdade.

– Ah, Docinho, não estrague o meu experimento – censurou, franzindo a testa em meio ao seu tom falsamente repreendedor – sempre existe um elemento surpresa nas ações do Morcego, não é mesmo? Por que ficar prevendo suas decisões se nós mesmos podemos observá-las?

– Então é isso? Você vai fazê-lo escolher quem salvar? – arqueou uma sobrancelha com a tamanha estupidez daquele plano. Alice já havia se afastado de Bruce há muito tempo, sabia que, para ele, perdê-la não seria nada de muito doloroso.

– Eu prefiro acreditar que farei Batman escolher quem ele vai matar... – o Palhaço sorriu novamente, um daqueles sorrisos que antecediam uma catástrofe. Alice apenas o encarou de volta, sabendo que em momento algum Batman, ou Bruce, abriria mão da vida de Rachel por ela.

Coringa a conduziu de forma bruta para fora daquele lugar fúnebre em que os corpos de Krusty e de Smith estavam estirados. Antes que Alice fosse empurrada de vez para fora dali, vislumbrou uma última vez a expressão serena de seu filho, odiando-se por abandoná-lo naquele ambiente podre. Seus olhos se fecharam em um enorme pesar enquanto ela finalmente ultrapassava a porta, sentindo os empurrões impacientes que o Palhaço dava em suas costas.

Uma lágrima silenciosa escorreu pelo seu rosto quando a porta foi fechada com tudo atrás de si, fazendo com que Alice abaixasse a cabeça tristemente ao se dar conta de que jamais veria seu filho de novo, e que seu pequeno corpo ficaria jogado naquele depósito nojento sabe-se lá até quando, sem o mínimo de respeito pela sua memória. Coringa ainda a conduzia com pressa pelos corredores poeirentos e mal cuidados do galpão, desconsiderando qualquer resistência que a hippie pudesse oferecer diante da perspectiva de se afastar de seu filho.

Eles passaram novamente pelos corredores estreitos, porém desta vez não ignoraram as diminutas entradas que desbocavam no corredor principal, e tal estrutura provavelmente fazia com que a planta daquele lugar se assemelhasse a uma espinha de peixe. Coringa empurrou Alice em uma virada brusca para um desses pequenos corredores, e o espaço entre eles ficou infinitamente menor, ainda mais com todas as variedades imagináveis de entulhos que serviam como uma decoração bagunçada ao ambiente.

Não demorou muito para finalmente se depararem com outra porta ao fundo daquele caminho estreito, e esta era tão podre quanto a última que ultrapassaram há pouco menos de três minutos, talvez. Era difícil calcular o tempo depois de tudo aquilo... Alice não sabia se passava segundos ou horas entretida com os próprios pensamentos e miragens – que a todo o custo queriam assombrá-la com a imagem nítida da feição sem vida de seu Krusty.

Coringa escancarou com força a porta, revelando um depósito de pequenas proporções e tão sujo quanto tudo naquele lugar. Havia uma simples cadeira de madeira tombada junto à parede, quase caída no chão, enquanto mais três cadeiras desse mesmo modelo rodeavam uma mesa igualmente precária, que sustentava em cima de si uma longa corda. O Palhaço segurou firmemente o antebraço de Alice, arrastando-a até uma dessas cadeiras que estavam em volta da mesa.

– É bom saber que nada mudou desde que eu transferi o meu escritório daqui... – comentou rindo, pegando a corda entre os dedos e a analisando brevemente. Cada uma de suas mãos posicionou-se próximo às duas extremidades da corda, e o Palhaço começou a flexioná-la e comprimi-la com agilidade, como se testasse a sua resistência – Ela ainda está boa – concluiu brevemente – O meu capanga logo virá fazer as honras da casa – avisou com um sorriso de deboche, enquanto obrigava a hippie a sentar-se na madeira escura e prendia o seu corpo ao encosto do assento com aquela corda longa e grossa. Ela estava tão velha que era possível ver pequenos fiapos saindo de sua conformação, mas sem dúvida ainda parecia forte.

Quando se deu por satisfeito ao analisar o aperto que havia feito, Coringa demorou-se no rosto da hippie, encarando a fundo aqueles olhos negros, que sustentavam o seu olhar com um tipo novo de frieza, algo que Coringa jamais havia percebido na hippie.

O Palhaço agachou-se, facilitando o encarar mútuo de ambos ao ficar mais ou menos na mesma altura de seus olhos tão distantes. Alice acompanhou o movimento de Coringa com o rosto, reparando na mão que se aproximava de sua pele e tocava em seu cabelo.

– Por que você teve que estragar tudo? – perguntou com uma voz sombria, enrolando os dedos aos cachos que se formavam na ponta do cabelo de Alice e aproximando seu rosto ao dela à medida que seu tom ficava mais baixo, quase inaudível – você poderia ter tudo a uma hora dessas, mas escolheu seguir o caminho mais estúpido...

– Você aqui é o problemático! – rangeu os dentes, querendo a todo custo romper o toque do Palhaço, mas quanto mais se mexia, mais sentia o aperto se intensificar na região de seus pulsos, calcanhar e costas, junto com o roçar doloroso daquela corda meio ressecada pelo tempo. Qualquer tentativa de resistência parecia inútil – eu te ofereci a verdadeira identidade do Morcego, e tudo o que pedi em troca foi a sua ajuda para salvar o meu filho. Se você não fosse tão imbecil, já saberia o verdadeiro rosto de seu maior oponente agora!

Coringa gargalhou, ainda mais próximo de Alice, agora a encarando com um brilho divertido dançando em seus olhos. Era como encarar uma forte labareda ardendo em suas próprias chamas – tão hipnotizantes e chamativas que pareciam um convite para que Alice se perdesse de vez na insanidade daquele fogo, que queimava avidamente em seus olhos amendoados.

– Veja bem, Docinho – Alice estremeceu de raiva ao ouvir aquele apelido ridículo, ainda mais sendo pronunciado com tamanho escárnio... parecia impossível ignorar os poucos milímetros que os separavam agora – eu sou como um cachorro louco correndo atrás dos carros. Eu não saberia o que fazer se finalmente conseguisse pegar um deles, a minha função é apenas persegui-los, sabendo que esse simples ato pode gerar um caos maior do que se eu de fato os alcançasse.

– Um dia, um desses carros vai acabar te atropelando, e eu mal posso esperar para assistir de camarote quando esse dia chegar.

– Digamos que o seu tempo está um pouco apertado para conseguir ver uma coisa dessas acontecer – ele riu, colocando uma bomba relógio ainda desativada em cima da madeira, sem interromper em momento algum aquele contato visual, cada vez mais estimulante para o psicopata – foi divertido, Docinho! – Ele aproximou-se ainda mais, esmagando abruptamente a boca de Alice com a sua, com a urgência de uma despedida.

Ela queria protestar, queria ser capaz de desvencilhar-se daquele contato, mas já havia perdido a conta de quantas vezes falhara ao tentar superar a força bruta do Palhaço. Alice apenas concentrou-se em manter seus lábios bem unidos e apertados para impedir que o beijo se tornasse mais íntimo. Fazia um esforço incalculável enquanto as mãos de Coringa já encontravam sua cintura, e a rigidez dos lábios do Palhaço destruíam aos poucos as defesas de Alice, abrindo caminho até seu hálito quente, com uma facilidade irritante, até! Antes mesmo de dar-se por vencida, a hippie soube exatamente qual gosto provaria. Ele ainda estava gravado com detalhes em seu subconsciente, e odiou-se por isso. Odiou-se por sentir aquele conhecido arrepio eriçar seus pelos, odiou-se por mais uma vez se ver domada diante da proximidade de Coringa, depois de todo o mal que ele lhe infligiu. Odiou-se por acabar correspondendo ao beijo, desistindo de tomar parte naquela guerra inútil, que só soube lhe trazer derrotas.

Estava mais do que evidente que aquilo era um adeus vindo de ambas as partes. Nem mesmo Coringa parecia acreditar que Batman optaria pela vida de Alice, pela forma rude com que a tocava... o modo impetuoso com que os dois se beijavam só tornavam essa certeza cada vez mais clara e óbvia para ambos! Sim, aquilo era um adeus, e de certa forma, Alice até sentia-se grata por isso.

O Psicopata se afastou, ficando novamente ereto e encarando Alice de cima, que desviou o rosto e respirou fundo algumas vezes, ainda odiando a si mesma bem mais do que ao Palhaço. Coringa deu um sorriso satisfeito antes quebrar o silêncio com sua voz cruel.

– Eu te avisei, não foi, Docinho? – riu alto – será que agora você finalmente entendeu que quem dá um fim a tudo isso sou eu?! – cerrou os olhos em uma linha quase imperceptível, de tão fina, e logo abriu mais um enorme sorriso na direção da hippie, aproximando o rosto de seu ouvido e sussurrando – pois bem, agora eu digo que tudo acabou – avisou, indo em direção à saída do depósito em meio às suas próprias gargalhadas.

Alice observou a silhueta do Palhaço desaparecer na mesma proporção em que sua gargalhada ficava cada vez mais distante. Seus olhos pousaram pesadamente sobre a bomba no canto da mesa, ainda desativada, porém já marcando os últimos minutos que a hippie teria antes que fosse envolvida pela explosão. Trinta minutos. Era tudo o que lhe restava a partir do momento em que a bomba fosse armada...

Ela suspirou diante da certeza concreta de que Batman escolheria pela vida de Rachel, sem nem ao menos precisar pensar duas vezes para tomar essa decisão. Talvez nem sequer sentisse remorso, ou pelo menos a dor da perda para lembrar-lhe do breve tempo em que passaram juntos...

Doeu-lhe demais pensar em Bruce. Pensar em Batman... aquele conjunto complexo que acabou entrando em sua vida, e que Alice não soube interpretar e muito menos compreender. Cada palavra dura que despejou sobre Batman agora tinha o poder de atingi-la em dobro... o despertar da imensa perda por qual passou naquela noite a fez perceber o quanto Bruce tinha suas motivações para se tornar o Cavaleiro das Trevas, o quanto extravasar aquela dor era nobre, para evitar posteriores dores de meros desconhecidos.

Deixou que o ar escapasse de seus pulmões – em uma única arfada – enquanto mirava novamente a bomba, que logo daria início àquela pequena contagem regressiva que provavelmente a transformaria em cinzas. Riu por dentro, lembrando-se do último pedido que fez a Coringa, em um de seus encontros quase fatais, de que, quando ele a matasse, cremasse o seu copo e colocasse os resíduos em uma ampulheta... bom, pelo jeito só estava faltando a ampulheta!

– Olá, Patati... – Alice cumprimentou ironicamente o capanga que entrou bruscamente naquele pequeno cubículo em que ela estava presa, e o homem parecia querer lhe fuzilar apenas com a letalidade do olhar que direcionou a ela.

– Não me chame assim! – rosnou em uma ameaça evidente.

– Ah, me perdoe, você tem razão – sorriu, como se pedisse desculpas apenas com o repuxar de seus lábios – você é o Patatá...

– Em breve você engolirá cada desaforo, garota insolente! – ameaçou, apontando um dedo acusador em sua direção.

– Eu já engoli – disse, séria, como se nada mais pudesse atingi-la, nem mesmo a morte quase certa. Fez o possível para espantar a tristeza que sabia que estava evidente em seus olhos, não querendo dar esse gostinho a mais àquele capanga desprezível. Sorriu novamente – e então, qual é o plano do Palhaço-Mor?

– Pensei que você soubesse – riu, satisfeito com a perspectiva de poder gerar o medo dentro dela ao explicar cada detalhe do que aconteceria.

– O seu amado chefe só me disse o superficial – comentou, quase entediada, e essa falta de medo intrigou o capanga.

Ele não respondeu, ao invés disso começou a abrir um galão de gasolina lentamente, como se quisesse fazer um suspense com aquela pequena pausa em que ainda se focava no enorme galão, lutando com a tampa. Alice pôde notar um esforço evidente do capanga para levantar todo aquele peso do chão, e só depois de todo esse ritual irritante, ele voltou a olhá-la, sorrindo por dentro e por fora.

– Neste exato momento, outro capanga está fazendo exatamente o mesmo procedimento que eu, com outra garota e do outro lado da cidade – abriu ainda mais o sorriso enquanto jogava gasolina ao redor da cadeira em que Alice estava amarrada – Coringa deixou-se prender em um assalto estratégico ao Banco Central, e agora provavelmente está sendo interrogado pelo Comissário e por Batman – disse, agora encharcando cuidadosamente os cantos do depósito e seus arredores, parecendo relaxar os músculos conforme o peso do galão diminuía sobre seus ombros – por fim, o Chefe fará Batman escolher quem ele deixa morrer – parou um pouco para sorrir ainda mais – você ou a outra garota, que por sinal é bem mais interessante – riu maldosamente.

– Que mania que vocês têm em me comparar com aquela Vaquinha de Presépio... – irritou-se, fazendo a satisfação do homem aumentar ainda mais – Mas eu realmente entendo por que a maioria de vocês se encanta por ela – comentou, pensativa, suavizando um pouco a raiva em sua voz e dando um meio sorriso – tem homem que tem dom pra ser corno, e quem melhor do que uma vaca para fazer esse dom aflorar?

O homem largou o galão, jogando-o em um canto qualquer e fazendo o resto da gasolina se concentrar naquele diminuto espaço, nitidamente ofendido – Talvez a carapuça tenha servido! – Ele pisou forte até ficar de frente para a prisioneira, e no segundo seguinte, deu um sonoro tapa no rosto de Alice com o dorso da mão. A intensidade do gesto repentino fez com que a hippie perdesse completamente o equilíbrio, e de repente a cadeira passou a se apoiar apenas pelas duas pernas esquerdas, iniciando uma inevitável queda até o chão.

A hippie sentiu um baque forte próximo à sua orelha, ficando imediatamente tonta com a intensidade da dolorosa pancada na lateral de sua cabeça, passando a ter uma visão meio embaçada do ambiente. Percebeu, um pouco tarde demais, que o motivo da dor exagerada vinha do fato de que sua cabeça acertou em cheio a quina afiada de um degrau, ainda encostado em seu cabelo. Não sabia ao certo, mas parecia sentir um líquido quente e denso escorrendo pelo lugar da batida.

O capanga agachou-se, apoiando as mãos no piso degradado e inclinando a cabeça paralelamente ao chão, para poder capturar com perfeição o semblante abatido de Alice. Mesmo em meio à visão dupla e à confusa névoa que parecia apoderar-se de seus sentidos, a hippie foi capaz de ver o rosto extremamente vermelho do capanga, provavelmente por culpa da raiva repentina que se apoderou dele com aquele simples comentário que Alice fez. O homem segurava a bomba entre as mãos, com um sorriso doentio.

– Pronta para se juntar ao seu filho? – sorriu com malícia, antes de finalmente dar início à contagem regressiva da bomba relógio.

Então, esse seria o fim... bastaria Alice fechar os olhos e se render à vontade incontrolável de abraçar a inconsciência, que provavelmente não acordaria mais. Mas o fato de não ter aqueles últimos trinta minutos de sua vida na memória, nem de longe a irritavam. Até sentia-se grata por não precisar participar da desumana contagem regressiva que tiraria, pouco a pouco, os seus últimos batimentos cardíacos e suas últimas puxadas de ar. Suas pálpebras finalmente se fecharam, tendo como última imagem o rosto resoluto do capanga.

Coringa estava sentado na sala de interrogatório, e seu lábio se entortava sutilmente em um sinal de impaciência enquanto tudo o que ele ainda podia vislumbrar era a penumbra da sala. Os antebraços apoiavam-se contidamente na enorme mesa quadrangular, e as pontas de seus dedos, também impacientes, batiam compulsivamente no tampo de madeira.

Sorriu quando sentiu que a porta atrás de si foi aberta, e mesmo que fosse incapaz de ver quem havia entrado, soube imediatamente que se tratava do Morcego. Luvas negras envolveram algumas mechas de seu cabelo esverdeado, e logo em seguida sentiu que sua cabeça ia de encontro à madeira, velozmente. Após o baque surdo, o Cavaleiro das Trevas entrou em seu campo de visão, parecendo irado.

– Não comece pela cabeça – Coringa aconselhou, sentindo-a latejar – a vítima fica... tonta! – balançou-a rapidamente, como se tentasse reorganizar os pensamentos que saíram de foco com aquela batida.

– Onde está a Rachel? – perguntou em meio à tradicional rouquidão, que também servia como um tipo de máscara para camuflar sua verdadeira voz.

– Ah, vejo que você já está a par da captura da ruivinha – sorriu, demonstrando a satisfação que sentia – ela é mesmo uma tentação, não acha? – lambeu o canto dos lábios, ansioso pelas reações de ódio do Morcego, que vieram rápido.

Batman segurou com força a gola do terno de Coringa, levantando-o bruscamente da cadeira – que foi arrastada para trás em meio ao gesto, e por fim caiu no chão, porém aquele baque foi camuflado graças ao novo golpe do Morcego. O Cavaleiro das Trevas jogou Coringa contra a parede, e mais uma vez a cabeça do Palhaço protestou com a dor, mas ele apenas gargalhava. Gargalhava com escárnio, divertimento, e uma pontada cruel de satisfação.

– Onde ela está? – a pergunta saiu como um rugido indomável, o que fez a gargalhada de Coringa aumentar ainda mais, adorando todos os indícios de irritação em seu tom rouco. Batman estava prestes a lhe dar um novo golpe, quase podia sentir seu punho cerrado tremer com a expectativa. Puxou novamente a gola do terno do Palhaço, trazendo-o para mais perto, e a outra mão manteve-se fechada em um esboço do soco que estava prestes a lhe dar – não me faça perguntar de novo – ameaçou.

– Calma, Batsy! – Coringa ainda ria sem muito controle – eu vou falar a localização das duas, aí é que está a graça. Você vai ser obrigado a escolher qual delas morre e qual delas vive – ampliou ainda mais o sorriso em seu rosto, sentindo um enorme prazer com tudo aquilo.

– As duas? – Batman perguntou, confuso, chegando até a afrouxar um pouco o aperto no terno do Palhaço – você fez mais algum refém?

– Tsc, tsc... – balançou negativamente a cabeça, reprovando a ignorância do Morcego – Vejo que a sua fonte de informações não foi das melhores – mirou com diversão os olhos negros e faiscantes que o encaravam com ódio.

– Quem mais? – rugiu novamente, voltando a apertá-lo com força e dando uma leve chacoalhada em seu corpo. Coringa sorriu antes de responder, deliciando-se com a irritação que estava proporcionando ao seu maior inimigo.

– Alice – fez uma pausa para saborear a sombra que percorreu os olhos de Batman – A doce, bela, irritante e insolente Alice! – repuxou ainda mais aquele sorriso que emoldurava seu rosto, percebendo a enorme batalha interior que se formava dentro do Morcego – eu sugiro que você se apresse se quiser salvar uma delas. Elas só têm mais... – parou para olhar no relógio – uns vinte e sete minutos – concluiu, por fim, despertando Batman de seu próprio conflito interno.

Após pegar os dois endereços com aquele maldito Palhaço, o Homem-Morcego já estava a caminho do enorme tanque preto, preso dentro de sua própria mente, tentando buscar uma solução para aquela armadilha que o psicopata criou. Coringa havia colocado Rachel e Alice em extremos totalmente opostos da cidade, nem mesmo contando com a potência de seu Bat-Móvel o Cavaleiro das Trevas seria capaz de salvar as duas. Agora o dilema estava formado dentro dele, como uma dúvida corrosiva que, de qualquer forma, com qualquer decisão, o faria sofrer.

De um lado, Rachel, que desde sua infância foi o grande amor de sua vida, mas que o destino acabou separando. Do outro lado, Alice, a única que foi capaz de fazê-lo acreditar que ele não era mais um caso perdido... e que ainda o fazia acreditar nisso, mesmo com o tempo em que ficaram separados.

Ligou o motor do Bat-Móvel, ciente de qual seria o seu destino final, por mais que isso apertasse o seu peito de forma incômoda. Qualquer escolha que tomasse o destruiria, de qualquer forma, e mudar de ideia a essa altura estava completamente fora de cogitação! Batman já saiu da delegacia com o seu destino final traçado, e coube aos policiais tentar resgatar a outra vítima do Palhaço.

Batman nunca sentiu que costurava tão velozmente as avenidas e ruas de Gotham como dessa vez. Era uma velocidade muito além da permitida, e mesmo que ele só conseguisse vislumbrar borrões difusos passando pela janela do automóvel, podia sentir os olhares tensos e surpresos incidindo sobre ele, como sempre acontecia quando o Bat-Móvel circulava pela cidade.

Os carros lhe davam passagem como se ele dirigisse uma ambulância, ou viatura, mas talvez o fato de lhe abrirem caminho tão prontamente vinha do receio de serem esmagados pelo tanque preto, caso não o fizessem. Pouco importava! Provavelmente acabaria esmagando mesmo, com toda aquela adrenalina brincando em sua corrente sanguínea...

Os músculos do Morcego estavam completamente tensionados, da mesma forma que seus braços mantinham-se rígidos sobre o volante. Dedicava uma enorme atenção às ruas iluminadas, mal percebendo os postes que praticamente voavam nas laterais do automóvel. Sua feição era dura enquanto mantinha-se concentrado no percurso, tentando calcular mentalmente quanto tempo já havia se passado desde que saiu da delegacia. Simplesmente não fazia ideia, apenas continuava dirigindo, sentindo seus lábios apertados em uma linha séria e densa.

Suspirou, ajeitando-se impacientemente ao banco do motorista enquanto percebia que já estava próximo demais do maldito cárcere... Batman estava a uma velocidade tão grande que quase foi incapaz de frear a tempo. Quando o Bat-Móvel finalmente parou, sua dianteira ficou a apenas alguns insignificantes centímetros da parede rachada e meio escura.

O Cavaleiro das Trevas saiu rapidamente do possante, indo de encontro à entrada e tentando focar-se apenas em seu mais novo objetivo de resgate. Não sabia quando tempo ainda lhe restava, e não estava nem um pouco disposto a acabar descobrindo da pior forma. Começou uma caminhada apressada pelo local imundo, detendo-se apenas para observar qualquer sinal que pudesse ajudá-lo a encerrar aquela busca. Foi quando ele viu uma porta escancarada e um forte odor de gasolina invadiu suas narinas.

Batman correu até lá, guiado tanto pelo olfato quanto pelos próprios pressentimentos de que aquele seria o lugar certo, parando apenas quando se deparou com os números vermelhos da bomba, que marcavam dois minutos e vinte e um segundos. Teria menos de três minutos para sair dali e se afastar o bastante da explosão... aquele pouco tempo o desencorajou totalmente de tentar desarmar a bomba, decidindo que apenas sairia dali o mais rápido possível, deixando que o lugar fosse consumido pelas chamas. Alice estava caída no chão, desacordada. O Morcego levantou-a, tentando conciliar o cuidado com a pressa, e assim que o fez, percebeu que o cabelo da hippie estava ensopado com o próprio sangue. Seu pescoço pendeu para trás devido à inconsciência que a envolvia.

Batman tirou um pequeno objeto cortante em forma de morcego do seu cinto de utilidades e começou a rasgar as inúmeras e grossas cordas que a prendia na cadeira, lutando contra o tempo. Olhou mais uma vez para os números na bomba relógio enquanto posicionava Alice em seu colo. Dois minutos e oito segundos. Ajeitou-a de forma protetora em seus braços – ao mesmo tempo em que corria para a saída – sentindo que a pele de Alice estava mais quente do que o normal.

Ainda corria quando posicionou a cabeça vacilante da hippie no espaço entre o seu pescoço e ombro, para dar um pouco mais de firmeza ao pescoço bambo da hippie, antes submetido ao ritmo apressado de Batman. Sentiu que a respiração de Alice estava fraca, mas sem dúvida podia senti-la ali, quente, e várias lembranças do curto tempo em que estiveram juntos invadiu sua mente enquanto ele finalmente avistava o Bat-Móvel do lado de fora do galpão.

Tentou desviar os pensamentos que queriam distrai-lo, posicionando Alice o melhor que conseguiu no banco ao lado do seu, circundando-a rapidamente pelo cinto de segurança, e ocupando imediatamente o seu lugar atrás do volante. O Morcego arrancou o automóvel em uma ré brusca, sem se atrever a perder tempo virando o Bat-Móvel na direção certa. Ele olhava concentrado para trás, aumentando a velocidade cada vez mais, sabendo que a qualquer momento seria capaz de ouvir, e até mesmo ver, a explosão.

Dito e feito... antes que ele fosse capaz de virar a primeira esquina, sentiu o chão tremer sob as rodas gigantes do Bat-Móvel, e de repente o céu estava tingido de um laranja vivo, que anunciava a intensidade da explosão. Batman freou, sabendo que estava longe o bastante do fogo, a uma distância que julgou segura.

Sentiu um evidente desespero quando a imagem de Rachel projetou-se em sua mente, sem pedir licença, enquanto ele ainda vislumbrava o fogo denso que parecia dançar pelo céu. Um peso grande demais pareceu depositar-se em seus ombros, e Batman sentiu-se sufocar dentro daquela máscara de morcego... tirou-a de seu rosto com um grunhido raivoso – sabendo que os vidros intensamente escuros seriam capazes de impedir a visão de qualquer curioso que pudesse tentar olhar para o interior do Bat-Móvel – e a jogou com força no fundo do automóvel, perto de seus próprios pés. Olhou para cima por um momento, dominado por uma angústia cortante, e sem mais conseguir sustentar a gravidade daquela decisão, pousou sua testa suada entre as luvas de couro pretas e grossas, sentindo uma ardência forte em seus olhos começar a crescer.

Sabia que a polícia não tivera chance alguma de concluir a missão de salvar Rachel... Se Batman – que tinha o auxílio da velocidade incrível do Bat-Móvel – quase falhara, o que dirá uma simples viatura policial... Bruce afundou o rosto ainda mais no couro que envolvia suas mãos, sentindo todo o peso de seus ombros serem transferidos para o seu peito diante daquela verdade incontestável.

Encarou por um momento o rosto desacordado de Alice, vendo que o sangue ainda escorria pelo seu cabelo. Bruce recompôs sua postura – ainda sentindo a aflição tingindo o negro de seus olhos – dando novamente a partida no veículo, que imediatamente obedeceu com um ronco alto e potente. Sua dor teria que esperar. Não podia correr o risco de acabar perdendo Alice também.

Notas finais
Isso aê, mais um capítulo... Alguém aí achou que o Morcegão ia salvar a Rachel??? Ela que morra! =P