Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
36 Reavaliando Conceitos
Notas iniciais
Havia algo errado naquela maciez que envolvia Alice. Os momentos desconfortáveis que permaneceu presa no galpão agora não passavam de uma distante lembrança difusa, e a enorme disparidade entre essa sensação e o estranho ar aconchegante que se instalou à sua volta era um pouco intrigante...
Talvez o conforto fosse um indício de que tudo finalmente havia acabado. A ausência da dor e a noção daquele agradável bem-estar podia ser um forte sinal de que toda aquela loucura havia chegado ao fim para a hippie. Mas mesmo com a leve percepção do que estava à sua volta, ela estava mergulhada profundamente no próprio subconsciente, sem ter certeza de absolutamente nada, nem mesmo de sua própria existência.
Alice podia sentir um pequeno fio de consciência lutando contra a sua necessidade de manter-se desacordada, como uma defesa desesperada de seu corpo para fazê-la reagir. Tudo parecia obscuro demais, distante e irreal... Era como ver-se presa dentro de si mesma e ser incapaz de derrubar a grossa barreira que a impedia de abrir novamente os olhos. Um movimento que era tão simples em sua essência, mas que agora se provava impraticável. Talvez fosse certo manter-se inconsciente pelo maior tempo que conseguisse, e adiar ao máximo a sua volta àquele mundo caótico...
Não queria voltar, não queria enfrentar novamente o desespero de encarar suas próprias lembranças... ela estava em paz em sua inconsciência! Ali, nada poderia atingi-la, e esse estado de dormência foi a melhor coisa que lhe aconteceu em muito tempo.
Por mais que quisesse rejeitar sua volta à realidade, ela ocorria gradativamente, quase zombando da tentativa patética de Alice de querer se isolar dentro de si mesma. A hippie não teve certeza, mas o primeiro sinal indicador de que ela retornava ao seu inferno particular foi uma fraca pontada que sentiu em sua cabeça, e que, pouco a pouco, parecia aumentar à medida que Alice finalmente recobrava a posse de seu corpo.
A dor parecia aumentar cada vez mais de intensidade, provocando um baixo gemido que acabou escapando de seus lábios. Ela levou a mão ao local em que julgou ser a causa daquela dor, ainda de olhos fechados e sentindo todo o seu corpo mole resistir em obedecê-la.
Seus dedos vacilantes sentiram a aspereza de uma grossa faixa envolvendo a região dolorida em sua cabeça. De repente todo o desconforto de sentir-se viva novamente pareceu arrebatá-la daquele estado inconsciente que era infinitamente mais aconchegante.
Alice tentou umedecer os lábios extremamente secos, mas sua língua parecia estar ainda mais seca, tornando o gesto inútil. Ela finalmente abriu os olhos – rendendo-se à consciência depois de tanto tentar evitá-la – capturando apenas imagens embaçadas e borrões do ambiente, percebendo pela primeira vez que estava deitada em uma cama branca e macia.
Pigarreou, incomodada com a sua garganta ressecada, e sua visão começou a se normalizar. Aos poucos, as indecifráveis manchas sem sentindo se uniam em uma única imagem nítida, fazendo-a perceber imediatamente que aquele ambiente se tratava de um quarto de hospital. Suspirou longamente, agora sentindo uma dor mais real em sua cabeça...
Tentou ajeitar-se melhor no colchão, incomodada com aquela posição em que provavelmente permaneceu por horas. Sentou-se, apoiando as costas bem rentes à almofada macia que antes estava sob sua cabeça, e finalmente começou a analisar o quarto um pouco mais minuciosamente, demorando-se no branco impecável e reluzente das paredes. Soube imediatamente que se tratava do Hospital de Gotham – localizado no centro da cidade –, apenas por se dar conta do quanto tudo ali fazia questão de parecer confortável e meio terapêutico. Era um hospital elitizado, sem dúvida, e a hippie franziu a testa ao se perguntar como acabara parando ali...
Fechou os olhos novamente, deixando que sua cabeça pendesse para trás em completo desânimo. Daria tudo para voltar à inconsciência... para voltar àquele estado inerte, desprovido de emoções, que até então fora a sua melhor defesa. Ficou estática naquela posição por alguns minutos, até que a dor em seu pescoço a obrigou a voltar para a posição ereta de sua coluna vertebral.
Massageou de leve sua nuca com a ponta dos dedos, ajeitando-se novamente no colchão de lençóis brancos e aconchegantes, relutante em abrir os olhos mais uma vez e dar de cara com tudo aquilo que queria esquecer... mas acabou abrindo, sabendo que não seriam suas pálpebras fechadas a escondê-la da loucura daquele mundo para sempre, por mais que desejasse isso.
Alice começou a cantarolar baixinho alguma música sem sentido, reparando na túnica hospitalar extremamente clara que a vestia agora, e forçando ao máximo extrair todas as informações que sua memória permitisse. Ainda estava tudo muito confuso em sua mente... as lembranças difusas pareciam caçoar da tentativa que a hippie fazia para esclarecê-las.
A porta de seu quarto abriu-se com um clique baixo e quase imperceptível, mas o barulho foi suficiente para fazer com que Alice se sobressaltasse com o som que cortou o longo silêncio instalado ali.
Um homem alto – com alguns poucos fios grisalhos destacando-se entre o cabelo e a barba – andava até a hippie, levando um meio sorriso no rosto enquanto a encarava com seus enormes olhos azuis. Olhos enormes e incrivelmente penetrantes... ele mancava intensamente, e sua caminhada era auxiliada por uma bengala simples de madeira, muito bem polida. Alice o observava, extremamente interessada, enquanto ele ainda se aproximava de sua cama com certa dificuldade, mas ao mesmo tempo parecendo indiferente ao forte mancar que atrasava seus passos.
O homem finalmente cessou a caminhada quando chegou à lateral da cama da hippie, ainda a encarando com aqueles olhos extremamente inteligentes e uma expressão um tanto sarcástica. Eles mantiveram o silêncio por um tempo, enquanto Alice o observava arrastar um banco para mais perto de sua cama, sentando-se nele e apoiando a bengala entre os próprios joelhos.
– Então... você finalmente acordou! – comentou despreocupadamente, tirando um frasco cilíndrico e laranja de remédios de dentro do bolso de sua calça e ingerindo uns dois ou três comprimidos ao mesmo tempo, engolindo-os a seco.
– Ao que parece, sim – Alice sentiu apenas um fiapo de sua voz sair, como se suas cordas vocais estivessem enferrujadas pelo período de desuso. Nem sabia dizer ao certo quanto tempo ficou em silêncio devido à sua inconsciência – E você é...? – perguntou, pigarreando um pouco para que sua voz saísse mais firme e coerente.
– Doutor House – apresentou-se num tom falsamente bem humorado, que só não convencia por causa do enorme sarcasmo ainda presente em seu rosto – o seu médico – concluiu, brincando distraidamente com o frasco de remédio entre os dedos enquanto ainda encarava Alice com uma expressão que parecia curiosa. Ela percebeu que o médico apoiava a perna manca pesadamente sobre o banco, deixando-a relativamente esticada em comparação com a outra.
– Alice... – ela disse um pouco tarde, depois de seu pequeno devaneio, sentindo-se na obrigação de se apresentar também.
– Eu sei muito bem quem você é – o Doutor House respondeu em meio a uma expressão entusiasmada e ao mesmo tempo contida. Entusiasmada porque seus olhos brilhavam intensamente, e contida porque seus lábios se curvavam de forma sutil em um sorriso controlado.
– Por que será que eu não me surpreendo?! – revirou os olhos, bufando, como se não aguentasse mais ser reconhecida o tempo todo por meros desconhecidos que... – Espera um pouco... – Alice franziu intensamente a testa por conta da familiaridade súbita que sentiu ao ouvir o nome de seu médico – Você é o Doutor House? O Doutor Gregory House?
– Parece que você também me conhece – comentou, sustentando os antebraços na curva da bengala e pousando o queixo sobre aquele novo apoio, como se naquela posição ele pudesse encarar melhor a sua paciente. Deu um meio sorriso ao identificar o quanto ela parecia perplexa.
Alice sentiu-se fortemente observada por aqueles olhos perspicazes. O azul escuro de suas órbitas cintilava com uma intensidade hipnotizante.
A hippie não conhecia, de fato, aquele médico. Não pessoalmente, até aquele momento. O Doutor House era uma lenda no ramo da medicina, famoso por sua competência e por sua arrogância... em outras palavras, ele era odiado e admirado ao mesmo tempo por médicos do país inteiro, inclusive por Alice – que mais o admirava do que o odiava.
– O meu caso é grave? – a hippie perguntou preocupada, ao se lembrar, subitamente, de que aquele médico também era conhecido por só aceitar os casos mais complicados do hospital, aqueles que pareciam não ter uma solução coerente aos profissionais menos capazes. Ele via as diversas enfermidades dos pacientes como um enigma que estimulava sua mente a buscar uma resposta. E que no final, ele sempre acabava solucionando.
– O seu caso nem é um caso – rolou os olhos, dando uma risadinha baixa – você só levou uma pancada forte na cabeça, nada que alguns cuidados e um pouco de observação não resolvam...
– Então... – Alice começou a falar, confusa, ainda tentando decifrar as duas gemas azuis que pareciam divertir-se agora – por que você se interessou pela minha... situação?
– Um tanto intrigante o modo como você apareceu aqui... – refletiu, levantando-se do banco e dando alguns passos vacilantes pelo quarto, sem se afastar muito da paciente – ... o seu rosto ficou conhecido graças ao seu curto relacionamento com Bruce Wayne – olhou para o teto, pensativo – e depois de apenas alguns meses, você foi julgada e condenada por ser cúmplice do Coringa, e seu rosto ficou ainda mais famoso. Foi uma sentença forte, você até acabou parando em Arkham! – enquanto o médico falava, Alice podia ver um filme de suas palavras passando rapidamente em sua cabeça – então, não mais do que um mês depois que você permaneceu internada no manicômio, espalha-se a notícia da sua fuga – ele parou a caminhada, agora do outro lado da cama, voltando a encarar Alice – você é capaz de imaginar o quanto o seu sumiço nos inspirou ainda mais a acreditar que você era culpada de todas as acusações?
– Os habitantes de Gotham precisavam colocar a culpa em alguém, não é mesmo? – disse, secamente – e eu nem vou me dar ao trabalho de tentar limpar essa imagem. É inútil.
– Mas nem de longe essa é a parte mais perturbadora da sua história – balançou a cabeça, parecendo cada vez mais estimulado a dar continuidade àquela conversa – depois de anos ausente, quando todos nessa cidade já haviam se esquecido da sua existência, você é trazida para esse hospital por ninguém menos do que Batman. – ele sorriu, dessa vez parecendo incapaz de esconder a satisfação estampada em seu rosto, e Alice congelou em cima da cama hospitalar. Todas as lembranças que se recusavam a dar o ar de sua graça, simplesmente vieram à tona, bruscamente, embora ainda fossem um tanto obscuras – É curioso que o Homem Morcego tenha preferido salvar a suposta criminosa que, teoricamente, é a parceira do seu maior inimigo, do que a Advogada da Promotoria de Gotham, que também estava na mesma situação... Rachel Dawes, não é isso? — franziu a testa, sem ter certeza se aquele era o nome da mulher — uma cidadã comum, sem qualquer antecedente criminal para sujar a sua ficha – concluiu, apoiando todo o peso de seu corpo na bengala e esperando ansiosamente pela reação de Alice.
Era isso mesmo que Alice havia entendido? Batman havia escolhido salvá-la e deixar o destino de Rachel jogado à própria sorte? Isso não parecia fazer o menor sentido, com certeza entendeu errado! Ainda podia sentir a desordem tingindo sua mente...
– Então você só quis ser meu médico para ser mais um a bisbilhotar o meu suposto envolvimento com Batman e Coringa? – perguntou, irritada. Estava começando a entender por que o Doutor House era tão odiado entre os médicos e pacientes, apesar de ser extremamente competente. Suas palavras eram cretinas, e ele parecia não ter o menor respeito por qualquer um que fosse!
– Basicamente! – ignorou o tom esquentado de Alice, sorrindo abertamente e deixando os dentes à mostra pela primeira vez.
– E você também vai ser mais um a tirar suas próprias conclusões e me julgar por elas? – rangeu os dentes com aquela pergunta totalmente retórica, sentindo seu rosto esquentar – não, muito obrigada! Prefiro manter minhas defesas apenas para mim.
– Julgá-la? – House uniu as sobrancelhas, rindo – e por que eu julgaria uma das poucas pessoas que tem coragem de ser o que realmente é, mesmo com a enorme aversão que todos insistem em depositar naqueles que o fazem?
– Hein? – Alice perguntou, confusa.
– Veja o Coringa, por exemplo... – o médico fez uma pausa, ingerindo mais alguns comprimidos antes de voltar a falar – ... ele é um ótimo exemplo sobre o quanto a maioria da população simplesmente tenta massacrar a autenticidade.
– Ele é um assassino! – Alice argumentou, chocada com a linha de raciocínio do médico.
– Isso é um mísero detalhe! – balançou a cabeça, sério – Não encare essa analogia baseando-se no que o Coringa faz, mas sim no que ele busca representar. No que ele é.
– Ãhnn... Um palhaço? – Alice arriscou, tentando imaginar aonde o Doutor House pretendia chegar.
– Ele tenta representar a mudança. Ele enxerga um mundo repleto de falhas, e vê-se obrigado a destruí-lo, porque é nisso que ele acredita. Tem noção de como são poucas as pessoas que revelam aquilo que realmente são por algo em que acreditam? Ou simplesmente por mostrar-se verdadeiro? A maioria esconde-se atrás dos próprios receios, temendo o julgamento que a sociedade irá lhes impor caso elas se mostrem de uma forma crua, de uma forma real.
– Você está tentando justificar todas as mortes, todo o sofrimento gerado por ele baseado em uma possível crença do Palhaço?
O Doutor House balançou a cabeça novamente, vendo que Alice se distanciava do foco daquela conversa.
– Pense apenas na imagem pura de Coringa. Preste atenção às finalidades de seus atos, sem analisar os meios que ele utiliza para chegar aonde quer. Não estamos julgando os comportamentos psicopatas agora, estamos falando sobre a coragem de um visionário, por mais que essa visão dele seja um tanto distorcida para o resto do mundo.
– Assim como Batman... – Alice comentou, entendendo mais a fundo as palavras do médico.
– Exatamente! – ele aprovou a comparação – só que os dois lutam por ideais opostos. E mesmo o Batman encaixando-se nessa descrição, ainda assim ele não é tão ousado quanto Coringa... Coringa é original em tempo integral, sem precisar do auxílio de uma máscara para isso. Sem se sentir na obrigação de viver uma vida dupla...
A hippie encarou em silêncio o Doutor House, surpresa por sua interpretação a respeito das ações do psicopata, e notando imediatamente que ele também seria um perfeito exemplo para aquela descrição.
– Você desenvolveu essa teoria baseado em si mesmo, não é? – Alice perguntou, vendo que o médico agora desviava o olhar em uma expressão séria e andava novamente em direção ao banco do outro lado da cama. A hippie acompanhou seus passos com o rosto, reparando na dificuldade com que ele sentava – você também é legítimo demais, por isso existe tanta desaprovação rodeando-o.
– É incrível como as pessoas insistem em julgar a forma como você faz as coisas acontecerem, mesmo que o resultado seja satisfatório no final – pensou alto, encarando a parede – o preço por ser você mesmo é muito alto, tenho certeza de que você sabe do que eu estou falando.
– Sei... – a hippie concordou com um leve aceno na cabeça – só que, mesmo não conseguindo dissimular minhas próprias opiniões para que elas se adequem ao que todos aprovam, ainda assim essas acusações vindas de todos os lados ainda me atingem.
– Você teria que se fechar em um calabouço e engolir a chave para que não a magoassem – comentou como resposta ao pequeno desabafo de Alice – Mas não se dê ao trabalho de dar explicações sobre os seus atos, apenas assuma simplesmente que você pode fazer o que bem entender. Não há forma mais estimulante de ganhar o respeito dos demais tendo a ousadia de ser você mesmo – o médico fez uma pequena pausa, voltando a encará-la com intensidade – E também nunca acredite em mim, eu minto sobre tudo! Todo mundo mente.
Ela riu, e pela primeira vez em muito tempo, o som foi sincero. Aquele homem era sem dúvida um gênio, só que pouco compreendido em sua complexidade. Alice estava realmente apreciando muito a sua companhia... identificou-se com o médico assim que viu um pouco do mesmo cansaço – tingindo os seus olhos – que ela mesma também sentia pelo comportamento humano adverso ao lidar com a autenticidade que ambos compartilhavam.
– É como dizem por aí: “Mentiras são como crianças: dão trabalho, mas valem a pena porque o futuro depende delas”. – recitou, sentindo um tipo estranho de afeição pela figura à sua frente.
A hippie achou ter visto um sorriso discreto e sincero preencher o rosto do médico enquanto ele se dirigia até a saída, mas não teve certeza... House mancou até a porta sem dizer mais nada, e puxou a maçaneta com a mão livre – aquela que não segurava a bengala – dando de cara com Bruce na entrada.
– Ela não faz o seu tipo... – o médico disse ao Bilionário – seu tipo é alguém muito mais idiota! – dizendo isso, voltou a mancar para longe do quarto, enquanto Bruce o encarava um pouco pasmo e confuso.
Alice não pôde segurar o riso diante daquele comentário. Esqueceu-se de como era bom rir, mas rir com vontade, e não apenas como um meio de tentar disfarçar a dor... ela sentiu seu peito tremer um pouco, e ainda sorria quando Bruce se aproximou hesitante de sua cama, talvez sem saber exatamente que reações esperar de Alice pela sua visita.
– Como você está? – ele perguntou, sentando-se na beirada da cama e olhando a hippie diretamente nos olhos.
– Um pouco confusa... ainda tentando entender o que aconteceu – fungou, perdendo-se na angústia profunda dos olhos de Bruce. Aquela tristeza a fez lembrar algo – Bruce... – ela chamou baixinho, e ele apenas a encarou de volta – o que aconteceu?
– Até que parte você se lembra? – perguntou gentilmente.
– Algumas lembranças meio difusas de quando eu ainda estava presa no galpão – disse, de olhos cerrados ao tentar se lembrar de tudo o que podia. O ferimento em sua cabeça ainda latejava, atrapalhando a sua concentração – nada de relevante – suspirou.
– Bom... – Bruce soltou o ar, falando em um único fôlego – Coringa prendeu você e Rachel em extremos opostos da cidade, em lugares programados para explodir no mesmo instante, e fez Batman escolher qual das duas ele salvaria.
– Então você quer dizer que... – a voz de Alice se perdeu, e ela não conseguiu mais encontrá-la.
– Significa que o Batman escolheu você – completou o pensamento da hippie – que eu escolhi você.
Desde que Alice havia deixado claro para Batman, indiretamente, que ela conhecia a sua identidade secreta, os dois nunca chegaram a falar no assunto de sua vida dupla. Nunca conversaram abertamente sobre a máscara de morcego que Bruce usava, até aquele momento. Ela sentiu seu peito afundar diante da dor refletida nos olhos do Bilionário... somente ele parecia ser capaz de fazê-la se sentir mal por estar viva no lugar de outra pessoa! Aqueles olhos eram tão tristes, que Alice simplesmente não entendeu por que Bruce a escolheu...
– E a Rachel...? – perguntou, mesmo que já imaginasse a resposta.
– Rachel morreu – Bruce disse, tentando controlar o pesar evidente em sua voz, mas Alice o conhecia bem o suficiente para entender o quanto aquela frase o corroeu. Ela reconheceu aquele sentimento, e odiou vê-lo no rosto de Bruce... era o mesmo sentimento que a atormentava pela morte de Krusty, e ela sabia o quanto doía.
– Eu sinto muito – foi tudo o que conseguiu dizer – muito mesmo!
O Bilionário apertou as mãos dela sobre as suas, tentando sorrir. De seus lábios saiu um sorriso triste, mas sem dúvida era um sorriso.
– Não foi culpa sua – tentou consolá-la, quando ele era a pessoa que mais precisava de consolo – aquele palhaço é o único culpado nessa história.
Alice sentiu lágrimas se formarem em seus olhos. Nunca foi com a cara de Rachel, é verdade, mas nem por isso podia ficar indiferente à sua morte. Ainda mais por pensar que a sua própria vida dependia da morte de outra pessoa! Estava farta de sentir-se responsável pelas destruições e confusões que acabavam envolvendo o seu nome... e ver o rosto abatido de Bruce não estava ajudando nada.
– Mais alguém se feriu? – perguntou, engolindo a vontade de chorar.
– Acho que esse assunto não é muito conveniente no momento... você precisa descansar!
– Por favor, Bruce – Alice pediu – Eu realmente preciso saber...
O Bilionário suspirou, assentindo brevemente com a cabeça ao responder, sabendo que aquela não era a melhor hora para encher a cabeça de Alice com aquelas notícias.
– O Promotor Harvey Dent... – respondeu – ele estava na delegacia quando Coringa deu as localizações em que vocês duas estavam, e ele foi direto para o endereço da Rachel, tentar salvá-la junto com os policiais.
– Ele morreu também? – Alice perguntou com uma forte careta.
– Não... mas ele sofreu um acidente grave! Metade do seu corpo foi incendiado no momento da explosão. O lado esquerdo do Promotor está completamente carbonizado, não há mais qualquer indício de pele... ele está internado aqui também, mas se recusa a receber o tratamento adequado para amenizar a dor da queimadura – contou, reparando no queixo levemente caído de Alice.
– Ótimo, mais uma vida destruída para a minha lista de “Pessoas Que Estão Se Ferrando Por Minha Causa”... – sentiu a dor na sua cabeça aumentar ainda mais com a pressão de toda aquela culpa que estava sentindo.
– Alice, você não pode se responsabilizar por isso... tudo o que aconteceu estava completamente fora do seu controle!
– Você realmente acredita que eu não sou culpada, não é? Acho que vai se decepcionar com o que vai ouvir, então... – riu amargamente.
– Do que você está falando? – franziu a testa, curioso.
– Dos motivos por trás desse atentado do Coringa... – olhou-o triste, sabendo que em breve ele a odiaria, e odiaria mais ainda não ter escolhido pela vida de Rachel – eu fiz uma espécie de pacto com ele...
– Como assim? – pareceu incomodado, ajeitando-se melhor sobre a cama.
Alice mirou bem os olhos escuros de Bruce, aproveitando os poucos minutos em que eles ainda não eram hostis e enojados pelo que a hippie fez, aproveitando enquanto eles ainda a encaravam de um jeito dócil. Depois desviou o olhar, incapaz de testemunhar a mudança de sentimento que estava prestes a acontecer naquelas bolas negras.
– Meu filho foi sequestrado... – começou a contar a história, fixando sua atenção na mão de Bruce, que ainda cobria a sua. Conforme falava, podia sentir pequenas reações através do contato entre seus dedos. Reações que não sabia se eram boas, mas não se atrevia a olhar o rosto do Bilionário para tentar descobrir – ... eu acabei me desesperando e ofereci contar a verdadeira identidade do Batman ao Coringa, caso ele me ajudasse a recuperar meu filho.
– E... você contou? – seu tom era mais curioso do que preocupado.
Alice balançou negativamente a cabeça, sentindo as lágrimas finalmente caírem para o seu rosto.
– Ele não me ajudou em nada... tudo o que fez foi observar aquele maldito policial matar o meu filho. Quando Coringa tentou me fazer falar quem era o Batman, eu me recusei, e foi aí que ele resolveu se vingar através desse sequestro duplo, e o resto você já sabe...
Bruce ficou em silêncio por longos segundos, e a espera pela sua reação fez Alice voltar a encará-lo, sem resistir a tentar traduzir o que o Bilionário sentia por ela agora. Ódio? Raiva? Frustração por não tê-la deixado morrer e salvado Rachel? A hippie não aguentou mais aquele silêncio agonizante entre os dois, e ela mesma o quebrou, acusando-se mais um pouco.
– Eu teria contado a identidade de Batman ao Coringa se ele tivesse me ajudado... estava desesperada para ver meu filho a salvo mais uma vez, e essa foi a única solução que me ocorreu, por mais estúpida que tenha sido! – lançou, tentando arrancar-lhe alguma reação.
– Eu sei – disse vagamente, voltando a encarar Alice e apertando um pouco mais a sua mão, de forma a consolá-la – e seria o certo a fazer – concluiu, fazendo os olhos da hippie se arregalarem de surpresa.
– Você bebeu, homem? Eu disse que ia revelar a identidade do Batman ao seu pior inimigo, e você diz que seria o certo?
– O Batman nasceu para representar um símbolo de esperança aos habitantes de Gotham... mas mais do que isso, ele é uma tentativa de proteger as pessoas, e ele deve permanecer com essa função mesmo que isso signifique o seu fim – sorriu para ela, mostrando que não estava zangado, mas logo sua expressão voltou a ficar séria e triste – eu lamento pelo seu filho.
– Obrigada... – respondeu, perplexa – e obrigada por entender o que me levou a fazer essa besteira... quando eu comecei a te contar tudo isso, pensei que você ia me colocar de volta naquele galpão e armar uma nova bomba – os dois riram por um momento, e Bruce pareceu adivinhar a pergunta que não saía da cabeça de Alice, mas que ela não tinha coragem de fazer em voz alta.
– Eu não me arrependo da minha escolha – olhou-a com intensidade – só me arrependo de não ter sido rápido o suficiente para salvar as duas... ou de não estar aqui para te ajudar a evitar a morte do seu filho e impedir que toda essa confusão começasse.
Eles se encararam em um silêncio repentino, cada um pensando em como havia falhado com o outro no passado, e como tudo podia ter sido diferente se eles simplesmente não tivessem errado tanto. Alice lançou-lhe um olhar divertido.
– Quer dizer que foi o Batman que me trouxe até aqui? – perguntou, arqueando uma sobrancelha.
– É o que os boatos dizem! – Bruce riu, tentando entender a pergunta.
– E eu devo supor que para isso ele tenha usado o Bat-Móvel...? – arriscou, esperando pela resposta.
– Certamente... – confirmou, ainda sem entender.
– Como você pôde fazer uma maldade dessas comigo? – Alice alterou o tom de voz, fazendo-o subir uma oitava, e Bruce parecia cada vez mais confuso – eu sempre quis andar naquele maldito tanque, e você só me leva para passear nele quando eu estou inconsciente? – a hippie reclamou com um timbre irritado, e Bruce começou a rir. Era bom vê-lo com um pouco mais de alegria nos olhos...
– Eu não digo que da próxima vez tentarei te acordar, porque realmente espero que não haja uma próxima vez... – comentou, ainda rindo, e Alice riu com ele. E naquele instante, por um breve momento, os dois conseguiram desconsiderar o quanto estavam feridos pela recente perda pela qual passaram, apenas focando-se no som agradável da risada que o outro emitia, como se nada mais importasse.
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