Timeless

8 Cap 8 - Somos um só


Notas iniciais
Agradecimentos aos Juli Takahashi, Chibi Lord, leticia e NayouNeko por favoritarem a fic. Estranhamente, nenhum de vocês nunca comentou, mas agradeço mesmo assim e espero que um dia possar deixar sua opinião e critica! ^^

Corri um pouco para conseguir publicar este capítulo ainda hoje, então não está editada. Qualquer erro me avisem, por que eu acabo demorando um pouco pra corrigir os erros por que a formatação do Nyah é uma droga. O capítulo anterior quase foi excluído por que eu tentei corrigir erros ortográficos e bugou tudo!

3 capítulos sem responder reviews, então estou tentando responder a todos. Os que me mandaram suas teorias, vou responder daqui a 3 dias para não estragar nenhuma experiência com a história dando spoilers. Mas já aviso que comecei a esboçar um dos desenhos prêmio que a pessoa me pediu XD

Capítulo mega enrolado, mas espero que gostem. ^^

Sebastian andou até um dos tubos mais distantes da sala, já quebrado, com um líquido grosso esparramado pelo chão em meio a cacos de vidro. Um corpo assustadoramente parecido com Ciel se encontrava caído em posição fetal junto a tantos outros corpos infantis, mas diferente dos outros, aquele garoto tinha uma alma. Sua presença ainda era fraca e oscilante, mas ainda assim o demônio conseguia senti-la.


Se agaixando para chegar mais perto, Sebastian tocou no ombro do garoto apenas para ter certeza de que seus sentidos não estavam lhe pregando uma peça. Neste momento, o corpo se remexeu e mudou sua posição para ficar deitado de costas, abrindo os olhos de leve. O demônio não disse nada, ainda tentando entender o que a alma de Ciel estava fazendo em outro recipiente.


O garoto se sentou e virou rosto para a direção de Sebastian, mas a franja sobre seus olhos não deixava que o outro sobesse para onde ele focava o olhar. Repentinamente, a mão fria do garoto se ergueu, puxando o maior para baixo até conseguir colar sua boca ao pé do seu ouvido. Murmurou algo que Sebastian só conseguiu distinguir por sentir seus lábios se movendo.


Ciel segurou o frasco azul no pescoço de Sebastian, ainda sem se desgrudar de seu colo. Era uma reação tão estranha e mecânica, que não parecia ter realmente uma alma dentro do corpo. Sebastian segurou a mão que agarrava fortemente o frasquinho, tentando impedi-lo de fazer o que fosse.


– Largue. — A voz sem emoção do menino soou desta vez em um sussurro, arrastado e sem forças. — É uma ordem, Sebastian.


Sebastian imediatamente afrouxou os dedos, não por acatar as ordens, mas porque aquela voz tinha um timbre que nem mesmo o Ghostkeeper conseguiu reproduzir. Era “aquele” Ciel.


O garoto puxou o frasco com força o suficiente para arrebentar a corrente, se afastando o bastante do demônio para desenroscar o lacre, e assim que abriu a tampa, voltou a cair no chão, inconsciente.


O frasco estava vazio.


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Aquele mesmo vazio estava presente, um branco infinito que dava a impressão de não ter teto, chão ou paredes ao seu redor. Ciel se lembrava vagamente do que havia acontecido antes de apagar, e o som da voz de seu pai ainda ecoava levemente por seus ouvidos. Se pôs a andar sem rumo à procura do abismo, embora não soubesse pra qual direção ele ficava.


Por sorte, ou talvez porque não importasse qual direção ele escolhesse seguir, encontrou aquele mesmo espelho antigo virado para o abismo. Desta vez não cairia, pensou Ciel enquanto agarrava a beirada do espelho e se sentava à frente deste. Observava seu próprio reflexo esperando que ele começasse a se mover sozinho, o que não demorou muito para acontecer.


– Achei que não iria me procurar mais. Do jeito que ficou assustado da outra vez. — O reflexo apoiou o queixo no punho com uma expressão superior.


– Não achei que você pudesse atravessar o espelho. — Ciel se remexeu um pouco. Tentava manter distância, embora o abismo atrás de si o impedisse. — Reflexos deviam continuar sendo reflexos.


A duplicata sorriu de modo estranho e nada infantil. Apesar de puro, algo de perverso se escondia por trás de seus olhos, e com isso, Ciel estremeceu.


– Você devia pensar duas vezes antes de dizer quem é reflexo de quem. — Sussurrou baixo o bastante para que o outro não tivesse muita certeza de que havia ouvido direito.


Um estrondo alto se fez ouvir, soando como um trovão mais agudo que fez Ciel se encolher estantâneamente.


– Acho que está na hora.


– Na hora de que?! — O garoto encarou o reflexo sorridente que estendia a mão para sua direção. Se arrastou para trás o máximo que pôde, agarrando fortemente a beirada do precipício.


– De descobrir o que procura. — O reflexo continuou avançando com a mão estendida, transpassando o vidro do espelho.


Ciel pensou sériamente em se atirar no precipício, embora não soubesse exatamente do que estivesse com medo. Mas não teve muito tempo para chegar a uma conclusão, tendo seu pulso fortemente agarrado e puxado para dentro do espelho. Por um momento, Ciel se sentiu como se fosse sugado por uma privada e sua cabeça girou, lhe dando enjôo e falta de ar.


Quando seu mundo parou de girar, abriu os olhos com um pouco de dificuldade, imaginando se teria acordado. Mas ele estava enxergando, e o local que se encontrava não se parecia em nada com o laboratório do seu pai ou com sua própria casa. Era um lugar muito maior e antigo, que cheirava a carvalho e terra molhada. Percebeu que estava naquela grande mansão na qual sempre sonhava.


Depois que a tontura passou completamente, se apoiou nos próprios joelhos para conseguir se erguer e olhou em volta. A grande biblioteca se encontrava na penumbra, só quebrada pelos fortes clarões que vinham da janela. Podia-se ver uma forte chuva do lado de fora. Ciel sentiu os pelos da nuca se arrepiarem com um dos relâmpagos, mas tentou ao máximo se conter. Ele conseguia se mover livremente desta vez, então poderia andar por aí para explorar o local, não perderia aquilo por causa de um pavor infantil. Seguiu até um longo corredor, andando devagar com medo de ser descoberto por qualquer pessoa que fosse, até chegar a um longo corredor, que pela ausência de janelas, só era iluminado precariamente por uma porta aberta nos fundos. Foi até lá tateando as paredes, ainda sentindo dificuldades de caminhar sem "sentir" por onde andava. Espiou minimamente para dentro do cômodo pelo vão da porta entreaberta, tentando identificar os vultos que ali estavam. A falta de conhecimento por imagens que Ciel tinha o impedia de distinguir o que acontecia ali dentro, reconhecendo somente a grande cama com docel que se lembrava ter visto em algum sonho anterior. A frente da cama, impedindo sua visão, um homem de pé se mantinha inclinado sobre esta, parecendo ocupado demais para se atentar a qualquer ruído que viesse da entrada. O homem era Sebastian.


Tomado de uma súbita coragem e imensa curiosidade, Ciel abriu a porta o bastante para conseguir entrar, se esforçando ao máximo para não fazer barulho. Era um sonho afinal, e não acreditava que um castigo o esperasse caso fosse descoberto, embora tivesse receio e precaução nunca fosse demais. Com cautela, se agachou perto da cômoda ao lado da porta, mantendo-se escondido sob a sombra que a mesma fazia. Esticou o pescoço para conseguir enxergar sobre o que o demônio estava inclinado. Mais um relâmpago surdo iluminou totalmente o quarto, revelando o corpo desacordado de um garoto logo abaixo do moreno, de modo desajeitado sobre a cama. A camisa desabotoada até o meio do peito e o nó da fina gravata desfeito era puxado lentamente pelas mãos de Sebastian. Apesar de aparentar uns 17 anos, Ciel sabia que aquele garoto ali deitado era ele mesmo. Ou pelo menos o seu reflexo.


Segurando uma exclamação de surpresa que ameaçou sair pela garganta, Ciel tentou observar com mais atenção o que viria a seguir. Seu coração batia como um louco de ansiedade, tanto que ele jurava ser audível naquele quarto silencioso. Mas o demônio sequer olhou para os lados enquanto terminava de deslizar a gravata para longe do pescoço comprido, se inclinando cada vez mais sobre ele. Usando o braço para se apoiar e o joelho no colchão ao lado de seu corpo, Sebastian retirou um pequeno frasco de vidro do bolso e pousou-o sobre o peito imóvel do jovem. Foi só então que Ciel percebeu aquela sensação estranha que lhe traspassava a espinha e chegava a arrepiar até seu couro cabeludo. Era o cheiro da morte, mais forte e insuportável do que o que sentiu em sua mãe ou em Head.


Viu Sebastian aproximar seu rosto e sussurrar alguma coisa com os lábios colados nos do garoto, delicado, quase doloroso. Tão baixo e arrastado que Ciel não conseguiu entender. Sentiu seu rosto corar de leve por presenciar aquela cena e teve vontade de se levantar para que o outro percebesse sua presença, mas se conteve ao ver o demônio voltando a se erguer com o frasquinho em mãos, agora cheio de um estranho líquido cintilante azul.


Sentiu a volta daquela tontura angustiante, e tentando não cair, agarrou fortemente a beirada da cômoda. Mas ao perceber que o chão se desfazia sobre seus pés e que o próprio móvel parecia tremular como água, soltou as mãos para proteger o rosto em uma autodefesa automática. Caiu no chão em um baque oco, dolorido demais para ser um sonho.


"Devo ter enlouquecido", pensou, "Deve ser efeito daquele gás anestésico"


Ciel cambaleou para conseguir se levantar, sentindo o joelho e o ombro doerem pela queda deitado. Se aquilo não fosse um sonho, com certeza deixariam hematomas mais tarde.

Tentou se localizar novamente, mas a escuridão ainda maior, sem a presença de relâmpagos para doar um pouco de luz, o deixou em dúvida se não estava cego novamente. Tateou a sua frente até pousar a mão em uma parede de pedra fria, em busca de uma saída. Até que ouviu uma rizada baixa e esganiçada vinda do outro lado da sala, que o fez paralizar de imediato. O lugar foi iluminado por uma espécie de lamparina, revelando um homem de longos cabelos prateados sentado sobre um caixão de mármore. Ele tinha em mãos uma grande tesoura, que usava para cortar o que parecia ser fitas de filmes em vários pedaços de tamanhos diferentes, para depois colá-las com fita adesiva.


Ciel ficou um tempo sem se mexer, apenas obsevando os dedos hábeis do excêntrico homem. Quando a luz da lamparina tremelusiu, os enormes rolos de filme haviam sumido repentinamente. Olhando com mais atenção, o garoto viu que ele segurava agora dois frascos iguais áquele que vira Sebastian pousar sobre o corpo do “Ciel-reflexo” morto. O homem se pôs de pé, se mostrando muito mais alto do que parecia, e começou a caminhar em sua direção. Em uma mão, segurava os dois frascos, na outra, uma enorme foice estava empunhada.


Sentindo um perigo eminente por aquele objeto, Ciel finalmente saiu daquele torpor inicial e exigiu que suas pernas se movessem. Começou a correr rápido, sem olhar para trás uma única vez para ter certeza de que o outro estava mesmo o perseguindo. Só sentia que era perigoso demais continuar ali. Quando finalmente pensou estar seguro, olhou em volta para perceber que estava em um cemitério. Suas pernas doiam pelo esforço repentino, e ouvindo o chiado que o corte rápido do ar fazia, olhou para cima em tempo de ver um grande objeto vindo em sua direção. Uma bomba com uma grande suástica brilhando na ponta. Foi a última coisa que viu antes de sentir uma pressão esmagadora sobre seu corpo.


Ciel cuspiu um líquido que achou ser sangue quando acordou, sentindo um cheiro muito familiar ao seu redor.


Estava em sua casa.


Sentiu um grande alívio, que durou pouco tempo quando percebeu que aquela não era a casa que ele morava atualmente, mas a antiga que havia se mudado assim que sua mãe morreu.


– Que lindo! — Uma voz conhecida soou do outro lado da porta, fazendo com que Ciel fosse até lá para descobrir o que estava acontecendo.


Pela segunda vez escondido, espiando por uma fresta na porta, ele reconheceu a voz da sua própria mãe na cama, segurando um bebê nos braços. Vincent estava de pé ao seu lado, ambos olhando a criança com alegria.


Ciel olhou para sobre a mesinha de cabeceira, e espremendo um pouco a vista, conseguiu reconhecer aquele objeto novamente. Aquele mesmo frasco que vira nas mãos de Sebastian, do homem de cabelos prateados, e agora, no que parecia ser um fragmento do seu passado que ele nunca deveria descobrir. Mas o frasquinho se encontrava vazio, e aquilo foi processado de forma lenta e aterrorizante pelo seu cérebro.


“Não. Não pode ser isso.” Ciel pensou balançando a cabeça para afastar os pensamentos.


Com uma esperança tola e vã, tentou prestar mais atenção no que seus pais diziam a sua frente.


– Ele nasceu mesmo saudável, certo? Não vai acontecer como a ovelha Dolly*? — A mulher perguntou enquanto brincava com o filho, tendo seu dedo agarrado.


– Apesar de ser criado em laboratório, ele foi realmente gerado por você, então crescerá normalmente. — Vincent respondeu pousando a mão no ombro da esposa, sorrindo abertamente. E Ciel sentiu como se tivesse dentro de si um grande animal se contorcendo. — Nos exames iniciais está tudo nos parâmetros normais. Depois de alguns meses saberemos se houve alguma deficiência, mas realmente acredito que esteja tudo bem. — O garotinho se remexeu no colo da mãe, começando a chorar irritadiço. — Que nome vamos dar?


A mulher começou a embalar o bebê em um balanço fraco, desabotoando a camisola que vestia para alimentá-lo.


– Vamos chamá-lo de Ciel.


Aquele diálogo cravou a cabeça de Ciel como um tiro, causando uma dor alucinante que poderia deixá-lo inconsciente com o tempo. Independente de qualquer razão, lógica ou realidade que ele tivesse aprendido sobre o mundo, aquela verdade parecia ser a única coisa que fazia sentido depois de todas as informações que foi forçado a engolir. E sem conseguir controlar, ele gritou. Uma voz mais grossa que o normal saindo arranhando a garganta, mas apesar da dor que aquilo causava, ele não conseguiu parar. Fechou os olhos com força, como se aquilo fizesse tudo sumir e ele descobrisse estar realmente sonhando. Por que só quem descobre que tudo em que acreditou em toda sua vida era mentira, sabe como o garoto se sentiu naquele momento.


Ciel era uma das experiências do pai. E de alguma forma, sua alma não parecia lhe pertencer.


Apesar dos gritos, ninguém pareceu ouvir ou perceber sua presença ali. Ele se encolheu atrás da porta, escondendo o rosto entre os joelhos, ouvindo a voz da mãe cantar uma cantiga antiga. A ópera de Ofélia, a boneca. Ele sempre gostara daquela música, mas daquela vez, a irônia daquelas palavras em francês pareciam caçoar do seu estado. “Um ser de vida falsa” ele pensou, praguejando baixo.


Sentiu uma mão pousar em seu ombro, e temeroso pelo que ainda poderia presenciar, abriu os olhos devagar depois de muito tempo. Seu reflexo estava parado a sua frente lhe encarando com uma expressão neutra, sendo impossível perceber o que sentia ou pensava.


– Isso é mesmo um sonho? — Ciel perguntou olhando para cima, os olhos ainda marejados e a voz rouca. Apesar de saber que a pergunta era tecnicamente idiota, sentia uma dor latejar por causa da queda, real demais para ser fruto da sua imaginação. Estava mais confuso do que nunca.


– É um sonho. O que não significa que não seja real. — O reflexo, (que já não era exatamente um reflexo mais) se agaichou a sua frente.


– O que está acontecendo?


– Nossas almas... Estão conectadas.


– Não, você... está morto, não é?


– Você também está. — A duplicata se sentou para ficar mais confortável, retirando o tapa-olho que cobria seus olhos para revelar uma marca em formato de estrela no lugar de sua íris. — Sou Ciel Phantomhive, acho que já era hora de me apresentar. — Ergueu a mão em um leve aceno, como um cumprimento qualquer. — Eu era o garoto morto naquela cama com Sebastian. Aquela era a única memória minha. As outras duas são suas.


– Porque você está aqui? O que quer dizer com almas conectadas?


– Você tem minhas memórias e meus pensamentos, o que nos torna a mesma pessoa. Nenhum de nós éramos para estar vivos, e precisamos um do outro para estar. — Com as duas mãos, o Phantomhive segurou o rosto de ciel e começou a se aproximar. O garoto apenas se deixou levar, cansado e confuso demais para contrariar. — E agora estamos completos.


A testa dos dois se tocaram, e embora no começo Ciel tivesse apreciado o contato, sentiu uma dor de cabeça esmagadora. Memórias e pensamentos que não eram seus começaram a se infiltrar em sua mente, forçadas para dentro de seu consciênte com uma pressão de uma garrafa de refrigerante agitada. Ele viu cenas de uma infância feliz com sua família, com um homem incrivelmente parecido com seu pai. Viu quando o demônio apareceu para ele e ambos fizeram o contrato, as mortes que causou, os amigos que teve, as dores e os momentos felizes. Estava tudo lá, como duas vidas vividas por uma mesma pessoa. Sem conseguir conter, lágrimas escorriam de seus olhos, e por pouco não gritou novamente, se tivesse mais forças para tal.


Quando abriu os olhos, ardidos pelo choro, sua duplicata afastou as mãos de seu rosto com uma expressão compreensiva e estranhamente amigável. Piscou por um longo tempo, apenas encarando o rosto idêntico, querendo imaginar o outro como uma pessoa diferente dele mesmo. Mas agora isso era impossível. Eles eram um só.


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William não era de se intrometer na vida dos outros. Principalmente se esta for a de um demônio. Mas ao ver um ser que não deveria existir daquela maneira, com duas almas que não lhe pertenciam, ele se viu na obrigação de ir procurar respostas. Porque de certa forma aquele assunto o interessava o bastante a ponto de se deslocar até aquele local sujo, na tentativa de descobrir por si mesmo um assunto que parecia ter sido ignorado por toda uma diretoria incompetente de seres espirituais.


O local não parecia ter sido visitado desde aquele dia em 1940, quando Sebastian e Grell foram atrás de Undertaker para acabar de uma vez por todas com aquela grande ploriferação de demônios e conseguir recuperar a alma do garoto de volta. As teias de aranha e a poeira se acumulava sobre os mármores, outrora brancos, o que tornava o local mais macabro e sem vida do que de costume.


William entrou no imenso mausoléu ao fundo do cemitério com a foice em mãos, como se esperasse que algo lá dentro o atacasse. Mas o interior se encontrava vazio e aparentemente imaculado, com um par de caixões de mármore lado-a-lado no centro. O shinigami caminhou até lá, empurrando com cuidado a tampa de um deles, onde jazia um esqueleto humano já totalmente sem pele ou carne. Os poucos fragmentos da roupa decomposta ainda o circundavam, como um saco de ossos furado.


“Adolph Smith, morto em 1425.” — William leu em sua pequena caderneta, verificando a identidade do corpo e da alma recolhida com sucesso.


Foi então até o segundo caixão e abriu o pesado bloco de pedra para olhar o conteúdo, encontrando outro esqueleto na mesma situação, porém, suas vestes vermelhas pareciam mais decompostas que a do primeiro.


“Kassandra Smith, morta em 1430.”


Ainda acreditando que não poderia ser uma coincidência, remexeu os trapos que cobriam parte das costelas do que um dia fora uma mulher. Foi então que encontrou um terceiro esqueleto ali, muito menor que os outros dois. Era um bebê em formação.


Will voltou a analizar sua caderneta, procurando aquele terceiro indivíduo. Folheou a mesma três vezes, apenas para que seu cérebro absorvesse aquela informação por completo.


A alma não estava listada.


Em todos os séculos que aquele shinigami trabalhou, ele nunca havia tido conhecimento de alguma alma que não tivesse sido catalogada. Por que o mundo espiritual sabia — ou deveria saber — de tudo o que acontecia no mundo humano.


Nervoso como há muito tempo não ficava, William foi direto para a sede esclarecer aquilo, por que um erro daqueles não podia ser apenas pela desatenção de alguém. Sem pedir licença, ele entrou naquele cômodo como um raio, parando de frente para o supervisor chefe com a mesma expressão rabugenta de sempre.


– Há uma alma não registrada.


Erguendo os olhos de sua pilha de papéis para encarar o moreno, Miller pousou a caneta sobre a mesa e crusou os dedos sob o queixo.


– Ignorando o fato de você ter entrado na minha sala sem bater, William. Pode explicar que loucura é essa que está falando? — Disse despreocupado.


– Encontrei indícios de que uma alma não foi catalogada, que não foi recolhida. — Will disse mais pausadamente, como se explicasse para uma criança algo muito simples.


– Impossível. A lista das almas produzidas passam diretamente para o nosso departamento. Não tem como os dados falharem.


O supervisor-chefe arrumou os óculos verdes para focar melhor o rosto impassível do outro. William T Spencer nunca teve senso de humor ou cometia erros, principalmente se relacionados ao trabalho. E ele sabia que aquela expressão séria e aflita no rosto dele só podia significar uma coisa: Problemas.


– Me conte os detalhes. Da forma mais detalhada possível. — Miller se deu por vencido e se levantou para ir até a porta rodar a chave. Se aquele assunto fosse tão sério quanto parecia, o sigilo era necessário.


William contou tudo o que sabia, guardando para si suas teorias pessoais e o envolvimento do demônio em todos os acontecimentos. O outro ouvia tudo com atenção, esperando o fim do relato para se levantar e ir até uma grande gaveta atrás de si. A mesma tecnologia dos ternos que podiam conter torneladas de papéis sem modificar o volume do tecido, parecia conter naquelas gavetas. Retirou de lá um registro grosso, pousando sobre a mesa e virando-o para Will.


– Kassandra Smith morreu antes do tempo necessário. Ela quebrou um protocólo que diminuiu sua expectativa de vida em 20 anos. — Miller disse, indicando o nome da mulher no papel, onde uma data estava rabiscada com um asterisco ao lado.


– Envolvimento com um ser sobrenatural. Artigo 177.


– Exato. Nada assim tão anormal tendo em vista que humanos se associam com demônios, então não demos muita atenção. — Miller pegou um segundo bloco de folhas e o espalhou pela mesa. — Coincidentemente ou não, 1430 também foi o ano da primeira deserção que foi uma verdadeira surpresa para toda a diretoria.


– Undertaker deixou de ser Shinigami. — William disse, lendo rapidamente os relatórios à sua frente. — Acha que ele alterou os registros? Isso deveria ser impossível.


– E é. Acho que as coisas são um pouco mais complicadas que isso. — Miller suspirou fundo e retirou os óculos por um momento antes de erguer os olhos novamente. Suas olheiras fundas tornavam sua expressão mais séria e cansada. — TODAS as almas humanas são registradas, sem exceção. Mas a coincidência entre Undertaker e Kassandra não é uma mera mudança de registros.


– O que está querendo dizer?


– Se há mesmo uma alma não catalogada. Ela não é uma alma humana.


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Quando Ciel acordou, percebeu que estava deitado em uma cama que não era a sua. Sentiu que tinha uma faixa sobre os olhos e tocou temeroso. Não sabia mais se ainda estava preso em um sonho ou se havia finalmente voltado a realidade. Se ergueu sobre a cama quando ouviu alguém mais entrar no cômodo.


– Ciel! Que bom que acordou! Não sabe a preocupação que me deixou, quando descobri que estava nesse hospital. — Era Peter quem gritava, se atirando sobre o menor e o abraçando fortemente. Suas costelas doeram e ele tentou afastá-lo. — Então seu pai conseguiu?


– Não o encha de perguntas, ele acabou de acordar. — Uma voz grossa ecoou da porta, e Ciel não precisou perguntar para saber quem era.


– Sebastian? — Ciel estava surpreso, não só por senti-lo ali, como também porque ele não estava escondendo de forma nenhuma sua presença. E pelo barulho que a porta fizera quando entrou, o garoto sabia que Peter também o estava vendo.


– Então você o conhece mesmo? — Peter pareceu surpreso e decepcionado, soltando o menor e suspirando baixo. — Parece que foi ele quem te tirou da Re:birth.


– Espero que esteja se sentindo bem, Ciel. — Sebastian disse ao se aproximar, sendo respondido com um aceno de cabeça afirmativo. Se virou então para o outro homem que continuava lhe encarando de maneira nada amigável. — O médico queria falar com você sobre o estado de saúde dele, parece que tem algo preocupante com alguns dados.


Peter arregalou os olhos e perdeu a cor por algum tempo.


– Por isso não queria trazê-lo a um hospital comum. — Resmungou em um sussurro e soltou um suspiro ainda mais profundo, se levantando e arrumando o nó da gravata. Parecia preocupado. — Volto logo.


Quando a porta se fechou atrás de Peter, Sebastian se aproximou o bastante até ficar ao lado do garoto na cama.


– Qual Ciel é você? — O demônio perguntou com a voz neutra, sem demonstrar o estado instável que se encontrava desde sua última visita.


– Sou o Ciel Phantomhive e o Ciel Ghostkeeper. — O garoto virou o rosto para sua direção com um sorriso torto. — Nada mudou, Sebastian, eu apenas sei de tudo agora.


– Então tudo mudou.


– Não. Eu sou eu, e ao mesmo tempo sou outra pessoa. Não é assim tão complicado. — Tocou com a ponta dos dedos a faixa em seu rosto. — O que aconteceu?


Sebastian continuou o encarando sem nada dizer. Não tinha certeza se havia entendido o que o menor queria dizer, mas Ciel estava vivo. “Os dois estavam vivos”


– A empresa do seu pai foi atacada pelos extremistas. Vincent agora está morto e... você também deveria estar.


Ciel não demonstrou nenhuma reação ao ouvir aquelas palavras. Continuou com o rosto voltado para frente, os dedos sobre a faixa e a outra mão segurava fortemente o cobertor.


– Sebastian, eu quero fazer um contrato com você.

Notas finais
* Dolly foi o primeiro mamífero clonado com sucesso, em 1996. Por causa da sua notícia, foram criados em vários países, incluindo o Brasil, uma lei que proíbe a clonagem humana. Dolly foi uma ovelha que acabou tendo a doença de envelhecimento precoce e foi sacrificada para que não sofresse. O que gerou muita discução sobre a clonagem de seres vivos.

Capítulos explicativos são sempre um problema... Tentei mostrar as cenas-chave para cada um entender e raciocinar de forma diferente, mas acho (e espero) que todos cheguem ao mesmo resultado! Eu sei que ainda está faltando algumas explicações, mas quero que as informações sejam dadas na hora certa. E como este é o final do primeiro ciclo da trama, precisa ter um mistériosinho no segundo ciclo, né? XD

Bom, desculpas a parte, se alguém não entendeu alguma coisa que coloquei aqui neste capítulo, por favor perguntem! É importante pra mim saber qual a dúvida de vocês para poder corrigir depois. Eu sei que ta deveras confuso e, acreditem, eu reescrevi mais de uma vez para ficar mais simples. Acho que o problema é a incapacidade da autora mesmo =p