Timeless
7 Cap 7 - Revolução
Notas iniciais
Eu não editei o capítulo, então qualquer erro de português, por favor, podem dizer.
A quem continua acompanhando, obrigada mesmo! E peço paciência com este capítulo, por que a quebra de tempo aqui está totalmente confuza, mas eu segui a linealidade, então acredito que dê para entender o tempo certo que acontece cada evento.
Boa leitura! o/
Ciel se encontrava no meio do nada. Ao menos nada que pudesse tatear para descobrir onde estava. Achou que ainda estava acordado, mas o grande vazio branco não se parecia com sua cegueira. Olhou para a própria mão, percebendo que não estava cego.
Era um sonho novamente.
Começou a andar sem rumo, apenas para descobrir que lugar era aquele. Ficou andando por um longo tempo até chegar a um precipício, que não era possível enchergar onde iria levar.
– Sua alma é incompleta.
Ciel olhou em volta surpreso, não sabendo de onde vinha aquela voz. Ele não sentia a presença de ninguém, mas aquilo não o assustava. Sentia que conhecia intimamente a pessoa que falava, e com aquela sensação, se acalmou.
Encontrou ao longe, ainda à beira do precipício, um espelho antigo e desgastado com as bordas de madeira escura. Ao se aproximar, viu seu reflexo refletido, se movendo como ele. Ciel nunca havia visto seu próprio rosto no espelho, e depois da surpresa inicial, começou a analizar seus traços com curiosidade.
Passou os dedos pelo rosto fino com admiração, fixando a atenção nos olhos azuis vivos, levemente acinzentados. Então é esta a cor dos meus olhos, pensou, gostando do que via. Embora intimamente, ainda preferisse a cor castanho-avermelhado dos olhos de Sebastian.
Quando desceu o olhar para seus lábios, encontrou um sorriso. Arregalou os olhos e mecheu a boa, mas o reflexo ainda sorria para ele. Passou os dedos sobre os próprios lábios, apenas para ter a certeza de que não estava sorrindo, e não estava.
– Bu! — O reflexo disse, e Ciel deu um passo para trás, chegando na ponta do precipício e quase se desequilibrando. — Calma, não farei nada com você.
“Acho que enlouqueci”, Ciel pensou e voltou-se para a frente, com medo de cair no precipício. “É só um sonho.” Suspirou fundo para se acalmar e fechou os olhos por um tempo. A falta de imagens o ajudava a se adaptar.
– O que procura irá te enlouquecer. — A voz repetiu, e só então Ciel percebeu o motivo de tê-la reconhecido. A voz era igual à sua, só que levemente mais grossa e autoritária.
Voltou a abrir os olhos, encarando seu reflexo sem aquele sorriso. Só então percebendo que ele vestia roupas vitorianas como as que um dia ele usou para interpretar “Hamlet”. Com babados na gola e nas mangas.
– Sabe o que eu procuro? — Desta vez foi Ciel mesmo quem perguntou.
– Sei o que te falta, mas você ainda não descobriu para procurar.
– Se sabe, então por que não me diz? — O garoto começava a ficar nervoso com aquilo. A voz parecia estar debochando dele. — Quem é você?
– Eu sou você, e ao mesmo tempo sou outra pessoa. Sou o que te falta e o que te completa.
– Está brincando comigo?
– Não. Mas estão brincando com nós.
Ciel ficou ainda mais confuso. Aquela voz lhe trazia calma e nervosismo. Uma contradição de sentimentos que lhe dava dor de cabeça. Não sabia o que ele queria dizer com “nós”. Por um instante, lembrou-se da história de Pinocchio, e pensou se ele não estava conversando com sua própria consciência, personificada em forma de espelho. Com aquilo em mente, se acalmou um pouco mais.
– Que tal dizer algo que faça sentido?
– Essa é a primeira vez que consigo falar com você diretamente. — O reflexo declarou, pensativo. Estava visivelmente ignorando a pergunta. — Ou seria a segunda...?
Ciel voltou a encarar o espelho com frustração. Aquele não poderia ser sua consciência, mas tinha a estranha sensação de que o conhecia. Não só pelo fato de ele ser seu reflexo, mas como se soubesse sobre ele tanto quanto sabia de sua própria vida. Ele sabia que não podiam ser a mesma pessoa, mas ao mesmo tempo podia sentir que eram um só. A frase que seu reflexo falara para se definir começou a fazer sentido repentinamente.
Até que Ciel se lembrou onde ouvia aquele tom mais arrogante do que ele mesmo falava, aquela forma altiva de um nobre.
– Quando eu enxergo nos meus sonhos, eu sou você, não sou? — Ele disse depois de um tempo em silêncio, voltando a abrir os olhos e encontrando o reflexo na mesma posição que ele.
– Isso. Você é mais esperto do que imaginei. — Um mínimo sorriso se formou no garoto do reflexo, mais de deboche do que de felicidade. — Aquelas são minhas memórias.
– Então o Sebastian...
– Ele era o meu mordomo. — O reflexo interrompeu, tornando-se repentinamente sério. — É o meu demônio.
Ciel não gostou nada daquele pronome pocessivo.
– Este é o motivo da “curiosidade” dele, não é? Porque somos parecidos. — Disse, estranhando o fato de ser tão fácil conversar com o outro, que concordou com um aceno de cabeça.
Era como estar em um filme bizarro, onde mesmo que encontrasse uma baleia voando, acharia aquilo normal. Onde tudo parecia fazer um sentido absurdo.
Ciel começou a ficar tonto. Sentiu uma respiração bater contra sua nuca e se virou para o precipício. Era como se pessoas invisíveis o estivessem rodeando, e aquilo começou a lhe dar náuseas.
– Por que está aparecendo pra mim? — Ciel levou as mãos à cabeça como se aquilo fizesse a tontura passar.
– Não é como se fosse uma escolha, assim como você não escolhe seus sonhos. — O reflexo pôs a mão no vidro do espelho, que cedeu como açúcar sendo derramado. Sem a barreira que os separava, continuou avançando até tocar o ombro do garoto. — Mas parece que sua alma está fraca.
Com receio, Ciel deu um passo em falso para trás e sentiu o chão ceder, caindo no abismo.
Ciel acordou assustado, meio desnorteado. Uma estranha sensação de ter realmente caído parecia deixar seu corpo em choque. Estava no meio da aula de inglês — sua matéria favorita — e percebeu quase ter caído da cadeira.
Já haviam dois dias que o garoto se sentia mais cançado que o normal. Ele sempre sentia sono, apesar de dormir por muitas horas a mais do que estava acostumado. Seu corpo quase doía ao se mover, e naquele manhã ele mais parecia um zumbi.
Ouviu o riso dos outros alunos, que provavelmente haviam visto o quase tombo que levou. Quando conseguiu se recompor em sua cadeira, o garoto sentiu um cheiro forte de perfume e chá preto, o que significava que sua professora estava parada á sua frente.
– Está se sentindo bem, Ciel? — A mulher perguntou, gentil.
Desde o começo da aula ela havia estranhado a falta de reação de Ciel, que sempre fora muito atento e interessado na matéria. Um aluno como ele não dormia em aula como muitos faziam, o que só poderia significar que ele estava passando mal.
Antes de conseguir responder, uma mulher baixinha entrou com metade do corpo na sala, esticando a cabeça e batendo na porta.
Ciel não prestava muita atenção, ainda aturdido com o sonho que tivera. Real demais para ser ignorado. Mas conseguiu reconhecer os murmúrios que dominaram a sala, parecendo tentar adivinhar o que a professora conversava com a secretária da escola.
Quando a mulher se voltou novamente para o garoto, sua expressão era preocupada.
– Ciel, seu pai veio lhe buscar. — A professora disse, fazendo com que o restante da turma entrasse em um silêncio repentino.
Todos já ouviram falar em Vincent Ghostkeeper, mas nunca o viram pessoalmente. Apesar de famoso e de ser o assunto favorito da mídia nos últimos meses, ele nunca foi adepto a dar entrevistas ou de se vangloriar pelo seu trabalho.
Embora alguns dos alunos tivessem repulsa só de ouvir falar no nome do homem ou mesmo olhar o rosto de Ciel, a curiosidade sobrepujava qualquer outro sentimento. Todos se voltaram para a janela, na esperança de encontrar o homem que podia ser visto de pé ao lado de um enorme carro importado. Vincent era um homem de meia-idade muito bonito — algumas das garotas repararam — e lembrava uma versão crescida de Ciel, embora não tivesse olhos tão bonitos quanto os do filho.
Ciel fora totalmente ignorado enquanto recolhia suas coisas e caminhava para fora da sala, acompanhado de sua professora e da secretária, que cochichavam sobre as últimas especulações do cientista. As vezes as pessoas pareciam se esquecer de que Ciel era apenas cego e podia ouvir tudo que falavam perto dele. Não que se importasse, apenas achava uma atitude mal-educada e extremamente burra.
Mas a verdade era que Ciel estava tão surpreso quanto os outros. Seu pai nunca fora buscá-lo na escola. Nem mesmo quando certa vez passou mal a ponto de desmaiar, ou quando caiu da escada em um dia de forte tempestade. Nenhuma urgência era grave o suficiente na mente do garoto para que ele fizesse isso.
Com a mochila no ombro e a bengala dobravel extendida à frente do corpo, caminhou para fora em maior velocidade quando se viu livre das duas mulheres, ansioso para ouvir a explicação do pai.
Mal se aproximou, e logo Vincent já segurava seu pulso, guiando-o para dentro do carro de forma ágil e firme. Mas contrariamente gentil.
– Por que veio me buscar? — Ciel perguntou, ainda meio desnorteado e confuso. Sua bengala havia ficado do lado de fora, caído no chão quando o repentino aperto da mão do pai lhe assustou.
– Está tudo bem, Ciel. — Antes mesmo de terminar a frase, Vincent deu a partida no carro.
Acelerava pelas ruas com desespero, fazendo o garoto chacoalhar no banco de trás enquanto tentava fechar o sinto de segurança. Ciel reconheceu o caminho vagamente, com pouca precisão por causa do balanço que o carro fazia. Parecia que estava fugindo de um furacão.
– Estamos fugindo de quê? — O menino perguntou, começando a sentir enjôo e medo pela falta de controle do pai. As palavras saindo sem querer, pois não sabia ao certo se o pai estava mesmo fugindo ou perseguindo.
– Fugindo de Deus. — Foi só o que Vincent respondeu, olhando brevemente para o filho pelo espelho retrovisor com pesar.
E Ciel sentiu medo, mesmo sem ter entendido o que as palavras do pai significavam.
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O local que o projetor de cinematic record estava guardado era bem escondido. Talvez não com a intenção de realmente escondê-lo, mas porque ninguém o usava. Um dia, um dos diretores do conselho dos Shinigamis decidiu que assistir as cinematics seria, de alguma forma, útil. A salinha construída especialmente para a reprodução dos mesmos foi se tornando um depósito, e logo, aquele aparelho foi esquecido.
Sebastian encarava o antigo projetor com impaciência, aguardando a luz do sol passar pelo pequeno buraco daquela sala escura. Esse era o limite que a tecnologia da época da construção permitia. A luz solar era a única bateria que movia o motor, e tinha uma hora exata para funcionar.
– Cinco minutos. — Grell declarou, olhando o relógio de chão com apreensão. — Coloque o frasco rápido.
Sebastian desenrolou a corrente que prendia a tampa do frasco, erguendo a foice para bater com a ponta dela no líquido azul. Uma longa fita de filme começou a se materializar imediatamente, não parecendo ter fim. Soltando a foice para ter a mão livre, levou o filme até o antigo projetor, enroscando-o nos dentes de ferro que formavam uma correia.
Um minuto.
Quando o sol chegou a posição certa, a luz passou pelo espaço perfeitamente calculado no topo da sala, refletindo no espelho que havia no projetor. A luz formava um quadrado na parede branca, refletindo as imagens que passavam rapidamente pelo filme no projetor. As cinematic record estavam sendo reveladas.
Uma a uma, as memórias estavam sendo mostradas fora de sequência, misturadas com cenas em branco.
– Estranho... — Grell disse, saindo do seu lugar de vigília na porta para se aproximar mais. — Só almas que nunca nasceram tem cinematic record em branco.
Sebastian absorveu aquela informação em silêncio, continuando a rodar o filme, percebendo que algumas das memórias que ele se lembrava não se encontravam lá. Memórias importantes como do dia em que o mordomo matou o Drocell, memórias inúteis como a caça aos ovos na páscoa. Mas a memória que Sebastian queria encontrar era uma secreta, a lembrança do dia que ele arrancou o último dente de leite de Ciel.
Foi avançando até o final prestando atenção no conteúdo, mais perdido em seu próprio raciocínio do que tentando entender as grandes pausas em branco que haviam entre uma memória e outra. Porque tudo aquilo que estava acontecendo não tinha lógica ou razão. Aquela com certeza era a alma de Ciel Phantomhive, mas estava bagunçada e embaralhada, incompleta.
Parou de avançar quando viu o momento que o demônio deveria ter devorado sua alma, seguido de branco. O filme não tinha mais nada além disso. Mas isso já era previsto.
– Apenas são gravadas as memórias de quando o corpo está vivo. — Grell disse, pegando o gancho largado no chão para fechar a abertura por onde entrava a luz, antes que eles fossem pegos. — O tempo que ele ficou preso dentro do frasco não é contado.
Mas antes que o ruivo pudesse barrar a luz, imagens começaram a surgir na projeção novamente, assustando ambos e fazendo Sebastian se levantar para se aproximar da parede.
Undertaker aparecia no vídeo, se aproximando e erguendo a mão como uma garra. Não era possível ver o que ele fazia, mas quando a mão se afastou, um novo frasco se encontrava em sua posse. Aquela foi a última cena, que durava um máximo de um minuto, mas por um erro do projetor — ou por uma brincadeira do destino — ficou repetindo diversas vezes em um loop infinito. A risada alta de deboche ecoava, a cada momento mais irritante que a anterior.
Sebastian tirou a ponta da foice do frasco e voltou a tampá-lo, fazendo com que o som e as imagens cessassem. Teorias se formando e novas dúvidas surgindo com a adição do ex-shinigami na fórmula. E aquilo, embora complicasse ainda mais as coisas, também trazia respostas e o dobro de perguntas. O demônio precisava tirar aquilo a limpo, e para isso tinha que ter acesso à alma de Ciel Ghostkeeper por meio de um contrato. Sem dizer nada, deu a volta e partiu, com aquela aura afogueada que manteria qualquer criatura — que apreciasse a vida — longe.
E Grell teve certeza de que se Undertaker já não estivesse morto, Sebastian o mataria novamente.
– Grell, o que está fazendo aqui? — William surgiu na porta, sua própria foice erguida ameaçadoramente contra a garganta do ruivo. Ele não esperou por uma resposta antes de continuar a falar. — Você precisa recolher uma grande quantidade de almas daqui a cinco minutos na empresa Re:birth. Então é melhor correr.
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O laboratório de Vincent cheirava a cloro e produtos de limpeza, Ciel percebeu, e era muito mais claro e gelado do que seria agradável. Ele ainda se perguntava o motivo do seu pai ter lhe levado até lá, mas não tinha coragem de perguntar. Talvez pelo receio de saber a verdade, ou pelo estado aflito que o homem parecia estar.
Segurando a manga do terno do pai, Ciel caminhava por um longo corredor no prédio. O local se encontrava extremamente agitado, com pessoas correndo de um lado para o outro como se estivessem se preparando para a guerra. Uma mulher passou por eles carregando algumas caixas, esbarrando no garoto com certa força. Ela não se desculpou.
– Perdoe o caos, Ciel. Recebemos informações de que os extremistas planejam fazer um ataque ao centro de pesquisas. — Vincent falou, segurando o filho pelos ombros para evitar que mais pessoas se chocassem com ele.
– Então por que estamos aqui? Não era para estamos tentando nos proteger? — Ciel estava preocupado e ainda mais confuso. O som de pessoas gritando por todos os lados fazia sua tensão aumentar consideravelmente.
– O ataque será amanhã. Explico melhor quando chegarmos lá.
Por “lá”, o pai se referia ao seu laboratório privado. Vincent Ghostkeeper era, além do melhor especialista em genética e biologia humana do mundo, um homem poderoso e de um carisma equivalente a qualquer grande celebridade. Apesar da modéstia, era extremamente poderoso e mesmo com seu cargo abaixo do diretor da Re:birth, todos sabiam exatamente quem controlava tudo naquela empresa. E isso era facilmente percebido em sua sala, atrelada ao laboratório e centro de cirurgia particular que ficava no fundo do imenso corredor no último andar daquele prédio.
Após fechar a porta atrás de Ciel, o garoto pôde apreciar o silêncio que as paredes a prova de som lhe trazia, apesar do frio ter aumentado naquela sala. Vincent voltou a pousar a mão no ombro do garoto, guiando-o para o que parecia ser um outro cômodo nos fundos.
– Vou lhe dar a visão. — Vincent disse sorrindo. Um sorriso aberto e verdadeiro que muito poucos conseguiram presenciar. “O sorriso de Adônis”, como Peter costumava chamar.
– Agora? — Ciel não demonstrou surpresa, mas sim incredulidade. Sua testa franzia em uma expressão de quem achava que o pai estava louco.
– Sei que isso parece repentino. Mas este ataque terrorista trouxe uma oportunidade única que eu não poderia deixar escapar. — O pai começou a dizer, com um entuziasmo contido na voz. — Com esta correria pelo prédio todo, ninguém notaria o que eu estiver fazendo no laboratório com meu filho.
“Por que esta revolução está ocorrendo por sua causa”, Vincent pensou, “Todas as experiências, toda minha carreira e dedicação foi por você.”
Mas ele nunca diria isso ao filho.
– Eu te fiz uma promessa, Ciel. E não importa o que eu tenha que fazer, irei cumprir. — Tirou o terno e afrouxou a camisa branca que vestia, pegando uma túnica dobrada sobre a mesa, que já parecia estar preparada com várias ferramentas esterilizadas. Vincent estendeu a roupa temporária para o filho. — Preciso que se apresse.
Ciel pegou a túnica e ficou paralizado por um tempo. Não sabia o que fazer ou o que pensar. Estava verdadeiramente surpreso que seu pai deixasse de proteger todas as suas pesquisas apenas para operá-lo. Ele sempre acreditou que o trabalho era a coisa mais importante de sua vida.
Mesmo que passar por uma cirurgia lhe desse um pouco de medo, ele sabia que o pai estava decidido. Como se achasse que o homem dissesse que aquilo era uma brincadeira , Ciel foi fazendo as coisas que o pai ditava como um robô, trocando de roupa e se deitando na maca.
– Não farei anestesia local porque seria mais arriscado, então você dormirá por um tempo. — Vincent falou, a voz sendo abafada pela mascara cirúrgica que lhe cobria a boca. Ele colocou uma mascara de borracha no rosto do menino e ajustou as alças atrás de sua cabeça para que o gás não vasasse pelos cantos. — Está tudo bem?
“Não estou pronto”, pensou Ciel. Mas ele apenas afirmou com um aceno de cabeça e fechou os olhos, tentando relaxar.
Vincent já tentara curar a cegueira do filho quando ele era mais novo, utilizando as famosas células-tronco injetadas em sua corrente sanguínea. O procedimento não deu certo, principalmente porque nenhum médico conseguia definir o motivo pelo qual o garoto era cego. Outro fator que dificultava infinitamente a operação era o tipo sanguíneo do filho, que além de ser raro, foi descoberto ter certa “alergia” até mesmo ao tipo universal. A única solução que o pai conseguiu encontrar era clonar órgãos novos, mesmo que nem isso atingisse o percentual de 60% de chances de cura, embora fosse o número mais alto que chegou a definir.
O maior problema, além da legalização das pesquisas, era que clonar corpos inteiros se mostrava muito mais fácil e viável do que clonar os órgãos separados. Vincent já havia clonado mais de um humano, que não passavam de bonecos de carne vazios. Apesar de parecerem nem mesmo terem um cérebro para se mover, o homem não conseguiu passar o bisturi em um ser tão parecido com o próprio filho.
O caso dos clones humanos se tornarem cascas ocas também aconteceu com a maioria dos animais, mas dentre tantas tentativas, apenas um clone humano de Vincent havia dado certo até o momento. E isso era um segredo que ele levaria ao túmulo.
Vincent girou a válvula do tanque e voltou a atenção para o filho, pousando uma das mãos enluvadas nos cabelos acinzentados do garoto em um afago leve. Sentindo o cheiro ruim do gás, Ciel se sentiu tomado pelo sono e a consciência foi se apagando.
– Eu te amo, filho. — Vincent sussurrou, mas Ciel já não tinha mais forças para responder.
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William observava um grande número de pessoas invadindo um terreno particular, terreno que pertencia á empresa de pesquisa e desenvolvimento biológico nacional, mais conhecido pelo nome de Re:Birth. A informação de ataque havia fatalmente errado a data de atuação dos extremistas, e aquilo causaria muito mais mortes do que poderiam ser evitadas. Mas aquilo estava dentro dos planos.
“Londres, 17 de Outubro de 2015. 18h24.
Duas mil, tresentos e quarenta e cinco pessoas mortas em disputa de ideais.
Nenhuma alma salva.”
O supervisor dos Shinigamis leu em voz alta enquanto via Grell recolher as almas das pessoas que já iam perdendo a vida, conforme a invasão se tornava mais violenta. Militares e seguranças tentavam barrar, em vão, o avanço de civis que pareciam equipados de armas equivalentes às forças armadas. Era uma verdadeira guerra civil que acontecia a poucos metros do prédio.
Havia um detalhe sobre a morte de algumas daquelas pessoas que era extremamente incomum naquele século, e aquilo lhe chamou a atenção.
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Sebastian poderia ter continuado no mundo espiritual para ouvir a nova designação de Grell. Poderia ter percebido que o pai do garoto corria perigo e que consequentemente ele também. Sebastian também poderia ter feito muitas outras coisas que não fez, e que acabou acarretando em tantos eventos que chegaram a lhe dar muito trabalho e dor de cabeça. Mas como esta narração não se trata do que o demônio poderia ter feito, vamos aos fatos.
Ele havia ido, em vão, buscar pelo Ghostkeeper em sua escola. Seus sentidos estavam agitados e não eram muito confiáveis no momento, o que o fez demorar para perceber que o garoto não se encontrava lá. Mesmo que a alma de Ciel tivesse uma identidade única, enquanto um demônio não fizesse um contrato, ele não conseguiria rastrear a mesma com facilidade.
Sebastian vagou até a casa do garoto, encontrando-a vazia. Sem muitas opções, e com seus nervos já em ebulição, achou melhor se concentrar antes de tomar qualquer rumo. Não foi com muita dificuldade (embora também não tenha sido rápido) que acabou encontrando o rastro do menino cego em direção à clínica na qual Vincent trabalhava.
Quando chegou lá, o local se encontrava um verdadeiro caos. Cientistas, extremistas religiosos e até mesmo simples baderneiros que se aproveitavam da situação corriam como loucos. Os cientistas, tentando sair do prédio, enquanto que os extremistas e os baderneiros tentavam avançar cada vez mais naquela fortaleza de vidro, que nada se parecia com uma clínica de pesquisas. Sebastian se perguntava o que Ciel estava fazendo em meio àquela confusão, enquanto tentava localizá-lo.
Adentrou o grande prédio sem muitas dificuldades, vasculhando cada corredor que o garoto passou, seguindo seu cheiro. Foi entrando em uma sala do último andar que o encontrou, o sangue ainda quente de Vincent escorria de uma grande fenda aberta em sua cabeça. Sentiu asco. Não pela violência da cena, pois já estava acostumado a ver mutilação pior que aquela. Mas algo naquela forma de morte parecia incrivelmente mais grotesca que qualquer coisa que o Demônio tenha feito ou presenciado.
O lugar já estava destruído, os pertences e alguns maquinários saqueados ou quebrados. Sebastian sentiu um calafrio seguido de uma espécie de estrangulamento. Medo. Ele sabia que era isso porque já tivera aquela sensação outra vez, há muito tempo atrás.
Tomando uma forma física caso fosse necessário usar força, foi até a sala que havia adiante, quase escondida. Murmúrios e sons altos de vidro se partindo ecoavam pelo cômodo, guiando Sebastiam até um aglomerado de três homens, que destruíam tudo ao seu alcance com um taco de beisebol. Sem paciência para lidar com eles, o demônio simplesmente esticou o braço, avançando sobre o mais alto e mais forte deles. As unhas como garras rasgaram sua garganta, fazendo o sangue jorrar como um chafariz. Os outros homens viram aquilo com espanto, saindo correndo antes que o corpo agonizante parasse de se contorcer.
Local vazio, Sebastian percebeu que se tratava de uma sala de cirurgia. Mas aquele cômodo em particular parecia ter sido destruído com mais ódio. Não por menos, era fácil deduzir o motivo ao se observar os imensos tubos de vidro quebrados. Cada tubo parecia conter diversas formas infantis de crianças da mais variada idade, raça e sexo. Provavelmente frutos de tentativas da clonagem humana, motivo pelo qual aquela manifestação terminou em um campo de batalha.
Por um momento, Sebastian realmente chegou a pensar que por Ciel ainda aparentar ser uma criança cega, poupariam sua vida.
Mas esperança é um sentimento traiçoeiro.
Sobre a mesa de cirurgia, em meio a uma poça de líquido escuro, o corpo de um garoto de aparente 15 anos se encontrava inerte. Uma mascara plástica ligada por um tubo até imensos tanques jazia no chão, soltando um gás mal cheiroso pelo ar, como a trilha sonora de um filme sinistro.
O rosto de Ciel não demonstrava nenhum tipo de emoção, apenas uma serena paz. No meio da testa, um pequeno buraco fundo e escuro contrastava com a pele branca do garoto. Ao menos ele não parecia ter sofrido.
O choque causava uma estranha fraqueza em Sebastian, e algo dentro de si doeu. Sua alma, já inflamada, pareceu adquirir uma proporção sem tamanho, emitindo uma onda que quebrou todos os tubos de vidro que restaram naquela sala. Do fundo da garganta, sentiu um som gutural sair, sem controle e sem sequer perceber. Gritou o bastante para ser ouvido como um trovão. Gritou até não conseguir mais manter a forma costumeira, adquirindo a aparência original que não retornara desde o contrato com o Phantomhive. Gritou até fazer a dor passar. Mas a dor não passou. E ele não conseguia mais gritar.
Uma sede de sangue se apossou de Sebastian repentinamente, e sem ao menos tentar se conter, acabou por dizimar os outros humanos que estavam ao seu alcance. Não importando se eram cientistas ou baderneiros, extremistas ou experiências. Matou um a um, dominado pelo ódio pela humanidade que o preenchia e transbordava. Era um descontrole fora do comum, principalmente para um ser de sentimentos limitados.
Quando a consciência pareceu finalmente retornar, o demônio olhou em volta percebendo o massacre que fizera, mas não sentiu remorso ou culpa, apenas uma leve surpresa pelo descontrole inesperado. Ele só havia agido daquela forma em 1572 em Paris, quando ele ainda não conseguia controlar suas emoções. Um episódio que ficou conhecido como “Massacre de São Bartolomeu”. E até hoje, ele não gostava dos Franceses.
Sebastian voltou à sala de cirurgia na qual o corpo adolecente já se encontrava frio. A alma dele não estava mais lá, mas por alguma razão, ele a sentiu por perto. Uma alma única que ele reconheceria em qualquer lugar. Ao se virar, um corpo franzino caído entre os cacos de vidro lhe chamou a atenção.
O que Sebastian não sabia, é que olhos bem atentos o acompanhava. Apesar de miopes, olhavam a mesma direção que o demônio, e se encontravam tão curiosos quanto.
Notas finais
Eu achei que conseguiria explicar tudo em um capítulo, mas percebi que a massaroca que eu fiz era grande demais para ser explicada de uma só vez. Há etapas que eu realmente não poderia ignorar, e sem a descrição certa iria acabar ficando parecido com um relatório.
A explicação geral mesmo será dada no próximo capítulo. E como não tem feriados, talvez demore um pouquinho.
Então o resultado do desafio só sairá semana que vem, ou depois. E então eu crio vergonha para responder os reviews.
Mas já deu pra entender bastante coisa, não? Ou ainda ta tudo confuso? =p
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