Timeless
5 Cap 5 - Aparência
Notas iniciais
Obrigada também a todos que comentaram! É por causa desses comentários que tenho atualizado toda semana.
Eu não consegui ficar satisfeita com esse capítulo, apesar de editar mais de uma vez e reescrever uma boa parte, mas espero que não esteja tão ruim quanto eu estou achando. Boa leitura!
Ciel frequentava uma escola comum, embora fosse um colégio caro e de grande renome, não era apenas para deficientes visuais. Na realidade, Ciel era o único e odiava ser tratado como deficiente. Por este motivo, o tempo em que estava na escola era a pior parte do dia.
Era aula de Educação física, e Ciel estava sentado no fundo da arquibancada esperando as horas passarem até que pudesse ir embora. O garoto usava a cegueira como desculpa para não ter que fazer aquela aula, pois odiava qualquer tipo de esporte. Estava entediado e sua cabeça zumbia com o barulho que os alunos faziam na quadra. Pessoas daquela idade já eram naturalmente barulhentas, mas a junção da sua turma com a dos alunos do 2º ano fazia a euforia e os hormônios das meninas de sua sala irem a níveis extremamente irritantes.
Até que sentiu aquela presença marcante, meio sufocante, quase sedutora.
– O que está fazendo aqui? — Ciel exclamou, percebendo só depois que ele havia falado um pouco alto demais.
– Fiquei entediado e resolvi vir aqui. — Sebastian disse calmo, enquanto se sentava ao lado do menor. — Não precisa se preocupar com outras pessoas achando que é louco. Todos podem me ver agora.
– Podem te ver?! Como? — Voltou o rosto em direção da voz baixa, ainda meio agitado com a presença do outro.
– Eu posso ficar visível quando quiser enquanto não fizer um contrato com alguém.
– Os outros não ficam assustados?
Sebastian ergueu a sobrancelha com curiosidade, ajeitando o cachecol em volta do pescoço. Não estava acostumado em vestir as roupas atuais.
– Como exatamente você pensa que eu me pareço?
– Como um demônio deveria parecer.
Sebastian entendeu o que o garoto queria dizer. Ele provavelmente acreditava que sua aparência era de um homem metade bode com chifres na cabeça e um rabo. Riu com a imagem que se formou na sua cabeça.
– O conceito dos livros sobre os demônios é totalmente errônea. Minha aparência é como de qualquer outro humano.
Ciel se remexeu incomodado. Conhecia e conversava com aquele demônio a pelo menos três anos e nunca soube como era sua aparência. Só sabia que suas mãos estavam sempre enluvadas, e que era mais alto que ele. Sentia como se Sebastian o tivesse enganado por todo aquele tempo — mesmo que no fundo soubesse que toda a “imagem mental” que tinha, fosse fruto de um equívoco próprio — o garoto se sentia injustiçado.
O apito do jogo que corria na quadra soou, anunciando que a aula já estava chegando ao final.
– Não pratica esportes? — Sebastian perguntou, observando os alunos agitados e alguns espectadores assistindo a aula, urrando com cada ponto marcado.
– É tedioso.
– Por que não vai embora então?
– Estou esperando o Peter, ele me leva e trás da escola todos os dias. — Pensou no que disse, lhe parecendo extremamente infantil que um garoto de 15 anos precisasse que alguém o acompanhasse para sair de casa. Tentou se justificar. — Meu pai acha que eu não consigo andar na rua sozinho.
– Então não precisa de um guia?
– Não sei se percebeu, mas meus sentidos são aguçados o bastante para não depender da visão para enxergar. — Ciel fechou a cara. Odiava quando as pessoas achavam que ele era incapacitado ou algo parecido.
Sebastian retirou uma castanha do bolso e jogou no garoto, que embora tenha percebido, não conseguiu desviar, sendo atingido na testa.
– Hey! Por que fez isso?! — Ciel exclamou nervoso, massageando o local com a ponta dos dedos. Não chegou a doer, mas a ação em si era indigna o bastante.
– Só estava testando seus sentidos. — Sorriu cínico, achando graça da expressão enfurecida do menor. — Se foi surpreendido facilmente por uma castanha, acho que a presença de um guia é necessária.
– Idiota... — Murmurou corado de raiva. Replicaria, mas percebeu ser mais sábio se calar e ignorar o demônio ao invés de começar uma discução sem sentido. Se considerava maduro demais para isso.
Ainda com aquele sorriso lhe rasgando o rosto, Sebastian observou os alunos se espalharem, a maioria indo direto para o vestiário. Achava a escola humana um local curioso e sem sentido. Lá, não ensinam a ser rico ou pobre. Não ensinam a se afastar de alguém que te fez mal ou a sobreviver de um ataque horrendo. Não ensinam a saber o que se passa na cabeça dos outros, nem a ignorar a dor ou a tristeza. A escola não ensina nada que valha a pena saber, que seja necessário para viver, mas os humanos a achavam tão necessária quanto o dinheiro.
Seu pensamento foi interrompido quando um garoto mais alto e magro de cabelos castanhos correu em direção da arquibancada, onde os dois se encontravam sentados.
– Ciel! Obrigado por segurar meu celular. — O menino disse alegre enquanto estendia a mão para pegar o aparelho que Ciel lhe estendeu. — Hey, eu fiz uma cesta pra você. Mas você nem percebeu. — Disse com uma voz de falso aborrecimento. — Eu até mesmo gritei seu nome.
– Nunca pedi para que fizesse isso. — Ciel bufou e se levantou, colocando a mochila nas costas e esticando a bengala dobrável.
O garoto arrumou os óculos no rosto, revelando os olhos verdes muito claros. Limpou o suor da testa e parecia normalizar a respiração, encarando Sebastian por um tempo, interessado.
– Amigo seu?
O demônio se levantou para cumprimentá-lo, o menino era poucos centímetros mais baixo que ele.
– Meu nome é Sebastian Michaelis.
Ciel franziu a testa de leve. Não sabia nem que o demônio tinha sobrenome.
– O meu é Lawrence. Mas o pessoal me chama de Lei, já que meu nome é comprido. Estou um ano acima do Ciel. — Ele retribuiu o aperto de mão com um largo sorriso. Ciel crispou os lábios, com a cabeça baixa. Sem perceber, havia dado alguns passos para se afastar de ambos. — Você veio no lugar do Peter?
– Não, estou apenas de passagem. Preciso ir agora. — Sebastian disse, pedindo licença. Ele só não estava mais acostumado a agir como um humano nos dias atuais. E pelo desconforto que sentiu em Ciel, achou melhor ir embora dando uma desculpa qualquer para o amigo do garoto.
Ciel se virou para ele sem entender.
– Pra onde vai?
– Tenho compromisso agora. — Sebastian mentiu. Ele puxou o menor pelo ombro para poder aproximar os lábios de seu ouvido. Quem os via, apenas parecia um cumprimento carinhoso. — Te vejo no seu quarto. — O demônio sussurrou antes de sorrir. Nunca mentiria para ele.
Ciel corou de imediato e o empurrou de leve.
Lei esperou que Sebastian se afastasse até sumir de vista para que pudesse falar com Ciel.
– Que amigo boa pinta você tem, em? — Ele disse cutucando o menor.
– Boa pinta?
– É. Esse Sebastian é bem bonito e tem aquele ar de galã, sabe?
– Não, não sei.
– Ai, Ciel. Se você reparasse melhor nas pessoas ao seu redor, teria mais amigos.
Ciel não respondeu, apenas trocou a mochila de um ombro para o outro e fechou os olhos, que não tinha percebido estarem abertos. Ele não se importava de ter apenas Lei e Sebastian para conversar, mesmo que um deles fosse um demônio e o outro não fosse muito normal.
– Eu gosto da cor dos seus olhos. Queria que os mantivesse abertos mais tempo. — Lei disse em um suspiro, enquanto andava ao lado do menor até a porta para esperarem Peter. — Onde conheceu esse Sebastian?
– É um amigo da minha mãe. — Ciel mentiu com naturalidade.
– Ele é modelo ou algo assim? Tenho a impressão de que o vi em algum lugar. — O maior disse sem se lembrar de que o garoto não gostava de comentários daquele tipo. Principalmente porque Ciel nunca viu o moreno.
– Impossível. Ele não é famoso nem nada disso.
– Vocês parecem ser bem íntimos. -Lei comentou com ingenuidade. — Sabe, pelo modo que se cumprimentaram... Você só me deixa apertar sua mão.
– Não somos íntimos! — Ciel exclamou totalmente vermelho. Seu tom de voz mais alto do que gostaria, deixando claro que não queria mais falar sobre o moreno. — Não fale besteiras.
E aquilo só fazia a curiosidade do amigo aumentar, embora não fosse insistir naquela conversa, conhecendo bem como o gênio do menor era.
– Alguém fez alguma coisa hoje? — Um ar revoltado parecia dominar o garoto, e Lei não conseguiu deixar de soltar a pergunta preocupado.
– Não. Os mesmos sussurros e piadas sem graça de sempre.
Os olhos verdes o encararam com a testa franzida, tentando entender o motivo daquela aura ao seu redor. Ele parecia aborrecido com alguma coisa.
– Está tudo bem?
– Só estou cansado. — Ciel mentiu, e não foi nada convincente. Mas Lawrence aprendeu a ficar em silêncio quando o menor estivesse sério demais. Colocou a mão sobre seu ombro, gesto que o garoto passou a aceitar depois de muito tempo, e ficou esperando em silêncio até a chegada de Peter.
Seu pai era mesmo super protetor, a o verdadeiro medo de Vincent fora o mesmo motivo que os fez mudar de casa: Os extremistas religiosos. Manter Peter por perto de Ciel lhe dava uma falsa sensação de segurança.
________
Ciel chegou na sua casa e foi logo para o quarto, ignorando o cachorro que havia ido até a porta para receber o dono. Deixou Head para fora aos choros, fechando a porta em seu focinho.
– Por que não me contou que podia ficar visível? — Ele perguntou assim que entrou no cômodo, sem nem ao menos tirar a mochila das costas.
– Se me lembro bem, você me perguntou por que seu pai não podia me ver, e não se ele poderia. — Sebastian disse calmamente, sentado no batente da janela.
– O Lei te viu.
– Certamente. Não devia?
Ciel não respondeu, apenas baixou o rosto como fazendo birra. Estava nervoso, mas não com Sebastian, parecia mais uma frustração, um descontentamento. Ele largou a mochila no chão e foi até o demônio, que não ficava muito mais alto que ele na posição em que estava.
– Abaixe o rosto. — O garoto disse em tom de ordem, erguendo as mãos até alcançar o pescoço de Sebastian e puxá-lo para baixo.
– Posso saber o que está querendo fazer? — O maior perguntou, fazendo o que o outro pedia.
– Quero saber como você é.
Ciel deslizou as mãos do pescoço de Sebastian para seu rosto com dificuldade. O demônio pôs as mãos atrás das pernas do garoto, puxando-o para mais perto e o obrigando a sentar sobre suas mãos. Ciel sentiu seu rosto esquentar com aquele toque — íntimo demais- , mas aceitou a ajuda. Naquela posição ele conseguia ter maior acesso ao rosto de Sebastian, explorando cada canto que podia com os dedos. Pressionava o polegar pelas bochechas, percebendo como a pele do maior era muito mais quente e macia do que pensava. Não estava corado com a proximidade,considerava aquela sessão de toques normais. Seu coração batia forte, não por vergonha, mas por causa da situação em si.
Os toques macios daqueles pequenos dedos que nunca conheceram o trabalho duro causava uma comoção em Sebastian, que nunca havia sido tocado daquela forma, não de daquele modo inocente e curioso, que exalava ingenuidade. Soltou um suspiro um pouco mais profundo que fez Ciel sentir seu cheiro, percebendo que seus lábios estavam a um palmo de distância. O garoto terminou sua inspeção nos cabelos curtos, checando seu comprimento. Empurrou o moreno para que ele o soltasse antes que o som que seu coração fazia pudesse ser ouvido. Sendo pousado no chão com delicadeza.
– Por que só se interessou pela minha aparência agora? — Sebastian perguntou enquanto se endireitava e arrumava o cabelo, bagunçado pela inspeção.
– O Lei te viu. — Foi a única explicação que o garoto disse, se virando e pegando a mochila jogada no chão para levá-la até a escrivaninha como se nada tivesse acontecido.
Sebastian demorou um pouco para entender aquela explicação, aparentemente sem sentido, e acabou sorrindo em resposta. Ciel não gostava de ser passado pra trás por ninguém. Isso incluía coisas como aprender o ciclo de carbono depois do resto da turma ou ser pego desprevenido em um dia de chuva. Coisas infantis e sem importância. Como um amigo seu ter visto o demônio e ele não saber nem ao menos sua forma.
– E o que achou da minha aparência? — Sebastian sorria, e sua voz expressava isso.
– Você é mais alto do que achei. — Ciel disse com simplicidade. Não diria que ele parecia ser bonito como Lei comentou, seria humilhante.
O garoto foi até seu guarda-roupas, tateando com as mãos até encontrar roupas mais confortáveis para vestir. Sebastian se pôs atrás, pegando a faixa preta que estava pendurada no puxador e lhe cobrindo os olhos. Era um ritual que foi se repetindo todos os dias.
Amarrar a faixa em sua cabeça e segurar sua mão nos dias de fortes tempestades eram os únicos momentos que Ciel se deixava ser tocado pelo maior sem repulsas ou constrangimentos. Digo ser tocado, pois o garoto encostava no demônio a todo momento.
– É uma pena que use esta faixa. Gosto da cor dos seus olhos. — Sebastian disse enquanto terminava o laço, aproveitando para passar os dedos de leve no pescoço fino do garoto, fingindo arrumar as pontas do tecido.
– Lei me disse a mesma coisa hoje. — Ciel comentou enquanto terminava de vestir a camisa, ignorando o frio que sentiu lhe subir a espinha com o toque do moreno. — Acho que vocês se esquecem que eu não entendo coisas como cores.
– Você parece se dar muito bem com Lawrence. — Sebastian murmurou, apenas para ver a reação do menor.
– Ele é o único naquela escola que não me trata como um aleijado. Ou como o filho do satanista.
– Filho do satanista?
– As pessoas não gostam do que meu pai faz. Criam teorias ridículas sobre o assunto.
– Humanos nunca deixarão de ser humanos, não é? Sempre temendo as coisas mais tolas. — Sebastian voltou para a janela e fechou as persianas. — Devo presumir que seu amigo não se importa com essas coisas?
– Ele não parece viver no mesmo mundo que eu. — Ciel refletiu por um momento. — Muitas vezes esquece até mesmo de que sou cego.
– Compreensível.
– Por que estamos falando do Lei? -Fechou o cenho com um pouco de irritação. Não queria que o foco da conversa fosse seu amigo.
– Curiosidade. — Sebastian respondeu com simplicidade, como sempre respondia a perguntas daquele tipo.
Ciel entendeu aquilo como um assunto encerrado. Embora não gostasse daquele tipo de resposta sem sentido que o demônio dava, não iria insistir. Já estava satisfeito por não terem mais que falar de Lawrence.
Não que não gostasse do garoto de olhos verdes. Se não gostasse, não toleraria ele ao seu lado em todos os intervalos. Lei era o tipo de pessoa difícil de entender, mas fácil de controlar (pelo menos era o que o menor acreditava). Ele sabia ficar calado quando necessário e guardar os comentários para ele mesmo, também não comentava muito sobre sua própria vida, o que Ciel aprovava. Era uma amizade simples e estável, agradável o bastante para que o garoto procurasse pela sua companhia naqueles tediosos momentos na escola.
Mas ouvir o demônio tão interessado em Lei não agradava o menor.
O garoto foi até a vitrola que tinha ao lado da mesa de cabeceira, ligando e puxando a agulha para o meio do disco de vinil. Ciel não gostava muito de tecnologia e adorava antiguidades, o que podia ser concluído facilmente ao dar uma olhada em seu quarto. Porém, o que poucos percebiam era que o garoto não tinha esse gosto pela estética, obviamente porque ele era cego, mas sim pelo tato. Para alguém que não tem o dom da visão, sentir os objetos era muito mais fascinante e objetos antigos são ricos em detalhes. Até mesmo aquela simples vitrola antiga era entalhada em uma madeira maciça cheia de arabescos, que Ciel gostava de passar a ponta dos dedos para sentir o relevo. Como fazia com o disco de vinil.
A melodia começou a soar logo que as fissuras eram arranhadas, junto com uma voz aguda e melodiosa que cantava em um francês um tanto arcaico. A música repetia o mesmo som de sempre, como se fosse a única faixa daquele disco.
– “Les Oiseaux dans la charmille*”. O que essa música entediante tem de especial? — Sebastian perguntou, sentando sobre a mesa que Ciel fazia suas tarefas.
– Gosto do enredo nesta parte da ópera.
– Um homem que é enganado e acaba se apaixonando por uma boneca. Há dramas mais profundos que este.
Ciel largou o reglete* que utilizava para escrever e seu rosto se voltou para a direção do maior. Nunca se preocupou em ter de explicar o motivo de seus gostos para ninguém. Acreditava que respostas simples como sim e não eram o bastante para que entendessem somente o que lhes eram pertinentes, criando a barreira segura entre Ele e os Outros. Mas diferente de todas as outras pessoas, Ciel queria que Sebastian entendesse seu ponto de vista. Uma estranha necessidade de conhecimento mútuo que o preenchia como um conta-gotas, lenta e imperceptível.
– Hoffmann acreditava que a boneca era um ser humano e se apaixona perdidamente. Desejando passar o resto da sua vida com a garota. — Ciel começou a declarar com um tom expressivo, que fez Sebastian se aproximar automático, prestando mais atenção do que gostaria. — Quando descobre que foi enganado, e que na verdade sua noiva era uma boneca, ele simplesmente desiste. Se ele estava assim tão apaixonado, o fato da mulher ser ou não real não deveria fazer diferença.
– Indignação é uma justificativa muito estranha para um gosto.
– Não é indignação o que sinto. É apenas... — Ciel abaixou levemente a cabeça e seus dedos brincaram com o reglete. Imitou o tom de voz do maior. — Curiosidade.
Sebastian sorriu, incitado às provocações.
– Então o que você faria? Continuaria com a boneca?
– Se as emoções forem as mesmas que a ópera descreve, não veria problemas.
Sebastian entendia o ponto de vista do garoto, mas se negava a compreender. Segurou o frasquinho azul em seu peito e o guardou dentro da camisa. Pensamentos invisíveis sobrevoando sua cabeça, irritantes como mosquitos que ele gostaria de espantar.
Sentimentos por um objeto.
Aquela frase parecia ecoar em sua cabeça. O que a alma é, se não um objeto depois de ser separada do corpo?
Ciel esperava por algum comentário sarcástico como sempre ouvia, mas o demônio estava estranhamente calado. Ele estendeu a mão para chamar a atenção do maior, acabando por pousá-la em sua coxa. Percebendo onde sua mão havia encostado, a recolheu imediatamente, corando de leve.
– Você faria como Hoffmann? — Ciel perguntou, como para disfarçar o que havia feito.
– Já disse sobre os sentimentos humanos. — Sebastian disse sorrindo, afastando qualquer pensamento anterior sobre a alma de Ciel Phantomhive. Os dois não eram as mesmas pessoas, e as vezes se esquecia disso. Ele segurou a ponta da faixa negra, levando até os lábios e tocando-os com o tecido. — Mas ao invés de largá-la, eu a guardaria comigo, como um troféu.
O garoto sentiu um estranho calafrio lhe invadir, como se a faixa fosse uma extensão de seu corpo, e a frase tivesse sido sussurrada. Mas tentou não demonstrar isso, mantendo o rosto impassível.
– Você falando isso, soa luxurioso. — Ciel disse, puxando a faixa das mãos do maior.
– Se o que eu tivesse em mente fosse luxúria, você saberia.
Não sabendo se ficava emburrado ou envergonhado, Ciel se calou e desligou a vitrola, trocando o toca disco para a rádio. Decidiu ignorar a resposta repleta de duplo sentindo e voltar sua atenção para qualquer coisa que mantivesse Sebastian calado. O demônio apenas sorriu e aceitou o pedido mudo por silêncio. Provocar o garoto se tornara um hobbie.
Ciel não entendia algumas das coisas que o demônio fazia ou dizia, e as vezes achava que ele o tratava como se fosse uma mulher. Aquilo o irritava e o deixava com dúvidas que nunca teria coragem de perguntar para ninguém. Com 15 anos recém completos e uma vida social totalmente escassa, não sabia dizer se aquilo era normal ou não. Mesmo Lawrence as vezes fazia piadas daquele tipo, mas no caso do amigo aquilo não o constrangia, apenas o irritava um pouco.
A voz grave do radialista soava baixo, mais como um plano de fundo que era ignorado pelos dois, que embora estivessem quietos, prestavam atenção nos movimentos um do outro. Mas os sons ficavam mais agitados conforme as novidades eram noticiadas, ficando cada vez mais difícil de ser ignorado. Ciel não parecia ter se atentado a estação, que parecia ser sensacionalista.
– “E depois da polêmica de criar um clone mesmo sem o consentimento da igreja, parece que a clínica de pesquisas Re:Birth quer atiçar ainda mais os protestos que juntam cada vez mais pessoas em frente a sede.” — O radialista dizia com um tom indignado e entusiasmado. — “Até agora, 10 clones foram feitos dos mais diversos animais. E adivinhem, o último foi um macaco!”
Ciel começou a escutar com mais atenção à voz na rádio ao ouvir o nome do lugar em que seu pai trabalhava. Ele sabia que o número de pessoas contra a clonagem era grande e eles chegavam a ser perigosos, soube disso quando tiveram que mudar de casa por conta dos fanáticos religiosos. Mas isso já havia ocorrido há um ano.
– “Isso mesmo, meus caros ouvintes. O Dr. Vincent Ghostkeeper tentou clonar, depois de vários fracassos, um filhote de chimpanzé. E como todos devem saber, o teste em macacos é o último estágio antes dos testes serem feitos com humanos. Então podem esperar que logo mais você e seus parentes podem adquirir um clone...” — Ciel desligou o rádio antes que o radialista começasse a fazer piadas sem-graça de humor negro.
Muitos se perguntavam o que Ciel pensava sobre o trabalho do pai, principalmente Lawrence e Peter, mas eles nunca perguntaram. Ele já havia se acostumado a ouvir o nome de seu pai sendo dita na rádio havia alguns anos. Desde que decidiu criar Head as coisas estavam daquele jeito. Mas a verdade é que o garoto pouco se importava com o que seu pai estava fazendo.
Ciel amava Vincent como um filho deve amar seu pai, e o admirava como muito poucos o fazem. Mas a clonagem nunca foi um assunto que interessou Ciel. Ele não achava aquilo polêmico ou mesmo relevante. Por causa das coisas que sentia desde pequeno nunca foi religioso, e por isso não entendia completamente o motivo de tanto burbúrio por conta do que seu pai fazia. Um desprezo tamanho, que as vezes ofendia Vincent sem querer.
O que Ciel não sabia, era que este desinteresse pela profissão do pai o privaria de assuntos realmente importantes que viriam a acontecer depois.
Notas finais
* Les Oiseaux dans la charmille é uma música que é mais conhecida como Doll song da ópera francesa Les contes de Hoffmann. Ela foi cantada no segundo musical de Kuroshitsuji, e é a música que a boneca Ofélia canta para Hoffmann, o protagonista. Ele é enganado pelos moradores de uma cidade com óculos mágicos e acaba se apaixonando pela boneca, acreditando que é uma mulher. Os óculos acabam quebrando e quando ele descobre que foi enganado, foge da cidade.
* Achei legal fazer uma espécie de trocadilho com o sobrenome do Ciel. Como no passado era Phantomhive com Phantom, eu resolvi escolher o sobrenome Ghostkeeper por causa do Ghost e também porque é um sobrenome que ninguém sabe ao certo a origem, pois existem desde americanos a canadenses com esse sobrenome.
O que estão achando? As coisas daqui pra frente ficarão um pouco mais agitadas, então comecem a prestar atenção nas dicas que eu dou um premio pra quem conseguir acertar a relação entre os dois Ciel's!
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