Timeless
4 Cap 4 - Alma roubada
Notas iniciais
Em 1940, o mundo sofria com a 2º guerra mundial.
Ano de 1940
A humanidade foi mergulhando cada vez mais em uma decadência mais profunda. Almas puras se tornavam raridade e a quantidade de energia negativa só aumentava, criando cada vez mais demônios.
Ao contrário do que os humanos pensam, demônios não são anjos decadentes. São seres místicos, provindos da energia negativa emanada do mundo. Uma simples consequência para o equilíbrio. Os primeiros ninguém sabe ao certo de onde surgiram, apenas se tem conhecimento da força destes, superior que a de outros demônios. Sebastian era uma destas primeiras espécies, e ele vagou pelas ruas de Londres por um longo tempo, presenciando demônios inferiores proliferarem como insetos até que o caos fosse formado. Caos esse, que afetou o mundo espiritual.
Willian T. Spencer estava uma verdadeira pilha de nervos. Embora seu rosto frio não demonstrasse nada além do normal, seus olhos faiscavam enquanto revisava os números das últimas semanas.As coisas não estavam nada bem.
– O que pode me dizer sobre isso? Os números estão ficando ridículos. — O homem sentado na frente de Willian disse, apoiando o rosto em uma das mãos. Ele tinha óculos de armação verde escuro e cabelos cuidadosamente penteados para trás, o que revelava seus cílios anormalmente grandes e olhos amarelados.
– Como supervisor-chefe, você deve saber da situação atual na qual nos encontramos. — Willian ergueu os olhos do relatório e arrumou os óculos, jogando as folhas sobre a mesa.
– O mundo humano e espiritual estão em um verdadeiro caos. Mas quero saber o porquê da diretoria não ter sido informada sobre essa grande perda de almas. — O Supervisor-chefe dos shinigamis disse, revelando suas olheiras fundas quando arrumou os óculos com a ponta dos dedos. Tentou dar um leve sorriso para Willian, mas apenas conseguiu torcer os lábios. — Seus relatórios sempre foram muito pontuais.
– Não vi necessidade em comunicar o incidente. Minha equipe estava tentando normalizar a situação.
– Não está dando resultados. — Remexeu seus cabelos, ainda assim deixando-os perfeitamente arrumados. Suspirou fundo, antes de finalmente erguer os olhos dourados para fitar o outro. — O mundo está mudando, meu caro Will. Os dias não são mais os mesmos.
– O que está querendo dizer, Miller? — Willian curvou a sobrancelha em uma expressão desconfiada.
– A diretoria andou conversando, e decidimos pedir uma ajuda para conseguir trazer os números a sua normalidade. É uma decisão drástica e desesperada, mas sabe que não estamos dando conta e não temos pessoal para encaminhar. — Miller retirou uma ficha de dentro de um envelope e o estendeu para que Willian a pegasse. — Já sabemos que certa vez já se encontrou com este demônio. Saberia dizer se ele é mesmo tão forte quanto dizem?
O shinigami de pé quase rasgou a ficha que tinha em mãos por aplicar tanta força nos dedos. Seu rosto sempre sério adquirindo uma expressão surpresa que o outro nunca vira antes.
– Está querendo se aliar a um demônio?! — Willian explodiu, não conseguindo conter o volume da voz.
– Não é uma aliança, apenas um contrato. Veja bem, se temos que combater os bilhões de demônios que estão a solta, por que não usar outro demônio para fazer o trabalho sujo? Não teríamos nenhum prejuízo.
– Não vou aceitar este tipo de imundice.
– Não estou perguntando sua opinião, Supervisor Willian. É uma ordem da diretoria.
Willian suspirou fundo, tentando manter o autocontrole que quase se fora com aquela ideia absurda. Arrumou os óculos mais uma vez e limpou a garganta.
– Por que acha que ele iria cooperar? — Finalmente perguntou. Ordens eram absolutas, e Willian T. Spencer sempre foi extremamente certinho.
– Todo o demônio tem um preço. Só precisamos descobrir o dele.
________
Sebastian havia perdido totalmente o interesse por outras almas. Mesmo que encontrasse algumas com gosto tentador, suas tarefas e, principalmente a companhia, não eram agradáveis e divertidas como quando ele estava com Ciel. Não havia o imprevisível e o tentador.
Na noite em que o inesperado finalmente aconteceu, Sebastian perdeu muito mais do que a monotonia. Ele se mantinha de pé sobre um poste no meio da praça, observando as poucas pessoas que ali vagavam. Continuava com o regime nada saudável de não comer nenhuma alma, e aquilo lhe dava um atraso nos movimentos imperceptível, mas fatal.
A sombra do poste tremulou e cresceu, ao ponto de praticamente cobrir toda a praça. Vários seres começaram a surgir destas sombras, que tinham formas difíceis de descrever, como se fossem a mistura de vários animais. Sebastian se viu cercado por centenas de outros demônios, vendo-os mostrar os dentes em sua direção.
– Então você não saiu mesmo de Londres, meu caro mordomo. — Uma voz esganiçada e rouca soou, seguida de uma risada abafada.
Sebastian estranhou a figura alta que andava em sua direção, que não encontrava há muitos anos. Os demônios davam passagem para o ser, que carregava uma foice apoiada em seu ombro.
– Undertaker. — Sebastian disse assim que saltou do poste, se colocando à frente do ex-deus da morte de cabelos cinza. — Então esta quantia absurda é obra sua. Quando aprendeu a evocar demônios?
– Posso dizer que a guerra me ajudou nisso. Guerras trazem energia negativa em demasia, entende? — Sorriu largo, retirando a franja da frente dos olhos.
Todos os outros demônios que ali estavam se encontravam em posição de ataque, parecendo apenas esperar por uma ordem do ex Shinigami.
– Por que está aqui? — Sebastian perguntou enquanto olhava para os lados atento, tentando se focar não somente no homem à sua frente. Sentia que aquela situação não lhe era favorável.
– Estava entediado. Achei que a guerra seria divertida, mas é uma verdadeira chatice. — Passou a unha de leve por sua cicatriz no rosto, lambendo a ponta do dedo quando este deslizou até o queixo. — Mas acho que agora minha monotonia acabou.
Undertaker ergueu a foice, fincando no chão quando Sebastian pulou para se esquivar. Ainda no ar, alguns demônios avançaram sobre ele, sendo facilmente abatidos. Porém, a quantidade era grande.
– Sabe, desde que o jovem conde morreu, não tive mais a diversão que costumava ter.
– Não entendo o motivo de estar me atacando. — Sebastian disse calmamente, embora estivesse muito ocupado eliminando os outros demônios menores que atacavam. Mesmo não sendo muito fortes, era uma quantidade muito grande para conseguir deter sozinho. Sem contar que ainda tinha que prestar atenção em Undertaker, que apenas o observava de baixo.
– Já disse, quero minha diversão de volta. — O ex-deus da morte também pulou, conseguindo se aproximar por trás em um momento de distração e acertar as costas do outro com o cabo da foice, fazendo-o cair e pousar de joelhos no chão. — Tsc, tsc. Está lento demais. Não anda se alimentando direito?
Alguns demônios que tinham corpo de leopardo e cabeça de urso foram para cima de Sebastian assim que ele caiu no chão. Alguns deles conseguiram lhe morder o tornozelo e o pulso, conseguindo uma careta de dor do moreno quando sentiu sua carne ser rasgada. Por um momento, Sebastian sentiu falta dos talheres que sempre carregava quando ainda era mordomo de Ciel. Eram muito úteis para atacar a distância.
Quando Sebastian saltou novamente para se livrar de mais ursos-leopardo que surgiam (e que Sebastian percebeu ser o demônio mais forte entre os outros tantos), Undertaker passou a foice em seu braço direito, fazendo-o sair voando.
Sebastian gritou de dor. Um corte feito por uma dessas armas de Shinigami realmente doía, e ele sabia que aquilo não poderia ser cicatrizado tão facilmente. Conseguiu desviar de um segundo golpe que acertaria seu peito, caindo pra trás e se impulsionando para cima com a mão que restara. Se equilibrou em cima do poste com dificuldade, segurando seu braço decepado que conseguiu pegar no ar com a mão esquerda.
– Acho que consegui mais um tesouro. — O ex Shinigami estendeu a mão para revelar o que havia acabado de pegar. Ele segurava um pequeno frasco de cor azul, pendurado em um cordão de prata cortado ao meio.
Sebastian checou rapidamente seu próprio pescoço, descobrindo que não havia nada pendurado ali que não fosse sua gravata. Seus olhos adquiriram imediatamente a cor avermelhada que parecia brilhar no escuro, a aura em volta de si se agitando como fogo.
Undertaker não havia errado o golpe.
– Até breve, meu caro mordomo. — O ex deus da morte disse acenando, enquanto se virava para ir embora.
Sebastian saltou para impedi-lo, porém, quando sua mão quase alcançava o outro, todos os outros demônios que ainda estavam lá o atacaram ao mesmo tempo. Eram muitos, e Sebastian estava ferido e sem um dos braços.
Quando conseguiu finalmente exterminar o último demônio, já não havia mais sinal de Undertaker. Ele havia conseguido escapar. Sebastian caiu com um dos joelhos no chão, exausto como há muito tempo não se sentia. Olhou em volta, notando a bagunça que a praça havia se tornado, com corpos impossíveis de identificar espalhados em uma possa de sangue.
– Que cena grotesca.
Sebastian olhou para a direção da voz, encontrando o shinigami Willian o olhar a uma distância considerável. Em seu rosto era perceptível o nojo por presenciar aquela cena.
– Veio terminar o serviço do seu ex-colega de trabalho?
– Ex-colega? Não sei do que está falando, mas não vim terminar nada. — Willian retirou um lenço branco do seu bolso e pôs sobre o nariz para conseguir avançar até onde o demônio se encontrava. — Vejo que conseguiu exterminar muitos demônios de uma só vez.
– Os demônios não eram um problema. Fracos demais. — Sebastian pegou o braço direito que se encontrava estendido no chão, caído no meio da batalha, e o levou até o ombro decepado. Alguns nervos se esticaram, tentando refazer as ligações corretas, mas a falta de almas em sua alimentação tornava a regeneração mais lenta e dolorosa. Apesar dos nervos terem se conectado, a carne e a pele não pareciam que iriam se refazer rápido, então Sebastian rasgou a manga da própria camisa e amarrou ao redor do braço para manter o membro no lugar. — O que veio fazer aqui?
– Embora eu não goste disso, tenho uma proposta da diretoria do mundo espiritual para lhe fazer. — Willian encarava com nojo o braço enfaixado. Ver a carne se remexendo daquela forma havia feito seu estômago revirar. Demônios eram mesmo nojentos.
– Sinto ter que recusar a proposta. Mas não trabalho com Shinigamis. — Sebastian se virou, pronto para ir embora. Tinha coisas muito mais importantes para resolver, como procurar o maldito Undertaker para pegar de volta a alma de Ciel.
– Mas já está de saída? — Um homem de óculos verdes e cabelos pretos cuidadosamente penteados surgiu na frente de Sebastian, o impedindo de seguir seu caminho. — Pode ao menos ouvir a proposta?
– Não precisava ter vindo até aqui, supervisor-chefe Miller. Eu poderia cuidar de tudo sozinho. — Willian disse com a mesma frieza na voz, os óculos brilhando de forma que não era possível ver seus olhos.
– Essa não é a questão, Will. — Miller disse fazendo um aceno com a mão que dizia “acalme-se”. Voltou seus olhos dourados para o demônio. — E então? Não quer ouvir a proposta?
– Não há nada que os Shinigamis tenham, que eu queira.
O homem ignorou a resposta do demônio, retirando calmamente uma ficha de seu terno e analisando-a.
– Fiquei sabendo que não consumiu uma alma, e que ao invés disso, a tem como uma espécie de tesouro. — O shinigami disse folheando a ficha que tinha em mãos. Sebastian se perguntava onde ele havia conseguido aquelas informações. — Provavelmente não sabe, já que eu nunca ouvi falar de um demônio que não tenha devorado suas presas. Mas almas não podem ficar muito tempo fora de um corpo.
Sebastian não disse nada, apenas continuou encarando o homem um pouco mais baixo que ele, com uma expressão neutra e desinteressada. Queria ver até onde aquela conversa iria levá-lo.
– Almas não passam de números para os nossos registros. — Miller continuou, guardando a ficha dentro do terno. Sua voz lembrava a de um locutor de telejornal. — Depois que a vida é partida, a alma não tem mais ligação com o corpo. Se ela não for armazenada corretamente, sua existência se dissolve.
– Claro que isso demora séculos, mas acredito que a alma que está em sua posse deva ter pelo menos uns 250 anos. — William interrompeu sem encarar o demônio. Seu desgosto parecia direcionado ao seu supervisor-chefe. — Deve ter percebido que sua presença diminuiu perceptivelmente.
Era verdade. A aura que tinha em volta da alma de Ciel foi diminuindo com o tempo. Seu cheiro já não era mais sentido. Se fosse alguns anos atrás, Sebastian teria percebido que tivera a alma do garoto roubada e poderia seguir seu rastro até Undertaker. Mas da forma como se encontrava agora, isso seria muito mais trabalhoso.
– Pelo seu silêncio, vejo que estou certo. — Miller sorriu, dando mais um passo para se aproximar.
– O que querem?
– A coisa é muito simples. Você se livra desta quantidade absurda de demônios, e nós lhe contamos como preservar a alma do humano que está em sua posse. Além disso, te damos liberdade total para devorar as almas que quiser.
– As almas que quiser?! — Willian se pronunciou, indignado. Saltou para ficar ao lado do outro shinigami. — Eu não estava sabendo dessa cláusula. A diretoria concordou com isso?
– Pesamos na balança. Bilhões de demônios a solta devorando almas, ou apenas os poucos demônios de classe 1 que precisam do consentimento do humano para devorar almas? E pelo meu relatório, esse demônio segue uma dieta bem rígida. — Miller respondeu com simplicidade, olhando o subordinado com uma expressão entre pena e desgosto. — Não faça essa cara, Will. Eu não contei antes porque sabia que não concordaria.
– Pelo que vejo, minha presença aqui não é necessária. — Willian disse enquanto se virava de costas, saltando sobre o poste. Sua aura assassina demonstrava o quanto não estava satisfeito com as decisões que a diretoria tomara. E ainda por cima não o informou, mesmo ele sendo o supervisor do departamento.
– Este William é certinho demais. Um ótimo funcionário, mas muito tradicional. — Miller balançou a cabeça e suspirou fundo enquanto via o shinigami indignado ir embora. Voltou a olhar para o demônio, que assistia tudo de forma tediosa. — Mas voltando aos negócios, o que acha? Aceita o contrato?
Sebastian não precisou pensar muito. Os Shinigamis pareciam estar bem desesperados para fazer uma proposta como aquela. E mesmo não demonstrando, a ideia da alma de Ciel deixar de existir deixava o demônio assustado.
– Parece razoável. — Ele disse, ainda sem demonstrar nenhum outro sentimento além do tédio. Barganha é uma arte que os demônios dominam com maestria. — Mas não eliminarei outros demônios de classe 1. Temos uma espécie de pacto que não me interessa quebrar. E preciso de uma alma agora.
– Agora?
– Meus movimentos estão mais lentos por causa do meu jejum prolongado, e não tenho tempo ou paciência para fazer um contrato agora.
– Ok, acho que não tem problema. Se eu te contasse quantas almas perdemos nos últimos dias... — Miller disse enquanto retirava uma folha dobrada do terno e adicionava alguma coisa a caneta. — Se estiver tudo certo, é só assinar. O contrato é renovado a cada 10 anos.
Estendeu o papel para Sebastian, que leu tudo apenas passando os olhos rapidamente. Ele retirou a faixa improvisada que usou para amarrar o braço no lugar, que estava encharcada de sangue, e espremeu sobre a folha de papel. Algumas gotas caíram, formando uma mancha com formato de rosa antes de serem absorvidas.
Miller tinha algo parecido com um sorriso no rosto quando recebeu o contrato de volta.
– Ah, aproveitando que agora estamos sozinhos, preciso dizer uma coisa. — O supervisor-chefe disse enquanto guardava o contrato no bolso do terno, que parecia ter um vão infinito para conter tantos documentos sem alterar o volume do tecido. — A diretoria tem conhecimento de que o surgimento destes demônios são de responsabilidade de um ex Shinigami. Shinigamis não podem matar um igual, então tenho um pedido pessoal a fazer. — Arrumou os cabelos para trás, adquirindo uma pose autoritária e ainda mais séria que a de William. — Mate-o, antes que ele traga ainda mais problemas.
Sebastian voltou a amarrar o tecido em volta do braço, já pronto para partir dali.
– Não preciso de um pedido seu. Eu vou matá-lo.
______________
Esconderijos nunca serviram para realmente esconder alguém. Eles apenas afastam os olhares curiosos que podem vir a aparecer. Talvez por este motivo tenha sido fácil encontrar onde Undertaker e sua tropa de demônios se abrigava. Ou era isso, ou então o Ex Shinigami queria ser encontrado.
A busca não havia sido cansativa ou complicada, mas Sebastian se encontrava mais nervoso e irritado que o normal. E isso, Grell percebeu, era deveras perigoso.
Grell foi incumbido de acompanhar o demônio na “caçada” por decisão de William. Se era pra mandar alguém para um local de alto risco de morte, um Shinigami tecnicamente inútil seria a melhor opção. E embora não fosse de conhecimento do supervisor, Sebastian precisaria de uma Death Sthyce para realizar sua parte do contrato.
O que ocorreu logo na entrada do que parecia ser um cemitério abandonado foi um terrível massacre de demônios, difícil de por em palavras e ainda pior de se presenciar. Sebastian continuava frio como pedra enquanto perfurava os corpos dos seres negros que pareciam se multiplicar. Até mesmo um shinigami experiente como Grell estava enojado e até mesmo assustado com a forma que Sebastian saciava sua sede de sangue sem alterar sua aparência desinteressada.
Quando finalmente chegaram ao fundo do cemitério, onde um grande mausoléu de mármore branco parecia brilhar na luz precária de um poste distante, não foi surpresa encontrar o local com as portas abertas, como um convite. O que de fato era, como foi provado com um bilhete escrito em finas linhas desenhadas:
"Venha me pegar, meu caro mordomo."
Uma provocação infantil, mas que pareceu ter efeito.
– Sebby? Não acha que deve se acalmar antes de entrar? — Grell resmungou, encarando a sombra tensa de Sebastian que tremulava agitado como uma fornalha.
Ele não respondeu, apenas continuou seguindo em frente a passos rápidos.
A figura alta de longos cabelos prateados estava sentada sobre o caixão ao fundo do mausoléu, sozinho. O pequeno frasco azul dançava sobre seus dedos, e embora estivesse escuro demais para um humano enxergar, todos os seres ali conseguiam ver muito bem.
– Não sabia que os demônios viraram amiguinhos dos Shinigamis. — Undertaker disse com um riso contido, apontando para Grell.
Sebastian avançou sobre o outro antes que este fizesse qualquer movimento. Seus dedos perfuraram o peito do ex shinigami, que cuspiu um pouco de sangue antes de abrir um sorriso ainda maior.
– Que falta de educação atacar o anfitrião antes de cumprimentá-lo. — Ergueu a foice, pronto para acertar o demônio, mas Grell interferiu jogando sua serra elétrica, que quase acertou Sebastian, mas atritou com a lâmina de forma que Undertaker teve que saltar para trás para que ela não se partisse. — Vejo que conseguiu recuperar sua agilidade.
O shinigami não parecia estar sentindo o ferimento aberto no peito. Ele jogou os cabelos para trás e apoiou a foice no chão enquanto prendia a corrente com o frasquinho no pescoço. Continuava sorrindo debilmente, como se tudo ali fosse uma grande piada.
– Rindo para a morte? — Sebastian perguntou sacudindo a mão para se livrar do sangue.
– Já vivi demais. As risadas se tornaram sem-graça.
O demônio pegou a serra elétrica que continuava ligada no chão. Avançou novamente sobre Undertaker, que se apoiou em sua foice para se desviar saltando e pousando atrás de Sebastian.
Grell assistia despreocupado, mas interessado. Sua tarefa era somente ajudar a exterminar os demônios e supervisionar Sebastian. Um Shinigami não podia matar outro da mesma espécie. Embora uma Death Sthyce fosse a única arma capaz de matar um shinigami, não era apenas uma regra, e sim uma condição física.
A luta entre os dois seres era um verdadeiro espetáculo, que mais parecia um número de ginastas malabaristas com muitos efeitos especiais. As lâminas de debatiam e tilintavam com violência, enquanto que o sangue jorrava como em um filme de terror “trash”, cobrindo todo o caixão de um pobre coitado que não pediu para ser enterrado naquele mausoléu.
Detalhes não são realmente relevantes nessa situação. Era um combate justo e equilibrado, que resultou em um grande corte no peito e no braço de Sebastian, e cortes profundos nas costas e a perda do comprimento do cabelo por parte de Undertaker.
O demônio agitou a serra no ar quando o outro foi se esquivar de mais um ataque, lhe cortando o tornozelo e conseguindo assim passar a lâmina no braço do ex Shinigami, decepando-o. Mesmo que uma foice seja realmente dolorosa contra a pele, nada se compara a dor de ter a carne triturada pelos dentes da serra elétrica, que fez Undertaker grunhir e cair no chão de costas.
– Olho por olho, braço por braço. Não é? — O ex shinigami riu, embora uma careta de dor ainda estivesse em seu rosto.
Com o tornozelo ferido e o braço decepado, só o que fez foi permanecer ali deitado observando Sebastian pegar sua foice e andar até ele calmamente, com um sorriso triunfante. Ele arrebentou o colar com o frasquinho azul e o guardou no bolso. Não iria manchar a alma de Ciel com mais sangue.
– Não que isso vá mudar alguma coisa, mas gostaria de um motivo de ter me envolvido nisso. Procurava morrer? — Sebastian perguntou enquanto largava a serra elétrica de Grell no chão e erguia a foice. Mataria o ex shinigami com sua própria arma.
– A última e melhor risada será graças a você, fiel mordomo.
– Estas são suas últimas palavras?
Undertaker sorriu como resposta, tão largo e medonho que mal parecia ser uma boca humana que sorria. Fechou os olhos e descansou a cabeça no chão, rendido. Sebastian entendeu aquilo como uma afirmação.
Sem hesitar, desceu a lâmina no pescoço do Ex–Shinigami.
Notas finais
Existem grandes diferenças entre o mangá e o anime. Para quem não leu, no mangá é revelado que Undertaker na realidade é um ex Shinigami. Mas diferente do anime, ninguém sabia disso e ele na realidade parece ser mais um vilão do que um aliado. Tanto é que ele criou uma espécie de zumbi e quase matou o Sebastian =p
Até o volume que saiu ele não apareceu de novo, então até o momento essa parte da história vai fazer sentido. Agora, se ele acabar morrendo no mangá... fudeu. =p
HAUHAUHAUHAUHAUHAU
O personagem Miller é criação minha. Imaginei que se o William era o supervisor do departamento de Shinigamis, deveria tem um diretor que o coordenava.
Bom, este foi um capítulo bem explicativo do porque Sebastian estar trabalhando com os Shinigamis. Já a explicação dos Ciels vai vir depois, aos pouquinhos! ^^
Ficou meio sem noção? As cenas de luta foram faceis de entender? É muito difícil descrever essas partes de ação... >
Fale com o autor