Timeless
18 Cap. 18 - Altas apostas
Notas iniciais
William se encontrava no telhado da mansão Phantomhive, a espera. Sua última conversa com o supervisor-chefe ainda ecoando eu sua cabeça de forma desagradável. Ele e Miller não tinham o que se poderia chamar de um bom relacionamento. Ao menos não recentemente.
“O caso com a humana Kassandra não importa.” Miller havia dito. “O fruto desse relacionamento que me perturba. Isso viola todas as leis que tenho conhecimento, e mesmo assim não poderíamos fazer nada a respeito. É por isso que dependemos que o demônio faça o que ele acha certo.”
E como um demônio poderia estar certo sobre qualquer coisa? Era o que mais irritava William sobre aquelas palavras. Por mais que ele soubesse o quanto era impossível para um Shinigami matar um igual, partilhar aquela informação com um demônio, ou pior, dar a ele total liberdade para fazê-lo, era completamente irracional. Undertaker foi um caso especial, supervisionado, e feito em um momento de total crise. Mas daquela vez eles tinham mais tempo e demanda de pessoal, então por que deveria deixar que Sebastian desse a palavra final em um caso assim tão importante?
Miller certamente tinha outra coisa no lugar do cérebro.
Em meio a sua pequena crise trabalhista existencial, o barulho do porsche preto de Sebastian entrando pelo portão fez com que ele retomasse a compostura. Não esperou que ele estacionasse para pular sobre o capo, que estalou com o peso repentino.
– Você poderia aparecer de modo normal, só pra variar. — Sebastian disse ao sair do carro, checando o estado do capô, que entortou um pouco com o formato dos pés. — Isso nos evitaria alguma cena constrangedora.
William desviou os olhos para um ponto qualquer, só para não ter de encará-lo e acabar se lembrando daquela tarde em que pegara ambos em um momento um tanto íntimo. Não que tivesse vergonha nem nada, mas Sebastian ainda era um demônio e Ciel tinha parte da alma Shinigami. Aquilo era repugnante.
– Achei que era você quem precisava falar comigo. — Will disse naquele tom frio de desgosto. Não era verdade, já que ele tinha uma mensagem bem clara de Miller para o outro. Mas as palavras simplesmente foram barradas pelo orgulho.
– Claro, claro. Eu perguntaria ao Grell, mas a simples presença dele me irrita.
William pensou que o mesmo se aplicava a ele, mas apenas repousou sua arma no ombro e finalmente ergueu os olhos para encarar Sebastian, que indicou com a cabeça para entrarem na mansão.
– Prefiro continuar a conversa aqui, se não se importar. — William murmurou, mais como uma ordem do que uma sugestão. Não queria entrar em um ambiente “contaminado”.
– Você deixa de entrar no mar porque peixes fazem sexo lá?
William não respondeu a provocação, embora aquele arquear de sobrancelhas tenha se intensificado com aparente raiva. Sebastian fez um meneio de cabeça antes de continuar, seu humor ácido raramente fazia amizades.
– Vocês conseguem reconhecer outros Shinigamis? — Continuou como se nada houvesse acontecido.
– Se virmos os olhos, sim. — Will retirou os óculos e arregalou os olhos para mostrar. — Nossas íris tem um brilho diferente dos olhos humanos. Mas esta alma que procuramos é mestiça e enfraquecida, então não podemos nos basear nisso.
– Mas alguém ajudou Undertaker ao fazer Ciel renascer. E tudo indica que é um Shinigami, certo?
– Sim, consideramos esta hipótese. Mas depois de tudo que anda acontecendo, não podemos descartar nada nem ninguém. — Soltou um suspiro de enfadamento, arrumando os óculos no rosto repetidas vezes. Decidiu por si próprio que não passaria o recado de Miller, tinha uma ideia mais trabalhosa, mas menos humilhante para seguir. Firmou sua arma no chão como para marcar aquela decisão, antes de voltar a falar. — Talvez eu precise estar junto para identificá-lo.
– Ah, claro. É sempre bom ter um Shinigami por perto… — Sebastian desdenhou, retirando seu celular do bolso. — Vocês deveriam adotar um desses. Assim eu não precisava te ver para fazer uma simples pergunta como essa.
William ergueu uma sobrancelha, encarando o celular pensativo. Não gostava de tecnologias humanas, mas ter uma opção para não precisar mais ver o demônio era realmente tentador.
– Fique com este, eu tenho outro. — Sebastian balançou o celular a sua frente novamente. — Vamos, aceite logo. Juro que não amaldiçoei este aparelho.
O Shinigami estalou a língua antes de erguer sua foice para agarrar o aparelho, que por muito pouco não quebrou, embora os dentes da lâmina tenham arranhado toda a superfície.
– Nunca me ligue. Nunca. — Pontuou a última palavra com bastante ênfase. — Se precisar, envie um texto...
Enquanto se virava para ir embora, o celular tocou. Era Sebastian.
– Só queria testar se o número estava certo. — O demônio respondeu sorrindo, tendo que desviar da Death Scythe que esticou para acertá-lo no meio do rosto.
__________
Ciel estava posicionado em frente ao espelho, analisando o terno azul escuro que se ajustava perfeitamente em seu corpo. Tanto, que ele não conseguia erguer os braços sem que toda a roupa se desalinhasse. Estava frustrado por falhar pela terceira vez ao tentar dar o nó na sua gravata.
– Não entendo por que inventaram essa porcaria. — Resmungou, mais para si mesmo. — Parece mais uma corda de forca amarrada no pescoço.
Sebastian parou sua tarefa de engraxar os sapatos para erguer os olhos, achando graça do nó de dedos e pano que Ciel tentava desenrolar. Limitou-se a baixar a cabeça sorrindo, enquanto terminava de pousar os pés já calçados no chão. Se posicionando atrás do garoto, tomou-lhe a gravata e desfez o emaranhado de tecido amassado.
– Preste atenção aqui. — Sebastian disse, percebendo que ao invés de olhar suas mãos através do espelho, ele encarava seu rosto. Ciel enrubesceu ao baixar os olhos.
Com um ágil dançar de dedos, o nó foi feito sem que Ciel realmente prestasse atenção. Não se importava que o demônio fizesse sempre aquilo para dar um nó em sua gravata. Na realidade, já não se importaria se ele voltasse a vesti-lo como fazia antes. Mas nunca diria em voz alta.
– Entendeu como se faz? — Sebastian disse como se perguntasse a uma criança.
– Você pode simplesmente fazê-lo sempre que eu precisar. — Com um abano de mãos, afastou Sebastian para que ele mesmo pudesse terminar de se arrumar. Uma estranha ansiedade o incomodava.
Sua mente ainda estava dividida. Queria poder conversar e resolver tudo com Lawrence antes, mas aquilo não era tão importante quanto sua missão. Embora parecesse incomodá-lo na mesma proporção, certamente havia sido posta como último item da sua lista.
Suspirou abotoando as mangas. Precisava se concentrar na sua tarefa de hoje, pois provavelmente seria sua jogada mais importante para descobrir tudo àquilo que o envolvia. A lembrança de seu pai sendo manipulado também não ajudava em nada seus pensamentos.
– Sebastian, há alguma possibilidade de que Undertaker ainda esteja vivo?
– Não. — Mesmo depois da resposta rápida, pestanejou. Ele tinha certeza de que o havia matado naquele dia, mas agora já não parecia mais tão certo. Tanto William quanto aquele diretor esquisito afirmaram que ele estava morto. Só um demônio com uma Death Scythe conseguiria fazer isso. — Ele está morto. — Confirmou, tentando convencer mais a si próprio.
Ciel não sentiu firmeza na resposta, mas aceitou. O que tinha de acontecer, aconteceria. E se isso envolvesse matar o Shinigami uma segunda vez, o faria sem hesitar.
– Melhor irmos. Se chegarmos mais cedo, temos mais chance de conversar com Mengele em privado. — Ciel disse, andando em direção à porta com o tutor em seu encalço. Antes de abri-la, se virou. Na ponta dos pés, ergueu o rosto para puxar Sebastian para um selo rápido e estalado. Se afastou sorrindo. — Só pra dar sorte.
Antes que o outro pudesse responder, virou as costas, indo até o carro. Ambos não eram lá muito suscetíveis a demonstrações de carinho e afeto, mas os poucos gestos sutis e de certa forma intensos eram pragmáticos. Nunca em vão, nunca sem um objetivo, mas sempre nos momentos certos. Sem ter consciência disso, eles o faziam por instinto e necessidade, mas sem prolongar demais ao ponto da necessidade carnal. E nestes termos, Sebastian tinha menos conhecimento do motivo do que Ciel. Talvez pela sua condição não humana, ou por simplesmente ser o Sebastian. Mas lhe agradava, e talvez fosse exatamente isso que o teria atraído tanto no garoto.
Repassaram os planos para aquela noite durante o caminho. Se fosse tudo como o previsto, poderia sair de lá com outro nome, ou quem sabe, uma resposta.
– Como um homem tão importante quanto ele não tem fotos? — Ciel reclamou, chutando o banco de Sebastian sem perceber. — Deveríamos ter pedido uma ficha ao William.
Sebastian fez um meneio com a cabeça. Não era como se não tivesse pensado nisso, mas os Shinigamis não tinham uma informação completa sobre a vida de alguém antes da sua morte. Era justamente para isso que as Cinematics Record existiam.
– Como pretende abordar o assunto do seu pai com Mengele?
– Da mesma forma que fiz com Peter. — Sorriu, dando mais um empurrão no banco com o pé. — Odeio fazer o papel de órfão deprimido, mas parece que é o que da mais resultado.
Não parecia ter muita resposta para aquilo a não ser o sorriso cínico de sempre, ao que Ciel respondeu com um corar nas bochechas e desviou a atenção para a rua. Precisava resolver as coisas com o Lawrence rápido, para parar de se sentir culpado por uma coisa que não havia realmente acontecido.
Eles chegaram à festa cedo o bastante para encontrá-la relativamente vazia, embora não fosse cedo demais para ser mal-educado. Mas o senhor Mengele ainda não se encontrava lá. Como anfitrião, Ciel achou que ele estaria mais cedo para receber seus convidados, mas parecia que essa etiqueta não era costume entre os empresários. Acabou vagando meio sem rumo de um lado para o outro do salão, recebendo cumprimentos de pessoas que certamente sabiam quem ele era, embora o conhecimento não fosse recíproco. Se perguntou quantos ali saberiam que ele era uma das experiências do pai.
– Ah, o pequeno Ghostkeeper está aqui. — Um senhor careca e encurvado o cumprimentou, estendendo a mão em um aperto mais forte do que sua aparência frágil demonstrava. — Então estará conosco neste grande empreendimento? Seria ótimo se fosse tão bom quanto seu pai.
Ciel tentou não fazer uma careta diante aquelas palavras, forçando um sorriso.
– Estou aqui para entender mais sobre os negócios dele. Então o senhor trabalhou com ele?
– Claro, trabalhamos por muitos anos juntos, quero dizer, não no mesmo projeto. Nos dávamos muito bem, posso dizer. Claro que não concordávamos em tudo, principalmente no que se dizia respeito àquelas pobres criaturas…
– Pobres criaturas?
– Oh, me desculpe. Imagino que isso não lhe traga lembranças muito boas. — Arthur sempre os defendeu com tanto afinco. Parecia arrasado sempre que um deles nascia vazio ou doente, pobre homem. Nunca achei saudável todo aquele esforço, para no final termos somente uns dois cães famintos e um macaco burro. Mas Vincent acreditava tanto.
– Então o senhor participou da pesquisa dos clones? — Ciel incentivou, vendo o quão enrolado o homem estava.
– Eu? Claro que não. Vincent nunca deixava alguém se aproximar demais das suas pesquisas. Tinha ajudantes diferentes todas as semanas para evitar que alguém soubesse muito sobre o que fazia. Era um homem cauteloso e orgulhoso, embora tivesse motivos de sobra para o ser. Mengele era o único que tinha livre passagem. Óbvio, já que ele parecia ser o único investidor realmente interessado para fazer aquilo dar certo. Não acredito que ele esteja querendo ressuscitar aquilo.
Ciel divagou entre as palavras do velho, confirmando para si mesmo que a influência de Mengele parecia realmente acima do natural. Era engraçado como pensar no pai ser manipulado daquela forma o fazia sentir um ultraje e uma vergonha que não pensava existir. Tentou acompanhar as divagações do velho, embora o seu balbuciar desconexo parecesse muitas vezes sem sentido, havia ali detalhes que poderiam ser aproveitados.
– Cieel! Então veio mesmo! — Peter berrou de um dos cantos do salão. Seus olhos já brilhavam pelo efeito do álcool, mas tinha em seu rosto aquela expressão de alguém determinado a não parecer bêbado. — Fico tão feliz que tenha começado a se interessar pelo trabalho do seu pai. Ah, você também está aqui, tutor.
– É Sebastian. — Ciel retrucou, afastando-se de Peter com uma pequena cotovelada.
– Claro, claro. Vejo que já fez amizades com o senhor Ernest. — Dirigiu-se para o velho ao dizer. — Ele é a cara do Vincent, não é?
– Certamente que são pai e filho. Mas esses olhos grandes são provavelmente da mãe, embora eu não a tenha conhecido. Temo que não terá a altura de Vincent.
– Sim, a altura de Vincent era invejável.
A atenção de ambos e alguns que ouviam a conversa se voltaram para Ciel como se estivessem a avaliar um cavalo para leilão. Nervoso, resolveu cortar aquele assunto sem medo de ser mal educado.
– O Dr. Mengele já chegou? Eu gostaria de encontrá-lo.
Peter piscou algumas vezes, tentando assimilar o que Ciel acabara de dizer. Olhou uma vez em volta antes de responder.
– Ele já deve estar aqui. — Disse encarando Ernest, como perguntando se ele o viu. Recebeu um abano de cabeça como resposta. — Não se preocupe, ele com certeza virá falar com você. — Seus olhos se iluminaram, parecendo se lembrar de alguma coisa. Se virou para Sebastian. — Tutor, estamos combinando uma partida de pôquer. Não quer se juntar a nós?
Foi Ciel quem pestanejou, não querendo se separar de Sebastian, mas pensando se aquela confraternização em um jogo de azar não seria mais fácil para que alguém ali soltasse a língua. Afinal, uma noite tinham poucas horas pra tudo o que queria resolver naquela festa, e o álcool era o melhor desinibidor de segredos que conhecia.
– Prefere que eu te acompanhe? — Sebastian perguntou, parecendo ler seus pensamentos.
Com um suspiro, Ciel cedeu em um aceno de cabeça. Era melhor parar de depender tanto do demônio.
Peter reagiu com um largo sorriso ébrio, se pendurando nos ombros do outro para levá-lo para um grupo de homens reunidos no outro canto da sala. Era óbvio que Peter pretendia arrancar informações de Sebastian tanto quanto ele mesmo.
Ciel acordou da sua inspeção quando percebeu que o velho Ernest voltou a sua conversa animada sobre seu pai que não fazia muito sentido.
Depois da terceira rodada de petiscos que já havia circulado por eles, Ciel reparou em um homem no meio de um pequeno aglomerado. Ele não parecia ter mais de 30 anos, mas tinha aquele aspecto cansado e nobre que as pessoas só adquirem depois de anos de experiência. Ele devia ter a mesma altura que Sebastian, de cabelos grisalhos que se misturavam de forma artificial aos castanhos, mostrando claramente que era vaidoso. Os homens que o seguiam eram todos mais jovens, como urubus rodam em torno de carniça eles parecia disputar pela sua atenção. Se ele não fosse o anfitrião da festa, certamente era algum tipo de celebridade ali.
– Aquele é o doutor Mengele? — Ciel interrompeu Ernest no meio de uma longa descrição sobre como Vincent gostava de estocar doces no armário. Ele pestanejou, demorando um pouco para entender a mudança brusca de assunto. Olhou com os olhos estreitos para o lugar onde o garoto apontava antes de responder. — Esse homem não parece ter envelhecido um único dia desde que o encontrei pela última vez. Sim, este é Mengele. O majoritário secreto da Re:birth.
Ciel não precisou ir até ele. Mengele o encarou e foi imediatamente até eles como se aquele fosse seu destino desde que entrou no salão. Sorriu abertamente em um convite para que ambos começassem uma conversa, mostrando as rugas em torno dos olhos e boca que desmentiam sua idade.
– Que bom que veio, Ciel. Eu e seu pai éramos grandes amigos.
Ciel retribuiu o sorriso com mais nervosismo do que simpatia, erguendo a mão em um cumprimento.
– Eu estava mesmo esperando falar com o senhor. — Hesitou, percebendo que estavam rodeados de pessoas que pareciam ansiosas para tirar a atenção do homem. — Se não se importar, gostaria de conversar sobre minha herança.
Torcia para que Mengele entendesse sobre o que estava falando. E se parecia tão interessado na pesquisa do seu pai quanto parecia, uma conversa privada não seria nem um pouco difícil.
– Direto ao assunto. Tão parecido com seu pai quanto poderia parecer. — Mengele riu, pousando a mão em seu ombro. — Claro, vamos falar sobre isso. Aliás, esta festa seria um desperdício se esta conversa não acontecesse. Posso roubá-lo um pouco, velho Ernest?
– Humph. Velho Ernest. Eu não sou seu avô para que tenha tanta liberdade. — Ernest soltou um muxoxo, abanando a mão. Olhou para Ciel antes de acrescentar. — Não deixe que ele encha sua cabeça de minhocas. Elas não fizeram bem ao seu pai.
Fingindo considerar aquilo uma piada, Ciel riu antes de se afastar ao lado de Mengele. Não gostava muito que fosse lembrado a todo o momento do que havia acontecido ao seu pai, ou que todos pareciam entrar em acordo de que a culpa era do homem ao seu lado. Tentou não pensar nisso enquanto repassava na cabeça o que deveria dizer.
Desagradavelmente, foram seguidos pelos homens que conversavam de forma animada, embora fossem todos ignorados pelo doutor. Quando passaram pela mesa onde Sebastian jogava pôquer, Ciel percebeu que estavam em uma discussão animada. Esperava que aquilo fosse mais do que papo de bêbados e fez um sinal discreto para o demônio antes de chegar até uma porta de vidro filmada. Entraram naquela sala privativa sozinhos, deixando todos os outros do lado de fora com os seguranças.
– Acho que nossa conversa não precisa de espectadores. — Mengele disse quando fechou a porta, mostrando que o vidro a prova de som deixava visível o lado de fora sem revelar o que acontecia lá dentro. — Se preferir, posso chamar seu tutor para se juntar a nós.
– Não precisa, ele parece estar se divertindo com Peter.
– O cãozinho do seu pai continua fiel, não é? Peter fazia qualquer coisa que Vincent pedisse, até achei estranho que não fosse ele o seu tutor.
Mengele se sentou em uma poltrona, indicando outra para que Ciel fizesse o mesmo.
– Conheço Sebastian há mais tempo e confio mais nele. Acho que meu pai levou isso em consideração quando fez os documentos.
– E você continuou sendo mais importante para o Vincent do que qualquer outra coisa. Quantos anos têm?
– Dezesseis.
– Oras, em meu país essa idade seria o suficiente para beber. Vamos, me acompanhe enquanto conversamos.
Antes de esperar resposta, Mengele encheu duas taças de vinho até a boca e empurrou uma para ele. Ciel bebericou um pouco, mais para ser educado, mas o sabor doce da bebida tornou mais fácil um segundo e um terceiro gole.
– Como sei que não gosta de enrolar, vamos direto ao assunto. Até que ponto conhece a pesquisa de seu pai?
Ciel deu mais alguns goles no vinho, sem sentir o álcool que havia nele. Aproveitou a boca ocupada para pensar se aquela pergunta incluía ele saber que era um clone ou não. Resolveu guardar aquela informação por enquanto.
– Sei que meu pai pretendia fazer órgãos para transplante, mas percebeu que era muito mais fácil clonar um corpo inteiro do que só uma parte dele. Os clones eram em sua maioria bonecos de carne inanimados.
– Acho que subestimei o quanto você sabia. — Sorriu, terminando o conteúdo da sua taça e voltando a encher as duas. — Tudo o que disse está certo, apesar da ordem. A pesquisa do seu pai mudou um pouco com o passar dos anos. Quando conheci Vincent, ele havia acabado de casar e estava um pouco depressivo com a esterilidade da esposa. Ele tinha ideias muito parecidas com as minhas, então acabamos virando amigos. — Deu uma pausa, parecendo analisar com cuidado as reações de Ciel. — Não sei se sabe, mas acho que sou tão responsável pelo seu nascimento quanto seu próprio pai.
Ciel sentiu uma onda de adrenalina passar pelo seu sangue rapidamente. O quanto daquela frase poderia ter relação com a sua alma? Mengele teria mesmo dito aquilo tão espontaneamente se fosse cúmplice de Undertaker?
Não teria. Ele não podia ser um shinigami, mas certamente era uma ponte que podia levá-lo a falar tudo até chegar à fonte. E deveria aproveitar que ele estivesse tão disposto a falar, só precisava das informações certas.
– Eu sei o que sou, Mengele. Sei também que você tem um dedo nisso, mas não consigo entender como.
Mengele pareceu estar esperando aquela pergunta, embora também parecesse surpreso por Ciel saber tanto.
– Pelo jeito Peter continua tão fofoqueiro como sempre foi. — Riu, enchendo novamente as taças, que Ciel nem havia percebido que tinha esvaziado. Não sentia nenhum efeito que acreditava que o álcool tivesse. — Isso facilita, já que podemos ir direto ao assunto. Eu realmente preciso que assine os documentos, liberando as pesquisas de Vincent para a nova Re:birth.
A cortada nas explicações e na linha de raciocínio fez Ciel levar um tempo para se lembrar do motivo de ter sido chamado.
– Espera, achei que ia me contar como convenceu meu pai a fazer as experiências.
Mengele sorriu.
– Se eu contar, você assina os papéis?
Ciel começou a se sentir nervoso e acuado. A mesma estratégia que usou com Peter obviamente não funcionaria com Mengele, ele percebeu no momento que começaram a conversar. Não passavam de negócios e Mengele certamente sabia como negociar, ele só precisava dissimular mais um pouco em uma nova abordagem para o homem falar. Não era tão difícil.
– Se você contar tudo, minha inclinação para aceitar a oferta pode melhorar bastante. — Ciel devolveu o sorriso.
– Acho que vamos nos dar bem, garoto. — Riu, dando tapinhas na mão menor em cima da mesa. — Como eu disse, conheci seu pai quando ele se deprimia pela esterilidade da esposa. Na época, seu único pensamento era de reverter o estado da mulher. Em uma conversa casual, eu perguntei por que ele não podia fazer o filho ao invés de curá-la. Foi uma pequena ideia, mas ele levou a sério. — Pigarreou, com os olhos pousados em Ciel sem realmente vê-lo. — Foi quando começamos a entender a magnitude do projeto que Vincent tinha começado. Era grandioso, um pouco bizarro, mas quase divino. E então as experiências começaram.
Ciel se remexeu no sofá, com medo de fazer algum ruído que pudesse calar Mengele. Viu o homem dar um grande gole da taça que levou metade do vinho de uma vez.
– Os primeiros clones foram… Decepcionantes. Cascas de carne vazias como disse, com exceção de dois cães. Acho que um deles era seu. Mas Vincent nunca desistiu, e confesso que eu não estava muito animado quando as primeiras tentativas humanas foram um pouco abaixo de asquerosas. — Fez uma careta, mostrando um pouco da influência do álcool nublar seus olhos. — E então eu conheci uma pessoa, que acabou se tornando importante para mim, se é que me entende. Foi ele quem começou a colocar uma ideia na minha cabeça, uma idéia que eu nunca acharia possível se ele não insistisse tanto. Mas eu fiz.
Ciel aguardou, achando que o vinho estivesse fazendo Mengele delirar. Mas a continuação não veio e mesmo as palavras de um bêbado eram melhores do que o silêncio.
– Fez o que?
Mengele abriu mais uma garrafa e encheu sua taça antes de continuar.
– Bom, pode ser que uma coisa não tenha nada a ver com a outra. Coincidências acontecem o tempo todo, e claro que ninguém acreditaria em mim. Ele estava morrendo e eu não podia permitir, então acabei usando a pesquisa de Vincent para ele renascer. E funcionou, da forma mais estranha possível, mas funcionou. E logo depois você também deu certo, já que está aqui. — Sorriu, se inclinando. — Eu sei que me acha louco, é por isso que eu nunca contei ao Vincent e mais ninguém. Mas ele me disse que você tinha que saber, que você entenderia melhor do que ninguém.
Ciel não tinha percebido que segurava a respiração até que a encarada de Mengele o fizesse suspirar. O sorriso afetado realmente parecia insano, e suas palavras faziam cada vez menos sentido. Deu uma olhada rápida para o reflexo da porta de vidro, tentando enxergar a mesa de jogos e chamar Sebastian para se juntar a ele, mas desistiu. Deu mais um gole de vinho enquanto organizava as informações na cabeça. Mengele tinha ajudado alguém a renascer usando a clonagem. Aquilo teria a ver com os zumbis que Undertaker fazia? E qual era exatamente a relação com seu nascimento?
– Quem é ele? Esse que renasceu.
Mengele sorriu.
– Achei que não iria perguntar. — A voz veio de trás de Ciel, mas ele não teve tempo de se virar para ver o locutor, sentindo um baque surdo no alto da nuca e uma mão prendendo sua boca enquanto caia na inconsciência.
___________
Mal Sebastian se juntou ao jogo, começou a tentar não se entediar, já que parecia que não importava a classe de estudo, o assunto quando havia excesso de testosterona era sempre o mesmo: Mulheres e esportes.
Mesmo sem virar completamente a cabeça, conseguia observar Ciel com o canto dos olhos, sem esconder o aborrecimento ao conversar com o velho Ernest. Disfarçou o sorriso com um gole do whisky que haviam lhe entregado, lembrando repentinamente do beijo roubado que recebeu antes de saírem de casa.
– Está preocupado? — Peter perguntou, tirando-o dos seus pensamentos.
– Apreensivo. — Sebastian se voltou para frente, prestando atenção nos seus acompanhantes. Um velho, da mesma idade de Ernest e já visivelmente bêbado. Um rapaz um pouco mais jovem que Peter e muito mais arrumado do que o evento pedia. E Peter.
– A relação de vocês é estranha. — Peter murmurou, como se tivesse ensaiado aquela fala várias vezes na sua cabeça mas nunca teve a coragem de dizê-las. — Parece mais que você é o servo do que o tutor de Ciel.
– No final, acabamos sendo quase isso. Sabe como aquele garoto é.
Peter confirmou com um aceno meio cansado, se inclinando mais com a intenção de que só Sebastian escutasse.
– Quero dizer que… Nunca vi Ciel tão… Íntimo de alguém.
– Ah, está insinuando que ele é igual ao tarado do Mengele? — O velho bêbado se intrometeu na conversa, parecendo ávido por uma fofoca. Peter não tinha percebido que ambos eram o centro da atenção da mesa, mesmo que sussurrassem.
– Se Mengele te ouvir falando isso, você pode ser demitido. — O mais jovem repreendeu, olhando para os lados como que para confirmar se ele não seria envolvido.
– Que ele tente! Eu sou tão importante para as pesquisas quanto Ernest! — Indicou com o copo na direção do velho, derramando bebida em cima da mesa. Mas o homem não pareceu se importar. — Vocês sabem que ele é mesmo um tarado. Que horror, uma criança ainda. E homem também! Vendendo o corpo para um velho pervertido.
– O filho de Vincent não faria esse tipo de coisa! — Peter quase gritou, puxando as próprias cartas com nervosismo e encarando Sebastian como se a culpa fosse dele. — Ou o que? Faria?
Sebastian tentou parecer assustado com aquela conversa, embora estivesse interessado e até achasse divertido.
– Eu realmente não sei do que estão falando.
– Há boatos. — O mais novo voltou a falar, apressando a dizer antes que os outros pudessem dar versões mais acaloradas da história. — O doutor Mengele tem um protegido de 17 anos que… Não parece ser somente um protegido.
– Eles são amantes. — O velho voltou a dizer, mais baixo dessa vez. — Ninguém entrega uma casa, paga os estudos e doa dinheiro em quantia absurda para ninguém, sem pedir alguma coisa em troca. Principalmente o Mengele.
– Como eu disse, são boatos. Eu acho que ele é algum filho bastardo.
– Nem você realmente acredita nisso, não é? Eu já vi eles se abraçando quando o garoto foi visitá-lo na Re:birth. E não foi um abraço de pai e filho. — Peter se envolveu, finalmente desviando os olhos de Sebastian. — Não vou julgar, já que o garoto concorda. Mas não fale de Ciel assim novamente.
– Ele ser filho de Vincent não quer dizer que seja santo. Aliás, só você o considerava tudo isso. — O velho retrucou. — Mas parece que Mengele nunca foi muito normal pra esse tipo de coisa. Quando o conheci, o amante dele era velho.
O mais novo se remexeu, parecendo em conflito se deveria parar aquele falatório, ou se inclinar para ouvir mais. Era óbvio o seu interesse. O homem pareceu perceber e continuou, feliz pela plateia.
– Mengele devia ter uns trinta e pouco e o outro homem tinha mais que setenta. Nenhum dos dois escondiam que estavam juntos. Mas acho que o velho morreu e ele o substituiu.
– Mas esse garoto está com Mengele há anos! Eles não podem ser amantes. — O rapaz parecia indignado.
– Não subestime as perveções dos homens. Você tinha que ver a mansão que Mengele deu ao menino. Nem tem a dignidade de esconder, aquele safado.
O mais novo parecia realmente nervoso, olhando em volta a todo o momento. Até que olhou para a entrada e seu rosto ficou branco. Mengele tinha entrado no salão e estava passando perto da mesa, com Ciel ao seu lado. Sebastian também se virou para vê-los passar, recebendo uma mensagem por gestos e concordando com um aceno curto.
– Ele está levando o Ciel para um lugar isolado. — Peter murmurou, preocupação transbordando na voz. — Não sei se é uma boa idéia.
– Ciel esperava encontrar Mengele há muito tempo. Se acontecer alguma coisa, vou saber. — Balançou o celular, como se aquilo fosse uma garantia de segurança. Recebeu um aceno duvidoso de Peter, como um aviso para manter Ciel seguro. — Então está dizendo que Mengele não gosta apenas de um garoto, mas de garotos?
– Não foi isso que eu quis dizer, mas… Como tocamos no assunto, fica difícil não pensar o pior.
– Não precisa se preocupar. — Sebastian deu seu sorriso mais seguro, colocando o celular em cima da mesa. — Se for te tranquilizar, sinta-se a vontade para ligar para ele quando quiser.
Peter assentiu, voltando os olhos para a mesa. Ainda nem tinham começado a jogar e todos pareciam estar mais inclinados a fofocar do que apostar.
– Então, o protegido do Mengele está na festa? — Sebastian reiniciou a conversa, enquanto Peter distribuía as cartas.
– Não acho que ele veio… — O velho respondeu, erguendo o rosto para olhar em volta. — Se estiver aqui, está lá dentro com o Mengele e o filho do Vincent. Mas você já deve…
– Que tal apostarmos? — Peter interrompeu, já olhando sua própria mão do jogo. — Se você ganhar, eu conto quem ele é. Se eu ganhar, você vai ter que contar como conheceu Vincent e Ciel.
– Interessante. Jogaremos em dupla mesmo?
– Eu não me importo. — O mais novo proclamou. Pela posição da mesa, ele seria parceiro de Sebastian. — Não tenho nada a perder, principalmente se não apostamos dinheiro.
– Eu também gostaria de saber como você conseguiu convencer Vincent a ser tutor do garoto, então quero participar. — O velho disse, animado pelas novas apostas. Deixou o copo já vazio de lado enquanto pegava suas próprias cartas.
– Combinado. Vamos começar.
Sebastian só havia visto o jogo algumas poucas vezes e não entendia todas as regras. Mas como demônio, ele não podia se dar ao luxo de perder. Mesmo que seu parceiro não parecesse estar querendo mesmo ganhar. Aliás, ele desconfiava que o rapaz estivesse querendo exatamente o contrário, só para poder ouvir aquela fofoca também.
– Acho que ganhamos essa. — Peter sorriu, baixando as cartas na mesa. — Flush.
– Trinca. — O velho disse baixando as próprias.
– Um par.
Sebastian suspirou, vendo as cartas do parceiro. Mas não conseguiu não sorrir quando mostrou as suas.
– Straight Flush.
– Como pode?! Eu só vi um Straight duas vezes! — Peter se levantou, chamando a atenção de algumas pessoas ali perto.
– Agora são três. — Sebastian respondeu, tentando não parecer presunçoso. Não funcionou.
– Acho que ele nos pegou de jeito. Jogo há anos e posso dizer que ele não roubou. — O velho disse, rindo da reação de Peter. — Seria bom tê-lo como parceiro em um jogo de verdade.
– Se as apostas forem interessantes, eu não me importaria. — Se virou para Peter, sorrindo mais abertamente. — Falando em apostas…
Peter bufou, voltando a sentar corado tanto de raiva quanto de vergonha por ter gritado. Ele não era muito bom perdedor. Encheu seu próprio copo com o whisky que estava em cima da mesa e deu um gole antes de erguer os olhos para Sebastian.
– Você já deve conhecê-lo, ele estuda com o Ciel. Lawrence Zimmer.
Sebastian sentiu um súbito frio na espinha. Não pela revelação de Peter, mas algo mais urgente.
Ciel estava em perigo.
Fale com o autor