Timeless
19 Cap. 19 - Timeless
Notas iniciais
Cap 19 — Timeless
Ciel acordou com dor de cabeça, demorando um pouco para perceber que não reconhecia o lugar onde se encontrava. A sala tinha somente uma porta de frente para ele, e não tinha janelas. Suas mãos estavam amarradas nas costas e seus pés presos na cadeira, um pano na boca o impedia de gritar.
– Que bom que acordou. Já estava achando que medi o sedativo errado. — Lawrence entrou na sala, vestido inteiramente de preto, desde os sapatos até a gravata e o terno. Os óculos de armação laranja contrastando tanto com o traje que mais pareciam ser de brinquedo. Ciel ergueu o rosto de olhos arregalados. — Surpreso? Claro que está. Quem não estaria, não é? — Se aproximou mais, segurando seu queixo enquanto fazia uma carícia com as pontas dos dedos. — Posso tirar esta faixa, se prometer não gritar. Quero ver quanto tempo seu demônio demora a encontrar este lugar sem que precise chamá-lo.
Ciel assentiu com um aceno, sentindo a nuca doer pelo movimento. Teve sua boca libertada, percebendo que sua língua estava cortada.
– Foi você quem me acertou na cabeça? — Ciel perguntou, remexendo os nós apertados dos pulsos.
– Não fui eu. Eu só te sedei. Quem te bateu foi aquele cara ali. — Apontou para um homem parado ao lado da porta, que tinha um curativo na cabeça e uma marca roxa em volta do pescoço. — Não se preocupe, eu já o puni por ter te machucado. Esses grandalhões só sabem apagar alguém à pancada. Está doendo muito?
Ciel não respondeu, encarando o chão. Não entendia direito o que estava acontecendo, mas por mais estranho que fosse, não se sentia desesperado ou com medo. Sebastian estaria ali em breve, e Lei não parecia querer feri-lo.
Lei sempre agiu como se soubesse mais do que deveria, e agora Ciel se repreendia por não ter desconfiado desde o começo. O caráter agradável, sempre tão amigável enquanto os outros o fastavam. Lei nunca perguntou nada, nunca quis saber de coisas que Ciel não queria dizer, mas também nunca revelava nada sobre a própria vida. Mas afinal, o que ele estava fazendo ali? Voltou a encarar seu sequestrador, imaginando qual era a ligação dele com tudo aquilo. A resposta parecia óbvia. Óbvia demais para ser a verdadeira.
– Confuso? Você sempre me surpreende Cielsinho, achei que ia me encher de perguntas e que ficaria furioso. — Lei sorriu, se abaixando para ficar no mesmo nível. — Não está curioso?
Ciel estava, mas se recusou a fazer o que o outro esperava. Afinal, evitar o assunto que o outro estava obviamente desejando contar, revelaria muito mais segredos do que uma pergunta direta. Decidiu fazer outra pergunta no lugar.
– Onde estamos?
– Em baixo do salão. — Lei respondeu tão rápido que Ciel não absorveu a informação direito. Ele não achava que a resposta viria assim tão facilmente. Lawrence voltou a acariciar seu rosto com as pontas dos dedos, que lhe causou um arrepio incontrolável. — Não é um lugar difícil de achar, mas localizar a entrada pode ser um problema. Se tudo correr bem, não preciso transformar todo mundo lá em cima em reféns. Se seu demônio fizer alguma coisa antes de eu terminar, explodo tudo, inclusive nós dois.
– E você ganharia o que com isso?
– Bom, eu não perderia nada. Posso garantir.
Ciel permaneceu mais um tempo quieto, raciocinando e absorvendo a informação. Ele não perderia nada, nem mesmo a vida? Ergueu o olhar para voltar a encará-lo quando a mão em seu queixo o segurou com mais firmeza.
– Não quer saber por que fiz isso?
– Você é um shinigami.
Lei riu.
– Ahh Ciel. Tão perto e tão longe. É por isso que eu disse que você continua cego.
– Undertaker. O que você é dele?
– Eu diria que sou a grande obra-prima dele. Ou pelo menos uma parte dela. — Lei se agachou a sua frente, apoiando os cotovelos em seus joelhos. — Não se engane, o homem que conhece por Undertaker está mesmo morto. Ah, não me olhe dessa forma, querido. Eu estive dando pistas por tanto tempo, achando que quando o momento chegasse, poderíamos finalmente consumar nosso desejo reprimido.
– Do que está falando? — Se contraiu com a pressão das mãos de Lei em suas pernas, aliviado por não ser capaz de enxergar completamente seus olhos graças à luz refletida nos óculos. Não sabia se sentia raiva pelo que estava acontecendo, ou se simplesmente era a indignação que o impedia de gritar o que estava realmente pensando.
– Então ainda não quer saber? — Sussurrou, subindo as mãos pela sua coxa. — Vamos, diga que também deseja isso.
– Por que está fazendo isso? — Ciel finalmente perguntou, entrando naquele jogo doentio.
Lei abriu um sorriso ainda mais afetado. Subiu a mão pelo pescoço fino do garoto, tirando sua gravata e desabotoando sua camisa. Ciel começou a se remexer na cadeira.
– Shh, quietinho. Eu vou contar tudo, mas quero seu querido cãozinho conosco antes de começar.
Quando terminou de afastar o tecido da camisa, Lei pressionou a unha no peito de Ciel, no local da marca do contrato. Um fino filete de sangue surgiu, junto com o rompante da porta abrindo com um Sebastian ofegante. Uma de suas mãos carregava a foice de Undertaker, que continuou guardando consigo como um souvenir. A lâmina continuava suja com o sangue de algum dos seguranças que guardavam a entrada.
– Voce nao passou no teste, Sebastian.É melhor ficar ai na porta. — Lawrence disse, sem se virar para olhá-lo.
Ciel afirmou com um aceno, ao que o demônio respondeu com um suspiro, obedecendo.
– Então finalmente mostrou suas garras?
– Elas já estão à mostra há algum tempo. — Sorriu, se aproximando de Ciel para lamber o sangue que escorria de seu peito. O garoto se encolheu em um arrepio, e o demônio deu mais um passo por reflexo. Lei ergueu um dedo para ele, com os lábios ainda tocando a pele do menor. — Não deixei que se aproximasse.
Sebastian realmente queria matá-lo.
– Pare de enrolar, Lei. Agora estamos todos aqui. — Ciel grunhiu, apesar do rosto vermelho e de se sentir envergonhado por ser assediado na frente do demônio, encarava o outro com tanta firmeza como se nada houvesse acontecido.
– Vou contar uma história pra vocês. — Lei limpou a boca, ainda sem desgrudar de seu colo, apoiando-se nas pernas de Ciel como se fossem uma mesa. — Era uma vez, há muito tempo atrás, um deus da morte que sempre foi muito interessado nos humanos. Um dia, quando ele ia recolher a alma de um homem, se apaixonou por sua viúva. Mas por causa do seu envolvimento, a humana morreu cedo, junto com o fruto deste amor proibido. Obcecado pela vida humana e aposentado de seus serviços, o shinigami começou a fazer experiências.
– Undertaker. — Ciel sussurrou, vendo o amigo sorrir ainda mais e assentir com um aceno de cabeça.
– Essa parte da história vocês já conhecem. — Lei continuou, desenhando círculos com os dedos no peito nu de Ciel, que fazia Sebastian cravar as unhas na própria mão para se controlar. — Mas uma alma shinigami não morre simplesmente. E mesmo a criança não nascida de Kassandra sendo meio humana, o sangue shinigami continuava correndo em suas veias. Uma alma viva, mas sem corpo e sem memórias.
– O objetivo das experiências era dar um corpo para a alma do filho de Undertaker. — Sebastian disse, não uma pergunta, mas completando aquele quebra-cabeça que começava a fazer sentido.
– O shinigami que conhecem como Undertaker, estava pesquisando o que aconteceria se uma vida não terminasse depois do ceifador. Todas as experiências que ele fez no passado, todos aqueles anos de estudo, resultaram em nós dois.
– Nós? — Ciel se remexeu, tentando se afastar das mãos que insistiam em acariciá-lo. — Você é o filho do Undertaker!
– Sim, sou alma não registrada, que deveria ter sido morta no ventre de Kassandra. — Lei retirou os óculos, com um sorriso largo de coringa. — Gosta da cor dos meus olhos, Ciel?
Apesar de o garoto permanecer em silêncio, a retribuição do seu olhar, quase fascinado, foi resposta o suficiente. Ciel parecia preso em um transe.
– Sabe por que se sente atraído por mim? — Lei segurou sua nuca, encostando os lábios em seu ouvido e fazendo-o soltar um arquejo. — Parte da minha alma está em você. E esse pedacinho está louco para voltar a mim. — Terminou a frase beijando-o, um selinho casto que Ciel recebeu com um ofego. Só parou quando sentiu uma lâmina em seu pescoço, mas não se afastou antes de falar. — Vai mesmo me matar, demônio? Seu querido Ciel só está vivo por partilhar minha alma. Se me matar, acha que ele vai sobreviver?
Sebastian demorou a afastar a foice, com a testa franzida e o canto dos lábios tremendo de raiva. Ele não sabia o que poderia acontecer caso o restante da alma que mantinha Ciel vivo fosse morto, e preferia não arriscar. Respirou fundo, voltando a cravar suas unhas na palma da mão para conseguir se conter. Nunca havia precisado de tanto autocontrole quanto naquele momento. Mais uma primeira vez que ele não apreciava.
Lei gargalhou, fazendo Ciel sair do seu transe. Começou a tossir, como se o beijo o tivesse feito engasgar.
– Por que está atrás de mim? O que é que eu tenho haver com isso?! — Gritou, mais alto do que pretendia. Jogou o corpo para frente fazendo com que as cordas das mãos arranhassem mais seus pulsos. — Me solte! — Ordenou, tanto para Sebastian quanto para seu sequestrador.
– Os Phantomhive sempre tiveram uma relação muito estreita com meu pai, muito mais do que pode imaginar. Seu pai, Vincent Phanthomhive, era a querida cria dele, e Vincent Ghostkeeper era tão perfeitamente parecido que não tinha como não usá-lo — Lei se levantou e deu um passo para trás. Deu espaço o suficiente para Sebastian cortar as cordas. — Acho que filho de peixe, peixinho é. Quero fazer minhas próprias experiências com você.
No momento que Ciel teve os pulsos libertos, um cortador de galhos atravessou a sala, passando de raspão tanto em Lei quanto em Sebastian. William entrou recolhendo sua arma, obviamente frustrado por não ter conseguido acertar ninguém com ela.
– Cansei desta conversa. — Suspirou, arrumando os óculos com um ar entediado. — Francamente, já é hora de limpar essa bagunça.
Sem hesitar, ergueu a arma novamente, avançando sobre Lawrence sem vacilar. Mas para sua surpresa, quem impediu o golpe foi Sebastian, que brandia a foice em golpes que não eram destinados a matar. Mas doía muito; William percebeu quando a lâmina escorregou para seu braço.
– O que está fazendo? — O shinigami perguntou, empurrando o cortador para igualar a força.
– Impedindo que você o mate. — Sebastian não conseguiu resistir ao sorrir, saltando para ficar entre William e Lei.
– Você devia matá-lo! — Foi Ciel quem gritou, ainda correndo para desamarrar seus pés da cadeira.
– Você pode morrer se eu fizer isso.
– Não me importa, eu já deveria estar morto. Duas vezes. É uma ordem, Sebastian!
Sebastian precisou desviar de um golpe de William (que não estava se contendo nem um pouco), antes de responder.
– Já quebrei o contrato uma vez. Se for para te manter vivo, posso quebrá-lo novamente.
Ciel não encontrou palavras para responder. Ele não sabia se se importava, mas agora queria ver Lei morto. Quando se viu livre das cordas, já pronto para correr, Lei o segurou por trás, com uma faca encostada nas suas costas.
– Era para você estar fugindo. — Ciel sussurrou, ainda encarando a luta entre Sebastian e William, que discutiam enquanto tilintavam as lâminas. Pareciam ocupados demais para prestar atenção nos dois.
– Seu demônio vai me dar tempo. — Sorriu, puxando o corpo menor para mais perto até encostar os lábios na curva do pescoço. — Acha mesmo que eu não pensei em imprevistos? — Lei abriu uma passagem na parede e o arrastou consigo, sumindo do quarto antes que Sebastian pudesse escapar do shinigami para correr até ele.
– E como pretende pegar sua alma de volta? Me matando?
– Isso não te mataria, você apenas pularia para algum outro corpo, como da última vez. — Lei passou a lâmina de leve por toda a extensão de suas costas, trazendo um arrepio que causou um corte na camisa. Ciel parou de se remexer para evitar ser cortado também, aceitando seguir de forma pacífica. — Se você tivesse morrido naquele dia na Re:birth, teria sido muito chato de qualquer forma.
– Como sabe o que aconteceu lá?
– Uma informação da facção errada, convenientemente adiantada em um dia. De quem você acha que foi o erro?
Ciel sentiu seu sangue gelar, e uma raiva que só poderia existir por alguém que já tenha gostado antes, o fez parar de andar para encarar Lei diretamente.
– Você causou a morte de todos eles?
– Não de todos. Seu demônio teve mais parte no trabalho do que pensa... Ah, Ciel. Sinto muito pelo seu pai. — Lei sorriu, abaixando a faca com um dar de ombros que transmitia tanto cinismo quanto suas palavras. — É sério, se ele não morresse, você provavelmente não passaria por aquela terrível experiência com seu cãozinho.
Ciel não entendeu, e apesar da raiva, a proximidade e os olhos penetrantes de Lei o deixavam inebriado de forma irritante e inconveniente. Ele precisou respirar fundo para se manter concentrado.
– Está falando de Head?
– Não deste cachorro. — Lei riu. — Estou falando em transformar seu tutor e servo em amante.
Ciel corou, tanto por vergonha quanto por se sentir invadido. Já não bastava que William os tivesse visto, parecia que sua vida íntima era na realidade pública.
– Eu não preciso te vigiar para saber, Cielsinho. — Lei respondeu à expressão, rodando a faca no ar apenas para manter as mãos ocupadas. Não parecia que Ciel quisesse fugir, de qualquer forma. — Partilhamos uma coisa mais intensa, o que me torna capaz de sentir o que você faz. Saber até mesmo como você faz. — Aquela declaração só fez Ciel ficar ainda mais vermelho, Lei devolveu com uma expressão de nojo. — Ah, foi praticamente insuportável quando vi o que fizeram… Tive de ir correndo ao banheiro vomitar naquele dia. Foi quando eu percebi que era hora de agir.
Ciel não percebeu que estava recuando até encostar as costas na parede. Lei o acompanhava, um passo de cada vez, até finalmente encurralá-lo. Ciel precisou respirar fundo, calculando mentalmente qual distância estaria de Sebastian e se perguntando por que ele estava perdendo tanto tempo com William.
– Naquele sábado, no shopping, eu poderia ter te seduzido se eu quisesse. Sua perda de força vital no sexo te deixa sedento por mim. Que grande ironia, não? — Lei aproveitou a distração de Ciel para fechar os braços ao seu redor, mantendo a faca encostada em seu pescoço. — Mas eu não queria perder a cara de Sebastian quando eu o fizesse.
– O fizesse… — Apesar do tom de pergunta, Ciel só ecoou. Ele já sabia o que aquilo significava, mas não tinha coragem de tornar aquele pensamento consciente.
Lei se aproximou mais, dobrando o joelho entre suas pernas para ficar na mesma altura. Respirava pesado em seu pescoço, apenas para ver sua reação. Mas Ciel se mantinha parado como uma estátua, o que acabou instigando Lei a pressionar mais a faca e o próprio baixo ventre contra ele.
– Você disse que não faria sem Sebastian por perto. — Ciel disse com a voz um pouco falha, embora seu rosto permanecesse sério.
– Isso não significa que eu não possa aproveitar um pouco antes. — Lawrence passou as costas dos dedos em seu rosto, sorrindo conforme aproximava o rosto. — Por que está tão tenso, Ciel? Já disse que não vou te matar ainda. Podemos viver para sempre se eu quiser. — Pressionou o corpo menor ainda mais, subindo um pouco a perna.
Apesar do coração batendo a mil e de uma onda elétrica ter se instalado na base da sua barriga, Ciel tentava controlar as palavras que saiam da boca, tanto quanto alguns pensamentos que o invadiam. Era como se uma corda invisível o puxasse de um lado para o outro contra sua vontade, e o que Ciel mais odiava era se sentir controlado. Preferia acabar logo com aquilo, sem nem mesmo ligar para o que Sebastian pensaria de tudo.
Lei roçou mais a coxa entre suas pernas, acabando por perceber uma mínima reação do corpo de Ciel. Abriu mais o sorriso e lambeu o filete de sangue que saiu do corte no pescoço antes de voltar a sussurrar.
– Ou posso nos unir agora mesmo, e então saberemos o que pode acontecer com você.
– Acabe logo com isso então.
Lei não hesitou, afastando a faca na medida em que puxava Ciel pela nuca.
– Lembra quando me perguntou de quem eu gostava, Ciel? Vou te contar um segredo: Não é você.
Sem dar tempo de resposta, Lawrence uniu seus lábios. A comoção daquilo esvaziou automaticamente a mente de Ciel, que se segurou nos ombros para não cair. A tontura veio com lentidão, conforme a língua do maior parecia vasculhar não somente o interior de sua boca, quanto da alma. Alguma parte de seu corpo alertava que a mão de Lei subiu sua camisa, mas não conseguia fazer nada a não se manter de pé, e mesmo contra sua vontade, retribuir aos seus toques.
Esquecendo tudo ao seu redor, sentiu aquela náusea o dominar e finalmente tentou empurrar Lei para longe. Sem força o bastante para tal, só conseguiu ser apertado com mais força no abraço. Jogou a cabeça para frente, tentando uma posição que lhe desse menos enjoo. Não funcionou, e chegando ao ponto de querer vomitar, acabou desmaiando no momento em que ouviu a parede explodir ao seu lado. Não teve tempo de ver Sebastian entrar pelo buraco, desfalecendo nos braços de Lei.
_________
Ciel abriu os olhos para não ver nada além de um branco infinito. Sua cabeça latejava e um estranho formigamento tomava conta do seu corpo. Logo se irritou, levantando para procurar sua outra parte, que deveria estar em algum lugar. Começou a correr sem rumo, ignorando a dor de cabeça. Não era o melhor momento para desmaiar, e ele temia acabar ficando preso ali para sempre.
Até que ouviu antes mesmo de ver, a figura chorosa que agora já não era mais uma cópia de si mesmo, abraçando os próprios joelhos de cabeça baixa.
– O que está fazendo? — Ciel gritou conforme ia se aproximando, conseguindo ver com mais clareza quando ele levantou a cabeça assustado. Com cabelos acastanhados e olhos verdes, ele poderia ser uma espécie de filho seu com Lei. Acabou fazendo uma careta com aquele pensamento.
– Ele está me puxando… — O garoto gemeu, se agarrando às pernas de Ciel assim que ele parou. — Eu não quero ir.
– Quem está te puxando?
– Lawrence, o resto da minha alma.
– O que vai acontecer se você for?
As íris do outro se contraíram quando percebeu que seu cabelo estava claro, fazendo com que apertasse tanto as pernas de Ciel que ele teve que se dobrar sobre ele.
– Você vai morrer. Eu não quero isso…
– Não quer que eu morra? — Ciel estranhou o quanto estava calmo com aquela situação, se sentia deslocado e confuso. Deu tapinhas nas costas do outro para acalmá-lo. — Eu já deveria estar morto há muito tempo.
– Mas assim eu… Nós… — Diminuiu o abraço, se limitando a apenas segurar a barra da sua camisa. Finalmente ergueu seus olhos para encará-lo. — Não quero me separar de Sebastian. Você também não quer, admita.
Ciel não respondeu, um tanto surpreso com aquela declaração. Ele estaria mesmo bem se morresse? Se deixasse os prazeres da vida que acabara de descobrir?
Não. Ele queria continuar ali, presenciando cada mudança das pessoas a sua volta. Cada mudança que Sebastian causava na sua vida e nele mesmo. Aquele demônio egocêntrico e exibido, irônico e inexplicavelmente sedutor. Estar sem ele não era mais uma opção.
– Não deixe ele me levar. — Acordou dos seus pensamentos quando foi agarrado novamente com mais força, sentindo as unhas cravando por sobre a roupa.
Ciel se encolheu para abraçá-lo, pensando no que poderia fazer. A cor dos cabelos do menor a sua frente ia oscilando do mais claro para o cinza. Ele estava em contradição.
– Você precisa deixá-lo ir. — Disse com convicção, embora não tivesse plena certeza do que estava pedindo. Afastou-se um pouco para encará-lo nos olhos. — Nós somos um, mas você se mantém separado de mim. Nós renascemos juntos, vivemos a mesma história com Vincent, Head, Peter, Lei e Sebastian. Não importa que você seja parte dele. Deixe-o.
– Como…?
– Você sabe como. Apenas deixe de ser outra coisa a não ser eu. — Ciel viu o outro voltar a fechar os olhos, balançando o corpo para frente e para trás como um altista. — Se concentre no que não quer perder. — Mordeu o lábio, engolindo a hesitação. — Concentre-se no Sebastian, como fizemos quando morremos da primeira vez.
Ciel viu os cabelos do outro começarem a escurecer, mas aquilo era pouco consolo comparado à situação atual. Lei não pararia, e poderia estar para sempre naquele jogo de gato e rato, exatamente como antes. Ele seria jogado de um lado ao outro como um peão. E Sebastian estaria entre eles.
Aquilo ele não permitiria.
Como ele mesmo havia dito um dia, era humano, e humanos se agarravam a pequenas coisas com egoísmo, como a vida, as posses, o desejo.
– Somos um. Você precisa aceitar isso de uma vez. Me entende? — Ciel ergueu o rosto do outro novamente, encarando-o com determinação. Seus olhos voltavam ao azul aos poucos, e sua expressão era assustada. — Vamos fazer isso. Sem importar os riscos, ou o que acha que vai acontecer. Vamos fazer isso.
O outro confirmou com um aceno, sem precisar de palavras para entender o plano. Proteger algo importante para si era um grande jogo, e ele não perderia desta vez. Mas para isso ele tinha que roubar de alguém.
Roubar de Lawrence.
__________
Ciel voltou à consciência deitado de lado no chão. Certamente havia sido ajeitado para ficar naquela posição, tão confortável. Não soube quanto tempo ficou desacordado, mas não deveria ser muito tempo, tendo em conta o que acontecia no outro canto do túnel. Lawrence se encontrava contra a parede, com Sebastian segurando-o pelo pescoço com a foice erguida. William estava de pé atrás dele, estranhamente apático a toda aquela cena.
Ciel pigarreou antes de levantar, chamando a atenção de todos. Se aproximou dos outros três com o ar arrogante que parecia ter esquecido há algum tempo.
– Ah, então ainda tem alguma coisa ai pra te deixar vivo? — Apesar do humor no rosto, Lei disse com a voz estrangulada.
– Ciel? — Sebastian articulou, em um tom que poderia ser um misto de perguntas como “Está tudo bem?” e “Você ainda é você mesmo?” com um pequeno toque de “Posso matá-lo agora?”.
– Pode soltá-lo.
Sebastian hesitou um pouco antes de se afastar, ainda mantendo a foice em posição. Lei deu uma relaxada, passando a mão no local onde estava sendo enforcado.
– O que planeja fazer agora, Cielsinho? — O sorriso de Lei aumentou, embora a expressão de Ciel séria e morta diminuisse sua graça. — Você só está vivo por minha causa. Quer me manter preso para sempre?
– Acho que o certo é dizer que você está vivo por minha vontade, não acha? Te manter preso não resolveria o meu problema, só o adiaria. — Ciel tomou o lugar de Sebastian, com a mão sobre o pescoço de Lei. Se permitiu um mínimo sorriso, tão curto quanto possível, que fez o outro se sentir bem menos confiante. — Parabéns, foi tudo como planejou. Exceto por uma coisa…
Puxando Lei para baixo, Ciel uniu seus lábios para a surpresa de todos. Um beijo que parecia dolorido para o amigo em choque. Ninguém ali, exceto Ciel, parecia saber o que fazer naquele momento. Sebastian até deu um passo para a frente, entre parar Ciel ou simplesmente perguntar o que estava acontecendo, mas se limitou a ficar parado como Wiiliam, apenas esperando e assistindo. Embora suas unhas cravadas na própria mão ensanguentada mostrassem qual era seu verdadeiro estado de espírito.
Lei finalmente começou a se debater um pouco, forçando para se afastar do outro. Lawrence era certamente mais forte que Ciel, mas não obteve sucesso para repeli-lo. Até que Ciel acabou parando, deixando que Lei se afastasse com os olhos arregalados e a boca aberta. Sangue escorrendo até seu queixo. Baixando a cabeça para confirmar, Lei viu a pequena adaga que deveria estar no chão, cravada em sua barriga. Ciel continuava sorrindo, ainda segurando o cabo.
– Sua alma que estava comigo, quer continuar aqui. Agora ela é minha. — Ciel sussurrou, tão baixo que apenas Lei ouviu. Se afastou alguns passos, vendo o outro deslizar pela parede.
– Como…? — Lei perguntou em um suspiro, deixando mais sangue sair da boca.
– A atração era mútua. A alma que estava comigo queria voltar para você tanto quanto a sua queria vir para mim. O desejo é poderoso, Lei. E eu tenho mais desejo que você. — Ciel jogou a faca no chão, aos pés do amigo. Sorria de forma medonha. — Agora ela é minha, e eu até poderia deixá-lo viver. Mas alguém tinha que pagar pela morte de Vincent.
– A tentação do demônio… Agora entendo por que ele te escolheu. — Lei fechou os olhos e sorriu. Mas diferente do sorriso de deboche que o pai tinha antes de morrer, o dele era um simples sorriso de contentamento. Um sorriso quase triste.
– Pode matá-lo, Sebastian.
Desta vez, Sebastian não pensou em desobedecê-lo. Sem esperar outro sinal, passou a lâmina em seu pesoço, separando a cabeça do restante do corpo com tanta facilidade que fazia Lei parecer um boneco. Ciel fechou os olhos, talvez pela cena ser grotesca, ou por não querer ver um antigo amigo ser morto à sua ordem. Porque por mais que tudo aquilo tivesse acontecido, Lawrence já havia sido seu amigo mais próximo.
– Acredito que agora acabou. — William declarou, anotando algo em seu livro de registros. — Cada alma em seu devido lugar. — Se virou para encarar Ciel, arrumando os óculos algumas vezes no rosto. — Exceto...
Sebastian cravou a foice entre Will e o garoto, fazendo com que o shinigami desse um passo para trás para não ser acertado.
– A alma de Ciel é minha. — Sebatian disse, largando o cabo da foice. — Falando em acordos, pode ficar com esta.
– Francamente, vocês se merecem. Roubar uma alma shinigami... O garoto é mais demoníaco do que o próprio demônio. — Will tirou um lenço do bolso antes de pegar a Death Sthyce. Voltou seus olhos para Ciel. — Eu não poderia pegar sua alma, mesmo se mandassem.
– Então é isso? Eu sou imortal agora?
– Até que um demônio te mate com uma arma shinigami, sim. — Will fechou o livro de registros e deu as costas, ajeitando os óculos no rosto uma última vez enquanto encarava Sebastian longamente. Era óbvio que ele era o único que sabia disso, e Will odiava o fato de não poder matá-lo antes que o contrário pudesse acontecer. — Não se esqueça garoto: demônios não criam, apenas destroem.
Com um aceno, foi embora sem mais palavras ou despedidas. Tinha um relatório bem extenso para entregar, e não tinha tempo para perder com um demônio e um... Seja lá o que Ciel era agora.
___________________
Mengele checou as horas novamente em um pequeno relógio de parede. Se sentia ansioso e deprimido, e olhar o relógio constantemente não ajudavam em nada. Mas aquele era o único objeto que tinha naquele quarto, fora a cama, então precisava se contentar. Estava preso, e aquela sala acolchoada com cheiro de água sanitária o deixava enjoado.
Quando criança, nunca teria imaginado que aquilo pudesse estar acontecendo. Era só uma ingênua criança rica que precisava de atenção. Atenção essa que encontrou no lugar mais inesperado. Lawrence era um psicólogo que se auto-denominava “exorcista dos demônios da mente” e virou uma espécie de santo para sua mãe na época. Frequentava sua casa tão constantemente que mais parecia um membro da família.
Bonito, carismático e inteligente, não era difícil se sentir cativado por ele. Mas o tempo foi passando, e o carisma foi virando outra coisa quando Mengele fez dezesseis anos. Não importava que o doutor tivesse quase trinta anos a mais, ou se também era homem. Mas amor não era uma coisa que o dinheiro consegue comprar, e o máximo que ele conseguiu de retorno era um pouco de afeto. Cada vez mais próximos, Mengele finalmente completou vinte e cinco anos e herdou toda a fortuna da família. Mas seus sentimentos nunca mudaram, e um dia Lawrence finalmente cedeu.
Apesar de unirem seus corpos várias vezes, Mengele nunca sentiu uma retribuição nos sentimentos. Era um homem rico que tinha praticamente tudo, mas se sentia incompleto. Talvez por causa deste mesmo sentimento se aproximou de Vincent, e qual não foi sua surpresa quando Lawrence ficou tão interessado neste novo amigo. Seu amante sempre fora excêntrico, mas nunca pensaria que não era humano. Ele estava envelhecendo, e sempre dizia que era por que sua alma não estava completa.
Mengele começou a acreditar naquilo.
Desde que Lawrence renasceu, ele sabia que aquele dia chegaria. Mas nunca se arrependeu do que fez, mesmo que seus sentimentos nunca fossem totalmente retribuídos, mesmo que aquele terrível fim o aguardasse. Seu único arrependimento foi ter deixado que Lawrence o drogasse, colocando-o para dormir junto de Ciel naquela festa.
Mengele acordou de suas recordações quando a porta abriu, revelando um garoto de grandes olhos azuis. Sorriu ao pedir que entrasse.
– Estive esperando por você. E seu tutor?
– Está lá fora, aguardando. Precisávamos acertar algumas coisas. — Ciel disse, parando em frente do homem. Não havia outras cadeiras ali para se acomodar.
– Se é você quem está aqui, imagino que venceu. — Mengele sorriu, rodando o relógio de bolso nos dedos. — Acha que acabou?
– Engraçado, eu ia perguntar o mesmo para você.
– Até onde me cabe, ele não podia morrer. É por isso que te criou.
– Ele queria morrer?
– Quem sabe… Lawrence sempre dizia que viver era um tédio. Acho que eu nunca o entendi completamente. — Fez uma careta triste, voltando a puxar o relógio do bolso. — Sabe de quem ele gostava?
– Achei que era você.
– Eu? — Riu — Em quase quarenta anos que estamos juntos, ele nunca retribuiu meus sentimentos.
– Então por que ajudá-lo?
– Sempre fazemos coisas por sentimentos incontroláveis, pelo menos uma vez na vida. No meu caso, acho que foi a vida inteira. — Mengele se levantou, ainda com um sorriso triste no rosto. — Mas ele não ficou comigo até o fim. Me afastou.
– Se você estivesse lá naqueles túneis, teria morrido também.
– Acha que ele quis me salvar?
– Eu não acho nada. Só estou contando os fatos. — Ciel tirou um colar do bolso, com um pingente em formato oval. Estendeu-o para o doutor. — Lawrence segurava isso quando morreu. Sabe o que significa?
Mengele se aproximou mais, vendo um grande S desenhado de um lado, e do outro um M.
– Lawrence guardava isso com ele. Disse que dentro tinha algo que pertencia a pessoa que ele gostava. Posso saber o que tem ai?
– Um pedaço de pano com sangue. Mas é velho demais para uma análise. — Ciel voltou a guardar o colar no bolso, dando as costas.
Mengele agarrou o pulso de Ciel, impedindo-o de sair.
– Ele ainda vive em você, não é? — Sussurrou. — Eu posso ver. Talvez não sua consciência, mas tem algo dele em você.
– Eu continuo sendo eu, Mengele. Sempre fui. É por essas coisas que te consideram louco.
Dois médicos entraram no quarto, segurando as mãos de Mengele para afastá-lo do garoto.
– Mas olhe como as coisas estão agora.Você está aqui, preso neste manicômio. E eu poderei viver para sempre... — Ciel sussurrou esta última parte, sorrindo antes de sair pela porta. Sebastian o esperava do lado de fora, junto com um outro médico que apenas observava. Era o jovem que havia sido parceiro de poker de Sebastian na festa.
– O que acha? — O médico perguntou.
– Ele não é perigoso, só está fora de si. Mas consegui o que precisava, muito obrigado.
– Não é perigoso? Depois que disseram que ele quis explodir todo mundo na festa, tenho calafrios. — O homem disse, ajeitando o jaleco como para se expressar melhor. — Pena que agora as chances da Re:birth abrir tenham desaparecido. Isso teria ajudado bastante na área psiquiátrica.
– Vendo Mengele, isso foi melhor mesmo.
– É, acho que tem razão. — Deu tapinhas nas costas do menor, se virando para Sebastian. — Bom, talvez nos veremos em breve. Peter queria marcar mais uma partida de poker.
Sebastian retribuiu o sorriso.
– Apenas se as apostas forem boas.
Se despediu, seguindo Ciel que já caminhava até o carro. Precisavam passar em mais um lugar aquele dia, e embora Sebastian tenha achado aquele destino um pouco estranho, não chegou a comentar. Estavam indo ao cemitério. Ciel sempre terminava naquele tipo de lugar mesmo, como se a morte o rodeasse e até gostasse dele. Mais até do que o próprio demônio. Não conseguiu evitar em pensar no que Will havia dito naquele dia.
O túmulo de Lawrence era simples e foi colocado ao lado do mausoléu de Kassandra Smith. Talvez a pedido do próprio Lei em seu testamento. Ciel não havia ido ao seu enterro no final, mesmo que quem tivesse sido considerado culpado pela sua morte fosse o Mengele.
Ciel colocou um lírio branco ao lado do colar, sob o mármore onde o nome de Lawrence estava escrito.
– Descobriu o porque do meu sangue estar neste colar? — Sebastian perguntou, vendo o garoto pegar uma pedra do chão e começar a riscar a lápide.
– Não. — Ciel mentiu. — Mas não importa mais. Acabou. — Aquilo já era verdade. Realmente não importava. Mesmo que o objetivo de Lei ainda permanecesse um tanto sombrio. No fim Ciel havia vencido, de todas as formas possíveis.
Ciel terminou de riscar e levantou, se afastando. Caminhou para o lado de Sebastian para ver como havia ficado.
Abaixo de onde estava gravado “Lawrence Zimmer”, Ciel talhou a força “Ghostkeeper” no mármore. Era como um ritual egoísta, onde ele firmava sua vitória ao mesmo tempo que determinava sua própria alma. O Ciel Ghostkeeper não existia mais. Agora eles finalmente eram um. Sem contradições, sem incertezas.
– Não acha que será problemático deixar seu nome ai? — Sebastian disse, com uma expressão um tanto perplexa.
– Quem se importa? Você será o meu responsável mesmo. Até eu morrer.
– Você não pode morrer, não enquanto eu não quiser.
Ciel sorriu e se aproximou, com aquele sorriso arrogante que o fazia parecer mais velho. Puxou o outro para baixo pela gola. Seus olhos tinham adquirido um novo brilho agora, como se irradiassem luz própria. Um efeito colateral por ter uma alma mesclada com a de um Shinigami. Mas aquilo, Sebastian percebeu, só o deixava ainda mais tentador.
– Me parece que minha vida voltou para onde sempre esteve: Nas suas mãos.
– Então vai me chamar de mestre, agora?
– Você teria que implorar por isso, demônio.
Sebastian sorriu, segurando Ciel pela cintura enquanto se deliciava com aquela expressão. Nem humano, nem Shinigami, quase demoníaco. Era assim a pessoa que ele havia escolhido servir pela eternidade. E nunca se arrependeria da escolha.
– Você criou isso, Sebastian — Ciel sorriu, puxando ainda mais a gola do maior. — Agora vai ter que me aguentar para sempre.
Afinal era isso. Diferente de qualquer lógica nesse mundo, aquele demônio criou algo totalmente impensado. Nada físico. Nada que pudesse ser visto ou tocado. Porque o que os ligava não era mais um contrato ou uma vingança, era uma necessidade. O puro e simples desejo que os consumia completamente.
Eternamente.
Sebastian também não reprimiu o sorriso, puxando Ciel para tocar seus lábios em um acordo secreto.
– Para sempre…
~Fim~
Fale com o autor