Timeless
17 Cap. 17 - Doce tentação
Notas iniciais
Peter entrou na casa maravilhado, andando de pescoço esticado para apreciar a mansão em que Ciel estava morando com o tutor. Que tipo de homem era aquele que surgiu do nada, afinal? Depois de toda a pesquisa que fez, só conseguiu descobrir que era um homem rico que não parecia ter gasto nenhum centavo há pelo menos 20 anos, mantendo sua fortuna herdada de maneira misteriosa.
– Você trabalha com o que mesmo? — Peter perguntou, como quem não quer nada.
– Ações. — Sebastian respondeu com um sorriso.
Aquilo até poderia fazer sentido, pensou Peter. Não eram poucos os magnatas que tinham rios de dinheiro graças ao investimento em ações, mantendo os lucros em bancos no exterior e fazendo uma fachada de “ficha limpa”. Tentou deixar aquele tópico de lado por um momento, tentando pensar em como ele havia conseguido a confiança de Vincent a ponto de ter a guarda de Ciel.
Não podia negar que tinha certo ciúmes de tudo aquilo. Peter conhecia Vincent há muitos anos, e pelo que sabia, era o mais próximo de amigo que a família Ghostkeeper poderia ter. Então precisar ir até aquela mansão para pedir permissão era totalmente humilhante.
Parando na frente de uma sala, esperou que Sebastian abrisse a porta. Entrou logo depois, indo imediatamente para o lado de Ciel na poltrona.
– Cieel! Que bom vê-lo em tão boa saúde! — Peter logo correu até o garoto, parando um pouco antes de abraçá-lo ao vê-lo se retraindo no lugar. — Ah, vamos! Não está feliz em me ver?
– Você não disse que viria.
– Claro que disse. Na escola, alguns meses atrás. — Se sentou em um sofá logo a sua frente. — Como vocês não vieram até o meu escritório, precisei aparecer por aqui.
– Só me lembro que naquele dia você me disse algo que me deixou curioso. — Ciel disse se inclinando, com uma pose altiva de alguém vinte anos mais velho. Peter se lembrou de Vincent naquele momento. — Você disse que eu era um milagre por ter nascido. O que quis dizer com isso?
Peter pigarreou e desviou o olhar. Não lembrava de ter dito aquilo. Teria sido um vacilo e tanto se fosse verdade, então preferiu fazer cara de desentendido.
– Peter. — Ciel chamou, vendo o outro ficar imediatamente nervoso em expectativa. O secretário do seu pai nunca funcionou muito bem sobre pressão. Ele teve de esperar que o outro finalmente lhe olhasse nos olhos para poder continuar, em tom de quem contava um segredo. — Eu sei que sou um dos experimentos do meu pai.
Peter arregalou os olhos e ficou branco como um sulfite. Não tentou nem negar, sabendo que sua expressão o delatava.
– Como sabe?
– Sei também que fora os animais, eu sou o único humano que deu certo. Como ele conseguiu?
Peter suspirou fundo, encarando as próprias mãos. Não esperava que Ciel descobrisse algum dia. Vincent não pretendia contar nunca, e ele muito menos. Por mais que a possibilidade de ganhar dinheiro em cima da informação de que Ciel era um clone, Peter havia prometido nunca contar. Mesmo ele não sendo um homem de muitas palavras, Vincent era Vincent.
– Eu não posso dizer. — Respondeu, apertando as mãos uma na outra em um ato de nervosismo.
– Eu tenho o direito de saber, não acha?
– Acho sim, mas…
– Olha, Peter. Eu descobri tudo isso da pior forma possível. — Ciel usou um tom emotivo, falsamente magoado. — Cheguei a ficar com raiva dos meus pais. Raiva de verdade, sabe? Mas não acho que meu pai faria isso comigo pelos motivos errados.
– Claro que não. Vincent te amava. — Peter começou a gaguejar, atordoado.
– Então me explique. Me mostre que eu não tenho motivos para odiar meu pai.
Peter engoliu em seco. Mudou de posição no sofá, passando os olhos rapidamente pelo cômodo e parando em Sebastian, que parecia uma estátua de pé. Se sentia acuado daquela forma, mesmo que fosse alguns centímetros mais alto que o outro, havia aquela atmosfera medonha em torno do novo tutor.
Suspirou resignado. Vincent o perdoaria se ele quebrasse a promessa naquelas condições.
– Sua mãe não podia ter filhos, por causa de um incidente que aconteceu com ela quando era mais nova. — Peter começou, afrouxando a gravata com um repentino calor. — Mas Vincent não queria ter filho com outra mulher e também era orgulhoso demais para adotar uma criança. Queria fazer seu próprio filho, no sentido mais literal da palavra. A Re:birth ainda era uma pequena empresa de pesquisa e genética. Eu era só um estagiário na época. — Sorriu nostálgico, se lembrando daqueles tempos. — Mas então, um novo acionista entrou na Re:Birth, comprando quase setenta por cento da empresa. Ele ficou bem amigo do Vincent… E o convenceu a começar com essa história de clones. Eu virei seu secretário quando ele foi promovido a líder do projeto.
– Meu pai me usou como uma experiência? — Os olhos de Ciel brilharam, como se estivesse prestes a chorar.
– Claro que não! — Peter se ajoelhou na frente de Ciel, segurando suas mãos. — Desde o começo, Vincent parecia ter certeza de que você seria o único humano que ele faria.
– Então esse homem… Como ele convenceu meu pai a me fazer?
– Não é como se seu pai nunca tivesse pensado nisso. Mas esse homem… O Sr. Mengele parece ter mostrado que isso era possível de alguma forma.
– Não eram só negócios? — Uma lágrima escorreu dos grandes olhos azuis de Ciel, junto com um suspiro que parecia um soluço.
Peter o abraçou emocionado, afagando seus cabelos como se faria com uma criança pequena.
– Vincent te amava, Ciel. Todos os esforços nas pesquisas apenas provam isso.
Ciel retribuiu o abraço, segurando a mão de Peter para impedir que ele continuasse aquela carícia irritante em sua cabeça.
– Obrigado, Peter. Eu precisava mesmo disso. — Se afastou com um sorriso, que fez o outro corar.
Era o “Sorriso de Adonis” que Peter tanto admirava em Vincent.
– Bom. — Pigarreou constrangido, se afastando para voltar a sentar no sofá. — Já que estamos falando sobre a Re:birth…
Peter não conseguiu terminar a frase, vendo Ciel cair de lado e ser acudido imediatamente por Sebastian, com uma rapidez impressionante. Parecia ter desmaiado.
– Ciel estava um pouco indisposto desde manhã. Queira perdoar. — Sebastian disse, ajeitando-o melhor no sofá.
– Ele está bem?
– Apenas caiu no sono, não se preocupe.
Peter parecia verdadeiramente preocupado, abanando o garoto mesmo sem adiantar de muita coisa.
– Acho que é melhor deixarmos ele dormir. — O tutor disse, pousando a mão em seu ombro para fazê-lo parar.
– Claro… — Peter corou envergonhado, entendendo a indireta. — Acho melhor eu voltar outro dia.
– Qualquer dia. Só peço que nos avise com antecedência, para que possamos estar mais… Preparados. — Sebastian se levantou com Peter, indo acompanhá-lo até a porta.
– Não precisa. — Bateu nas costas do tutor, indicando Ciel com a cabeça. — Melhor você ficar aqui cuidando dele. Eu me lembro onde é a porta. — Viu o outro concordar com um aceno e voltou a apertar o nó da gravata. — Eu virei na quinta, de tarde. Desculpe minha pressa, mas preciso resolver isso logo.
– Estaremos lhe aguardando.
Com um aceno, Peter partiu pela porta ainda meio atordoado com o que acabara de acontecer. Se sentia menos culpado por ter revelado o segredo de Vincent, depois daquela reação fofa que Ciel mostrou. Mas ainda estava um pouco preocupado. O tutor do garoto sempre parecia formal demais. Devia ter algo errado.
Sebastian deixou de olhar para a porta um pouco depois de ouvir o carro de Peter dando partida. Voltou a se virar para Ciel, estendido no sofá.
– Foi uma grande atuação essa.
Ciel sorriu antes de abrir os olhos, levando a mão a testa enquanto o riso curto virava uma gargalhada contida.
– Ele caiu feito um patinho! Viu a cara dele? E pensar que Peter poderia ser útil algum dia… — Suspirou. A risada morrendo aos poucos. — Agora temos um nome.
– Sr. Mengele, acionista da Re:Birth. — Sebastian se sentou no sofá onde antes Peter se encontrava. — Quer que eu pesquise sobre ele?
– Sim, faça isso. — Bocejou. — Mas por agora, quero dormir. Meu desmaio não foi assim tão fingido.
Como uma criança, Ciel ergueu as mãos pedindo colo.
– Quer que eu te leve? — Sebastian franziu o cenho, achando graça. — Não está grandinho, não?
Ciel corou e fez uma careta emburrada.
– Você quem resolveu ser mais agressivo hoje. Agora me ajude a ir até a cama.
Disfarçando uma risada enquanto rodava os olhos, Sebastian pegou o garoto como uma princesa, carregando-o até o quarto. No caminho, Ciel escondeu o rosto no peito do maior. Em parte pela posição vergonhosa, e o resto para sentir seu cheiro.
Foi deixado na cama com delicadeza, como se fosse quebrar caso usasse muita força. Acabou puxando o cardigã de Sebastian quando ele se virou para sair do quarto.
– Quer que eu fique? — O demônio perguntou, se virando para encarar o menor que não respondeu, apenas abaixou a cabeça olhando para o nada. — Está com medo?
Ciel soltou sua roupa, irritado.
– Quer saber? Esquece… — Berrou, deitando virado de costas, se cobrindo com a manta até a cabeça.
Rindo, Sebastian tirou o cardigã e os sapatos. Afastou a coberta e se deitou atrás do garoto, contornando a cintura fina com o braço. Seus corpos tinham um encaixe perfeito.
– Não pedi pra você ficar. — Ciel reclamou baixo, a voz abafada pela manta.
– Não pediu. — Sussurrou em resposta. — Mas estou fazendo isso por vontade própria.
Ciel não disse nada, apenas se acomodou melhor sob os braços de Sebastian. Um mínimo sorriso se formou em seus lábios, escondido debaixo das cobertas.
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Depois daquele dia na casa de Eliza, Ciel passou a evitá-la sem muito esforço. A deixava falando sozinha ou fingia que não a conhecia, esquivando de seus cumprimentos calorosos e repentinos.
Elisa havia deixado de fazer parte do “jogo”, já que nem sua alma ou de seus pais e avós faziam parte da trama de Undertaker. Mesmo que sua linhagem fosse inquestionável, o fato daquela foto ter sido a única coisa que restou de Kassandra, significava que a única pessoa que poderia ter alguma dica decente já estava morta há muito tempo.
Ciel não se importava com os boatos que se espalhavam pela escola, onde as más línguas afirmavam que ele não queria mais nada com ela depois de conseguir levá-la para a cama. Os rumores nunca foram um problema. Nada seria pior do que ser chamado de “Filho do satanista”. O problema era que Eliza nunca havia recebido um não na vida, e não parecia perceber que estava levando um gelo de Ciel. Mesmo sendo ignorada durante o dia todo, a garota insistia em se pendurar em seu pescoço, falando frases desconexas e sem sentido em uma voz que fazia Ciel se lembrar de uma sirene desafinada.
– Eliza, seria melhor nos poupar dessa cena aqui. — Ciel disse, em uma tentativa de fazê-la entender que ele não queria voltar para casa com ela. — Você está gritando.
Ela observou em volta, vendo todos os olhos voltados para os dois, mesmo que disfarçando. Como todo adolescente, ela gostava de chamar atenção. Mas naquele momento ela percebeu que estava passando vergonha. Ainda mantendo os braços nos ombros de Ciel, o puxou para um lugar mais escondido pelas árvores ao lado da saída.
– Por que está me tratando assim, Ciel? Foi tudo tão bem naquele dia… — Eliza apertou mais o abraço, roçando suas pernas entre as dele. — Você queria ter ido até o fim, é isso?
Ciel a empurrou com mais força do que pretendia. Respirou fundo, cruzando os braços como para manter uma barreira mínima entre eles.
– Olha Eliza, eu não quero mais sair com você. Não gosto de você e nem sinto atração nenhuma. Não precisa se humilhar tanto.
– Então porque me beijou naquele dia? — Ela estava prestes a chorar.
Ciel bufou irritado, querendo gritar bem alto que era por ela tê-lo obrigado. Sentiu uma mão pousar em seu ombro. Assustado, olhou para trás em tempo de ver Lei lhe abraçando com espontaneidade.
– Ciel estava testando, loira. — Ele disse, sorrindo como uma raposa ao ver o espanto de ambos. — Não é mesmo?
Ciel permaneceu calado, sem entender. Eliza se aproximou corada de raiva, intencionando empurrar o recém chegado.
– O que está fazendo aqui, Lawrence?!
– Achei melhor explicar o que está acontecendo. — Lei levou a outra mão ao topo da cabeça do menor, segurando-o como se fosse um boneco. — O Cielsinho aqui estava te provando, mas descobriu que não é dessa fruta que ele gosta.
Eliza piscou, parada, encarando o rosto zombeteiro de Lei. Piscou mais uma vez, passando a olhar para Ciel sem entender. Ele permanecia calado e levemente corado.
– O que?
– Ok, acho melhor deixar mais claro: O Ciel gosta de homens. — Lei pontuou cada palavra, como se ela fosse retardada.
A garota sentiu como se tivesse levado um empurrão repentino. Começou a se desesperar com a expressão séria que Ciel mantinha.
– Isso é brincadeira, não é? — Sorriu de nervoso, vendo o garoto negar com um balanço de cabeça. — Não acredito...
Ciel abriu a boca para responder, mas foi puxado para se virar, tendo seu rosto erguido para ficar de frente para Lei. Viu por um segundo os olhos verdes brilharem antes de fechar. Seus lábios se encostaram a mesma medida que o maior lhe invadiu a boca, sugando sua língua com vontade para incitá-lo a acompanhar seu próprio ritmo. Ciel se deixou levar, sentindo a mente ficar vazia parecendo incapaz de pensar ou mandar o corpo recuar. Não foi como se aceitasse, mas como se fosse mergulhado em uma lagoa onde a única saída para respirar, era nadando mais fundo.
Com o corpo meio mole, Ciel se segurou nos ombros para manter-se de pé, enquanto seu corpo era inclinado em uma posição constrangedora. Não ouviu quando Eliza exclamou irritada e saiu correndo, apenas aproveitando daquele toque úmido e quente, confortável de uma maneira impossível de descrever. Moveu a cabeça para sentir mais, com as bocas encaixadas em movimentos lentos e profundos.
Alguma coisa dentro de si se desesperou querendo pular para fora, fazendo com que uma sensação de estrangulamento se instalasse em sua garganta. Em resposta, Ciel mordeu os lábios de Lei com força.
– Ai! — Lei se afastou pressionando o lábio machucado, deixando Ciel cair de joelhos no chão. — Ok, ok. Parei já.
Ciel parecia em transe, olhando o nada ainda de boca entreaberta. Sua respiração ofegante o fazia parecer um asmático.
– Ciel! Tudo bem? — Lei o segurou pelo braço, tentando levantá-lo.
Um estranho vazio no fundo do estômago e uma vontade de vomitar o fez se dobrar em dois, acordando sobressaltado como de um pesadelo.
– Hey, isso é muita maldade! Eu não beijo assim tão mal! — Lawrence soltou um muxoxo, esfregando as costas de Ciel enquanto ele tossia. Sua expressão foi ficando mais séria conforme observava o amigo se endireitando, com dificuldade de respirar. — Sério, ta tudo bem?
– Você me beijou! — Ciel gritou o empurrando. — Por que fez isso?
– Desculpa, foi a única coisa que eu pensei pra fazer a Eliza sair do seu pé.
Por um momento, Ciel havia se esquecido da garota. Olhou em volta, percebendo que ela não estava mais lá. Se sentiu corar até as orelhas, sem acreditar no que havia acabado de acontecer.
– Mas você pôs a língua.
– Não achei que um selinho fosse convencê-la. — Lei deu um sorriso torto, ainda segurando em seu braço para impedi-lo de cair. — Mas funcionou, e você não precisava me morder!
Ciel ergueu os olhos, vendo um filete de sangue escorrendo dos lábios do outro. Não tinha idéia de que mordera tão forte. Não soube o que dizer. Nem ao menos sabia porque o havia mordido, ou o que foi aquela sensação de antes.
– Não precisava ter feito aquilo… — Ciel disse com um safanão, se desvencilhando dos braços de Lei sem conseguir encará-lo.
– Eu acho que você deveria me agradecer. Agora a Eliza vai parar de pegar no seu pé. — Lei resmungou emburrado. — E você bem que retribuiu…
Quando Ciel se virou para responder, foram interrompidos pelo farfalhar das árvores, que logo revelaram Sebastian surgindo um tanto ofegante.
– Está bem? — O demônio perguntou, analisando-o dos pés a cabeça com intensidade. Ciel respondeu com um aceno.
– E logo ele aparece, como um cachorrinho… — Lawrence murmurou, fazendo-se ouvir intencionalmente. — Bom, Ciel. Resolvemos isso na próxima, não é?
Sem esperar resposta, foi indo embora. Não sem antes abrir um sorriso de deboche para Sebastian. O demônio crispou os lábios, aguardando o outro sumir de vista para se aproximar de Ciel, puxando-o pelo braço.
– O que aconteceu? — Sebastian perguntou, firme e sem nenhum tom de emoção.
– Nada. — desviou os olhos para encarar o nada.
– Então porque o sangue dos lábios dele está no seu queixo?
Ciel correu a mão para esfregar o rosto, vendo que um fio de sangue havia escorrido até ali. Limpou com a manga com força, deixando seu rosto vermelho. Se sentiu corar ainda mais, puxando o braço para se soltar do aperto.
– Então..? — Sebastian pressionou.
– Ele me beijou… pra fazer a Eliza parar de me seguir. — Murmurou, praticamente em um sussurro. — Por isso eu mordi ele.
Sebastian suspirou, parecendo tentar se acalmar.
– Eu senti como se você estivesse em perigo. — Disse depois de um tempo, já relaxado. — Poderia ter matado o seu amigo.
Ciel não conseguiu evitar sorrir.
– Ciúmes?
Puxando o garoto novamente pelo braço, Sebastian iniciou um selo rápido, mas profundo. Um prensar de lábios quase dolorido de tão forte. Afastou-se arranhando com os caninos seu lábio inferior, fazendo um caminho até o ouvido.
– Só pra tirar o gosto da boca. — O demônio sussurrou, antes de soltar seu braço como se nada houvesse acontecido.
– Idiota, não faça isso em público. Podem te tirar minha guarda se virem isso.
Ciel o empurrou para mantê-lo mais longe, dando as costas para sair daquele abrigo de árvores. Ouviu o outro o seguir, mas não se virou para trás para confirmar. Pousou os dedos sobre os próprios lábios em uma estranha sensação de vazio. Seu coração disparou com o que acabou de constatar, abaixando a cabeça para esconder sua expressão.
Ciel queria sentir mais. Mas uma dor em seu peito o abateu ao perceber que aquele sentimento não era pelo demônio.
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Ciel encarava o nada com uma expressão vazia já fazia algum tempo. O que fazia Sebastian ficar inevitavelmente inquieto, já que ele sabia que aquilo era graças ao Lawrence.
Havia alguma coisa estranha naquele garoto. No começo, Sebastian achava que era só uma implicância por causa da proximidade que Ciel mantinha com ele. Mas agora era impossível negar que havia alguma coisa errada.
– Por que tem duas xícaras em cima da mesa? — Ciel perguntou, despertando dos próprios pensamentos quando Sebastian serviu a mesa a sua frente para o chá da tarde.
– Peter vai vir aqui hoje.
– Ah, tinha esquecido… — Voltou a se perder em pensamentos, brincando com um cubo de açúcar em cima da toalha de mesa.
– Ele vai falar sobre a reabertura da Re:birth. Melhor pensar em uma forma de fazê-lo te apresentar ao Dr. Mengele. — Sebastian pontuou, parado atrás do garoto. Um pouco irritado com sua falta de ação, ele puxou o rosto de Ciel para trás pelo queixo. — Está prestando atenção?
Ciel afastou a mão, embora permanecesse com o rosto na mesma posição.
– Não me diga o que fazer. Eu sei. — Resmungou, desviando o olhar. — Peter é mais fácil de dobrar do que parece.
– Você não me parece concentrado.
Ciel abriu a boca para protestar, mas voltou a fechar ao perceber que não tinha argumento. Pelos olhos de Sebastian, era claro que ele também sabia onde ou em quem seus pensamentos estavam. Mas o que dizer em uma situação dessas?
– O que somos, Sebastian?
O demônio piscou algumas vezes sem entender. — Hã?
– Estamos… — pigarreou — ...comprometidos, não estamos?
– Esqueci que humanos tem essa necessidade por rótulos. — Sebastian disse, parecendo aborrecido. Se inclinou sobre Ciel apoiando-se na mesa, pousando a outra mão em seu peito sobre a marca do contrato. — Essa marca nos une muito além do compromisso. Você quer um anel? É isso?
– Claro que não! Não estou falando do contrato, eu só… Só quero ter certeza de que não é só a minha alma.
Sebastian colocou o cubo de açúcar tirado dos dedos do próprio Ciel em sua boca, obrigando-o a se calar.
– Nunca foi só pela sua alma. — Disse com um dedo ainda pressionando o cubo de açúcar, sentindo-o começar a ser dissolvido. — Deixe de ser mimado.
Substituiu o dedo pelos próprios lábios, fechando a mão em forma de garra em seu peito para contornar a marca que lá havia. Sentiu o coração bater mais rápido debaixo de sua palma, em tempo que o menor correspondia totalmente entregue. Se retorceu um pouco quando as unhas se arrastaram em sua pele, sentindo o local se esquentar como brasa.
A campainha soou várias vezes, fazendo Ciel soltar um resmungo de irritação ao se afastar.
– Juro que sempre tive vontade de enfiar a cabeça do Peter na lama por ficar apertando a campainha como se ela fosse uma sirene.
Sebastian apenas sorriu, vendo que Ciel parecia ter voltado ao normal. Limpou os dedos com a língua antes de ir atender a porta. Doce.
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Peter sentiu o cheiro gostoso do bolo de maçã com canela antes mesmo de entrar na sala de estar. Sua boca salivou e ele teve de se segurar para não babar quando cumprimentou Ciel. Olhou a mesa posta de maneira elegante com quitutes que seriam dignos da rainha.
Sentando de frente da dupla enquanto era servido, estranhou o rosto corado do garoto.
– Está cansado, Ciel?
– Não, está tudo bem. — Deu um gole no chá quente, encarando Sebastian com o canto de olho.- Mas seria muito melhor se fôssemos direto ao assunto, se não se importar.
– Claro, sem problemas. Apressado como seu pai, eim? — Peter não resistiu em provar um pedaço do bolo antes de voltar a falar, sorrindo para o próprio prato sem perceber. — Já viu aquela notícia sobre os coelhos fluorescentes?
– Aqueles que fundiram com águas-vivas? — Peter afirmou com um aceno. — O que tem?
– Depois que eles nasceram, a grã-bretanha inteira esta correndo atrás da pesquisa genética. E quando se fala disso, é impossível não lembrar da Re:birth. — Peter se remexeu na cadeira, empolgado. — Não queremos ficar atrás da Turquia nesses quesitos. Já fazem dois anos que aquele incidente aconteceu e parece que o povo tem a memória fraca, ninguém mais fala sobre. Com isso em mente, alguns investidores e acionistas se reuniram e estão planejando reabrir a Re:birth dentro de um ano. Provavelmente com outro nome, para evitarmos os ativistas, mas com as mesmas pesquisas e líderes de projeto.
– Mesmos líderes? Achei que todos eles haviam morrido.
– Nem todos. Os que morreram com a explosão eram em sua maioria funcionários do baixo escalão. Os cientistas mais importantes evacuaram antes. — Peter limpou a garganta, desviando os olhos para o pedaço de bolo. — Vincent resolveu usar o laboratório e… por isso acabou morrendo também.
Ciel deixou a xícara na mesa, que não havia afastado dos lábios mesmo quando o chá acabou.
– Por que precisa das nossas assinaturas? Continuar com as pesquisas do meu pai só fará com que tudo aconteça novamente.
– O Dr. Mengele está interessado em dar continuidade as clonagens. E como maior investidor e dono da maioria das pesquisas… Sabe como é, ele é quem dita as regras. — Peter se levantou para se servir de mais um pedaço generoso do bolo, percebendo o olhar pensativo de Ciel se iluminar com o que disse. — Você receberia uma boa porcentagem dos lucros, claro.
Ciel sorriu, pegando um cubo de açúcar do pote para ficar brincando entre os dedos. Então ele nem precisou procurar pelo tal doutor.
– Eu gostaria de conhecer este Dr. Mengele antes. — Disse, quicando o cubo de açúcar para o prato com um peteleco.
– Ah, certo. Já estava me esquecendo. — Peter tirou um envelope do terno giz, estendendo-o sobre a mesa para Ciel. — Haverá uma festa neste fim de semana, reunindo todos que estão participando deste projeto. Desculpe te avisar assim em cima da hora, eu queria ter tido essa conversa algumas semanas atrás.
Ciel abriu o envelope, tirando de lá dois convites prateados do tamanho de um cartão de crédito. A assinatura rebuscada do Dr. Mengele podia ser vista em vermelho no canto.
– Vocês podem ir lá conversar com eles e tirar todas as dúvidas antes de assinar qualquer coisa. Seria bem proveitoso, não acha?
Ciel pensou que depois de tanto tempo sem evoluir em nada com as investigações, repentinamente tudo começou a acontecer e se revelar sem muito esforço de forma irracional. Ou ele tinha mesmo muita sorte, ou era alguma armadilha.
Mas de qualquer forma, aquele não era o momento de fugir. Não quando o peixe já estava na rede.
– Isso realmente seria bem proveitoso. — Respondeu, guardando os ingressos no próprio bolso.
Mas quem ali era o peixe, ele descobriria mais tarde.
Continua...
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