Timeless

15 Cap 15 - Quem procura...


Notas iniciais
Saindo do hiato! Yeahh! o/ (Solta rojões) Eu sei, eu demorei DEMAIS desta vez. Quase um ano. Mas começo a achar que faz parte do processo, já que minha última longfic eu demorei um ano e meio para escrever a fase final. Alguém ainda lembra do que aconteceu nos últimos capítulos? ^^' Aqui vai um resuminho: Ciel e Sebastian fizeram sexo decentemente o/. Sebastian revelou que parte da alma do garoto é meio-shinigami. Ciel começou a perceber que se sente atraído pelo amigo Lei e Eliza é a parente distante de Kassandra. Acho que é isso... Espero que continuem acompanhando!

Ciel respirou fundo, tentando se controlar para não sair correndo e acabar com aquele maldito plano. Mas era isso que ele precisava fazer, e era melhor que fosse logo pela manhã, para não se torturar o resto do dia.

– Bom dia, Eliza — Ele chamou com um aceno meio constrangido, pois todas as amigas de Eliza se viraram ao mesmo tempo para encará-lo. Por que garotas não andavam sozinhas?

– Cieel! — Eliza deixou as amigas para trás e praticamente grudou em Ciel, pousando as mãos em seus ombros como para impedir que ele fugisse. — Eu não te vi a semana toda! Achei até que estava se escondendo de mim.

– Ah, claro que eu não me esconderia de você. — Mentiu, com um sorriso tão bonito e tão falso que faria qualquer um que o conhecesse tremer. — Mas acabei percebendo que fiquei te devendo uma ida a sorveteria.

Eliza corou e por pouco não soltou um gritinho de alegria.

– Que tal hoje, depois da aula? — A loira perguntou tentando se aproximar mais, ao que Ciel se afastou a mesma distância.

– Claro. Nos encontramos aqui na porta. — Ciel deu mais um sorriso e se afastou, conseguindo finalmente relaxar os músculos que nem havia percebido ter tensionado. Agradeceu mentalmente por manter aquele cinismo do Phantomhive, pois se deixasse por conta do Ghostkeeper ele teria empurrado Eliza logo que ela encostou nele.

Suspirou aliviado, já que parecia que aquela atração por força vital que ele sentiu no dia anterior havia amenizado significativamente. A não ser que aquilo acontecesse apenas com Lei. E isso sim teria algum problema, por isso precisava confirmar o quanto antes.

– Hey, Ciel! O que está aprontando? — Pensando no dito cujo, Lawrence surgiu ao seu lado, logo pendurando em seu pescoço e sussurrando. — Resolveu se entregar a tentação da bela loira?

O coração de Ciel bateu mais rápido e um desejo quase esmagador de olhar naqueles olhos verdes se apossou dele. Aquela desculpa de que o garoto só estivesse atraído pela força vital dos outros não fazia mais sentido. A não ser que, talvez, Lei tivesse mais força vital que os outros a sua volta. Porque não era desejo carnal que Ciel sentia, tinha certeza que não chegava a ser algo sentimental também. Então o que poderia ser aquilo?

– Ciel? — Lawrence desgrudou do menor para chamar sua atenção.

– Quer ir comigo e Eliza para a sorveteria, Lei? — Ciel perguntou como se não estivesse em transe momentos atrás, vendo o outro fazer uma careta de estranheza.

– Você E Eliza? O que tinha me dito há algumas semanas, sobre ela ser mimada e tudo o mais?

– Pensei que não fosse má ideia conhecê-la melhor antes de julgar. — Mentiu. — Afinal, é uma garota muito bonita e mais velha que só falta se jogar sobre mim.

– Assim que se fala, meu garotinho na puberdade! — Lei deu palmadas de leve em suas costas, com um sorriso tão largo que lembrava muito uma hiena. — Mas não quero segurar vela, obrigado.

– Não vai segurar! — Ciel se empolgou um pouco ao dizer. Não queria revelar que na verdade Lei estaria lá para protegê-lo de alguma provável investida de Elisa. — Com você eu teria mais coragem.

– Não acho que Eliza vá gostar que eu esteja junto. Mas farei isso por você. — Lawrence abriu um largo sorriso, comovido pela fofura do outro. Uma expressão tão pura que fez Ciel se sentir um pouco mal de estar mentindo para seu melhor amigo.

Na realidade o plano de Ciel era extremamente vago e sem nenhuma garantia. Ainda mais levando em conta que a idéia geral era fingir algum romance com Eliza para poder descobrir quem Kassandra Smith realmente foi, e qual era sua relação com o pai de Ciel.

E se a sorte estivesse ao seu lado, algum parente de Eliza poderia ter alguma dica do que teria acontecido com Kassandra. E foi com isso em mente que Ciel seguiu cortejando a garota de forma tão ou mais descarada que ela própria vinha fazendo nas ultimas semanas, sempre mantendo Lawrence por perto para evitar que ela tentasse algo mais que um beijo na bochecha. Plano esse que não poderia durar por muito tempo.

– Estou cansado disso! — Ciel exclamou um dia, assim que voltou da escola e jogou suas coisas em cima de Sebastian. — Não estamos chegando a lugar nenhum.

– Você está enrolando. Costumava ser um bom detetive antes de… morrer. — Sebastian respondeu com um suspiro. Ele mesmo já achava que estavam andando em círculos, e William no pé dele o tempo todo não estava ajudando em seu humor. — Da forma que a senhorita Hidleford está atraída por você, não deveria ser difícil uma persuasão.

– É impossível manter uma conversa decente com Eliza. Ela muda de assunto e simplesmente ignora o que eu digo na maior parte do tempo.

– Ah, parece que vocês têm algo em comum. — Sorriu.

Ciel jogou uma almofada no rosto de Sebastian e caiu sentado de qualquer jeito na poltrona.

– Você também não está ajudando!

– Se bem me lembro, o jovem mestre me mandou não fazer nada, já que “consegue fazer tudo sozinho”.

Ciel abriu a boca para retrucar, mas parou antes que algum som pudesse sair. Era verdade que ele não queria que Sebastian realmente se envolvesse, embora nem ele mesmo soubesse o motivo.

– Undertaker teve um filho com uma humana. — Sebastian murmurou — Isso é tudo o que sabemos, e não passa de especulação.

– E pode ser que nada disso tenha relação com minha alma.

– É possível.

– Ahh, odeio isso! As únicas pistas que devem existir são de séculos atrás. — Ciel voltou a se levantar, parando na frente de Sebastian com os braços cruzados. — Às vezes eu preferia que você tivesse deixado Undertaker vivo, só para descobrirmos o que aconteceu, e poder matá-lo novamente.

Sebastian riu e passou a mão para a parte de trás do joelho de Ciel.

– Às vezes eu também queria matá-lo de novo. — Ele puxou sua perna para frente, fazendo com que Ciel se desequilibrasse e apoiasse os joelhos em torno do maior. — Mas você está aqui por causa dele, não é?

Ciel corou e desviou os olhos para algum lugar do chão.

– Nós já fizemos ontem. Não se cansa?

– Nós? — Sebastian subiu a mão pela parte inferior da coxa até o limite, roçando os dedos em uma provocação. — O único quem gozou foi você.

Como se fosse possível, Ciel corou ainda mais, se afastando das mãos de Sebastian para se acalmar. Apesar de gostar daquela relação que estava tendo com o demônio, não se sentia confortável com a facilidade que o outro agia ou falava daquela forma indecente. A quantidade de carícias e frases de duplo sentido havia crescido significantemente, e seu coração não aguentaria acelerar e falhar a todo o momento. Não que estivesse evitando Sebastian. Mas ele sentia que precisava se acalmar certas vezes.

Ciel voltou a vasculhar sua mochila, pegando a carteira e enfiando dentro do bolso da calça.

– Vai se encontrar com Eliza novamente? — Sebastian perguntou, ajeitando um casaco para que Ciel usasse.

– Não. Vou sair com o Lei. — Ciel respondeu em um sussurro, pois sabia o que aquelas palavras causariam no demônio. O problema era não saber qual seria sua reação.

Sebastian não respondeu nada. Apenas lhe entregou seu casaco e ajeitou um pouco seu cabelo, como uma mãe arrumando seu filho para ir á escola. E era disso que Ciel tinha receio, de Sebastian começar a agir como se fosse somente mais um criado novamente, dando um gelo nele sempre que mencionava Lawrence.

– Eu só vou ajudá-lo a escolher um novo óculos. — Ciel começou a se justificar, gaguejando de leve enquanto agarrava seu pulso. — Quer dizer, eu que os quebrei da última vez e estou devendo isso. Não é como se eu gostasse de estar indo, é mais como um dever.

Ciel não olhava para Sebastian, mas não soltava seu pulso. Ele não sabia porque estava se justificando, sendo que não devia explicações nem nada do tipo. Não era como se estivessem namorando, e mesmo que Lei causasse uma estranha atração, nada podia ser comparado ao que Sebastian fazia com seu corpo e sua mente.

Sebastian não pôde deixar que aquele sorriso cínico se formasse, aproveitando seu pulso preso para puxar Ciel para mais perto. Colou seus corpos, obrigando o menor a encará-lo. Pressionou a mão em seu peito, sobre a marca do contrato sob sua roupa, o que fez Ciel sentir o corpo todo queimar.

Um pouco antes de Ciel protestar de dor, Sebastian parou. Levou a mão até sua nuca para aproximar seus lábios do ouvido de Ciel.

– É bom que saiba a quem pertence. — Murmurou.

Ciel não teve tempo de retrucar, tendo seus lábios capturados antes mesmo de respirar.

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Ciel andava apressado pela rua, praguejando baixo enquanto se encolhia sob o cachecol. Estava irritado por não conseguir revidar o demônio, e ainda mais por ter cedido daquela forma. Quem Sebastian pensava que era? Afinal, quem pertencia a quem ali?

– Hey, Ciel! Já ia te ligar. — Lei acenou em frente ao shopping. — Você sempre foi pontual. Aconteceu alguma coisa?

Ciel forçou um sorriso, desviando o olhar para algum lugar do chão.

– Um pequeno imprevisto. Nada demais. — Ergueu os olhos depois de um tempo, percebendo que Lawrence lhe encarava de forma um tanto intensa. — O que foi?

– Nada. Vamos indo. — Lei abanou as mãos, como se espantasse um mosquito. — Acho que era de se esperar…

Ciel estranhou, mas não disse nada e apenas seguiu ao lado do amigo para dentro do shopping. Será que ele havia percebido que seu rosto corado não era pelo frio?

Tentou manter distância enquanto caminhavam, se lembrando sem querer de Sebastian a todo momento que recebia um calafrio ao encarar Lei por muito tempo.

Entraram na primeira ótica do lugar, que era também a maior, com uma grande prateleira que ocupava toda a parede com as mais diversas armações.

– Vocês já fizeram? — Lei perguntou em um sussurro, enquanto escolhia um óculos novo.

Ciel corou violentamente e deu um passo pra trás. Sua cabeça ainda parecia estar na mansão.

– Do que está falando?

– Ah, depois de um mês eu achei que você e Eliza pudessem ter… você sabe.

– Não, claro que não! — Ciel tentou parecer menos envergonhado, sem sucesso. — De onde tirou isso?

– Você anda tão alegre ultimamente que eu desconfiei. — Lawrence colocou um óculos de armação preta simples e virou para mostrar. — O que acha deste?

– Muito grande. — Ciel pegou outro do balcão e entregou a ele. — Tente este.

Lei colocou os óculos e olhou para o espelho, fazendo uma careta de desagrado.

– Bom, de qualquer forma, posso saber por que está tão feliz então?

– Não estou feliz. E estar tendo este tipo de relacionamento com outra pessoa não deixa ninguém mais alegre.

– Ah não? Ciel, somos adolescentes. Sexo é a única coisa que nos motiva a continuar vivendo.

Ciel corou, mas não pôde deixar de rir. Ele parou por um momento, encarando os óculos das prateleiras com um fingido interesse.

– E você?

– Eu o que?

– Já namorou antes? Vejo que é bem popular na escola.

– Ah, sou? — Riu. — Mas não, nunca namorei. — Lei colocou um óculos mais simples, de armação laranja que certamente não ficaria bem em ninguém, mas que realçou seus olhos de forma a deixá-los mais evidentes. — Gostei desse. O que acha?

Ciel apenas acenou em concordância, pensando em como achava as cores dos olhos do amigo bonitas. Lei considerou aquilo como um elogio, corando ao ir até a atendente, que os observava de longe. Mostrou sua escolha e acertou o grau da lente que ficaria no lugar.

– Ficará pronto em uma semana. — A moça disse, entregando um papel para Lawrence, enquanto o encarava longamente.

Lawrence agradeceu com um aceno, resmungando enquanto saia da loja.

– Mais uma semana de lentes… — Olhou de relance Ciel, que virava o pescoço para ver a atendente. — Que foi?

– Acho que ela gostou de você. — Apontou. — Eu disse que é popular.

– Ah, quer continuar nossa conversa, é? — Sorriu. — Eu já gosto de alguém, por isso nunca namorei. Satisfeito?

– Hmm…

– Não quer saber quem é?

– Acho que não.

– Então por que esse assunto?

– Não sei, eu só… É que você parece entender bem dessas coisas. Como aqueles conselhos que me falava.

– Eu sou lento em muitas coisas, Ciel. Mas eu meio que tenho um sexto sentido pra essas coisas.

– Quer dizer, romance?

– Algo assim. Por exemplo, sei que está me fazendo essas perguntas por causa do seu tutor.

Ciel parou de andar, assustado. Encarava o amigo de olhos arregalados, sem conseguir fingir.

– E com essa cara, acabou de confirmar. — Lawrence riu, puxando Ciel para um corredor vazio, onde deveria existir alguma loja que foi desativada. — Relaxa. Não vou contar pra ninguém.

– Como soube?

– Depois daquele papo da sedução do demônio, lembra? Comecei a reparar na forma como vocês se olham e… não foi difícil deduzir. — Lei se inclinou um pouco, para deixar o rosto na mesma altura que a do menor. — Sei também que ele morre de ciúmes de mim.

Ciel tentou desviar os olhos para outro canto, mas o magnetismo das íris verdes a sua frente o prendiam de forma difícil de resistir. E pelo sorriso que Lei deu, ele sabia bem do efeito que causava.

– Eu também gosto da cor dos seus olhos, Ciel. — Lawrence segurou o rosto do menor, dando chance dele fugir, se desejasse. Mas Ciel permanecia paralisado, entre assustado e confuso. — Quer saber de quem eu gosto? — Sussurrou.

Lei avançou ainda mais, aproximando-se perigosamente e fechando os olhos no processo. Ciel fez o mesmo, sem saber direito o porquê. Mas quando seus lábios roçaram, Lei soprou com força antes de se afastar, gargalhando.

– Ah, Ciel. Seria tão fácil…

Ciel se sentiu corar até os ossos, assustado não só pelo sopro repentino que recebeu no rosto, como pela atitude inesperada. Olhava com raiva por onde o amigo ia embora, deixando-o para trás. Não o seguiu, embora quisesse desesperadamente algumas respostas, sentia que se fosse falar com Lei agora, iria acabar se traindo.

Voltou pra casa bufando, com o rosto ainda mais vermelho do que quando havia saído.

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Ciel não conseguiu relaxar durante todo o fim de semana. Sua cabeça estava cheia com o que aconteceu com Lawrence no shopping, com as constantes investidas de Sebastian, e com o problema sem andamento da partilha da sua alma. Quanto mais pensava, pior se sentia, e não podia simplesmente contar para Sebastian que o amigo quase o beijara. Aliás, quase se beijaram, pois Ciel não recusou.

Continuou divagando, preocupado demais em dar de cara com Lei para se preocupar com as outras pessoas ao seu redor. Tanto, que não reparou Eliza chegar sorrateiramente no intervalo, agarrando-o pelo pescoço.

– Sabe Ciel, não tem ninguém lá em casa hoje. Quer ir lá? — Ela disse em alto tom, sem parecer nem um pouco constrangida por convidá-lo na frente de todo mundo de sua sala.

Agora sim toda a escola sabia que os dois estavam saindo juntos. Não que Ciel realmente ligasse, mesmo que não houvesse nenhuma vantagem naquilo. O problema era que Ciel ainda não se sentia confortável em voltar a falar com Lawrence como se nada tivesse acontecido, então ele não poderia ser seu escudo.

– O que aconteceu com eles? — Ciel perguntou, torcendo para que os pais da garota pudessem voltar cedo o bastante para impedir suas intenções.

– Papai ficou doente e minha mãe foi levá-lo ao hospital. Provavelmente só voltam de noite.

Ciel sentiu o estômago embrulhar. Ele tinha um mau pressentimento sobre ficar sozinho com Eliza. Mas o pai da garota estava no hospital e ele poderia entrar na sua casa. Aquela era uma oportunidade que ele não poderia perder. E se havia uma chance de ao menos um dos problemas de Ciel ser resolvido, ele agarraria aquilo.

– Claro, me espere na saída. — Deu seu sorriso mais falso, ouvindo o murmúrio dos seus colegas que estavam atentos a sua conversa.

Eliza se despediu praticamente saltitando, enquanto o único pensamento que Ciel conseguia ter, era de que a garota era mesmo muito atirada. Tirou o celular do bolso, digitando uma mensagem rápida para Sebastian antes que começasse a próxima aula.

Enviou, achando engraçado como a tecnologia de hoje facilitava tanto as coisas. Acabou passando o restante da aula se preparando. Precisaria de uma dose muito maior de paciência e dissimulação que o normal para aguentar o que estava por vir.

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Sebastian se sentia entediado. Servir Ciel nos dias atuais não exigia mais àquela correria da qual se lembrava, e de certa forma, sentia falta. Foi até o quarto, encontrando sobre a escrivaninha, o livro que Ciel pegou emprestado de Lawrence.

Lawrence. O amiguinho míope e mais bonito do que deveria.

Sebastian nunca se sentiu ameaçado antes por nenhum outro ser. Embora ele também nunca houvesse se envolvido com ninguém antes como estava com Ciel. Mas havia algo naquele garoto que o irritava, algo que ele certamente nunca admitiria que fosse ciúmes.

Afinal, demônios nunca sentiam ciúmes.

Levou o livro para algum outro canto, pois acreditava que o quarto não era um bom lugar para deixá-lo. Ler aquilo antes de dormir certamente faria Ciel ter pesadelos. Até que sentiu algo em seu bolso tremer. O celular.

Por um momento, Sebastian até havia se esquecido de que tinha aquele aparelho no bolso. Tecnologia nunca foi algo pelo qual ele se importava, e só tinha um pela insistência de Ciel.

“O pai de Eliza está no hospital. Aproveite para pegar uma dose do seu sangue.”

Leu a mensagem e suspirou. Ciel não havia informado em qual hospital haviam ido, o que significava que ele teria que verificar em todas as clínicas da região. Respondeu de forma simples antes de se arrumar para sair. Estava se arrependendo um pouco por ter se sentido entediado a alguns minutos antes, correndo para conseguir chegar ao hospital certo antes que o casal fosse atendido.

Não era difícil se passar por residente em um hospital tão grande, mas parecia que Sebastian chamava muita atenção, o que deixava as outras enfermeiras tentadas a puxar conversa. Sempre era um problema se destacar quando o objetivo era passar despercebido, e pela primeira vez, Sebastian se amaldiçoou por ser tão bonito. Aqueles tempos estavam cheios de “Primeiras vezes”.

Enquanto se escondia para surrupiar a ficha de entrada e saída de uma das recepcionistas, notou um rosto conhecido. De cabelos vermelhos presos em um coque e óculos em estilo gatinho, Grell não estava exatamente se passando por médico no hospital. Ele vestia um curto uniforme de enfermeira, que certamente não era adequado ao trabalho.

– O que faz aqui? — Sebastian sussurrou ao chegar perto sorrateiramente, fazendo Grell dar um pulo para frente, totalmente assustado e corado.

– Ah, Sebby! Bem que acordei hoje com a impressão de que encontraria um lindo homem. Gostou da minha roupa? — Piscou, mostrando a perna fina em uma tentativa de parecer sensual.

– O que faz aqui? — Repetiu a pergunta, como se o outro não tivesse escutado.

Grell soltou um muxoxo.

– Você sabe que hospitais são lugares propícios para morte. Então em cada hospital temos um shinigami disfarçado. Neste mês, sou a linda enfermeira daqui.

Sebastian puxou Grell para mais perto para que outros não escutassem a conversa, analisando aquela nova situação para seu proveito. Aquilo realmente viria a calhar muito bem.

– Preciso que suma com o doutor que atenderá aqueles dois. — Sebastian apontou para os pais de Eliza, que estavam sentados na sala de espera do final do corredor. — Consegue fazer isso?

Grell ficou um tempo encarando Sebastian antes de concordar. Desde que havia visto o demônio matando Undertaker, tinha certo medo de contrariá-lo. E agora que eles meio que “trabalhavam juntos”, se recusar a ajudá-lo poderia colocá-lo em uma situação ruim com William também.

Sebastian sentiu o bolso vibrar novamente, checando a segunda mensagem no celular que Ciel havia acabado de enviar. Sentiu-se curioso em saber o que o garoto deveria estar aprontando daquela vez, mas o demônio não sabia o que Grell fazia com o doutor, então teria que ser rápido e persuasivo antes que este retornasse.

Os pais de Eliza não refletiam em nada a filha, pareciam ser sérios e comportados. Principalmente o pai, que apesar da aparência doente, conseguia passar muita força na postura e olhar, como antigos heróis de guerra.

Com certo exagero nos detalhes, o senhor Hidleford explicou sua dor, no que Sebastian teve certeza ser úlcera causada por uma gastrite nervosa. Mas ele precisava do seu sangue, então era melhor inventar alguma desculpa.

– Mais alguém da sua família costuma sentir dores? — Sebastian perguntou, fingindo analisar as íris dos seus olhos.

– Acho que não. Por que pergunta?

– Acredito que seja hereditário. Nada grave, mas é bom ter cuidado. Tem certeza de que não há casos na família?

O homem pareceu hesitar desta vez, olhando para a esposa como se pedisse ajuda. Com menos certeza desta vez, balançou a cabeça antes de responder.

– Sinceramente, não sei dizer.

Sebastian sorriu.

– Tudo bem. Então vou precisar de um exame de sangue para ter certeza.

Ao contrário do que Ciel achava, a quantidade de sangue necessária para um demônio ter a informação completa de uma alma, exigia uma quantidade muito maior do que algumas gotas. Foi mesmo muita sorte o homem ter passado mal. Sebastian pensou se não deveria tê-lo feito ir ao hospital antes.

Retirou uma amostra generosa do sangue, em um total de seis frasquinhos, que deixou o homem meio tonto. Receitou algo que sabia resolver seu problema e guardou os frascos no jaleco, ávido para ir embora agora que já tinha atingido seu objetivo. Checou o relógio, vendo que já era hora de fazer o que Ciel pedira na última mensagem do celular.

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Já devia ser a terceira vez que Ciel respirava fundo desde que saiu da escola. Eliza não parava de falar e fazia questão de andar agarrada em seu braço. Queria chegar logo na sua casa, embora soubesse que as coisas poderiam ficar muito piores quando estivessem entre quatro paredes.

O que provou ser verdade assim que passaram pela porta da casa da garota, e Eliza se jogou sobre Ciel, passando os braços por seus ombros em um abraço.

– Finalmente estamos sozinhos! Não sabe como eu queria ficar assim com você. — Eliza apertou mais o abraço, incitando Ciel a retribuir de forma tímida.

– Não vai me mostrar a casa antes? — Ciel tentou não parecer que estava querendo evitá-la, o que pareceu funcionar. Respirou um pouco mais aliviado quando ela se afastou.

– Claro! Vem, vou te mostrar meu quarto.

Péssima idéia. O quarto de Eliza era provavelmente o último lugar daquela casa que Ciel gostaria de estar.

– Posso ir ao banheiro antes?

– Ah, desculpa. Era por isso que queria conhecer a casa, né? — Pela primeira vez, Eliza pareceu constrangida. — O banheiro fica ali, à direita. Ah… quer comer alguma coisa depois?

– Seria ótimo.

Ciel lavou o rosto depois de entrar no banheiro. Ele estava corado, e não gostava nem um pouco de se ver no espelho daquela forma. Tinha que admitir que Eliza até estava tentando ser uma boa anfitriã, mas aquilo não mudava em nada sua vontade de sair correndo. Ao menos parecia que tinha conseguido algum tempo.

Tirou o celular do bolso novamente. Sebastian havia respondido com um simples “Ok” sua mensagem anterior. Voltou a digitar:

“Me ligue daqui a 30 minutos. Não importa se eu não atender, continue ligando.”

Era bom ter um segundo plano em mente. E fingir dor de barriga certamente não era a melhor escolha.

Enrolou o máximo no banheiro, saindo no tempo que considerava estar antes de “Tenho desinteira” e depois de “Lavei as mãos”. Encontrou Eliza totalmente perdida na cozinha e teve certeza de que ela nunca havia cozinhado antes.

– Tudo bem um sanduíche? — Ela disse, estendendo dois pedaços de pão com presunto que parecia ter sido cortado com uma serra elétrica.

Ciel sorriu de maneira meio torta, se sentando na frente do prato e vendo Eliza dar a volta pra sentar ao seu lado. Deu logo uma mordida grande, para poder acabar com aquilo de uma vez. Tentou não fazer careta. A comida bonita e requintada de Sebastian o haviam acostumado muito mal e seria difícil engolir aquilo.

– Sua casa é bonita. Mora aqui faz muito tempo? — Ciel puxou conversa.

– Era da minha tataravó, algo assim.

– Normalmente não são os homens que herdam as casas?

– Vovó não gostava de falar dele. — Eliza encostou a cabeça no ombro de Ciel, distraída com a conversa.

Ciel se sentiu corar novamente e precisou se controlar para não afastá-la. Ela parecia estar mais disposta a falar quando o tocava, e ele precisava aproveitar aquele momento. Pousou a mão na cintura de Eliza de forma desajeitada, aproveitando para não ter que comer mais um pedaço daquele sanduíche.

– Por que não?

– Não sei bem… Ninguém gosta de falar das gerações passadas. Minha avó até queimou antigas fotos de família.

Eliza suspirou, mantendo o rosto muito perto do pescoço de Ciel, o que o fazia sentir uma grande aflição. Mas seu estremecimento foi entendido de outra forma pela garota, que se aproximou o máximo que conseguia, se esfregando conforme ronronava.

– Lembrei que tenho uma foto escondida no meu quarto! — Eliza berrou, assustando Ciel. — Venha, queria te mostrar faz um tempo.

Arrastado pelos corredores, Ciel seguiu até o grande quarto rosa da garota. O cômodo cheirava a um perfume muito doce, que ele percebeu lhe dar dor de cabeça. Ainda meio receoso em entrar, parou na porta, observando Eliza vasculhar um baú debaixo da cama.

Ela não demorou a encontrar o que procurava, puxando Ciel para dentro do quarto para lhe mostrar uma foto antiga, desgastada pelo tempo.

– Eu encontrei essa foto no sótão quando era pequena, ficou presa em um vinco do chão. Acho que foi por isso que foi a única que vovó não queimou. — Eliza disse, entregando a foto para o garoto.

Um casal posava para a foto de maneira um tanto diferente do que seria normal para a época, meio abraçados e de sorrisos largos. Uma mancha do que parecia mofo cobria a parte inferior, não deixando ser lida a data ou o nome do fotógrafo. Ciel teve um sobressalto ao olhar melhor o homem. Com cabelos curtos e sem a cicatriz no rosto era difícil reconhecê-lo, mas aqueles olhos verdes e o sorriso comprido só poderiam ser dele. Aquele homem era Undertaker.

– Incrível, não é? — Eliza disse, se apoiando em seu ombro para conseguir olhar a foto também. — Engraçado como são parecidos.

– Hã? Parecido com quem?

– Com ela. — Apontou para a mulher. — Seus olhos são iguais. Achei que era por isso que estava surpreso.

Ciel meneou a cabeça, voltando a olhar a foto com mais interesse na mulher, que havia sido totalmente ignorada. Não pôde negar que eles eram realmente parecidos, de olhos grandes e claros, mas nada que considerasse realmente relevante, principalmente em uma foto sem cor e desgastada. Ele não achava que encontrar pessoas parecidas fosse assim tão difícil. Ao menos com humanos, pois Sebastian e os shinigamis pareciam ser bem peculiares.

– Sabe quem são? — Ciel perguntou.

– Acho que ele é meu tataravô, mas não tenho certeza. Se eu perguntar, minha avó pode querer queimar essa também.

– Então por que guarda?

– Esses olhos… São tão fascinantes. — Eliza apontou para a mulher. — Eu queria ser como ela quando pequena, mas ninguém consegue ter olhos assim se não nascer com eles. — Ela deslizou os braços ao redor de Ciel, parando a sua frente enquanto o empurrava com o corpo. — Quando você voltou a enxergar, seus olhos ficaram com o mesmo brilho.

Ciel se sentiu congelar. Repentinamente, não sabia mais o que fazer com as mãos ou para onde olhar, segurava a foto a uma distância segura, enquanto a outra repousava bobamente ao lado do corpo. Recuava conforme a garota o pressionava, acabando por bater as pernas na cama e caindo deitado.

Eliza não deixou a oportunidade passar, engatinhando sobre ele com um sorriso falsamente inocente. Sentou sobre seu quadril, rindo da forma perdida que Ciel a encarava. Estava pronta para beijá-lo, debruçada de modo que a cabeça de Ciel ficasse imobilizada e impossível de desviar do beijo.

Assustando ambos, o celular de Ciel começou a soar. Eliza ignorou categoricamente, continuando a aproximar o rosto. Quando seus lábios finalmente se roçaram, Ciel tomou coragem para empurrá-la.

– Desculpe, é melhor eu atender. — Disse, parecendo muito mais aliviado do que gostaria.

– Não pode deixar tocar? — Eliza parecia nervosa pela interrupção.

– É insistente. Pode ser importante. — Ciel finalmente conseguiu afastar a garota o bastante para conseguir alcançar o celular no bolso, atendendo com uma voz trêmula, sem perceber.

“Interrompo algo?” Sebastian riu do outro lado.

Ciel esperou um pouco antes de falar alguma coisa, fingindo estar ouvindo atentamente. Respondeu com um “Estou indo” que parecia realmente urgente, antes de desligar. Conseguiu firmeza para terminar de tirar Eliza de cima de si, sem que parecesse mal-educado.

– Eu realmente preciso ir agora, sinto muito mesmo. — Ciel disse, aproveitando a confusão da garota para enfiar a foto no bolso da calça. — Parece que o meu tutor sofreu algum tipo de acidente. — Mentiu apressado, tentando parecer verdadeiramente preocupado.

– Ah, e é sério?

– Não sei. Por isso é melhor eu ir.

Eliza ficou um tempo sentada na cama, vendo Ciel se levantar e ajeitar suas roupas. Parecia esperar que ele se virasse para ela e dissesse que iria ficar, mas não aconteceu, e Ciel ficou a encarando na espera de que ela fosse acompanhá-lo até a saída.

– Me dê um beijo, e eu finjo que você não está fugindo de mim. — Eliza disse, de cara emburrada como uma criança.

Ciel piscou algumas vezes, quase sem acreditar que ouvira aquilo certo.

– Eu não estou fugindo.

– Então prove que também estava esperando por isso.

Acabou se resignando em um suspiro. Um beijo não era nada demais, não poderia ser assim tão difícil. Puxou a garota pela mão até que ela se levantasse. Se era para fazer, não faria na cama. Eliza já estava de olhos fechados, a espera. Ciel pretendia apenas um leve encostar de lábios, mas Eliza o puxou para baixo, aprofundando o beijo de forma desesperada. Ele cedeu por poucos minutos, antes de afastar a garota de maneira firme.

– Eu preciso mesmo ir.

Apesar do tom quase raivoso de Ciel, Eliza sorriu totalmente entregue. Levou o garoto até a saída e abriu a porta como se estivesse em alguma espécie de transe.

O suspiro de alívio que Ciel deu quando finalmente saiu da casa foi quase palpável. Andou a passos rápidos para sair da vista antes que Eliza resolvesse segui-lo por qualquer motivo.

Mal virou a primeira esquina, seu coração voltou a disparar.

– Vejo que está tendo resultados desta vez. — Sebastian disse sorrindo, recostado na parede de forma despreocupada. — Aproveitou bem sua companhia?

– Você viu?! — Ciel corou ainda mais, ficando repentinamente nervoso.

– Só o beijo ardente do final, nada demais.

– Aquilo foi necessário. — Ciel apressou ainda mais o passo, com o demônio ao seu lado. Viu logo à frente, o carro de Sebastian estacionado e foi logo até ele. — Como disse, nada demais. Então pare de sorrir desta forma! Está me irritando.

– Oh, achei que gostava do meu sorriso. — Sebastian colocou a mão na frente da boca, embora continuasse a sorrir daquela forma afetada.

– Não deste. — Sussurrou. — Vamos logo pra casa. Temos muito a discutir.

Sebastian concordou, dando a partida no carro. Mais rindo do que sorrindo.

Ciel pensou que se o demônio visse o beijo trocado com Lei ao invés de Eliza, ele não estaria rindo daquela forma. Mas achou melhor manter aquele pensamento somente para si.

Notas finais
Até que esse capítulo ficou grande, não é? Aliás, queria avisar que eu vou postar no meu blog um dia antes daqui. Como também justificativas, inspirações e eu faço análises e matérias sobre conteúdos fujoshis. Seria bem legal se me acompanhassem lá também! Segue o link: http://mundoemverso.com/ Então, o que acharam deste capítulo que demorou tanto tempo para ficar pronto?