Timeless
12 Cap 12 - Juventude dispersa
Notas iniciais
Quero agradecer a todos os comentários, que não consegui responder nenhum, mas me animaram demais. Me surpreendeu também o número de pessoas que gostaram do semi-lemon, o que me deu margem para pensar no lemon verdadeiro que está para vir!
Bom, este capítulo está um pouco sonso, mas é importante, então espero que gostem!
William T Spencer sempre teve a fama de ser impaciente. Isso até havia se tornado sua marca registrada, em conjunto com sua mania quase irritante de arrumar os óculos constantemente. Sua aparência sempre séria de rosto impassível afastava todos os novatos e grande parte dos veteranos também. Mas sempre havia pessoas aptas a contribuir com sua irritação, e embora esse número fosse de apenas dois, era o bastante para lhe tirar a compostura.
Grell era irritante naturalmente, e sua mania de não seguir as regras e vadear em serviço o colocava na lista negra do Shinigami. Mas isso não era nenhuma surpresa.
De longe, quem se encontrava em primeiro lugar era Sebastian. Somente por existir, um demônio já era desprezível por si só. Manter um contrato com um “papa-almas”, lhe dando a liberdade de se alimentar livremente era, na palavra mais educada que ele podia pensar, ridículo. Mas a ruga que se mantinha incômoda entre as sobrancelhas de Willam eram graças ao dono de Sebastian, e a falta de decência do demônio de não se preocupar em encontrar as peças que faltavam no imenso quebra-cabeças que tinha em mãos. Era muito além de irritante.
Ele não deveria estar fazendo aquele trabalho, que poderia ter sido evitado se seus diretores não fossem negligentes anos atrás e capturado Undertaker a tempo. E logo a ele tinha que ser designada a tarefa de babá, por que Miller não confiava contar aquele deslize a outro Shinigami. Aliás, seu supervisor-chefe, embora não fosse particularmente ruim ou fizesse as coisas errado, havia adotado uma postura extremamente liberal nos últimos tempos. Postura essa que parecia triplicar seu trabalho de maneira enfadonha. E ser usado como bode expiatório pelo seu superior para vigiar o demônio não era nada agradável.
Pensando bem, a lista de pessoas que mereciam seu desagrado havia subido para três.
William saltou a última árvore em direção a mansão, pousando no chão tão delicadamente que seu peso não justificava. A mansão Phantomhive permanecia intacta apesar dos anos, com sua pequena floresta ao redor que quase formava um labirinto a protegendo. Não foram poucos os que tentaram comprar o local, tanto pelo valor turístico quanto pelo seu terreno bem localizado em Londres. Todas as tentativas frustradas por um misterioso proprietário irredutível, que insistia em passar as posses para gerações de filhos e netos com o mesmo nome.
William entrou na mansão sem pedir licença ou se anunciar, entrando por uma janela aberta do que parecia ser uma ampla biblioteca no segundo nadar.
- Ora, ora. É só abrir a janela para os livros respirarem, que entram mosquitos. — Sebastian saiu detrás de uma prateleira com um espanador em mãos, sorrindo de forma divertida para a carranca do outro. — Á que devo a honra?
- Sabe por que estou aqui. — William apoiou a Death Sthyce no chão e arrumou os óculos. — Ainda não descreveu a alma do garoto.
- Informações pedem favores como pagamento. Mas aceito uma troca de informações, porque gosto de você.
Sebastian considerava irritar pessoas sérias uma diversão pessoal, e por este motivo, o shinigami e Ciel eram seus alvos mais tentadores.
A sobrancelha de Will tremeu de leve. Um tique nervoso de irritação.
- É uma chantagem?
- Prefiro chamar de acordo.
- Não faço acordo com demônios.
- Então chame seu supervisor. Ele aceitará meus termos.
William suspirou pesadamente, segurando a imensa vontade de atirar sua arma sobre o demônio e alegar acidente. Todos acreditariam, visto que o Shinigami nunca mentia ou brincava. Mas o acesso á alma do garoto, junto com a confiança que Ciel parecia depositar em Sebastian eram algo que William não conseguiria facilmente. Por que uma alma não listada estava fora de seu alcance.
- Francamente. O que você quer saber?
- Tudo o que você sabe e que não me contou. — Sebastian não reprimiu o sorriso vitorioso que se formou em seu rosto. — Mas podemos começar com "Por que acredita que parte da alma de Ciel é meio-shinigami?"
- Só existem duas criaturas que têm alma e podem invadir corpos alheios: Shinigamis e Ex-Shinigamis. — Sebastian estranhou o fato de William classificar um mesmo tipo como dois seres distintos. Mas o orgulho dele justificava o julgamento. — Nunca houve algo parecido antes, visto que é um comportamento ridículo até mesmo para os que foram desligados do serviço. Mas uma alma não catalogada em um ventre humano só pode indicar uma alma híbrida.
Sebastian guardou mentalmente aquela informação, repondo no lugar o livro que havia acabado de abanar o pó. Já formulava sua próxima pergunta antes mesmo de pensar no que daria de informação ao outro em troca.
- Ele tem conhecimento dessa segunda parte da alma. — O demônio disse, sem tirar os olhos dos livros. — Elas oscilam entre si, as vezes vejo mais do Phantomhive nele, as vezes é apenas o garoto cego sem memórias de uma vida passada.
“Sem memórias”, William repetiu para si mesmo. Isso comprovava que a alma foi separada antes de ganhar vida. Eram as “Cinematic record” em branco que Grell havia comentado.
- Ele era cego? — William meio que perguntou para si mesmo, mas Sebastian apenas afirmou com um aceno. — Shinigamis não enxergam muito bem e são extremamente míopes. Não é uma questão apenas biológica. — Começou a esclarecer como se estivesse justificando a travessura de uma criança com deficiência mental. — Se ele era cego antes da alma humana estar completa, é provável que ele partilhe exatamente esta parte da alma. O chamado “sexto sentido”.
- Vocês sabem qual parte da alma faz o que? — Sebastian ergueu a sobrancelha, entre surpreso e desdenhoso. Ele considerava aquilo tão inútil quanto as tentativas dos humanos de entender o próprio cérebro.
William não respondeu, o encarando com os olhos frios de sempre com um indício de quem dizia “Pare de enrolar e continue logo com isso”.
- Quem são os pais? — Sebastian emendou a pergunta.
- Suspeitamos que seja uma mulher chamada Kassandra Smith, enterrada naquele mausoléu no qual matou Undertaker. O pai seria o próprio.
Sebastian suspirou, parecendo pela primeira vez preocupado. Ou no mínimo, pensativo. Não era novidade que Undertaker estivesse metido naquilo, mas procriar com uma humana era, no termo mais educado, grotesco. O mordomo largou o espanador em uma bancada, analisando seu relógio de pulso. Era hora de buscar Ciel na escola.
Parecendo ignorar a “visita” postada no centro do cômodo, começou a andar em direção à porta com uma serenidade exagerada, como se não estivesse no meio de uma discução tensa. William se pôs a sua frente com uma clara expressão de pressa e desgosto.
- Ah, um demônio só pode ter a informação detalhada de uma alma humana se a provar. — Sebastian começou a dizer de forma cínica, parecendo ter acabado de lembrar de que havia mais alguém na sala. — E só existem duas formas de provar uma alma sem matar o receptáculo: através do sangue ou do sexo.
William ergueu uma sobrancelha e arrumou os óculos em um gesto automático. E embora seu rosto permanecesse impassível, havia algo em sua expressão que lembrava um rubor constrangido.
- Não vejo o motivo de me revelar isso. Este e qualquer assunto relacionado diretamente a um demônio não me interessa.
- Uma informação em troca de uma informação. Não discutimos os termos do acordo, então considere isso como uma justificativa. — Por um momento, a voz de Sebastian se tornou séria. Mas durou tanto quanto a vida de uma bactéria. — Eu ainda não tenho o que deseja, mas com essa sua última revelação eu ganhei direção.
- Tirar um pouco de sangue do garoto não deve ser assim tão difícil.
- Não tenha pressa, caro Will. — Deu um passo para o lado, desviando do shinigami de modo furtivo e seguindo porta afora. — E aconselho que não esteja por aqui quando Ciel chegar.
Mesmo com o tom de aviso, aquilo era obviamente uma ameaça. E embora William não cedesse a este tipo de artimanha dos demônios, estar na presença do garoto não seria vantajoso em nenhum aspecto. Suspirou de modo irritado e saiu do cômodo antes que o cheiro de Sebastian lhe contaminasse. Nenhum dos dois se despediu.
_________
- Então a Eliza começou a me encher a paciência sabe, e resolvi vir aqui te perguntar. — Lei falava com ar entusiasmado. — Ela anda meio atiradinha e tudo o mais, e sempre está correndo atrás de você. Não vai sair com ela?
- Não, Lei… — Ciel andava a passos apressados para o lado de fora, como se estivesse tentando fugir de alguém. O que de certa forma era verdade.
Eliza, uma linda garota loira do terceiro ano que tinha muito mais peito do que cérebro começou a se mostrar interessada em Ciel. Aliás, “interessada” era sutil demais para a forma quase predadora com que ela se jogava para ele. O garoto não tinha experiência nenhuma com mulheres, e se Lei não lhe falasse, nem ao menos notaria os olhares que recebia na escola. E embora aquilo não fosse realmente um incômodo, Eliza se insinuar descaradamente estava começando a irritá-lo.
- Por que não? Ela parece gostar muito de você e não pode negar que ela não seja bonita. Você devia sair mais por ai e aproveitar a juventude.
- Não gosto de conhecer pessoas novas.
- Assim você vai terminar sozinho. Posso contar nos dedos as pessoas que conversa. — Lei ergueu a mão a sua frente, mostrando dois dedos. Ambos ficaram parados no meio do pátio. — Eu e aquele seu tutor bonitão somos os únicos, e um dia ele pode não estar por aqui!
Ciel amarrou a cara. Encarando o garoto com tanta raiva que ele sentiu um calafrio gelado lhe correr a espinha. Não era preciso nenhuma palavra de repreensão, e qualquer surra seria melhor que o olhar que recebeu.
- Por que está me empurrando pra ela desse jeito? — Ciel finalmente perguntou, tentando disfarçar a voz.
- Não é que eu esteja te empurrando nada.- O Tom de voz de Lei era quase choroso. — Mas você estava falando aquelas coisas outro dia, então pensei que sair com alguém poderia te ajudar.
- Acha mesmo que isso me ajudaria em alguma coisa? Sair com uma garota mimada e burra?
Lawrence fez um gesto triste e culpado, baixando a cabeça em um pedido de desculpas. Era um ato tão ingênuo e sincero, que Ciel não conseguiu manter sua irritação. Respirou fundo contando até 10. O que o tinha irritado não era o fato de o amigo tentar lhe empurrar alguém, mas sim o comentário sobre Sebastian que ele tinha medo de que realmente fosse verdade.
- Talvez eu deva mesmo sair. Mas não com uma desconhecida. — Finalmente disse, desviando um pouco o olhar para longe, se sentindo ridículo de ter ficado nervoso com algo tão pequeno. Não chegou a se desculpar pelo acesso histérico que teve, mas um leve inclinar de cabeça era o máximo que ele conseguia expressar. — Podemos sair juntos um dia desses. Nunca nos encontramos fora da escola.
Lei abriu um sorriso largo e infantil, com olhos brilhantes como uma criança que ganhara um doce.
- Posso te contar um segredo?
Ciel deu de ombros.
- A verdade é que se eu pudesse, te guardaria em um frasco para que ninguém possa tocá-lo. — Apesar o resquício de riso em sua voz, o tom de Lawrence tornava difícil julgar se ele estava ou não brincando.
- Sabe o quanto soa estranho você falar uma coisa dessas?
- Hm, te pedir em casamento seria uma idéia melhor? — Lei inclinou a cabeça com um dedo sobre o lábio, em uma careta pensativa de gato sem dono.
Ciel soltou um riso contido pelo nariz, entre o divertido e o surpreso. Lei era imprevisível em vários sentidos, de raciocínio meio abobado certas vezes. E embora tivesse vários aspectos que provavelmente deixariam Ciel irritado, Lawrence era agradável demais para que aquilo se tornasse um incômodo.
- Hey, achei que quem viria te buscar era o seu tutor. — O amigo exclamou assim que chegaram ao portão da escola, onde um homem alto e loiro esperava ao lado do carro.
Era Peter, que trajava um terno creme bem ajustado e óculos escuros grandes que o faziam parecer um mafioso. Quando avistou Ciel, abriu um largo sorriso e deu uma “corridinha” até ele, apertando-o em um abraço rápido e cauteloso.
- O que está fazendo aqui, Peter? — O garoto perguntou assim que se afastou.
- Você sabe que é quase um… afilhado pra mim, não sabe?
- E você sabe que sua relação comigo não justifica sua presença aqui, não sabe?
O sorriso de Peter vacilou, como se tentasse decidir se estava sendo repreendido ou ridicularizado. Mas pareceu escolher ignorar.
- Não sabe o quanto eu fiquei magoado quando seu pai deixou um total desconhecido como seu tutor! — Peter voltou a falar, retirando os óculos escuros e fazendo uma careta emburrada que o fazia parecer ter 10 anos. Na realidade, ele sempre falava daquela forma com Ciel, como se o garoto fosse um deficiente mental.
- Sebastian não é um desconhecido. — Ciel rodou os olhos, não escondendo sua frustração por estar falando com o secretário sanguessuga do seu pai. — Aliás, se você quer algo, deveria falar com ele. Meu representante legal.
- Ok Ciel, você me pegou. — Postou as mãos na frente do corpo em defesa, dando um sorriso torto. — Eu passei para saber como está sua visão.
O garoto passou os olhos rapidamente sobre Lei, que se mantinha mudo e alheio ao assunto, tentando indagar se ele tinha entendido o que Peter queria dizer com aquilo. Mas o amigo devolveu o olhar com uma estranha surpresa, como se tivesse acabado de perceber que Ciel havia voltado a enxergar. Lawrence com certeza não era muito perspicaz.
- Você é praticamente um milagre, Ciel. Primeiro por ter nascido, e agora conseguir enxergar quando nenhum médico nem ao menos entendia o motivo da sua cegueira!
Fez uma breve pausa, esperando que o menor rebatesse de alguma forma, mas este se manteve quieto com uma expressão que era difícil de interpretar o que ele estava pensando. Deu uma olhada em volta, reparando nos muitos alunos que passavam visivelmente interessados na conversa. Claro que Ciel Ghostkeeper seria uma espécie de celebridade na escola e maior alvo das fofocas. Afinal, depois de retornar vivo, enxergando e com um tutor bonitão e aparentemente muito rico depois de ter seu pai morto, era a melhor fonte dos rumores que um bando de adolescentes poderiam criar nas mentes férteis e maldosas.
Peter puxou o braço de Ciel para um canto mais afastado, enquanto Lei parecia decidir se devia acompanhá-los ou não.
- Olha Ciel, vou ser claro com você. — Pôs a mão sobre o ombro deste com uma camaradagem que não existia entre eles, percebendo pela primeira vez como o garoto havia crescido. — Seu pai não deixou a melhor das imagens antes de morrer, mas cientificamente falando, ele era o melhor. O estudo genético de Vincent poderia salvar ou melhorar milhares de vidas, mas para isso alguém precisa continuar suas pesquisas.
- E como eu sou o herdeiro de todos os direitos autorais, precisa do meu consentimento, certo?
- Por isso gosto de você! É um rapaz tão esperto quanto seu pai! — Deu um tapinha em suas costas. — Venha, vamos para o meu escritório e depois podemos chamar seu tutor pra assinar os papéis.
Ciel não acreditava naquela ladainha de Peter e não queria assinar nada relacionado ao trabalho de seu pai. A verdade era que toda aquela coisa de clonagem ainda o deixava meio atordoado e inevitavelmente, ressentido. Continuava amando seus pais e de certa forma entendia o motivo de ter sido criado, mas mesmo assim achava sua concepção injusta. Eles podiam ter mencionado que ele era um clone. Teria sido mais fácil aceitar se tivesse tomado conhecimento antes de sua “morte”.
- Oi Ciel… já está indo embora? — Para a surpresa nada agradável do garoto, Eliza interrompeu a conversa de maneira pouco educada, passando a ponta dos dedos de leve em seu pescoço. Ele enrubesceu e ela riu. — Estava pensando se não quer ir comigo na sorveteria. — A loira viu Peter com o canto dos olhos fez um rápido aceno. — Seu amigo pode ir junto, se quiser. — Apesar de a frase ter parecido gentil, estava muito claro em sua linguagem corporal que ela não queria de forma alguma que mais alguém os acompanhasse.
Ciel virou o rosto para os lados de forma desesperada, embora apenas aparentasse estar pensando na proposta. Encontrou Lawrence atrás de Peter, que olhava pro céu distraído com uma borboleta.
- Sinto muito Eliza, Peter. Eu já combinei de ir à casa do Lawrence hoje. — Como um náufrago desesperado por um pedaço de madeira, Ciel se agarrou em Lei e foi andando para uma direção qualquer. Não olhou para trás, e só parou quando já estavam longe da escola.
- Como sabe para onde é a minha casa? — Lei perguntou com um sorriso divertido. Estava meio arfante por ter sido arrastado repentinamente por três quarteirões.
- Ah, eu não sei onde é… Só queria me livrar daqueles dois.
- Quer ligar para o seu tutor? Ele ficará preocupado se chegar à escola e não te encontrar.
Ciel pensou por um tempo, olhando na direção da escola.
- Se quer saber, acho que prefiro que ele se preocupe. — Disse com uma cara emburrada, voltando a seguir em frente. — Se ele não estivesse atrasado, eu não seria encurralado por aqueles dois!
Lawrence riu com gosto. O comportamento de Ciel era um pouco mais que uma birra infantil, mas ele o fazia com a desenvoltura de um nobre que estivesse repleto de razão.
- Então quer ir à minha casa? — Lei fez uma mesura como se estivesse convidando uma dama para dançar.
- Claro. — Ciel devolveu o gesto, embora tenha se sentido extremamente ridículo ao fazê-lo.
Lawrence sorriu satisfeito e se pôs a andar com a mão pousada em seu ombro. Visitar a casa de alguém era um avanço considerável na amizade deles.
_______________
A casa de Lawrence era grande e tão velha quanto aparentava. Porém, era incrivelmente limpa e bem conservada. Quando ambos entraram, Ciel sentiu cheiro de carvalho e terra molhada, o mesmo odor que a mansão Phantomhive tinha, e aquilo era estranhamente confortante.
- Seus pais não estão? — Ciel perguntou quando chegaram à cozinha.
- Meus pais morreram faz um tempo. — Lawrence disse baixo, com uma naturalidade assustadora.
Ciel se sentiu corar e baixou os olhos com pesar. Era estranho que o de óculos fosse seu melhor amigo, mas nunca tivesse dito uma palavra sobre a família ou coisas que normalmente os amigos fazem. Embora um dos maiores motivos pelo qual se tornassem mais próximos que “colegas”, era que Lei nunca fazia perguntas evasivas ou pessoais e não falava delas. Mas Ciel começou a se sentir culpado por não ter sabido desses detalhes antes.
- Não se preocupe. Como eu disse, já faz tempo. E eu vivo bem com o que eles me deixaram como herança. — Lei ergueu a mão para acariciar os cabelos do outro, mas ele se lembrou de que afagos não eram muito bem-vindos, fazendo sua mão parar antes que relassem nos fios acinzentados. Ciel apreciou aquilo. — Quer dar uma olhada na minha biblioteca?
- Você tem uma biblioteca?
- Essa casa tem cômodos demais e pessoas de menos. Achei que seria útil aproveitar o espaço. — Começou a andar em um pedido mudo para que ele o seguisse. E para sua surpresa, foi Ciel quem pousou uma mão em seu ombro, embora fosse bem mais baixo. — Você parece mais leve.
- Quer dizer mais magro?
- Não, mais leve. Como se tirasse um peso das costas e estivesse menos preocupado. — Abriu um sorriso repleto de uma malícia que ele não parecia ter. — Devo deduzir que meu conselho deu certo?
Ciel enrubesceu e virou o rosto para o lado, andando mais rápido mesmo não sabendo para qual direção ficava a biblioteca. Lawrence riu com gosto, baixo o bastante para que o menor não se irritasse. Aquela reação era muito mais que uma confirmação.
Quando chegaram á biblioteca, por pouco Ciel não soltou uma exclamação de surpresa. Não era um local só, mas sim um conjunto de vários cômodos abarrotados de livros, sendo que provavelmente ocupavam quase 70% da casa. Se contasse a quantidade, aquele lugar facilmente era maior que a biblioteca da mansão Phantomhive.
- Não sabia que gostava de ler. — Ciel disse enquanto passava admirado pelo corredor, onde cada sala parecia conter um estilo literário diferente. Era muito bem organizado.
- Não achei que fosse algo que eu devesse comentar. Ainda mais quando você era cego. — Deu de ombros.
Fazia sentido, Ciel concordou mentalmente, enquanto entrava em uma das salas com a placa na porta que indicava “Misticismo”. Era um lugar pequeno que parecia um banheiro sem a pia e a privada, preenchida por prateleiras que chegavam ao teto e que o deixava um pouco claustrofóbico.
- Não achei que gostasse desse tipo de assunto. — Lei o seguiu de perto, parando na soleira da porta para que o menor tivesse mais espaço. — Quer pegar algum emprestado?
Ciel apenas afirmou com um aceno, vagando os olhos pelos livros à procura de algum que o agradasse. A verdade era que sua curiosidade não era por gostar do tema, mas sim por uma pesquisa pessoal. Passou reto por “Previsão de sorte”, “Deuses gregos” e “Seres mitológicos”, até que avistou um livro preto que ficava na prateleira mais alta. Ele não tinha certeza de como conseguira enxergá-lo estando tão longe e com as letras tão apagadas. O título do livro era muito longo e de um frances antigo difícil de entender, mas o que chamou sua atenção foi o nome do autor. “Sébastien Michaellis” estava gravado em um dourado escuro que parecia prender seus olhos nele.
- Se quiser pegar um livro, pode usar a escada. — Lei pegou uma escada pendurada na porta e a encaixou na prateleira que o menor encarava fixamente. Ciel olhou para aquele objeto de apoio questionável e fez uma careta. — Não se preocupe, eu fico segurando pra você.
Antes de aceitar a oferta, Ciel deixou a mochila em um canto e prendeu a franja atrás da orelha. Subiu cuidadosamente enquanto ouvia a madeira da escada ranger com seu peso. Chegou ao topo soltando todo o ar de uma vez, que ele nem havia percebido ter segurado. O livro que ele havia escolhido era um pouco mais grosso e velho do que ele achava, e tinha gravado na lombada a cabeça de um bode. Mas quando o puxou, percebeu que ele estava preso. A capa de couro parecia ter grudado nas capas dos outros dois livros ao seu lado, e a pressão que um fazia sobre o outro não ajudava a removê-lo. Fazendo mais força, Ciel espalmou a mão nos livros que estavam sendo arrastados junto e puxou com mais firmeza. Mas quando o livro se soltou, a força que ele usava o impulsionou para trás, e com a mão espalmada em outros livros, a queda era inevitável.
No ar, Ciel tentou girar para não cair de cabeça, mas só conseguiu fazê-lo meio na horizontal, o que faria a queda ser de frente. Caiu com força no chão, mas não recebeu o impacto que achou que receberia, embora seu braço parecesse ter sido prensado entre o livro e seu peito. Quando abriu os olhos, percebeu que caíra em cima de Lawrence, o que justificava o amortecimento da queda. Ele tentou pegá-lo no ar, mas o peso e o ângulo o jogaram no chão também.
- Ai… Tudo bem, Ciel? — Lei perguntou entre um gemido e outro, passando a mão na cabeça e olhando em volta, encontrando seus óculos longe, com uma lente quebrada.
Ciel tentou se apoiar para sair de cima do amigo, mas ao fazer mais força com a mão, sentiu uma dor aguda lhe atingir.
- Acho que torci meu pulso. Você não se machucou?
- Só um hematoma nas partes trazeiras. Nada demais. — Deu risada, embora fizesse uma careta de dor ao se apoiar nos cotovelos. Espremeu um pouco os olhos e esticou a cabeça como uma tartaruga por um tempo. — Minha visão sem os óculos é realmente ruim. Você não passa de um borrão agora.
Como que curioso pelo que o outro disse, Ciel passou a encarar os olhos verdes de Lei, que tinha aproximado o rosto para conseguir enxergar. Havia algo naqueles olhos que o menor nunca havia notado, algo com uma profundidade que parecia sugá-lo para dentro de um desespero sem explicação. Não chegava a ser uma sensação ruim, embora não fosse boa também. Era como encontrar um objeto perdido de grande estima, mas estivesse sujo e quebrado, o que te faz não ter certeza se fica feliz por ter encontrado ou triste porque ele não está como você se lembrava.
- Posso ver como está seu braço? — Lei despertou Ciel daquele torpor momentâneo, fazendo-o corar violentamente por perceber que estava quase encostando suas testas.
- Você disse que não está enxergando nada.
- Estudei primeiros socorros por um tempo. Consigo sentir uma fratura só de tocar. — Puxou o cotovelo do menor para pousar os dedos com cuidado sobre seu pulso. Quando aplicou um pouco mais de força, Ciel gemeu. — Não chegou a quebrar, mas acho que o osso está trincado.
- É, você é cheio de surpresas.
- Só gosto de coisas imprevisíveis. — Lawrence ajudou o outro a se erguer pelos ombros, consequentemente fazendo-o se sentar em seu colo. — Você também é imprevisível.
Ciel se sentiu corar novamente, tentando evitar olhar nos olhos de Lei com tanta relutância que mantinha sua cabeça sempre baixa.
- Desculpe entrar sem bater, mas a porta estava aberta.
Ao olhar para o corredor, Ciel encontrou Sebastian parado com o rosto duro, de cenho levemente franzido.
- Quem é? — Lawrence perguntou espremendo os olhos.
- Estou interrompendo algo?
- Porque demorou tanto? — Ciel retrucou com a típica raiva de constrangimento, tendo consciência do que aquela cena pareceria a quem não tivesse observado tudo. Tentou se levantar, mas com um livro em uma mão e o pulso da outra torcido, era quase impossível se equilibrar e teria caído para trás se Sebastian não corresse para segurá-lo.
- Ah, Sebastian, não é? — Lawrence se ergueu mais, ainda de olhos estreitos. — Chegou em boa hora. Melhor levar ele em um pronto-socorro pra dar uma olhada no braço.
- Não é pra tanto. Só quero ir pra casa. — O menor aproveitou o apoio de Sebastian para se levantar. — Obrigada por hoje, Lei. Está tudo bem mesmo?
- Sim, sim. Pode ir, Ciel. — Abanou a mão como se os enxotasse para fora. — E leve o livro, já que é por causa dele que fomos ao chão.
Ciel afirmou e se despediu com um aceno, mesmo que provavelmente o amigo não conseguisse enxergar mais que um vulto agitado. Chegou até o grande carro preto com Sebastian ao seu encalço, e esperou que ambos estivesse acomodados do lado de dentro para voltar a falar.
- Por que demorou tanto?
- Precisei verificar uma coisa. — Sebastian mantinha a voz mais séria que o normal. Colocou a chave na iguinição mas não deu partida, ao invés disso, virou o tronco para Ciel e puxou seu braço. — Está doendo?
- Enquanto ele está parado, não.
- O carro vai chacoalhar um pouco por causa da estrada. — Firmou os dedos perto de seu cotovelo, fazendo um encaixe perfeito entre as duas mãos. — Vou fazer com que seu pulso não se mova.
Ciel abriu a boca para argumentar, mas não o fez. Remexeu-se um pouco no banco tentando achar uma posição mais confortável, pois daquela forma seu queixo quase encostava no ombro de Sebasitan. Era inevitável que sua mente vagasse para aquelas lembranças sempre que chegava perto do mordomo. Seu coração começava a acelerar e exigia uma respiração mais profunda. E por medo de gaguejar se abrisse a boca, resolveu permanecer calado por todo o percurso, fitando a mão do demônio que se movia conforme o balanço do carro.
Tornava-se cada vez mais difícil manter a calma e controlar os impulsos que seu corpo tinha apenas por ter um vislumbre do moreno, quanto mais sentir seu cheiro. Ciel sentia um gelado calafrio descer pelas costas só de pensar no motivo daquelas reações. Talvez Lawrence estivesse mesmo certo, eram só os hormônios da juventude e um dia iria passar. Ou pelo menos, era o que ele achava.
Notas finais
Ah, também estou republicando minha primeira fic, na categoria originais mesmo. Então se quiserem dar uma olhada, sintam-se a vontade! Ela não tem uma trama tão tensa quanto Timeless, mas é meu xodó.
http://fanfiction.com.br/historia/405544/Primeira_Flor_De_Cerejeira/
E se não for pedir demais, queria saber o que estão achando do Lawrence. Eu me baseei em vários personagens que gosto para criá-lo, mas acho que ele virou um secundário bagunçado e insosso, então contra o que eu normalmente faço, preciso de uma opinião.
Eu tinha mais coisas a falar, mas esqueci de tudo.
See ya~
Fale com o autor