Timeless

1 Cap 1 - O garoto cego


Notas iniciais
Eu ia excluir minha conta do Nyah, mas não resisti. Talvez um dia eu poste minhas fics do GazettE como originais. Enquanto isso, espero que gostem dessa nova insanidade.

Sebastian, como era comumente conhecido (embora não fosse realmente comum conhecê-lo) se encontrava naquela época em uma casa antiga, grande e bonita. Ele olhava repetidas vezes para o frasquinho que tinha pendurado no pescoço, como forma de se distrair.

Havia acabado de terminar seu trabalho, exterminando um demônio que tinha a péssima mania de continuar falando mesmo com sua cabeça decepada. Não havia sido difícil, mas deveras cansativo, e ele achava que merecia algo muito melhor do que aquela alma que estava a sua espera.

Era só mais uma. Mais uma alma que haviam lhe garantido, que ele poderia pegar somente depois de sua “morte natural”. Sua última refeição havia sido há muito tempo, e ele não se alimetaria novamente se seus instintos já não estivessem atrapalhando seu trabalho.

A tarde daquele dia a alguns anos atrás estava bem mais tranquila do que normalmente, e embora estivesse adiantado, ele não se importava de esperar um pouco para que a linha da vida daquela mulher se rompesse. Ficou olhando a mulher deitada na cama enquanto agonizava. Parecia estar sofrendo. Ao seu lado, um garoto de aparente 13 anos lhe segurava a mão ternamente. Enquanto que ao fundo, um homem permanecia na poltrona de forma despreocupada, digitando freneticamente em seu celular.

— Deixe ela, Ciel. Não tem mais jeito. — O homem disse quando ergueu a cabeça minimamente para ver o que acontecia. — Seu pai logo estará de volta.

O garoto não deu ouvidos. Ele apertou os olhos com um pouco mais de força e virou o rosto para o lado, na direção de Sebastian. Mas demônios não deveriam ser vistos se eles não quisessem, e Sebastian se encontrava “invisível”.

Sebastian era de uma espécie despreocupada com os humanos, e como tal, não se atentou a cena que presenciava. Ele suspirou cansado, só queria a alma que era sua por direito e ele poderia voltar pro seu próprio mundo.

Até que o som de algo se partindo soou em seus ouvidos, como um cordão umbilical se rompendo. Sorriu ao perceber que a linha da vida daquela mulher havia finalmente sido cortada e sua alma foi sugada. Ela tinha uma consistência estranha, o que fez com que Sebastian fizesse uma careta de desgosto. Era uma espécie de sombra, quase uma fumaça, quase uma luz, quase um líquido, quase um nada. Limpou o rosto enquanto ajustava suas vestes, já pronto para finalmente sair dali antes que o cheiro de humanos o impregnasse.

Foi então que Sebastian percebeu de fato o garoto virado em sua direção, seus olhos azuis lacrimejados continham um brilho acizentado e opaco, sem vida. Mas apesar de parecer triste, ele sorria. Um sorriso tão puro e inocente, que mesmo se procurasse com muito cuidado, não poderia ser encontrado nem mesmo em um bebê. “Uma alma completamente pura. Há quanto tempo não vejo uma alma destas?”

— Obrigado. — Foi o que o pequeno humano sussurrou. — Minha mãe estava sofrendo.

Aquela palavra deu a Sebastian uma estranha sensação, como se fosse terrívelmente errado, e talvez por esse mesmo motivo, fascinante. Algo revirou em seu interior, algo que ele não deveria sentir áquela altura. Antes que ele tentasse algo pelo qual pudesse se arrepender depois, se forçou a voltar para o seu mundo o mais rápido que pudesse.

Mas não foi a distância que afastou aquelas memórias. O rosto do garoto parecia repassar infinitas vezes em seus olhos, uma sensação já conhecida que há muito tempo ele não sentia. Queria aquela alma para si.

“Você está encoleirado. Não se esqueça disso.” Lembrou a si mesmo, enquanto segurava o frasquinho pendurado em seu pescoço.

Apesar de sua consciência dizer claramente que não deveria voltar a ver o garoto, Sebastian não conseguiu ficar com aquilo por muito tempo o remoendo, e algumas semanas depois se viu novamente naquela casa escura. Aquele garoto franzino de cabelos curtos se encontrava no canto da sala, remexendo uma pequena caixa de música, que tocava uma melodia triste, mas agradável. Era difícil encontrar um aparelho daqueles, produtos manuais como aquele eram muito caros para serem fabricados.

— Chegou minha hora? — O garoto disse, com os olhos fixos em um ponto qualquer.

Sebastian estranhou aquele comentário. Não havia mais ninguém naquele cômodo além dos dois para ele conversar.

— Se for me levar, eu poderia ficar com minha mãe?

Percebeu então que o garoto estava falando com ele, embora seu olhar não estivesse em sua direção. Não era raro encontrar humanos que tivessem a capacidade de sentir ou enxergar seres espirituais, em toda cidade existiam pelo menos uns 10 desafortunados.

Sebastian andou lentamente até ele e se colocou a sua frente. O menor se encolheu um pouco, mas ainda parecia não vê-lo. Seus olhos tinham aquele brilho acizentado que havia causado agrado e estranheza no demônio, mas não pareciam ter vida. Analisou melhor o rosto delicado do jovem. “Os mesmos traços. Exceto pelo brilho dos olhos.” Foi quando percebeu que o garoto de olhar morto era na verdade cego, justificando talvez sua sensibilidade a seres espirituais.

— Se não quiser responder, tudo bem. — O garoto disse depois de um tempo, voltando a girar a pequena manivela atrás da caixinha, dando corda para que a música continuasse.

Sebastian se aproximou ainda mais, encarando-o de perto. Ele conseguia perceber que ainda havia algo de errado naquele humano, não era somente sua falta de visão ou aquela estranha semelhança. Mas o que estava faltando, não conseguia definir.

O menor tremeu um pouco quando ele lhe contornou, fazendo com que Sebastian achasse melhor se afastar. Foi embora naquele dia sem dizer uma palavra, como fez em todas as vezes posteriores. Sem saber que aquilo se tornaria uma rotina, sem remorsos ou questionamentos.

Notas finais
Esse capítulo é uma pequena introdução. O começo pode parecer um pouco confuso, mas lá pro 3º capítulo tudo será devidamente explicado!Obrigada pra todos que leram, e se puderem, dexem review. Mesmo criticando. ^^See ya ~