Time Warp

4 Capítulo 4


Notas iniciais
Vamos matar essa curiosidade, pessoas?

Acordei na manhã seguinte me sentindo exatamente da mesma forma. Bill estava com os braços em volta de mim, me aninhando em seu peito e lá fora o céu era branco-pérola. Pisquei os olhos algumas vezes para acostumá-los com a claridade, ficando chateada por dois segundos pela magia do duende não ter dado certo. Nossa, eu havia mesmo me pego na esperança disso? Boba. Balancei a cabeça e me levantei devagar, tomando cuidado para não acordar o meu marido. Ajeitei a roupa de dormir e fui escovar os dentes. Os meus dois braços estavam dormentes por conta do choque que eu havia levado e meu dedo médio recusava se mexer tanto, como se estivesse meio paralisado. Precisava dele para adiantar a ceia ainda cedo, haviam algumas coisas para serem feitas ainda. Suspirando pesadamente, escovei os meus dentes enquanto me encarava no espelho.

A pele branca ainda estava marcada pelo tempo, os olhos ainda eram lotados de marcas de expressões do lado com a sua cor mel, os cabelos branquinhos e cacheados ainda vinham até os ombros. Nada havia mudado.

Duende burro.

Enquanto tomava meu banho e pensava em tudo aquilo, Bill acordou. Ouvi seus resmungos depois um silêncio esquisito.

— Bill?

Mais silêncio. Tirei o shampoo da frente do rosto e abri o vidro do box, colocando a cabeça para fora afim de escutar melhor.

Nada.

— Bernardo! — Chamei, tentando parecer brava. Então ouvi o grito. Meu coração deu uma pontada dolorosa e eu me precipitei para fora do box, a torto a direito, batendo as pernas na parede e ignorando a dor forte que isso me causou — BERNARDO!

Se alguém tivesse me contado o que estava acontecendo diante dos meus olhos, eu daria uma gargalhada forte e perguntaria se a pessoa não preferia parar com o whisky, porque já estava lhe causando alucinações. Meus olhos fixaram em Bill sem acreditar no que acontecia.

Meu marido que tinha problemas na coluna e os ossos da perna meio fracos estava pulando em cima cama.

Sim, pulando. Em cima da cama.

Meu coração parou de bater e depois acelerou. Ele ria e pulava como um adolescente, o sorriso quase rasgando seu rosto perfeito e marcado pelo tempo. Ele agitava livremente os braços ao lado do corpo, a bengala jazia largada no chão ao seu lado.

— DAISY, OLHA ISSO! — Berrava ele sem parar — DAISY, ESTOU PULANDO! A QUANTO TEMPO EU NÃO PULO, DAISY!

Então, na mesma hora, o duende me veio a cabeça. Minha boca se abriu em um "o" perfeito enquanto eu lembrava no brilho azul que a miniatura havia soltado enquanto caía para se espatifar no chão.

Isso era impossível!

Larguei Bill pulando e fui até a sala para ter certeza de que não era um sonho, quando vi que os cacos não estavam lá. Umedeci os lábios, começando a tremer. Subi nas pontas dos pés como havia feito na noite anterior, jogando algumas coisas da estante no chão e...

— Isso não está acontecendo.

Yonkie Donkie me olhava, perfeitamente inteiro, como se jamais tivesse espatifado no chão. Fui para trás rapidamente, me encostando na parede com a respiração acelerada e ligeiramente tonta. Isso era IMPOSSÍVEL! Eu estava muito certa de que havia quebrado ontem, a dor do choque em meu braço não me deixava mentir! O lampejo azul, o som do vidro se espatifando, aquele duende maldito havia decididamente caído no chão e quebrado, eu não estava maluca!

Fiquei encarando ele por mais alguns minutos, ouvindo o som da cama próximo e Bill cantarolando com a sua voz rouca. "Quero minha juventude de volta com meu marido, para que possa ficar mais anos e anos do seu lado", esse havia sido o pedido e agora Bill sentia força nas pernas novamente. Caminhei devagar até a estante e peguei o duende com calma, analisando-o. Gorro vermelho, saco de natal, azul como o mar. Um Papai Noel de outra dimensão. O virei de cabeça para baixo e li as instruções melhor.

"Yonkie Donkie — O duende dos desejos! Peça com o coração e será atendido!

Como usar:

— Segure o duende perante o coração.

— Feche os olhos.

— Faça seu desejo.

É necessário acreditar na magia para que ela aconteça, e ela somente acontece no dia 25 de dezembro!"

Hoje era dia 24. Eu fiz o pedido no dia 23, sem fé, mas as pernas de Bill estavam de volta.

Bem, tínhamos dois fatos. O tal duende era mesmo mágico — não havia dúvidas quanto a isso, meu marido estava pulando na cama nesse exato momento! E eu havia feito o pedido dia 23 de noite, hoje era dia 24, ele só funcionava 100% no natal... Segurei o duende com força contra o peito. Eu faria o pedido novamente às 00:00!

...

Bill estava muito sapeca! Corria pela casa, subia nas escadas para mudar as lâmpadas, até pregou coisas que estavam fora do lugar o dia todo. Chris chegou com as crianças e ele logo as despachou para rua. Elaine e Miranda chegaram logo em seguida, com suas crianças. Lucia, ou melhor, Licinha, veio correndo em seu lindo vestidinho cor-de-rosa lotado de babadinhos e seu cabelo preto, seguida de Kai com seu sorriso maravilhoso e seu terninho. Kai abraçou minhas pernas com força, me fazendo soltar um pequeno gemido. Licinha me abraçou mais em cima por ser um pouco mais velha.

— Vovó! — Kai disse, com uma risadinha doce — Vovó, você fez aquele pudim?

— Diga "oi" antes, Kai! — Disse Elaine, com um grande sorriso no rosto e vindo me dar um beijo na bochecha — Oi, sogrinha.

— Oi, meu amor! Quanto tempo! — Eu disse, afagando o rosto dela e soltando rapidamente Kai e Licinha, que chiaram — Desculpem, desculpem! Oi, vovó ama vocês e fez todas as comidas do mundo!

— Meu bem! — Gritou Miranda, passando pela porta e ajeitando seu óculos — Céus, eu ia dizer pra você segurar as crianças. Desculpa por isso, mamãe.

— É uma honra para mim, filha.

Miranda levou Kai e Licinha para o parque, para ficarem com Bill e as outras crianças. Fiquei com Chris e Elaine, que estavam juntas fazendo o peru enquanto eu fazia o arroz. Chris estava rindo de alguma coisa que Elaine havia dito, eu me sentia tão bem com a aceitação da nossa família, era tudo tão maravilhoso na nossa pequena Dollhouse que estava totalmente iluminada no natal. Tudo estava em seus devidos lugares, menos Yonkie Donkie que havia sido cuidadosamente escondido na minha gaveta. Meu plano ainda continuava em vigor.

— E então — Elaine disse, secando os olhos com o dorso do braço enquanto ria junto com Chris — O homem do caixa me perguntou se eu queria desconto, e Kai disse que queria de 100%!

As duas explodiram em uma forte gargalhada que me arrancou um sorriso.

— Crianças são sinceras demais, isso é perigoso — Arquejou Chris, respirando com dificuldade — July é danada para isso. As tias da escola perguntam se estão bonitas e ela mesmo diz que sim ou não, totalmente séria! Eu morro de rir, e depois me dou conta de que não está certo e peço desculpas. Ela diz que não sente muito e continua séria.

Voltei minha atenção para o arroz, colocando algumas coisinhas nele, principalmente passas. Eu amo passas.

00:00 eu iria pedir algo diferente. Iria pedir juventude mas, sei lá, com mais tempo? Ou, não sei... Céus, não me faltava nada! Amor, felicidade, esperança, dinheiro, eu tinha tudo na medida certa que eu precisava, sem tirar nem por. Não havia nada que eu poderia querer a mais, além de tempo. Tempo com Bill.

Coloquei o arroz no forno e olhei para a janela, abraçando o meu corpo enquanto minha nora e minha filha conversavam animadas. Me perdi em pensamentos de como seria ter mais tempo com o amor da minha vida quando ouvi um estalo. Me virei e vi Elaine tomar um pouco da cerveja gelada e estalar os lábios.

— Sogra — Ela disse, recostando na bancada e me fazendo esquecer de Yonkie Donkie por alguns segundos — Lembra do nosso primeiro natal?

Sorri com a lembrança. Elaine estava completamente tímida naquele natal. Sentou-se no sofá com o título de amiga, embora eu e Bill soubéssemos que era algo a mais que isso a partir do momento que Licinha, sua filha, chamou Miranda de mamãe. Elaine ainda tinha os longos cachos e usava a blusa branca que eu gostava tanto. Ela sempre me olhava tímida com aqueles olhos azuis intensos que eu descobri serem lentes depois, porque ela não gostava de óculos. Lembro de termos comemorado o natal e bebido todos juntos, então de madrugada fui chamada para uma conversa.

— A senhora já ouviu falar sobre LGBT? — Me perguntou ela, tomando mais uma cerveja gelada.

— Não vivo em uma caverna, Elaine — Respondi, sorrindo — Eu sou velha, não burra.

Rimos do que eu disse e ela me explicou sua história. Estuprada pelo pai, abandonada pela mãe com as tias, foi bem criada e amada e descobriu que gostava de mulheres aos 13 anos. Apaixonou-se perdidamente por Miranda no supermercado, quando Licinha chorou por biscoito e ela viu a forma que minha filha a acalmou e conversou, sem gritar de volta. Ela achou tão carinhoso que sentiu a necessidade de receber aquele carinho também. Quando ela finalmente me contou, lembro de seus olhos nervosos analisando meu rosto e do suspiro calmo que ela soltou quando sorri. Eu a abracei naquela varanda, com alguns fogos ao longe. Bill entrou em seguida e eu falei o que ele já imaginava, ele beijou-lhe o alto da cabeça e secou as lágrimas que desciam furiosamente pelo seu rosto. Miranda apareceu e Elaine deu a notícia — disse que nós aceitávamos o relacionamento das duas. Naquele momento, quando vi as duas darem um selinho e sorrirem tanto uma para a outra, eu soube que tinha mais uma filha, porém de outra mãe. Fui arrancada das lembranças porque me lembrei de responder.

— Claro que lembro, você sujou meu tapete com vinho — Provoquei, indo até ela e lhe dando um beijo na bochecha.

— Desperdício de vinho, ele estava ótimo — Elaine riu e passou o braço pelo meu ombro — Foi um natal incrível, a melhor parte foi Chris subindo na mesa e dançando Highway to hell bêbada.

Chirs apontou a faca para Elaine, que gargalhou juntamente comigo.

— Foi Bad Reputation, e eu estava sóbria! — Rebateu ela, depois revirou os olhos e se rendeu, sorrindo — Ok, eu estava alterada. Somente isso, ok?

A tarde se seguiu com lembranças de natais passados e boas risadas enquanto as comidas eram preparadas. Eu nem me dei conta das crianças gritando e correndo, e Bill dançando com elas na sala, considerando que isso estava acontecendo a algum tempo desde que Elaine havia chego. Kai reclamou a plenos pulmões que nem havia chego ao parquinho quando viu seu avô correndo com as crianças na rua no caminho de volta pra casa.

— Papai melhorou rápido, não é? — Miranda perguntou assustada, enquanto servia farofa para July — O que ele tomou?

— Ah! Os remédios em dia!

Era minha desculpa a noite toda, junta com "Não lembro o nome do remédio, desculpe"

Bill entrou na cozinha no momento que July pedia mais farofa para a tia, sorrindo feito uma criança.

— Ei, Dai! — Ele chamou, me fazendo ir até ele e abraçá-lo pela cintura — Onde está o duende de Licinha?

Arregalei de leve os olhos por alguns segundos, mas logo minha expressão relaxou e eu tentei sorrir.

— E-Eu quebrei sem querer! — Menti — Me desculpe, querido. E desculpe, Licinha.

Lucy me olhou e deu de ombros, voltando correndo para a sala para cantar mais alguma música infantil do Mickey sobre Natal que passava no desenho. Bill me soltou e sussurrou no meu ouvido.

— Eu joguei fora, pode deixar.

Meu mundo caiu naquele momento e meu estômago congelou. Soltei Bill devagar e ouvi, em desespero, Miranda gritar "faltam 10 minutos!"

Murmurei alguma coisa sobre lixo e fui até o lado de fora, me debruçando sobre a lata. Minhas costas doeram muito quando fiz isso e nem ao menos senti nojo do que vasculhava, mas eu precisava achar aquele maldito duende. Ouvi outro berro. Cinco minutos.

— MERDA! — Berrei contra o lixo, ignorando seu cheiro pútrido em meu rosto — YONKIE DONKIE, APAREÇA!

O brilho azul intenso quase me cegou e o duende apareceu na minha mão instantes depois. Sorri para ele e fui de volta para casa, com ele no bolso. Lavei os braços rapidamente no banheiro, e então escutei a contagem regressiva. Eu não conseguiria chegar na sala a tempo então, no banheiro mesmo, eu o pousei no peito e quando berraram "FELIZ NATAL", eu pedi.

— Quero ser jovem novamente com Bill, para sermos felizes juntos e fazermos algo importante pelo mundo.

Por que não? Ter a oportunidade de ser médica e descobrir uma cura com ele ou algo assim, algo nobre, sabem?

Então o duende brilhou com uma força inacreditável. Fechei meus olhos em pânico, sentindo meu corpo inteiro vibrar e não doer dessa vez. Eu estava flutuando e perdendo a consciência lentamente. Ouvi um grito fino e então, escuridão.

Não sei por quanto tempo apaguei, mas lembro vagamente da sensação da grama embaixo de mim e de roupas um tanto apertadas. Haviam dedos nos meus de forma frouxa e cabelo na minha boca. Tentei abrir os olhos, mas estava claro demais, então os fechei novamente.

— Bill?

Murmurei e me assustei, porque minha voz estava clara e melosa, exatamente como era quando eu tinha 16 anos. Se estava assim, o feitiço havia dado certo! Mas... Aonde eu estava? A grama pinicou minha perna de fora, e um vento frio levantou um tecido até meu rosto. Parecia um vestido. Apalpei e o abaixei, era um vestido longo com... Aquilo era uma corda na minha cintura? Abri lentamente os olhos, tentando me adaptar a claridade. Pisquei para tentar fazer as imagens fazerem sentido, então me assustei com o que vi.

Havia um Sol muito forte acima de mim e as árvores bloqueando um pouco a visão. Vi alguns passarinhos também. Será que eu estava em um jardim? Olhei para o lado e vi Bill, desacordado. O Bill com 16 anos. Mas foi a roupa dele que me assustou. Vestido com uma roupa de gala, sapatos finos, porém nada do... Do nosso século. Olhei para mim e arquejei, eu estava com um vestido que já havia visto em livros de história antiga. Minha cabeça girou e eu entrei em pânico na mesma hora.

Eu estava com um vestido de bruxa.