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2 Leafre, 1991


Leafre é uma cidade que vive em meio a uma densa floresta. É habitada por uma quantidade consideravelmente menor de humanos do que outros lugares, pois mais a frente, após a floresta, é onde vive os dragões. De forma geral, eles não são hostis, e até já fizeram contratos com os humanos. Um deles foi exatamente esse: não permitir que humanos comuns fossem até lá. Se os deixassem viver em paz, eles os deixaram tomar parte de floresta para a construção de uma nova cidade. Uma única regra mútua: não destruir a floresta.

Por conta disso, Leafre contém uma arquitetura bem diferenciada das demais cidades, onde sua maior parte é composta de madeira, das próprias árvores, e de folhas especiais criadas especialmente por alquimistas e magos.

Atualmente, é considerada uma das mais pacificas cidades, além de uma das mais fortes. Pois os representantes dos guerreiros e dos magos vivem em Leafre, e o movimento constante dos aventureiros é uma das coisas mais comuns.

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– Moça, é serio! Vocês não podem fazer isso comigo! — Resmungava um rapaz alto, de cabelos brancos e curtos, com um sobretudo branco cobrindo o resto de sua roupa; para uma moça vestida com uma camisa azul clara, uma saia azul mais escuro, um chapéu preto com um símbolo de um pássaro.

– Não podemos fazer nada, sr. Gaz. O avião está atrasado em 12 horas, e o nosso serviço de voo só funciona até as 21h. Sinto informar, mas terá que aguardar o primeiro voo de amanhã, as 8h. Se achar necessário, podemos lhe oferecer um de nossos hotéis afiliados por um serviço de quarto pela metade do preço. — Respondeu a moça, com sinceridade e simplicidade, estendendo um bilhete.

Apesar do nervosismo, Gaz aceitou com um aceno de cabeça, retirando o bilhete de suas mãos e se dirigindo para a saída do aeroporto. O aeroporto ficava no norte da cidade, bem próximo do porto, era um lugar descampado por natureza e bem longe de qualquer outro ser vivo que possa ser considerado "monstro".

Era bem movimentado, mas por estarem em Abril, um mês de eventos culturais e outras festas de Mu Lung (uma cidade bem longe), Leafre ficava bem pacata nesse período.

Gaz dirigiu-se para a praça principal, onde era rodeada pela maior árvore de Leafre, que foi moldada de tal forma que hoje se tornou uma grande torre do relógio, que, além de mostrar as horas, indica a temperatura e outras informações que podem vir a serem úteis no dia a dia. Para o norte, tem o aeroporto e o porto, ao leste, você tem a prefeitura, o banco, e outras casas comerciais, além do acesso ao trem para Ariant, uma cidade mais ao leste. Ao sul, acesso a parte mais densa do floresta, proibida para a maioria dos humanos e dos aventureiros. A parte livre é onde fica algumas fazendas com plantações. Ao oeste, é onde a maioria das casas residencias ficam, além de acesso ao acampamento dos dragões.

Os hotéis ficavam, a sua maioria, em volta da praça e próximos aos aeroportos. "Já que terei que passar o resto do dia aqui, pelo menos vou pegar um quarto com uma visão que preste" — pensou Gaz, indo em direção a praça movimentada de gente;

Algumas horas se passaram até finalmente se decidir. O prédio da esquerda ao porto com um letreiro bem grande escrito "Bates", tinha alguns quartos que davam diretamente para a praça, de acordo com os cálculos matemáticos de Gaz.

Caminhou até o hotel, com várias pessoas o fitando durante o caminho. Pela sua roupa, muitos podiam pensar que era um padre. Por mais que não fosse preta, alguns detalhes, além da cor vermelha que estava em toda a borda do sobretudo, o faziam parecer um. "Eu, padre? Corta essa. Se tem uma coisa que eu não gosto é essas pessoas adorando deuses antigos como se eles ainda existissem" — praguejou Gaz, mentalmente. Adorava aquela roupa e odiava o fato das pessoas insistirem em que ele usasse roupas mais "comuns". Desde que saiu de sua cidade natal, Mu Lung, decidiu que não iria mais obedecer o desejo dos outros, e sim o seu próprio. Por isso levava umas 15 cópias de sua roupa em sua mala.

Chegando no hotel, conseguiu alugar o quarto que queria com o bilhete de desconto do aeroporto. Apesar de ter uma vista boa, pecava em outros aspectos. Por exemplo, não tinha papel no banheiro, o chão era de carpete, e continha uma mancha vermelha próxima a cama. Esta, de solteiro.

– Cama de solteiro, droga. Odeio essas camas pequenas, são um porre. Pelo menos, ela está encostada na parede da janela, se eu sentar assim...

Encostou-se na parede e olhou pela janela. Dali de cima, toda Leafre parecia pequena, menos a torre do relógio de mil e uma funcionalidades. Agora entendia porque ela era a maior árvore de Leafre. Mesmo no 18° andar, a árvore era ainda maior que ele.

Ficou vários minutos observando a torre, até surgir uma pequena inquietação. A torre, no seu topo, abaixo dos milhares galhos de árvore e suas imensas folhas, continha um espaço que, em todas as direções (Norte, Sul, Leste e Oeste), continha um letreiro digital com as horas e algumas outras informações. Logo abaixo, de inicio, Gaz não percebeu, mas depois de observar sem intenções, acabou notando uma pequena plataforma, com uma grade relativamente alta, e com várias pessoas andando por ali, como se estivessem indo para algum lugar.

– Não vai me dizer... que dá pra subir?! Ai meu deus, eu preciso testar isso!

Saiu correndo de seu quarto, por pouco esquecendo a porta aberta. Desceu de elevador e dirigiu-se para a torre. Já estava ficando tarde, cerca de umas 17h30. Acreditava que ainda daria tempo, e acelerou o passo.

Na base da torre, encontrou o que parecia ser uma entrada, duas portas enormes e enfeitadas com folhas e galhos de árvore, de aproximadamente 3 metros de altura, com dois guardadas devidamente fardados na frente.

"Ótimo, guardas. Eles não parecem com cara de "Entrada Gratuita"... Mas, então como aquelas pessoas subiram?" — Questionou, em sua mente. Por mais que fosse um lutador experiente em combates corpo a corpo, que na época eram tachados de burros e sem inteligência suficiente, Gaz era daqueles que pensava periodicamente sobre aquilo que estava interessado.

Com um movimento de mão, tirou um pequeno bloco de um de seus bolsos camuflados dentro do sobretudo. Folheou várias páginas, estas com rabiscos, desenhos, e outras coisas a lápis, até alcançar uma página com um desenho que lembra símbolos alquimistas;

"Odeio usar magia... Mas não quero ter que conversar com esses guardas, eles não parecem nada convidativos" — Pensou, colocando sua mão sobre o símbolo e recitando algumas palavras em outro idioma. O símbolo soltou um breve brilho, e Gaz ficou invisível.

"Bem, agora é só passar entre eles e abrir a porta. Então eu entro."

Foi andando devagar, com passos ritmados. Correr nessa forma consome mais mana. E se tem uma coisa que guerreiros tem em escassez é a mana. Em poucos segundos alcançou a porta. Prendeu a respiração, esticou a mão na maçaneta e, com uma velocidade surpreendentemente rápida nos punhos, girou e a empurrou, causando pouco som e dando a impressão que "o vento levou";

Esgueirou-se por dentro assim que um dos guardas exclamou um "Ah!" e escondeu-se atrás de uma das portas, ainda mantendo a invisibilidade, essa, que já havia consumido mais da metade da mana.

Esperou alguns segundos, e viu pela pequena fresta uma mão puxar a maçaneta e fechar rapidamente. "Seguro por pouco" — pensou Gaz, desfazendo a magia.

Com a pausa para respirar, olhou por dentro. Era uma grande escada em espiral com vários fios em diversos lugares. Havia caixas e mais caixas empilhadas em alguns cantos, silêncio. O som ali dentro era completamente esvaziado, sem o barulho entorpecente de pessoas andando, conversando na praça, que estava cerca de alguns centímetros de distância.

Subiu. Cerca de dois minutos, chegou ao topo. No final da escada, nada mais que uma porta escrito "Relógio", entre aberta com alguns barulhos de máquinas dentro. Entrou, fazendo o máximo de esforço para não causar barulhos. Nada.

Olhou ao redor, percebeu que não havia ninguém. Estava num grande salão, que dava voltas aonde ele estava. Cada lado havia um grande painel, e em sua base alguns computadores. "Provavelmente para programar o uso do relógio" — Admitiu Gaz.

Andou pelo chão de madeira, olhando ao redor. Não percebeu ninguém, até encontrar uma outra porta em outro ponto. Imaginando que aquela seria a saída externa, caminhou até lá em pulos de felicidade. Agora ele poderia observar a cidade do ponto mais alto antes de viajar para casa.

Abriu a porta com cuidado, e realmente estava certo. Sua sequencia era um pequeno chão ao estilo de grade, com um corrimão na altura de seu peito. Além disso, nada mais que o céu, ar puro, um vento gelado. Estava a mais de 60 metros de altura e através das barras de metal que formavam o chão, viu milhares de pessoas em tamanhos de formiga, andando e cuidando de suas vidas.

Saiu, fechando a porta atrás de si. Colocou as mãos na grade e sentiu a brisa vir em sua direção, batendo nos rostos e fazendo sua roupa esvoaçar. viu que o caminho contornava, embora ele não voltasse até onde estava, já que para o lado esquerdo da porta, nada havia.

Seguiu andando, tendo a suas costas um enorme relógio analógico de formato digital, além de textos em tamanho enorme sobre previsão do tempo e outras coisas. Deu duas voltas, e percebeu que o corredor acabou. Nenhum sinal de quem já estava lá em cima. No final do caminho, de frente ao aeroporto, nada havia, a não ser uma grade avisando que não havia saída.

Caminhou até o fim, olhando para sua direita. Podia ver a quarta e última face do relógio, mas sem nenhum corredor transitando na sua frente. Conseguia ver parte da outra grade, onde esteve cerca de alguns minutos atrás, banhada pelo sol de fim de tarde.

Olhou mais uma vez para baixo, e decidiu voltar. Andando calmamente e despreocupadamente, Gaz assobiava, como quem aproveitava os últimos momentos de rebeldia antes de voltar para casa. Estava em Leafre apenas de passagem. Seu motivo de estar ali era nada mais que uma escalada para outro voo. Não tinha interesse na cidade, muito menos tempo.

Trabalhava como organizador de torneios de luta. Era de uma equipe mundialmente famosa, originária de Mu Lung, sua cidade natal. Seu principal objetivo era viajar entre as cidades promovendo pequenos torneios, com a ideia de checar, tanto se a cidade era capaz para suportar um evento de maior porte, tanto quanto para olhar lutadores especiais, basicamente um "olheiro".

Estivera a poucos meses em Henesys, uma cidade ao norte, em uma enorme ilha, chamada Victória. A cidade era pacífica, cheia de agricultores e famílias de gente humilde. Tão humilde que, cedeu um de seus campos recém aparados para um de seus torneios mirins. A competição acabou normalmente, e então Gaz deveria voltar para sua cidade, relatar suas experiencias e assumir suas férias.

Infelizmente, para ir até Mu Lung, precisava fazer uma escalada em Leafre. Por mais que Mu Lung estivesse sendo o centro das atenções por conta de seus festivais únicos, sua difícil localização (atrás de enormes montanhas de gelo pertencentes a El Nath), a tornava complicada para voos diretos. Tendo de fazer até duas escaladas, uma em Leafre, outra em Magatia.

Gaz andava despreocupadamente, até esbarrar numa grade na altura de seu peito. "Cheguei ao fim?" pensou, mas então percebeu que, olhando para sua esquerda, ainda havia uma parte da torre, e além disso, avistou a porta mais a esquerda do painel enorme, na qual avisava "18h01".

"Mas... isso não faz sentido. Eu acabei de vir dali." Pensou Gaz, preocupado. Olhou para baixo, várias pessoas com seus próprios problemas andando para lá e para cá. Estava preso lá em cima e não sabia como descer de forma segura.

Voltou para trás, pensativo. Deu meia volta e seguiu o caminho de volta. Apesar de só ter um único caminho, pensou inocentemente de que havia ido pelo lugar errado. Antes mesmo de dar seu primeiro passo, avistou ao fundo o bloqueio da grade.

– Como?! É como se o caminho tivesse sido engolido!

Correu até a ponta, e percebeu que outra parte do corredor de grade havia desaparecido. Colocou as mãos na cabeça e a inclinou para trás.

"Não estou enlouquecendo. Pode ser magia de ilusão? Porque entrei aqui sem permissão? Ou será que o corredor estava aqui para me enganar e agora ele vai sumir e eu vou cair em direção a minha morte?"

Talvez Gaz quisesse retirar o que disse. Logo após pensar e pensar sobre isso, algumas barras de metal da grade que formava seu pequeno corredor a frente do relógio, começaram a subir, abrindo um buraco entre ele e a outra parte.

– Santo deus, não!

Andando para trás, pé ante pé, as barras iam subindo conforme seus pés deixavam de tocá-la. Poucos segundos, e alcançou o limite. Do outro lado, todas as barras já haviam sumido, e agora ele estava preso cerca de 50 metros de altura do chão, por aproximadamente 6 barras de metal abaixo de seus pés.

Fechou os olhos. Não tinha medo de altura, mas naquela situação, não poderia esconder. Fechou os olhos, pensou em sua família (atualmente um pai com cerca de 50 anos, dois avós e alguns tios e sobrinhos), pensou no seu emprego, e no que sua vida tinha se resumido até então.

Sentiu uma tremedeira. Segurou ainda mais forte, e se recusou abrir os olhos. Ficou cerca de cinco minutos sentindo o chão tremer e seus pés escorregarem. Era forte por conta do treinamento que recebeu, mas não sabia o quanto iria aguentar se aquilo continuasse.

Poucos minutos depois, o chão se desfez. Automaticamente suas mãos soltaram os restos de grade, e agora Gaz caia em queda livre. Recusava-se a abrir seus olhos, e agora só rezava para ter uma morte rápida.

Caiu antes do que esperava. Uma dor enorme surgiu de suas costas, mas não parecia sangrar, muito menos ter alguma parte quebrada. Ficou no chão por alguns segundos até perceber que não estava mais em Leafre.

Notas finais
Adaptado conforme original.