Notas iniciais
Então, mais um!
Eu também fiquei com raiva da Beatrice e também do Heitor, o que é estranho, já que eu os criei. É estranho sentir raiva da própria imaginação. :x Mas, deixa pra lá.

Agradeço aos review de:
* ArielaFernandes
* belle_epoque
* sophia_08
* Alice_Bennet

Capítulo 8 – Fogo frio

POV_ARITA

Três dias após a partida de Beatrice, eu estava conseguindo me comportar melhor. Heitor me tratava como sempre tratou, chamando pelo primeiro nome, dispensando os títulos. Mas eu não conseguia.

Desde aquele dia eu não cantava, não tocava mais. Meus dias estavam marcados pela monotonia. Eu acordava, tomava café ao lado de Heitor, ele tentava uma aproximação frustrada, me convidava para caminhar nas colinas, eu cuidava dos animais, almoçávamos. A tarde, eu passava trancada no quarto, ou talvez na sala, ouvindo Heitor tocar. Eu não lhe dirigia a palavra sem o “senhor” na frente, e sem que fosse absolutamente necessário. Á noite, eu o ajudava na biblioteca, lendo o livro da falecida mãe.

Por mais que estivesse entediada, ou sentisse uma grande falta de conversar com ele, estava decidida a ignorá-lo. Eu me sentia triste, humilhada e ofendida. Tinha dúvidas sobre tudo; seus sentimentos com relação a minha pessoa, seus sentimentos com relação a Beatrice... Teria sido aquele beijo uma verdadeira mostra de afeto? Por parte de Beatrice eu sabia que não, mas por parte dele... Meus olhos doíam, cada vez que eu lembrava da visão de suas mãos na cintura dela. Nojo. Era o que eu sentia, misturado a dor.

No entanto, apesar de tudo, apesar de toda vez que ele se aproximava, eu o repelisse, apesar de todas as emoções que senti ao vê-lo com Beatrice, eu o queria. Mas não do jeito que se pode querer um amigo ou um parente. Eu o queria ao meu lado, demonstrando o afeto e o pretenso amor que ele sempre quis mostrar e sempre me desconcertava. Em alguns momentos do dia, quando o via brincando com os gatos, por exemplo, eu queria que ele viesse brincar comigo, fazer cócegas em mim. Tinha certeza de que eu me renderia. Portanto, crescia uma espécie de fogo frio dentro de mim.

E isso me fazia mal.

No terceiro dia, porém, quando desci para a cozinha, a fim de irmos para a biblioteca e estudarmos, ele não estava lá. Eu já ia me virando para subir as escadas, quando ouvi meu nome ser chamado, naquela voz rouca que eu tão bem conhecia. Meu coração bateu mais forte, eu não sabia reprimir meus sentimentos.

-Sim?

— Aqui na sala... – cheguei à sala e o vi, sentado ao piano, com uma expressão sombria e doentia.

— Aqui estou, senhor. Não vamos para a biblioteca? – temerosa de que minhas palavras fossem mal interpretadas, completei: — Para estudar...

— Hoje? Não, hoje não... – ele fixou bem os olhos em mim. – Sente-se aqui, ao meu lado, sinto a sua falta sabia? – disse ele, dando palmadinhas no espaço ao seu lado.

Certo, eu sei que estava tentando manter um tratamento frio e formal, mas à noite eu fico tão... sensível.

Caminhei até ele, com a lamparina acesa em minha mão. Eu podia sentir o calor do fogo. Era agradável, estava muito frio naquela região.

Quando estava prestes a me sentar, sempre atenta aos movimentos de Heitor, ele se levantou. Só então pude perceber os olhos vermelhos, sinal evidente de que lágrimas fizeram uma caminhada por seu rosto.

— Perdoe-me. Perdoe-me por tudo. – disse, a voz embargada.

— Eu já o perdoei. – lembrei.

— Você disse que me perdoava, mas não me perdoou. Não de verdade. Você sabe.

— Eu já o perdoei. – repeti. – Por favor, senhor, não quero lhe causar aborrecimentos.

— Perdoou-me? Então, por que me trata com formalidade? Por que, a cada tentativa minha de aproximação, você se afasta tanto? Por que me despreza? Diga-me, o que mais quer que eu faça por você? Eu já pedi desculpas, o que mais você quer? – ele gritava, colocando-se como o pobre pecador arrependido, colocando-me como o terrível carrasco da Inquisição. Como se ele estivesse certo e eu, errada.

Era muita injustiça. E eu já sofri injustiças bastantes para deixar mais essa passar.

— Quer mesmo saber o porquê de minha frieza? Não pode imaginar sozinho?

— O que, está com ciúmes novamente? Eu não a entendo.

— Eu é que não o entendo! No meu primeiro dia aqui, você já veio cheia de galanteria, dizendo que eu sou uma jovem encantadora. Depois, continuava sempre se insinuando. Quando Beatrice chegou, não mediu esforços para me fazer ciúmes, me provocar. Depois, imagine só, eu o vejo beijando-a. Depois de tudo que me fez, como quer que eu o trate? – a raiva fluía ardente, tanto pela minha boca quanto pelos meus olhos.

— Eu lhe provoquei ciúmes, então? – perguntou, cheio de presunção.

— Claro que provocou. Depois de todas as suas mostras de inclinação a meu favor, o que queria que eu sentisse? – eu estava exasperada. Estava revelando meus sentimentos, mas não me importava.

- Quer dizer, então, que minhas investidas funcionaram? – ele ria.

- Funcionaram. – eu chorava, em desespero, confusa.

- Se eu soubesse que você tinha sido afetada por elas, não tentaria enciumá-la. Mas você não demonstrou nada!

- Você é problemático! Louco, senil! Não sabe o que diz, o que fala! Como eu podia querer, pensar em demonstrar algo! Se a cada momento, você muda. Você é transtornado!

- Se sou transtornado, a culpa é sua. Você também muda. Uma hora está toda alegre, noutra, está cheia de sarcasmo.

- Minha culpa! Claro, eu já estou acostumada a isso. Culpam-me de tudo. – eu estava me virando para partir, mas ele segurou meu braço, como fizera tantas vezes.

- Ainda não acabou.

- Solte-me. – ordenei.

- Veja só. Eu a deixarei ir, quando terminarmos essa conversa aqui. Estou inteiramente disposto a revelar, sem o menor pudor, todos os meus sentimentos por você, se a senhorita estiver igualmente disposta a fazê-lo. Sem mentiras. Sem omitir. — então era assim? Ele iria falar o que bem entende e eu teria que fazer o mesmo?

- O que eu sinto agora ou o que eu sempre senti?

- Tudo. – ele esperou pelo meu consentimento e despejou tudo de uma só vez. – Não posso dizer que a amo. – uma flechada no meu coração. – Pois eu nunca amei ninguém, logo, não sei qual seria a sensação. Mas posso, e devo, dizer que preciso de sua presença, sua companhia, seus sorrisos, suas lágrimas, ou o que quer que seja, desde que venha de você. Se a magoei, foi por falta de experiência, pois tudo é tão novo, que nem sei nomear. Fiz tudo o que fiz para tê-la ao meu lado, ter a certeza de que também gosta, mesmo que minimamente, de mim.

- Isso é amor, creio eu.

- Então, eu a amo. Creio eu. – ele tentou esboçar um sorriso. – Ahn, sua vez de falar algo?

- Agradeço-lhe a franqueza.

- E seus sentimentos?

- Preciso dizer? Não são claros o bastante?

- Precisa, oras.

- Agora não. – disse eu. Sentia-me confusa, feliz, triste, assustada, todas as emoções fluindo juntas. Eu ainda tinha raiva também.

- Não me aceita, afinal? – ele me segurava nos ombros, obrigando-me a olhar no fundo de seus olhos; era como olhar para o fundo do mar.

- Não, não ainda. Terá que se redimir por atos, não apenas com palavras. Palavras bonitas não me emocionam, acho que deveria saber disso.

- Quer atos que demonstrem o que sinto? Aliás, por que está me rejeitando?

- Porque me magoou. Porque é prepotente. Porque tenta usar de sua beleza para me seduzir. Porque acredita que ninguém possa resistir a você. Mas está enganado. – ele abriu a boca, talvez para poder pegar mais ar. – E sim, quero atitudes.

- Ótimo. – disse ele. – Estou disposto a fazer o que quer. Então, se quer atitudes, começarei agora. – com isso, ele se inclinou para mim, para me beijar. Não pensei duas vezes e minha mão direita tocou-lhe a face violentamente, em eufemismo. No linguajar vulgar, eu dei-lhe um belo tapa.

- AI! Minha nossa, o que é isso?!

- Deixe de ser tão beijoqueiro. Se quer beijar, beije as almofadas. Comigo, terá que aprender a ser paciente, aprender a esperar, enquanto meu coração se cura dos duros golpes que me deu. Terá que aprender a ser como é durante o dia, se quer sinceridade.

- Durante o dia?

- Durante o dia. De noite, você fica muito presunçoso e atrevido. De dia, você é muito mais gentil.

- Eu... eu estou verdadeiramente envergonhado. Desculpe-me. – estava mesmo, todo vermelho.

- Tudo bem. Agora, vamos estudar.

Ele abriu um sorriso, tímido, e me deu o braço, como um cavalheiro. Eu gosto de cavalheirismo.

Mas afinal de contas, que garota não gosta?

POV_HEITOR

Sabe, eu sou um imbecil.

Durante todo o tempo eu tive ali, ao meu lado a mais gentil e perfeita das damas, e eu não soube tratá-la direito.

Arita se dispôs a me fazer companhia, a me ajudar, a me ensinar, a me alegrar e eu me encantei com aquele sorriso sincero.

Todos se encantariam se pudessem vê-lo.

Talvez meu real problema seja o egocentrismo. Pelas tantas vezes que passeei pelos vilarejos, ouvindo aquelas donzelas suspirar em meu encalço, acabei colocando a mim mesmo no mais alto patamar. Acreditando que nenhuma moça resistiria a mim.

A bem da verdade, as moças dos vilarejos não resistiriam mesmo; são loucas para arranjar marido, são pressionadas pela família e são todas interesseiras. Mas Arita não, nunca foi e provavelmente nunca será uma moça típica de vilarejo.

Ela é corajosa, determinada, forte, doce, inteligente... Ao contrário de mim, que tentei descaradamente seduzi-la, tentei provocá-la, fazer ciúmes.

Quanta infantilidade a minha.

Quanta arrogância.

Talvez, eu tenha pensado que o fato de eu lhe dar abrigo, comida roupas, me dava a certeza de ela me amaria.

Contudo, estou decidido a me redimir e conquistar sua admiração. Admiração, meu pai dizia, é a base para o amor.

Arita se preocupava comigo, e eu sempre era um idiota, prepotente, como ela mesma disse. Pois é, parece que eu não passei na fila do romantismo.

Apesar de todos os meus erros, incluindo os desta noite, ela aceitou ensinar-me mais, doar um pouco mais da sua sabedoria.

Depois de um longo tempo na biblioteca, nós dois estávamos exaustos. Ela me perguntou sobre diversas coisas, me fez escrever outras milhares, mas eu não me importava, desde que a tivesse a meu lado.

- Arita, estou realmente perdoado por todas as minhas falhas? – queria me certificar.

- Não sou da espécie que escurece o coração guardando rancor. Está tudo bem agora.

- Mesmo? Eu lhe agradeço muito. Não saberia o que fazer se você decidisse ir embora.

- Não se preocupe. – ela sorriu. Suspirei, aliviado.

- Mesmo assim... estou muito envergonhado do que fiz. Não agi como deveria.

- Tudo bem...

- Vamos começar de novo?

- O quê?

- Começar de novo. – eu estava agindo como louco. – Ah, olá, meu nome é Heitor Bennet, tenho dezesseis anos, sou praticamente um órfão, moro sozinho nessa mansão, sem família, só com meus empregados e meus animais. E a senhorita?

- Heitor... – ela ria. Pelo menos eu conseguia fazê-la rir ainda. – É um prazer conhecê-lo, meu nome é Arita de Bourgh, tenho quinze anos e realmente sou uma órfã.

- O prazer é todo meu. – levantei-me e fiz uma vênia. – Então, sou muito solitário, como já lhe disse, gostaria de me fazer companhia e morar aqui comigo? Prometo que serei o mais respeitoso dos homens.

- Eu já moro aqui... – repreendi-a com o olhar. – Ah, claro, me sentiria honrada.

- Honra maior é a minha em abrigá-la. – sentei-me novamente. Ela ria, feliz e contente. Quando conseguiu parar disse:

- Você é um doce.

- Obrigado. – enrubesci. – Brincadeiras à parte... Arita, o que vamos fazer sobre a banshee que você viu esta manhã?

- Eu não sei. Não faço ideia.

- A visita dela só pode significar que eu vou morrer não é?

- Eu não sei. – ela ergueu os olhos esverdeados. – Espero que não, mas acho que sim. – ela começou a chorar.

- Não, por favor, não chore. Nós não sabemos ainda. – eu queria reconfortá-la, mas não sabia como reprimir meu amor.

- O que farei se você morrer? Não quero parecer interesseira, não sou nenhuma Beatrice, mas para onde irei? Você foi a minha última de chance viver sem medo, de ser feliz.

- Eu... não sabia que depositava tanta confiança em mim. Ainda mais depois do que fiz.

- Nós recomeçamos, lembra? Não me importa mais os seus erros passados, desde que você procure não cometê-los novamente no futuro. – ela sorriu em meio às lágrimas. – E sim, eu deposito toda a minha confiança em você. Não há mais em quem depositar.

- Agradeço. Eu também confio em você. E olhe, eu não vou morrer.

- Não é você quem decide isso.

- Eu sei. Pode não ser em breve também, não é? E mais, ela vem avisar a morte de alguém da família. Eu tenho mais familiares.

- Tem? Eu não sabia. Mas, ela não avisa só a morte de quem mora na casa?

- Não. Eu li isso no livro de minha mãe.

- Pela Grande Mãe, isso é uma benção! Agora, há esperanças!

- Sim, há! É verdade, como posso ter me esquecido disso? Tenho um primo distante que é inquisidor, sabia? Não me importaria nem um pouco se ele morresse, principalmente se fosse de forma lenta e dolorosa...

- Heitor, não se deve desejar o mal a ninguém! – ela se levantou. – Agora, podemos comemorar, não há nada a temer! – ela caminhou até mim e me abraçou.

E nesse momento, eu soube, sem um vestígio de presunção, que ela também me amava. E não me deixaria.

Notas finais
Esse ficou maior que os outros né...
A Arita é muito fofa ~eu acho~, para perdoar tão completamente o Heitor depois de tudo... enfim, às vezes, ele me irrita demais, se achando o lindo.
Mas no finzinho ele ficou fofinho de novo, né?

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