Tigers
25 Tausarani
Notas iniciais
Um novo dia se inicia e, junto com o raiar do Sol, um par de olhos se abrem ao sentir um ar quente sobre sua cabeça. Ainda sonolento e com a visão ofuscada pela luz solar, Toni vê vultos de algo se mexendo diante dele. Sua visão melhora e ele vê claramente o momento em que o lobo de Melissa urina em seu cabelo. Esperando o lobo terminar de se aliviar, se afastar e se deitar, Toni rasga sua camisa, se senta e começa a secar seus cabelos. Mesmo sem olhar diretamente, ele vê que Nizuka já está de pé.
Toni – Não vai dizer “eu te avisei”?
Nizuka – Rum! Reação estranha essa a sua. Achei que teria um grito escandaloso e algo do tipo “Bicho maldito” saindo de sua boca.
Toni – Se eu me ferro por não escutar um concelho, eu não ligo.
Nizuka – Então agradeça por não ter barba e não ser careca.
Toni – Ah?
Nizuka – Como acha que seu avô se saiu? Roncava de boca aberta e só tinha pelos em volta da boca.
Imaginando a inusitada cena do animal urinando na boca de seu avô, Toni até acha graça, mas esboça apenas um leve e abatido sorriso que logo desaparece.
Nizuka – Sinto muito por seu avô, Toni. Se existiu alguém que não merecia esse destino, era Barok.
Toni – É.
Nizuka – Sei que ainda é bem cedo, mas temos que seguir para-
Toni – Me leve até ele.
Nizuka – Tem certeza disso?
Toni – (confirma com a cabeça)
Nizuka – Melissa deve voltar logo com alguns alimentos. Vamos comer algo e seguiremos após isso. Mas você deve se lavar antes.
Toni – Por quê?
Nizuka – Está fedendo. Muito.
A princípio olhando com raiva para Nizuka, Toni vira o rosto para o lado e se espanta com Melissa encarando-o bem séria.
Nizuka – Olha quem já voltou. Preciso de sua ajuda aqui.
Ainda encarando Toni, Melissa olha para o corpo dele sem camisa e fica ainda mais séria.
Toni – O que foi?
Olhando para o próprio corpo, Melissa abaixa seu top e, um pouco confusa, observa seus seios e o peito de Toni. Os olhos dele congelam, seu nariz começa a sangrar e este fica paralisado.
Nizuka – Melissa! (cobrindo os olhos de Toni) Você não pode fazer isso na frente de um garoto!
Melissa – ?
Passando pelas frestas da parede, a luz do Sol invade o quarto e logo paira sobre um rosto. Abrindo seus até então fechados olhos e retirando umas mechas de seus longos cabelos negros de seu rosto, Janessa lentamente leva a mão direita até a nuca.
Janessa – Que dor de cabeça.
Sentando-se na cama ela sente algo cair em seu colo. Ela dá um sorriso ao ver a compressa feita pelo manto de Mikke. Olhando para os lados ela logo o encontra na beirada da cama, dormindo, com a cabeça apoiada sobre os braços e o corpo para fora. Aproximando-se vagarosamente dele, Janessa o balança pelo braço.
Janessa – Mikke. Mikke.
Mikke – Hum…
Janessa – Já amanheceu. Acorde.
Mikke – Hum…
Levantando-se da cama e vestindo seu manto, Janessa sai do quarto e segue por um corredor. Algum tempo se passa e ela tenta, novamente, acordar Mikke balançando-o pelo braço.
Janessa — Mikke
Mikke – Hum…
Janessa – Eu trouxe uma coisa pra gente.
Mikke – Me deixa dormir.
Com um sorriso maléfico nos lábios, Janessa apoia o polegar e o indicador direitos sobre o braço dele. Segundos depois Mikke acorda apavorado devido a dor de uma corrente elétrica que passou por seu braço.
Janessa – Funcionou. Bom dia.
Mikke – O QUE FOI ISSO?!
Janessa – Você não acordava de jeito nenhum, então eu decidi ser mais severa.
Mikke – Severa? Você me deu um choque. Pera aí. Como você fez isso?
Janessa – Eu chamo de Minus. É a tensão mais fraca que consigo produzir.
Mikke – Produzir? O que é isso? Você controla os raios por acaso?
Janessa – Acertou.
Mikke – A-acertei… o que?
Janessa – Eu controlo os raios.
O espanto nos olhos de Mikke deixou claro para Janessa que ele não sabia do que ela estava falando.
Janessa – Melhor eu ir com calma. Eu trouxe algumas frutas e água. Vamos comer alguma coisa e eu te conto tudo, tá bom?
Com uma bandeja de frutas no meio da cama, Mikke do lado direito e Janessa do esquerdo.
Janessa – Você deve estar com fome. Coma um pouco.
Mikke – Hum.
Janessa – Sobre o que quer falar primeiro?
Mikke – O que… é um Tiger?
Janessa – É o que somos. Próxima pergunta.
Mikke – ISSO NÃO É RESPOSTA!
Janessa – Hahaha! Brincadeira. Você tá muito sério. Relaxa um pouco.
Mikke – Considere minha situação um momento.
Janessa – Desculpe. Desculpe. Não vou fazer outra vez.
Desviando o olhar, Mikke olha sem rumo para a parede a sua frente. Janessa se sente culpada por novamente pisar nas emoções dele.
Janessa – Um poder sombrio nasceu.
Mikke – Ah? (a encara)
Janessa – Durante eras esse poder existiu. Muitas gerações passavam e muitas outras vinham, mas esse poder nunca desapareceu. Ele só aumentou. Só nos oprimiu.
Mikke –…
Janessa – Então nós surgimos. Como uma espécie de chance contra esse mal.
Mikke – Nós?
Janessa – Não sou imortal e nem tenho milhares de anos de idade se é isso que você tá pensando.
Mikke – ‘Quem iria pensar isso?’
Janessa – Iguais a ele, nós simplesmente surgimos. Como se a própria natureza estivesse se sentindo ameaçada por aquela maligna presença existir.
Mikke – Que presença?
Janessa – Venks Dregon.
Mikke recorda das palavras de Akishiba em uma reunião no hall da Grisma: — “Precisamos nos preparar, pois a qualquer momento podemos sofrer uma investida de Venks Dregon.”.
Janessa – Era como se todo o mal ganhasse forma e descontasse sua ira na humanidade. Incontáveis vidas foram perdidas a cada passo que ele dava. Surgimos para impedi-lo de continuar esse massacre e o Presente Sagrado nos ajuda.
Mikke – Presente Sagrado?
Elevando sua mão direita e mantendo uma pequena distância entre os dedos, raios começam a correr de um dedo a outro da mão de Janessa.
Janessa – A Dádiva dos Raios. Esse é o poder que eu possuo que me dá a liberdade de controlar e criar raios e relâmpagos. Este é o meu Presente Sagrado.
Mikke – Incrível.
Janessa – Por que diz isso? Você logo controlará o fogo. Pense no que você pode fazer e o que pode mudar com esse poder.
Mikke – Você acha que eu posso controla-lo?
Janessa – Aquele que o merecer deve ter a mente tranquila e seus sentimentos perfeitamente controlados. Seu corpo aceitou o Presente Sagrado e, por si só, já é uma grande conquista. Sua mente e corpo podem ser treinados para controlar sua parte mais complicada e eu posso te ajudar nessa parte.
Mikke – Ajudar… AH!
Seu rosto instantaneamente cora.
Janessa – Algo errado? Você ficou vermelho de repente.
Mikke – Eh? Nada! Nada! Não é nada.
Janessa – Tem certeza? Não está ficando com febre?
Mikke – Falando em febre… você estava febril noite passada e mesmo assim trouxe essas coisas. Não devia se esforçar tanto.
Janessa – É. Eu… sei.
Ela olha para baixo e sorri.
Mikke – O que foi?
Janessa – Que sensação boa.
Mikke – Sensação?
Janessa – De alguém se preocupar com você. Eu adorei sentir isso. (o encara) Obrigada Mikke.
Aqueles olhos oceânicos encarando-o acompanhados de um lindo sorriso deixaram-no sem reação.
Janessa – O Quinto Passo foi concluído.
Mikke – Quinto Passo?
Janessa – Eu te disse que o Grande Loritai previu como eu poderia deixar de ser Grisma.
Mikke – Hum.
Janessa – Alguém apareceria em minha vida e a mudaria, mas seis passos devem ser seguidos para isso acontecer. Se um deles for quebrado, então… começo tudo outra vez.
Mikke – E quais são esses passos?
Janessa – O primeiro passo: “Verá o seu pior lado e não mostrará medo”.
Mikke – Pior lado?
Janessa – Sim. Ele quis dizer sobre algo que nos envergonha quando mostramos. No meu caso é a ira.
Mikke – Você não aparenta ser assim.
Janessa – Já ouvi muito isso, mas (ergue a mão direita) sempre que alguém me interrompe eu sinto ira e acabo castigando essa pessoa.
Um pouco de medo é exibido pelos olhos de Mikke ao lembrar-se da “recepção” de Akishiba que fora interrompida por ela.
Janessa – Esse é o meu pior lado. Por anos as pessoas se afastavam com medo de mim e dessa minha mania. Até que você apareceu.
Mikke – Ah? Eu?
Janessa – Mesmo tendo visto como eu afastei o Erigashi, você não demonstrou medo. Esse foi o primeiro passo. O segundo passo: “Proferirás teu nome em meio ao desespero e tua ajuda aclamará.” Foi o suficiente para eu me descontrolar.
Mikke – Como é?
Janessa – Foi por isso que eu te… (corada) te beijei.
Igualmente corado, Mikke desvia o olhar.
Janessa — Todos os passos precisam ser seguidos sem restrição, mas isso pode acabar se os últimos 2 passos forem feitos.
Mikke — E como essas regras terminam?
Janessa — O que?
Mikke — Como assim "o que"? Quais são os últimos passos? Como essas regras terminam?
Sem graça e muito corada, Janessa se vira e levanta da cama.
Janessa — E-e-em outro momento eu termino a explicação.
Mikke — Por quê? Me explica agora.
Janessa — Temos um importante assunto para resolver agora.
Mikke — E o que é?
Janessa — O Tausarani.
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Recolhidos em suas tendas, os moradores de Sairati conversavam entre si sobre os recentes acontecimentos. Em uma das tendas 4 homens conversam.
– E o que me dizem disso? O Erigashi não sabe nada sobre a morte deles? Como isso é possível?
– Vai ver ele não sabe mesmo. Pode ter sido um Gauri. Até mesmo um Telakir. — afirma outro.
– Cada um de nós é capaz de derrubar um Gauri e Telakires não atacam se não forem ameaçados. — novamente o primeiro.
– E o que quer incinuar com isso Zolay? — questiona um terceiro.
Zolay — Que o Erigashi sabe quem foi, mas quer proteger o culpado.
– E o que ele ganharia com isso? — o segundo.
– É! Ele só ganharia o nosso ódio com isso. — o terceiro.
Zolay — Posso estar enganado, mas se ele escondeu o fato de Kalye ter sido preso, o que garante que ele não faria o mesmo sobre isso?
Um silêncio se instaura no lugar.
Zolay — Quero estar errado, mas tudo indica que não estou.
– Para de esquentar a cabeça, Zolay. — diz o quarto.
Zolay — Vai me dizer que isso não te preocupa Rozekio?
Rozekio — Não é isso, mas existem outras coisas que devemos pensar. Pare de ser tão paranóico.
Zolay — Então diga-me onde estou sendo paranoico.
Ignorando o questionamento do colega, Rozekio volta sua atenção para o líquido no copo em sua mão.
Rozekio — Existem outras coisas mais perigosas do que isso por ai (finaliza o líquido).
Zolay — O que disse?
Rozekio — Nada não. Acho que bebi muito. Não estou dizendo coisa com coisa. Até mais tarde.
Levantando-se de seu assento, Rozekio cambaleia e atravessa por um pano. Entrando no que seria um quarto, este se joga em uma cama.
– Ele esta esquisito. — questiona um deles.
– A morte do pai deve ter mexido com ele.
Zolay — Duvido muito. Duvido até da presença dele para homenagea-lo.
No quarto, Rozekio escuta a conversa e ri da ignorância de seus colegas.
Rozekio — 'Estou tão nervoso que mal consigo me controlar. Quase que estrago tudo. Idiotas. O que vocês fariam se estivessem no meu lugar? Se soubessem o que eu sei?'
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Caminhando e cantarolando, Melissa segue seu caminho bem feliz, mas aquela alegria não tinha motivos para ser sentida na visão de Toni. Observando a folha que estava no queixo da jovem, ele não parava de pensar no ocorrido um dia antes quando ela o defendera de Xanferhion. Uns passos atrás, o lobo de Melissa o encarava friamente, fazendo Toni sentir um arrepio na espinha. Liderando o caminho está Nizuka. A passos lentos ela os guiava por entre a floresta até a casa onde Barok desejou ficar.
Toni — Falta muito para chegarmos?
Nizuka — Com pressa?
Toni — Tsc!
Nizuka — Rum! Já estamos chegando.
Olhando para os lados, Toni reconhece a pedra que seu avô usou como assento e lembra da conversa que tiveram. Mais especificamente do soco que dera em sua cabeça.
Nizuka — Daqui você segue sozinho.
A casa podia ser vista e Toni segue até ela. Ao passar por Nizuka, ele tem seu braço segurado.
Toni — O que foi agora? Não quer que eu entre?
Ao olhar para o braço segurado, Toni se surpreende ao ver que quem estava segurando-o era Melissa.
Toni — 'Por quê? Por que esta me segurando e... está com esse olhar... triste?'
Tendo seu ombro segurado por Nizuka, Melissa entende e o deixa ir. Caminhando e olhando para a jovem, Toni entendeu que ela estava tentando protege-lo mais uma vez.
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Passando pela porta, alguns pássaros se assustam e fogem. A luz do sol atravessava as pequenas frestas da casa e deixava o ambiente mais claro. Sem perder o foco, Toni entra na casa e fecha a porta.
Toni — Vovô?
Pequenos passos são ouvidos e se aproximam mais. Uma espécie de raposa, bem pequena e branca, surge e o encara. Sua preocupação inicial desaparece quando a raposa aponta para o quarto. A passos acelerados, Toni logo alcança a entrada do cômodo e encontra seu avô. Não havia tanta luz ali e Barok estava em um canto mais escuro.
Toni — Vovô.
Pisando e quebrando algo no chão, Toni nota que algumas partes do quarto estão com resquícios de gelo.
Barok — Toni?
Toni — Sou eu.
Barok — Por que está aqui? Eu disse para Nizuka não voltar ou te trazer aqui.
Toni — O que aconteceu com você? Achei que tinha morrido.
Barok — É. Hahah! Bem que pareceu, não é?
Toni — Então você esta bem. (sorri) Eu sabia que nada te derrubaria.
Barok — Não é... bem assim, Toni.
Toni — Como... assim?
Vagarosa e cuidadosamente, Barok se levanta e alguns feixes de luz alcançam seu corpo. Ossos expostos em meio a carne derretida e partes congeladas de seu corpo. A visão de seu rosto fez Toni se assustar, pois estava dividido entre ossos, pele e gelo.
Barok — Eu estou bem, Toni. Não se assuste com algumas feridinhas. O que são esses ferimentos ai?
Toni — Eu lutei com Xanferhion e... o matei.
Barok — Você o matou?
Toni — Sim.
Barok — E como fez isso?
Toni — Eu usei o poder que você me deu. Eu o matei com a benção que você me presenteou.
Barok — Você queria isso? Você quis mata-lo?
Toni — Sim. Eu o queria morto.
Balançando a cabeça negativamente e suspirando, Barok olha para o neto e sorri.
Barok — Você continua péssimo em mentir, Toni.
Toni — O QUE!? Eu não menti! Olha o que ele fez! Ele precisava morrer! Não merecia o ar que entrava em seus pulmões! Eu fiz um favor a humanidade em tirar a vida dele! Eu... (se ajoelha) tive a chance de ter o meu avô de volta e... aquele monstro fez isso com você! Eu só (se apoia no chão com as mãos) queria ter de volta o que eu perdi e achei que assim eu conseguiria!
Barok — (olha sério para o neto)
Toni — Eu só queria meu avô de volta!
Os soluços de Toni deixaram bem claro o seu choro. A atenção do jovem é atraida ao ter seu ombro tocado por Barok. Sua pele e corpo estavam normais e ele exibia o sorriso confiante de sempre.
Barok — Você é um bom garoto, Toni.
Toni — Sua pele está-
Barok — Isso? Um presente de Ann Yria. Ela é muito gentil e me ajudou com mais esse pedido.
Toni — Pedido?
Barok — Sim. Ela também deixou que eu te ajudasse na luta com Xanferhion.
Toni — O que?
Barok — Eu disse que você era péssimo em mentir não pelo fato de querer ele morto, mas por achar que causou isso.
Toni — Mas (se levanta) eu o matei!
Barok — Matou mesmo? Então como foi?
Toni — Foi... foi... Eu fiz...
Barok — Eu sei como foi, Toni. E se você não sabe, então eu fiz bem a minha tarefa.
Toni — Como?
Barok — Quem sabe um dia eu te conte, mas não hoje. Quero te pedir um favor.
Toni — O que é?
Barok — Quero que escute o que Nizuka tem a te dizer.
Toni — O que?
Barok — Ela me ensinou tudo o que eu sei e me ajudou no que eu precisei. Ela será o seu guia.
Toni — Por que está me pedindo isso?
Barok — Meu tempo está acaba-
Toni — NÃO! CALA A BOCA!
Barok — Me escute, Toni.
Toni — Você está aqui na minha frente! Você me disse que estava bem! Que eu não precisava me preocupar! Que eram somente feridinhas!
Barok — Sabe como eu sei que você é péssimo em mentir?
Toni — Hun...
Barok — Por que você é igual a mim.
Toni — Não.
Olhando para a entrada do quarto, Barok vê a pequena raposa e exibe um sincero sorriso. A raposa, que estava sentada, se levanta e desaparece.
Barok — Eu queria passar essa mensagem pra você, Toni.
Toni — Não.
Barok — Esse foi o pedido que fiz pra Ann Yria. Eu... me arrependo de muitas coisas. Não estar perto e te ver crescer é a minha maior tristeza. Eu queria te aconselhar, te ajudar nos estudos, te ensinar a paquerar e... é. Não sei se conseguiria te ajudar com essa ultima. Eu era péssimo com garotas.
Toni — Acho que... é mais uma coisa que herdei de você.
Barok — Hahah! Achei que você não puxaria esse meu lado! Que falta de sorte!
Um trinco aparece em seu rosto, fazendo Toni se desesperar.
Barok — Me prometa Toni.
Toni — (fecha os punhos e abaixa o rosto)
Barok — Escute Nizuka e a ajude no que ela precisar. Melissa é uma boa garota e te ajudará também.
Toni — (seus ombros tremem e vastas lágrimas escorrem)
Barok — Combinado?
Toni — Sim. Combinado.
Barok — Obrigado, Toni. (coloca a mão na cabeça do neto) Nós nos encontraremos de novo. Te garanto isso.
Toni — VOV-
Antes que pudesse terminar, o corpo de Barok se congela e se desfaz em vários pedaços, criando uma chuva de pequenos fragmentos de gelo que derretiam e evaporavam antes de tocar o chão. Toni se senta, encosta em uma parede e olha para o teto enquanto suas lágrimas preenchiam seu rosto. O grito de dor pela perda do ente querido, chegou aos ouvidos de Melissa e Nizuka e se manifestou em forma de lágrimas.
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Toni — Ele sabia que eu viria. Sempre soube o que eu fazia e nunca errava sobre isso. Ele era incrível.
Sem virar o rosto, ele percebe que Nizuka está ao seu lado.
Nizuka — Barok sempre me falou de você. Que você era um garoto esperto, inteligente, cheio de vida e muito honesto com tudo. Eu pude perceber tudo isso e um pouco mais só em te observar hoje.
Toni — Mesmo assim eu sou um inútil.
Nizuka — Não diga isso.
Toni — Eu não pude ajuda-lo. Ele me deu esse poder e disse que eu poderia ajudar as pessoas, mas eu nem pude salva-lo.
Nizuka — Barok foi um grande homem. Bondoso e gentil. Melhor do que muitos que se foram e de muitos que virão. Disso podemos ter certeza. Outra coisa que temos certeza é que a morte dele não foi sua culpa.
Toni — Eu tinha o poder e-
Nizuka — E não sabia como usa-lo. Ainda não sabe e agora sabemos onde devemos nos concentrar, mas só se-
Toni — Eu quero que me ensine. Da mesma maneira que ensinou o meu avô.
Nizuka — Então levanta daí e vamos andando.
Toni — Onde vamos?
Nizuka — De volta para Sairati. Seu treinamento começará lá.
Ficando sozinho no quarto, Toni olha mais uma vez o local onde seu avô estava, seca o rosto, se levanta e segue Nizuka. Do lado de fora, Toni nota que Melissa estava perto do penhasco.
Toni — O que ela está fazendo?
Nizuka — Trilhando o Caminho das Almas.
Junto de Janessa, Mikke segue pelos corredores principais de Sairati.
Mikke — O Tausarani. O que é?
Janessa — É isto.
Saindo dos corredores, os dois chegam numa área verde, dividida pela nascente de um rio com uma cachoeira em seu final. Membros da Eren estavam em um lado e Oren do outro. Todos olhavam para baixo, estavam com as toucas e portavam uma cesta com flores brancas e azuis.
Janessa — Acreditamos que, após a morte, a alma dos que se foram não conseguem encontrar o caminho dos Criadores. Se elas não encontram esse caminho, elas não podem renascer e ter uma nova vida. Iremos trilhar esse caminho para eles.
Sem entender o comentário dela, Mikke continua a observar. No penhasco, Melissa, com as mãos juntas e coladas ao peito, olha para o céu, estende as mãos e pétalas, azuis e brancas, são carregadas pelos ventos.
Nizuka — As pétalas azuis seriam o caminho a ser trilhado e as brancas o iluminariam. Nós chamamos esse ritual de Tausarani e só aqueles que têm algum sentimento bom por aquele que se foi pode realizá-lo.
Toni recebe de Nizuka, assim como Mikke recebe de Janessa, duas flores: uma azul e uma branca.
Nizuka e Janessa — Isso garantirá que eles terão uma nova vida e permitirá que os nossos caminhos se cruzem uma vez mais.
Pegando as flores, Toni retira as suas pétalas, se aproxima do penhasco e, com a ajuda de Melissa, realiza o Tausarani. As ultimas palavras de Barok ecoavam repetidas vezes em sua mente: -"Nós nos encontraremos de novo. Te garanto isso".
Toni — 'Nós nos encontraremos de novo.'
Estendendo as mãos, Toni deixa os ventos levarem as pétalas de suas mãos. Em Sairati, o Tausarani é iniciado. Todos ali presentes pegaram as flores, retiraram suas pétalas e as jogaram no rio. Mikke imitou o gesto e, ao colocar uma pétala branca, após uma azul, ele sentiu algo acolhedor em seu rosto. Ao olhar para frente o espanto toma conta dele.
Mikke — Mãe.
Vestindo um manto branco, a imagem de Nakixa era vista. Todos aqueles que morreram estavam sobre o rio e caminhavam sobre as pétalas azuis. O sorriso no rosto dela o deixava tranquilo. Ela olha para o lado, se levanta e segue até um membro da Oren. Faz o mesmo gesto, a garota retira a touca e mostra o rosto: era Lika. Com fartas lágrimas correndo por seu rosto, a despedida é feita com um beijo na testa. Se levantando, Nakixa caminha sobre as pétalas e segue para o início da cachoeira. Pisando fora dela, ela lentamente desaparece, deixando as boas lembranças nos corações de seus entes queridos.
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