Through the Eyes of Love
2 Capítulo II
Notas iniciais
Após desligar o telefone o ruivo deixou escapar um suspiro irritado, há muito temia aquele tipo de enlace, a verdade é que odiava saber que dependeria de Milo Séferis ou de qualquer outra pessoa naquele país para obter êxito no trabalho pelo qual se dedicou tanto. Conhecia o potencial de Afrodite, confiava na visão do loiro, justamente por isso se tornaram tão próximos, pois, ambos eram focados ao seu próprio modo. O loiro era um visionário, enquanto ele era mais sério e centrado e no fim das contas, eram como o complemento um do outro. Não se importava com fama ou fortuna, queria fazer o que fazia, porque gostava disso. Em partes toda aquela dedicação, frieza e desapego se deviam ao fato de ser um verdadeiro covarde. Existiam inúmeras maneiras de se encontrar uma válvula de escape e o trabalho era para Camus a única coisa que o fazia se desapegar das lembranças dolorosas que trazia como bagagem. Nunca tivera uma relação amigável com o pai e tampouco aceitava as decisões que aquele tomara e com elas os problemas que tornaram sua vida o tormento que carregaria até seu último suspiro. Inicialmente a idéia de criar uma empresa paralela se tratava de uma forma de provar que podia ser independente e que conseguiria vencer mesmo sem o apoio ou a compreensão daquele homem, no entanto, em dado momento tornou-se extremamente importante aquela independência não somente para provar ao pai do que era capaz, mas para provar para si próprio que não precisaria viver à sombra daquela família tenebrosa. Camus poderia ser simplesmente Camus. Aos olhos da sociedade a família Versailles era perfeita, os integrantes da mesma eram exemplos a serem seguidos, mas não podiam estar mais enganados. Estavam mais para almas amarguradas e lotadas de ferimentos profundos que nunca poderiam ser apagados. Apesar do tempo ser um alívio e trazer um bálsamo para as feridas antigas, ainda restavam as cicatrizes e por vezes elas sangravam, fosse sem querer ou propositalmente, era como arrancar a casca de um machucado, doía, incomodava e por vezes só servia para criar novas marcas.
— Camus? — Afrodite o chamou pela quinta vez, ele, no entanto, permanecia parado, mirando o espelho como se pudesse ser absorvido pelo objeto. Seu olhar carregava tanta dor, mágoa, por vezes queria poder ajudar o amigo, no entanto, sabia que Camus não estava preparado para ser ajudado, pois para que isso pudesse ser possível, era necessário um desejo profundo por aquela melhora, mas ele não se considerava digno dela e tampouco necessitado. — Parece que Milo é mesmo uma figura peculiar, não costumo dar muita atenção para o que leio nas colunas de fofoca, mas dessa vez parece que tudo que estava escrito era verdade e talvez tenham até sido gentis nos comentários. — Forçou um sorriso, tentando de alguma forma alcançar o amigo.
— Eu ainda não entendo, sempre fomos bons sozinhos, Dite, por que temos que abrir espaço para esse irresponsável? — Camus disparou amargurado, há muito havia perdido a fé nas pessoas e vivia num ciclo fechado, para dizer a realidade, apenas Afrodite e Hyoga faziam parte de sua vida e ele não parecia sentir falta de mais ninguém. É claro que a empresa era grande e obviamente tinha inúmeros empregados, mas nunca passou disso, pessoas das quais ele assinava a folha de pagamento, mas amigos? Não, definitivamente só havia Afrodite e até mesmo ele por vezes afastava.
— Tudo na vida é complicado meu amigo, não vou mentir, ele é o caminho mais rápido para realizarmos nosso desejo, pode parecer cruel dizer isso, mas a verdade é que esse mundo é como uma selva, seremos esmagados antes mesmo de tentar se não usarmos a propaganda certa. Eu amo o que faço, você sabe, mas infelizmente não basta esperar por um milagre, se quisermos alcançar nossos objetivos, precisamos nos esforçar e você precisa aprender a dar uma chance para as pessoas. Vamos lá, ele não pode ser tão ruim, vamos encontrá-lo, você verá que só começamos com o pé esquerdo, mas tudo dará certo. — Nunca tivera um pingo de piedade quando se tratava de expor suas opiniões, muitas vezes discordavam e por vezes discutiam, mas sempre chegavam a um acordo. E naquele caso não seria diferente. Todavia, o que realmente preocupava o Sueco não eram os negócios, Milo Séferis, a nova coleção ou qualquer coisa do tipo, mas sim a vida pessoal do amigo. Sabia que ele passava por um momento delicado e tal momento tinha nome e sobrenome; Hyoga Versailles. — Mas deixando isso de lado, como estão as coisas com o Hyoga?
Camus deixou um suspiro triste escapar por entre os lábios, deu as costas ao amigo e caminhou para fora do quarto, já estava devidamente vestido e pronto para o eventual encontro que teria com aquele modelo metido, no entanto, obviamente não dispensaria uma boa xícara de café, ainda era muito cedo e esse era seu único vício. Não demorou para estar na cozinha e logo a cafeteira começou a trabalhar. O cheiro gostoso de café fresco impregnou todo o apartamento e Afrodite parecendo atraído pelo odor, ou talvez apenas para atormentá-lo, juntou-se a ele.
— Camus, ainda estou esperando, como estão as coisas com o Hyoga? — Indagou novamente e sentou-se em um banco que era acoplado ao balcão, mantinha os belos olhos fixos no ruivo que insistia em ignorar as perguntas. Revirou os olhos e resolveu se aproximar, tocou o ombro do sócio e fê-lo virar-se, encarou-o com uma expressão perscrutadora.
— Afrodite, pode, por favor, parar com isso? Estamos ótimos. — Ele volveu derrotado, ergueu os braços e deixou-os cair em seguida rentes ao corpo, afastou-se do loiro e tratou de pegar duas canecas onde iria servir o café. — Somos uma família perfeita! — Rebateu azedo, era óbvio que estava mentindo, até mesmo uma criança conseguiria reconhecer isso. A verdade é que pouco conseguia conversar com o garoto, viviam sempre brigando, Hyoga odiava tudo, odiava o clima, odiava a nova escola, odiava o apartamento e por muitas vezes gritava aos quatro ventos o quanto o odiava também. E isso, embora ele conseguisse disfarçar, o magoava de uma forma indescritível.
— Você é o culpado disso, já passou da hora de você deixar de ser covarde e enfrentar a situação em que se encontra, já imaginou que ele pode acabar descobrindo sozinho? Se isso acontecer ele nunca irá te perdoar, Camus, portanto, resolva isso antes que seja tarde. — Advertiu preocupado.
— E como acha que devo dizer a ele? — Sorriu irônico. — Devo convidá-lo para tomar sorvete e contar tudo?
— Não importa como vai fazer, apenas faça, sei que nesse momento você quer me mandar para o inferno e afirmar que isso não é da minha conta, mas eu sou seu melhor amigo, aliás, seu único amigo! Então ouça meu conselho, porque eu jamais diria nada para te magoar.
O ruivo assentiu e não demorou para que servisse o café para o amigo e para si próprio. Passaram os momentos seguintes discutindo acerca de negócios e trivialidades, era ainda complicado em demasia tocar em certos assuntos e tinha certeza absoluta de que, descobrindo sozinho ou não, Hyoga jamais iria perdoá-lo, sabia disso porque, ele próprio não conseguia se perdoar. Fora burro, estúpido e graças a isso havia destruído a própria vida e também destruíra a vida do loirinho.
—------ ••• -------
— Isso é culpa sua Hyoga, eu disse que ia dar merda! — O rapaz esfregou o nariz e depois abraçou o próprio corpo, encolheu-se no acento em que se encontrava e começou a balançar o corpo para frente e para trás, sentia calafrios até nos ossos, era um dos sintomas da abstinência. — Droga cara, se eu não sair daqui vou surtar! — O garoto tornou desesperado.
— Foda-se! Acha que ligo para isso? Isso é tudo culpa sua, você é muito burro! — O loirinho praticamente rosnou e chutou a grade com força. O estrondo ecoou pelos corredores vazios e ele gritou irritado.
— Burro? De quem foi a idéia estúpida de assaltar uma loja de conveniência? Cara seu irmão é rico, por que não roubou algo de casa? Porra! O Cassius vai matar a gente cara, ele vai matar a gente! — Os olhos do garoto giravam nas próprias órbitas e ele soava frio. — A gente tem que pagar ele hoje, senão ele vai matar a gente!
— Vai matar você, quem mandou você cheirar toda a mercadoria? Eu nem sei porque ainda falo com você, droga! — Se aproximou do amigo e sentou-se ao lado dele. — Você tá péssimo, se continuar assim vai acabar tendo um treco, relaxa, Camus vai tirar a gente dessa, ele não vai querer que o irmãozinho dele saia no jornal e estrague a fama que ele está tentando conseguir. — Riu irônico.
— Acha que isso é brincadeira? Você não sabe o que eles são capazes de fazer, eles vão me matar e se eu me ferrar, você vai se ferrar comigo, eu não cheirei sozinho não e você prometeu que ia arrumar a grana, mas em vez de cumprir sua promessa, você veio com essa idéia idiota de assaltar a loja e agora a gente tá preso. Olha, se o Cassius sonhar que a gente foi preso ele vai acabar com a nossa raça duas vezes, acha que ele vai acreditar que a gente ficou de bico fechado? Hahaha... você deve ser mesmo muito idiota! Então liga lá pro seu irmãozinho e manda ele vir tirar a gente logo. — Resmungou trêmulo. Os braços estavam feridos, as curtas unhas feriam a pele a cada segundo e manchas escuras dominavam a tez outrora clara. Isaak morava na Grécia fazia três anos e foi inevitável se tornar amigo de Hyoga, pois ambos tinham os mesmos gostos para problema. Não demorou para que andassem grudados, diferente do loiro viera de uma família humilde, não tinha pai ou irmãos, só uma mãe que trabalhava dia após dia para conseguir alimentá-lo, mas ele sempre teve um imã para problemas e gostos caros, por isso, não demorou para arrumar confusão e companhias nada agradáveis. Agora traficava dentro do colégio para Cassius, um antigo veterano da escola que tinha contatos com tráfico de drogas e armas.
— Se você continuar falando merda vão mesmo desconfiar, não é? Vê se cala a boca, daqui a pouco vão deixar a gente telefonar, estão dando um gelo pra tirar informações, relaxa, não é a primeira vez que fico em apuros. Te garanto que o idiota do Camus vai tirar a gente daqui, porque ele me deve! Não é como se pudesse me ignorar, somos família. — Os olhos do loiro brilharam cheios de malícia. Não entendia quando a relação em outrora tão estreita se transformara em ódio, no passado, admirava o irmão, queria ser exatamente como ele, no entanto, com o passar dos anos e depois de tantos acontecimentos catastróficos, acabou desenvolvendo pelo irmão um ódio profundo e uma raiva que não sabia explicar. Inicialmente era um bom garoto, mas para chamar atenção e punir o todo certinho Camus, acabara fazendo coisas cada vez piores. Na França fora preso três vezes, mas como era menor de idade e os delitos não eram graves, sendo de uma família abastada, sempre conseguia se livrar e não seria diferente ali. Sabia que o ruivo mexeria os pauzinhos para tirá-lo dali e não demoraria nada.
— Às vezes eu tenho pena do seu irmão, ele parece um cara legal, não sei porque você trata ele assim. Se ele resolveu seus problemas, significa que ele se importa, não é igual meu pai que meteu o pé no mundo e me largou sozinho com a minha mãe. — Começou a roer as unhas nervosamente.
— Acha que ele se importa comigo? Acorda! Ele só me tira dos problemas, porque não quer ser associado a um desajustado como eu, não é como se ele me amasse. Camus Versailles não ama ninguém, nem o nosso pai, sabia que ele nem chorou quando ele morreu? A droga do trabalho dele é a única coisa que ele gosta, mas ele está ferrado se pensa que vou me fingir de bom moço só pra ele sair nos jornais como santinho. Ele que se vire pra me tirar daqui, ele tem que me proteger, droga! — Comentou lotado de mágoa, diferente do ruivo, ele sim tinha uma ótima relação com o pai e nunca compreendeu como as coisas acabaram como haviam terminado, se lembrava de o irmão brigar direto com o Versailles mais velho, pegar as coisas e sair de casa. Depois daquilo as coisas nunca mais foram iguais. O pai havia morrido há seis meses e, então, Camus decidira encerrar a vida de ambos na França e o levou para Grécia. Odiava aquele lugar, perdera todos os amigos, a escola, tudo! Ainda era menor de idade e justamente por isso era obrigado a seguir o irmão mesmo não querendo. Revirou os olhos ao perceber que o outro nem sequer havia entendido o que tinha dito, pois continuava a roer as unhas sem se importar com nada ao redor. Hyoga se ergueu e começou a andar pela cela como um animal enjaulado. Ainda sentia os efeitos de toda cocaína que havia cheirado, queria sair logo dali, odiava aquele lugar imundo e acima de tudo odiava mais ainda a sensação de estar preso como se fosse um animal.
—------ ••• -------
— Se ele não chegar em cinco minutos eu vou embora, ele já está atrasado. — Camus comentou pela terceira vez em menos de dois minutos ao mirar o relógio.
— Já sei Camus, você já disse isso várias vezes e não para de olhar esse maldito relógio, isso é culpa sua, deu um prazo ridículo a ele, moramos do outro lado da rua e ele do outro lado da cidade, admita, você fez isso de propósito. — Afrodite mordiscou o canudinho do suco natural que consumia e lançou um olhar acusatório para o amigo.
— Fiz mesmo, aquele imbecil me chamou de cachorro e também foi culpa dele por inventar desculpas, estamos tentando ser sérios aqui e ele não tem um pingo de responsabilidade. Aposto que ele estava de péssimo humor, porque passou a noite inteira enchendo a cara em alguma boate badalada da cidade, eu não tenho obrigação de passar a mão na cabeça desse desmiolado. — Rebateu ácido.
— Certo, mas você nem conhece o rapaz e já faz esse tipo de julgamento, vai ver ele teve algum problema pessoal, por que você sempre tem que pensar o pior das pessoas? — O Sueco parecia se divertir com a expressão carrancuda do amigo, sabia que possivelmente a relação de ambos seria complicada, não era como se Milo fosse o único modelo que poderia ajuda-los naquela empreitada, mas a verdade é que queria trazer um pouco de emoção para a vida do Frances, por isso, ao ler sobre o loiro e acompanhar alguns desfiles imaginou que ele seria perfeito para tonar a vida do outro menos enfadonha.
— E você, hein? Por que tem que ver sempre um lado bom nas pessoas? Seres humanos são falhos e os da laia dele são os piores. — Voltou a afirmar sem demonstrar abalos.
Afrodite começou a tagarelar alguma coisa que o Frances fez questão de ignorar, abriu o jornal, literalmente dando o assunto por encerrado e começou a ler, aguardaria a chegada do modelo, pois não podiam cancelar um contrato naquela altura, já tinham feito uma coletiva e anunciado a parceria, seria fim de carreira, uma carreira que nem ao menos tinha começado a decolar, dinheiro, fama, tudo isso era uma consequência, mas o que realmente o incomodava era o fato de deixar algo mal acabado ou mal feito, por isso, somente por isso daria uma segunda chance ao modelo. Alheio aos acontecimentos no café, o ruivo não percebeu a entrada triunfante de Milo que atraia olhares por onde passava. O loiro usava uma calça jeans despojada e uma camisa regata, vestimentas mais do que adequadas para um dia ensolarado em Athenas, os longos cabelos presos em um rabo-de-cavalo displicente e um sorriso de arrasar corações.
— Milo? — Afrodite atraiu a atenção do modelo e indicou para que ele se aproximasse. Se divertiu com a expressão surpresa do rapaz, pois ele arregalou os olhos ao vê-lo, claro, era impactante e sabia disso, dono de uma beleza andrógena e requinte inegáveis sabia ser tão lindo quanto o próprio modelo, conseguindo até ser um pouco mais chamativo graças ao gosto extravagante. Claro que naquela ocasião em particular não havia se produzido tanto como gostaria, pois, sabia que Camus não iria aceitar algo do tipo. Usava uma calça branca e uma camisa em tom pastel com gola v. Os longos cabelos estavam soltos e o sorriso não podia ser mais bonito e jovial. — Foi difícil encontrar a cafeteria? — Indagou quando o outro se aproximou e ofertou a mão que foi logo apertada.
— Nem tanto, mas você é Camus Versailles? — O Grego parecia descrente, aquele homem era bonito, isso era fato, mas não fazia o tipo que gerenciava uma empresa e tampouco combinava com a imagem de um executivo trancado em um escritório.
— Eu? Hahaha, não! Definitivamente, eu sou o Afrodite Laursen, falei com você hoje mais cedo, lembra? Por sinal, perdoe-me, creio ter ligado muito cedo. Não estou acostumado à sua agenda ocupada. — Ofereceu um lugar para o Grego e ambos se sentaram.
— Ah, sim, lembrei agora, desculpe, não reconheci a voz de imediato. Mas o seu secretário, ele é muito mal-educado, achei que iria trazê-lo com você. — Comentou displicente e só então percebeu uma terceira pessoa à mesa. Na verdade, o jornal que continuava aberto como se eles fossem coadjuvantes sem a menor importância, já que a pessoa nem se dignou a cumprimenta-lo e parecia ignorar o loiro.
— Secretário? Eu acho que... — Afrodite começou, mas no preciso momento que o fez, Camus abaixou o jornal e mirou Milo com seriedade. Engoliu em seco ao notar o brilho furioso no olhar do sócio. — Milo esse é...
— Eu posso me apresentar sozinho. — Tornou ácido. — Eu sou Camus Versailles, sou dono da empresa que o contratou e fui eu quem falou com o senhor no telefone. O senhor além de ser extremamente grosseiro, ignorante, pelo jeito é também do tipo que se atrasa. Estou começando a rever alguns conceitos e talvez seja melhor cancelarmos o contrato nesse exato momento. — O ruivo se ergueu e olhou-o com uma expressão de superioridade. Usava um terno muito bem cortado, os longos cabelos se encontravam soltos o que destoava das vestimentas sérias conferindo ao ruivo um ar extremamente atraente e selvagem.
A cena que se seguiu foi cômica, Milo se ergueu também e mirou a face do ruivo com a boca aberta. Nunca tinha visto um homem tão bonito em toda sua vida, ficou tão impressionado que demorou alguns segundos para processar o que de fato ocorreria, com um sorriso bobo estendeu a mão para cumprimentar o homem, mas foi devidamente ignorado e só então conseguiu entender todo o contexto e perceber o que se passava ali. Abaixou a mão e cerrou o punho com os olhos estreitos em desafio. Um sorriso lotado de malícia adornou a face do loiro enquanto vislumbrava aquele ruivo gostosamente cretino, começava a pensar em outras maneiras de dar um fim aquela arrogância. Se antes queria a cabeça do subordinado, agora queria o dono da empresa como um troféu. Gostava de desafios e Camus era um desafio delicioso, concluiu ao mirá-lo com mais atenção.
— Seria mesmo uma pena, ao contrário do que pensa, ruivo, não sou tão ignorante, prova disso foi que vim preparado para nosso ‘encontro’. — Sorriu petulante. — No caminho pra cá andei pesquisando a respeito da sua empresa. No geral é o Saga quem lida com as formalidades, mas eu sei que vocês estão tentando lançar uma nova marca, portanto, seria lastimável que começassem cancelando toda a coleção por causa de orgulho, não acha?
— Orgulho? Vejo que é mais ignorante do que eu pensava, acha mesmo que isso é uma rixa? — O ruivo manteve a mesma expressão imparcial e sem abalos. — Como posso confiar em um modelo que nem ao menos sabe cumprir os horários? Já se olhou no espelho? Por trás desse sorriso debochado posso ver as olheiras, andou bebendo, não é? Passou a noite na farra, você é uma vergonha! Acha que por que é um modelo conhecido pode agir como bem entender? Me diga, por que eu iria querer a imagem da minha empresa associada a uma pessoa como você? — Mirou o relógio e voltou a se sentar. — Tem exatos 60 segundos para me convencer. — Cruzou os braços.
— Está falando sério? — Afrodite interveio, mas ao ver o sinal que Camus fez, calou-se imediatamente. Sabia que Camus não iria recuar e pelo jeito Milo estava... gostando... engoliu em seco, talvez não tivesse sido uma boa idéia coloca-los para trabalhar juntos, concluiu um tanto apreensivo.
— Eu tenho que te convencer? — O loiro alargou o sorriso, estava achando aquilo muito divertido, quem era Camus Versailles? Talvez na França ele fosse alguém renomado, mas aquele era seu território e ainda assim ele tinha a audácia de tentar tomar o controle? Definitivamente seria uma presa deliciosa, concluiu com o mesmo sorriso divertido de outrora. — Eu sou o ideal, porque eu sou Milo Séferis, nesse exato momento eu sou o homem mais cobiçado de toda a Grécia, não, de todo o mundo da moda, ruivo, tenho certeza absoluta que você não irá encontrar ninguém melhor para lançar sua coleção. Olhe em volta, todos esses olhares estão direcionados a mim e nesse momento você precisa brilhar, é justamente disso que se trata, se quiser atrair os holofotes sou sua melhor chance, senão a única. E sobre seu comentário anterior, quem está sendo antiprofissional agora? Esse tipo de informação faz parte da minha vida pessoal, portanto, não devemos entrar em detalhes, não é senhor Versailles? — Fez questão de dar ênfase somente para provocar o outro.
— Camus... — Afrodite tentou, mas já era tarde demais o ruivo voltou a se erguer e somente com um olhar entendeu o recado. Se ergueu meio sem graça.
— Esse é o momento que eu deveria lhe dizer que não poderia ter dado melhor resposta? — O ruivo indagou com uma expressão fechada. — Não estou sendo antiprofissional, estou cuidando do meu investimento. Acha mesmo que a maneira correta de promover uma nova marca é vinculá-la a alguém irresponsável e alcoólatra? O que o senhor faz da sua vida não é da minha conta, isso é, quando o nosso contrato vencer, porque até isso acontecer, não vou permitir que nos envolva em escândalos. Responda, acha que sua resposta foi satisfatória?
— Foi uma ótima resposta. — O loiro tornou. — Veja bem, ruivo, o mundo da moda, nada mais é do que aparências, é um jogo de belos sorrisos, flashs, escândalos e muito carisma. Quanto mais eu estiver em evidência, mais irão comentar do futuro desfile e em consequência você irá faturar uma quantia imensa, porque todos querem vestir o que visto. É simples e prático.
— Definitivamente o senhor me convenceu, você é exatamente o oposto do que desejo para promover minha marca. Não quero holofotes, eu quero que as pessoas enxerguem todo o esforço, carinho e dedicação por trás de toda a produção. Afrodite Laursen é um gênio! — Ele garantiu. — Os desenhos dele são obras de arte, não é você quem precisa brilhar, senhor Seferis, você é apenas o coadjuvante, o verdadeiro brilho está em nosso trabalho árduo. Eu não quero promover o senhor ou me promover como pessoa, quero que as pessoas amem o nosso trabalho, porque nós dois amamos o que fazemos. O que mais se vê hoje em dia são marcas novas, projetos extravagantes e outros nem tanto, quando criamos essa empresa, criamos pensando no bem-estar das pessoas. Nunca visamos o lucro ou a fama, nosso maior objetivo é trazer um sorriso de satisfação para as pessoas que irão utilizar nossos produtos, não importa que não seja um desfile perfeito ou que o modelo não seja o homem mais cobiçado da Grécia. O senhor nesse momento é o retrato da soberba, é exatamente o que desejo evitar. Seus serviços não são mais necessários, diga ao seu agente para passar no escritório na segunda-feira para oficializarmos o cancelamento do contrato. — Retirou algumas notas da carteira e jogou em cima da mesa. Não esperou uma resposta, simplesmente deixou o ambiente sem olhar para trás.
Afrodite mordeu os lábios e se despediu às pressas, saiu literalmente correndo atrás do amigo para tentar conversar, mas o ruivo parecia irredutível. E Milo, permaneceu ali, sentado de olhos arregalados, nunca imaginou que receberia aquele tipo de resposta e, principalmente, que seria rejeitado. Nunca em toda sua carreira, como homem ou como modelo havia recebido uma negativa. Quem diabos era Camus Versailles? Estava acostumado com pessoas que faziam de tudo para promover a si mesmas, mas ele pouco parecia se importar se iria ou não perder todo o dinheiro que investiu ou a chance de conseguir fazer a marca arrecadar uma grande quantia de dinheiro, aquela foi a primeira vez que encontrou alguém tão complexo como aquele ruivo. Um sorriso adornou os lábios do modelo, mas dessa vez não era de soberba ou de ironia, simplesmente começara a gostar daquele ruivo irritante. Se ele pensava que as coisas iriam acabar por ali, estava muito enganado, ninguém dispensava Milo Séferis, agora era uma questão de honra; iria desfilar para promove-lo e não aceitaria um ‘não’ como resposta.
Fale com o autor