Notas iniciais
Desculpem a demora pessoal, espero que gostem desse novo capítulo. >

— Como assim preso Hyoga? — O ruivo indagou com uma expressão cansada, já estava em casa, Afrodite havia se proposto a lhe preparar uma xícara de chá, obviamente ele sabia que isso não era por simples bondade, mas sim para iniciar uma conversa que certamente não levaria a nada, visto que ele não pretendia voltar atrás em sua palavra; não aceitaria Milo Séferis, definitivamente não era por orgulho, mas sim por uma questão de bom senso. Nesse meio tempo o telefone havia tocado, o número era desconhecido e ele pensou em ignorar a chamada, mas achou por bem atende-la e agora se dava conta de que era seu irmão quem ligava. Irmão este que deveria estar ainda dormindo, afinal, era jovem e geralmente rapazes daquela idade raramente acordavam cedo. — Você fez o quê? — A voz sempre controlada subiu dois décimos, barulho suficiente para atrair um curioso Afrodite, com um movimento de mão pediu silêncio ao amigo que apenas permaneceu observando enquanto ele andava de um lado a outro. — Abaixe o tom de voz, com quem você pensa que está falando? Por que eu iria até aí? Você decidiu fazer isso por conta própria, já está na hora de arcar com as consequências de seus atos. — Rebateu sério. — Eu não acredito que você fez isso, Hyoga, você quer me enlouquecer? Hyoga? Hyoga... — Afastou o aparelho do ouvido e por alguns segundos permaneceu quieto. A face transfigurou-se numa careta de preocupação, o cenho franzido e os lábios comprimidos em angustia e irritação.

— Camus, está tudo bem? O que houve com o Hyoga? — Afrodite ousou se aproximar e tocou o ombro do amigo. — Quer que eu vá junto para buscá-lo?

— Não vou buscá-lo, Afrodite. — Camus disse com pesar, era como se houvesse sobre os ombros o mundo inteiro. Doía saber que teria que tomar aquele tipo de atitude, mas Hyoga estava pedindo. Na França, não foi somente uma vez que o menor acabara arrumando confusões com a lei, ele sempre tentou o melhor para livrá-lo dos problemas, mas isso obviamente só serviu para deixá-lo mal-acostumado. Era com pesar que chegava aquela triste conclusão. — Já está na hora dele aprender que toda ação, gera reação, seja ela boa ou ruim. — Deixou-se cair em uma bela e confortável poltrona de couro e massageou as próprias têmporas após devolver o aparelho ao suporte. — Ele está preso.

— De novo? — Soltou sem pensar, mas ao ver a expressão desolada do amigo, os ombros caíram, se aproximou do ruivo e agachou, apoiou as mãos nas pernas do amigo. — Eu estou aqui para fazer o que for possível para te ajudar Camus, eu entendo seu ponto de vista, Hyoga passou dos limites, mas não acho que deixá-lo preso será bom.

— Não vou deixá-lo preso, acha que eu faria isso? — Suspirou. — Apenas o fim de semana, quero que ele entenda o que fez e que perceba que nem sempre poderá escapar ileso, mas é claro que irei tirá-lo de lá na segunda-feira, ele é meu irmão, eu nunca o abandonaria. — Explicou o ‘plano’, embora sentisse muito por pensar em algo tão sórdido, mas aquela era provavelmente a única maneira de educar o rapaz. Errou em tratá-lo como criança, errou em subestimar a falta de bom senso e responsabilidade do loiro, mas não deixaria que ele se perdesse, assim que o tirasse de lá, planejava enviá-lo para uma clínica de reabilitação. Embora fosse doloroso saber-se culpado por mandá-lo para longe, ainda assim achava que isso seria o melhor a se fazer.

— Camus, eu ainda acho que isso não é uma boa idéia, eu sei que vocês estão passando por um momento difícil, mas dar essa lição em um momento como esse pode piorar as coisas, não se esqueça que ele é apenas um garoto e que se sente extremamente perdido após a morte do pai. — Sabia que estava pisando em terreno perigoso e que provavelmente o ruivo não fosse analisar as coisas pelo ponto de vista sentimental, mas também compreendia que melhor do que ninguém, Camus sabia da situação e amava Hyoga de forma indescritível e muito provavelmente agia com ele daquela maneira por gostar demais do garoto e desejar protegê-lo do mundo. Aos olhos dos desconhecidos a atitude poderia denotar frieza e apatia, mas ele sabia que não, Camus amava o garoto.

— O que quer que eu faça então? Quer que eu vá até lá, pague a fiança e o deixe fazer o que bem entender para ir parar lá novamente? Afrodite, estou cansado, esgotado, eu tentei de todas as formas fazer o melhor para ele, tentei deixa-lo confortável, dar um voto de confiança, mas ele está irredutível. Achei que o tirando da França e o afastando das péssimas companhias ele não iria mais usar drogas ou fazer coisas como essa, mas parece que o problema não são as companhias, mas sim ele, ele está doente, precisa se tratar e mesmo que me doa, farei o que for melhor para ele. — Sentia uma vontade visceral de chorar, mas até mesmo as lágrimas haviam secado após tudo que vivenciou. Não havia maneira de exprimir aquele sentimento que o sufocava, afastou o amigo e se ergueu, caminhou até a sacada que se encontrava aberta e resolveu respirar um pouco de ar fresco. Afrouxou a gravata e debruçou o corpo parcialmente sobre o parapeito, na rua podia vislumbrar os transeuntes despreocupados que caminhavam sorrindo pelas ruas movimentadas do centro de Atenas.

— Eu sei que ele precisa se tratar, Camus, mas acima de tudo ele precisa que você o acolha em seus braços, prometa que tudo irá ficar bem, conte a ele a verdade, diga a ele que... — Teria terminado, mas o olhar angustiado do amigo fê-lo abaixar a cabeça. Inicialmente achava que poderia ajudar sendo um ouvinte, mas quando descobriu toda a sordidez que cercava o ruivo, ele próprio sentia-se doente, sentia-se fraco e incapaz. Sabia que o melhor era encarar os fatos, mas Camus parecia desolado demais para fazê-lo, ao olhar para ele, parecia enxergar a criança perdida que a vida o forçara a se tornar e isso era de cortar o coração. Por fora a fachada de seriedade e sobriedade o fariam um perfeito cavalheiro, um homem centrado, influente e poderoso, mas sabia que por dentro seu coração estava despedaçado. Sentiu as lágrimas pedirem passagem e tapou a boca incapaz de se conter. Soluçou e se livrou dos vestígios, em certo momento sentiu os braços do amigo o envolvendo-o e foi então que se sentiu ainda mais inútil. Ele é quem precisava ser consolado, ele é quem precisava de apoio, que amigo inútil era, concluiu aos soluços. — D-desculpe.

— Está tudo bem, Dite, tudo bem. — Camus disse num fio de voz. Deslizou as mãos pelos cabelos cacheados do amigo e o acomodou nos braços, buscando ali sua sanidade. Sim, precisava continuar firme e forte, precisava manter aquele muro intacto, do contrário, desabaria e se isso acontecesse não poderia salvar Hyoga e isso era imperdoável. Talvez fosse tarde demais para salvar a si próprio, mas o loiro merecia ser feliz, mesmo que para isso precisasse aprender pelos caminhos mais tortuosos. — Eu não estou pronto ainda, não agora, depois que tirá-lo da cadeia, depois que ele largar o vício, então direi a ele a verdade. Toda ela. Eu prometo.

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Após o telefonema, Hyoga retornou a cela de má vontade, trazia consigo uma raiva profunda, o tom de voz sério do irmão, a falta de solidariedade, como ele podia ser tão cruel? O odiava! Era irmão dele, eram do mesmo sangue, no entanto, ele o abandonava como se não passasse de um criminoso, não iria perdoá-lo. Ao adentrar a cela encontrou Isaak com a cabeça enfiada entre as pernas, o rapaz tremia, era visível que não estava nada bem. É claro que sua saúde não estava exatamente afetada, bem, não ao ponto de ter uma overdose ou coisa do tipo, mas necessitava deixar aquele lugar.

— Então, já podemos sair? — O rapaz de cabelos esverdeados indagou sem levantar os olhos. — Eu não estou bem cara, eu estou meio... — Os olhos percorriam o ambiente e ele se sentia tonto. Ainda estava sobre o efeito das drogas, tanto a cocaína que havia cheirado, como a heroína que havia injetado e exatamente por isso era impossível enxergar as coisas como realmente eram. Mantinha-se naquele único local, pois todo o resto parecia cheio de seres rastejantes, seu corpo inteiro formigava e seus braços doíam após incessantemente tentar se livrar das coisas que somente ele conseguia enxergar. — O seu irmão, ele já está aí? — Insistiu.

— Isaak, preciso que você me faça um favor. — Hyoga sorriu e se aproximou dele. — Temos direito a uma ligação, eu já fiz a minha, portanto, eu preciso que você ligue para um lugar... — O rapaz pensou e pensou, sabia que Camus não iria voltar atrás e a única forma de atingi-lo seria feri-lo onde mais doía, mal sabia ele que, o que mais o afetava era justamente ele e não o trabalho. — Você vai pedir para fazer sua ligação e vai ligar para esse número. — Retirou de dentro do bolso da calça um pequeno cartão, estava amassado, mas ainda se podia ver perfeitamente o número e o nome do repórter. — Diga a ele que o irmão de Camus Versailles está preso.

— Como assim? — Isaak finalmente ergueu os olhos e encarou o amigo sem entender.

— Apenas faça o que eu mandei, diga que Alexei Hyoga Versailles está preso e que Camus se nega a auxiliar por medo de ser associado a um garoto problemático e causar comoções às vésperas do lançamento. — Agarrou a mão do outro e enfiou o cartão nas mãos dele. — Faça direitinho, certo? Se fizer isso eu prometo que assim que sair daqui eu vou te arranjar a grana que você precisa e dessa vez não vamos precisar roubar nada, eu juro!

Isaak ficou alguns segundos encarando o amigo e depois a mão com o cartão. Com dificuldade leu o nome da pessoa, mesmo estando aéreo, compreendia o que tinha em mãos, era o cartão de algum repórter, o amigo devia ter conseguido o cartão com alguém que se oferecera para descobrir algo sobre o tal Camus. Mas não conseguia entender o porquê do loirinho fazer algo assim, se todos soubessem, se achassem aquilo provavelmente o ruivo sairia em todos os jornais e a carreira iria por água abaixo. — Eu estive pensando. — Disse algum tempo depois. — Não acho que seja bom, seu irmão é legal cara, por que tá fazendo isso?

— Você não precisa pensar, Isaak, faz o que eu mandei e pronto! — Agarrou o colarinho do outro revoltado, ambos se encaravam, Isaak surpreso e confuso e Hyoga lotado de raiva. — Se não fizer o que mandei vou contar pro Cassius o buraco que você se enfia quando está encrencado, aí você sabe o que vai rolar, não é? — Aproximou a face da dele e com um sorriso malicioso encarou a face amedrontada do rapaz. Realmente gostava dele, gostava de atormentá-lo, às vezes o achava tão miserável e patético que sentia um prazer quase sádico em vê-lo cheio de temor. Lambeu os lábios de maneira libidinosa e empurrou o rapaz contra a parede, agachou o corpo, praticamente enfiando-se entre as pernas dele. Tocou a face do mesmo e deu um tapinha nada amigável. — Você lembra o que ele disse que faria, uh? Te cortar bem aqui... — Alisou o rosto do amigo. — Disse que te deixaria uma marca enorme, não foi? Quer isso, Isaak? — Indagou ao passo que o outro negava veementemente com a cabeça. — Não? — O sorriso se alargou. — Bom garoto, então não pense, Isaak, apenas faça o que eu mandei, sim? — Apertou as bochechas do amigo com os dedos, fazendo-o ostentar um bico que podia considerar fofo, apesar da expressão de pavor que ele detinha. Sem pensar duas vezes juntou os lábios com os dele e beijou-o, mas não foi algo duradouro, apenas um beijo rápido. — Você disse que gostava de mim, não disse? Talvez eu pense no seu caso. — Sorriu. — Vai fazer, não vai?

— Sim, sim. — Ele se apressou em dizer e se colocou de pé, tropeçou e cambaleou alguns passos, mas sorriu, ou tentou mostrar um sorriso. Já não sentia muito controle sobre o corpo e o que ostentou foi quase uma careta afetada. Mas mesmo assim o coração palpitava no próprio peito, sempre gostou de Hyoga e se o loiro queria um favor, tudo bem, não importava mais. Sabia que iria para o inferno, já tinha cometido tantos pecados, por que se negar a cometer apenas mais um? E era por uma boa causa, sabia que o loiro estava magoado e triste, era injusto, mimado, mas gostava dele exatamente daquele jeito. — Depois, não quero dinheiro, só vamos ficar juntos, ok? — Indagou esperançoso. As ameaças, a forma como ele literalmente o manipulava e desprezava, tudo isso passava batido diante da premissa de estar com ele. A verdade é que se sentia sozinho e abandonado, era um rejeitado, sempre foi. O pai não o quis, a vida dura o privou de criar sonhos ou esperanças, por isso buscara a solução mais fácil, embora não fosse exatamente como na teoria. Hyoga era diferente, era lindo, perfeito, não conseguia tirar os olhos dele. O seguiria até no inferno, mesmo que dissessem que era patético ou que o chamassem de ‘cão’ ou qualquer merda do tipo.

— Eu já disse, talvez pense no seu caso, talvez... — Hyoga deu as costas a ele e sentou-se no banco de pedra que fazia parte da cela, não tinha vontade de falar naquele momento e tampouco de algo desagradável como aquilo. Não odiava o outro, ele era até atraente, aliás, foi, porque no momento estava realmente acabado, efeito esse causado pelo exagero nas drogas. Ele também era um usuário, mas diferente de Isaak ainda tinha controle sobre o que fazia e acima de tudo conservava uma aparência impecável. Aos olhos da sociedade era um bom moço, um anjo loiro cheio de sonhos e expectativas de um futuro brilhante e não um degenerado excluído como era Isaak agora.

— Ok, eu faço. — Concordou e foi em direção das grades. Fez barulho suficiente para atrair atenção, depois de muito insistir, conseguiu o tal telefonema.

— E que os jogos comecem. — Hyoga comemorou na solidão da cela. — Você não devia sequer cogitar a idéia de me ignorar, irmãozinho, não devia mesmo. Eu prometi, não foi? Que nunca o perdoaria e que me tornaria o seu pior pesadelo, pois me aguarde, veja todo o seu sonho ruir como um castelo de cartas em um dia de ventania. — Imaginou a figura séria e austera do irmão e com os dedos polegar e indicador, formou a figura de uma arma, apontou e atirou, rindo em seguida, acabaria com ele de um modo que ele nunca mais conseguia manter aquela faceta irritante de indiferença. Não era justo que fosse o único a sofrer, o único a se destruir, faria com que ele experimentasse toda a dor que sentia. Era o culpado! Era o culpado por não conseguir enxergar, por nunca se oferecer para cuidá-lo nos piores momentos, tudo aquilo seria cobrado e com juros.

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— Deixa eu ver se entendi bem. — Shura se empertigou no sofá ao lado do amigo e mirou a expressão de Milo com uma careta divertida. — Então, quer dizer que o tal Versailles te deu um chute no traseiro? — Indagou cheio de vontade de gargalhar.

— Claro que não! — Milo negou irritado. — Ele está louquinho para experimentar o veneno do escorpião, meu amigo e eu obviamente não vou negar fogo. — Sorriu malicioso e bebericou o drinque que o Espanhol havia servido.

— Milo, eu acho que você precisa ir ao médico. — O moreno tornou aos risos. — Sério cara, eu acho que o chute foi tão potente que te deixou meio zonzo, você não está dizendo coisa com coisa, o cara te despreza, até seu trabalho foi menosprezado, em que mundo ele te quer?

— Nesse mundo e em qualquer outro. — Rebateu sem se abalar. — Ele me quer, Shura, ele só não descobriu isso ainda, mas eu vou provar isso pra ele com muito prazer. — Suspirou e se deixou recostar no encosto do sofá. — Cara, ele é lindo! Os cabelos dele são exóticos, aqueles olhos, Deuses, que olhos! E quando fica bravo? Nossa só de pensar fico excitado!

— Está apaixonado. — Shura disparou e gargalhou. — Cara, eu nunca pensei que justo você fosse cair nessa, quer dizer, quais as chances de ser dispensado, demitido e se apaixonar pelo cara? E isso tudo no mesmo dia, você é mesmo o melhor, você me mata! — Não conseguia parar de rir.

— Não começa, apaixonado, eu? Até parece, você sabe que eu não me apaixono, eu quero brincar com ele, quero descobrir que tipo de expressão ele pode fazer no momento do êxtase, não é como se eu quisesse namorar com ele. Eu já planejei tudo, você vai ver, ele vai ficar caidinho por mim. — Garantiu.

— Verdade? Planejou tudo? — Limpou as lágrimas que se acumulavam nos olhos após o ataque de risos. — E o Shaka, onde fica nisso tudo?

O sorriso de Milo desapareceu dando lugar a uma expressão contrariada. — Fica onde está, ora, já disse, quero me divertir com ele, Shaka nem precisa saber, por que você está falando dele agora? Argh! Dá um tempo, eu estou tendo um péssimo dia aqui, sabia? É como você disse, fui despedido, Saga vai arrancar meu couro e ainda tem esse lance com o Shaka, você devia me dar apoio. — Lamentou.

— Eu te apoio Milo, sempre apoio, acho que é por isso que você continua fazendo uma burrada atrás da outra, vem cá. — O moreno passou o braço pelos ombros do amigo e puxou-o para mais perto. — Vou te dar um conselho, ok? Já que você está tão necessitado de um ombro amigo, vou te dizer apenas uma vez: Fique longe desse cara, a vida continua, Milo, você pode muito bem assinar outro contrato, esqueça esse ruivo bonitão e se dedique a sua relação com o Shaka. O garoto está sozinho, lembra? Ele depende de você, portanto, pare de pensar com a cabeça debaixo e pense com essa aqui. — Com a mão livre empurrou a cabeça do escorpiano para trás.

— Vá se danar. — Empurrou o outro e se levantou. — Agora você está falando igualzinho o chato do meu irmão, faz favor, já disse, vai dar tudo certo. Eu sou Milo Séferis, eu sempre consigo o que desejo e nesse momento eu quero o ruivo, quero fazê-lo descer do pedestal, ninguém dispensa Milo Séferis e ele não será o primeiro!

Shura revirou os olhos e deixou um suspiro cansado escapar por entre os lábios. — Ok cara, não está mais aqui quem falou, mas quando quebrar a cara esteja certo que vou rir e esfregar na sua cara que eu avisei e eu não quero saber de reclamações quanto a isso, você é mais teimoso que uma mula! Mas deixando isso de lado, o que vamos fazer? — Se ergueu também e encarou o loiro.

— Obvio que vamos sair para nos divertir! — Tornou com novos ânimos. — Depois de um coração partido nada melhor do que um bom porre para curar as dores. — Volveu teatralmente.

— É um babaca... — Shura suspirou e acompanhou o amigo.

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Shaka permanecia sentado no sofá encarando a porta, já era quase meia noite e nada de notícias de Milo. Ele havia saído para encontrar o tal contratante, imaginou que seria uma reunião rápida, já que era final de semana e só tinham que rever alguns detalhes do contrato, no entanto, o loiro não voltou para casa e nem ligou. O celular do modelo jazia aos pedaços em cima da mesinha após o ataque de fúria matutino. Passara o dia inteiro contente, preparou um almoço especial, imaginando que ambos comeriam juntos e depois arrumariam as coisas como ele havia prometido e finalmente poderia se mudar para viver com o amante, mas ele não somente o deixara esperando, como nem se dera ao trabalho de ligar. Não era como se ele não pudesse fazê-lo, desistiu da idéia de que algo de ruim tivesse ocorrido, pois do contrário todos os noticiários estariam exibindo algo sobre isso. Depois da conversa franca que tiveram, imaginou que Milo finalmente estava tomando jeito e que desejava recomeçar, mas parecia que era somente uma desculpa para fazê-lo se calar. Se perguntava se era correto viver com alguém como ele, era notável que aquele amor era unilateral, mas mesmo assim acreditava que o outro só tinha dificuldades em expressar o que sentia. Acreditava que poderia fazê-lo mudar, mas naquelas alturas começava a perder a confiança. Passara o dia inteiro amargurado e mesmo sendo orgulhoso como era, não conseguiu evitar as lágrimas que insistiram em se derramar ao se imaginar abandonado naquele lugar horrível. Desde que o dinheiro acabara, tivera que se mudar para aquele apartamento, todos os dias recebia inúmeras cartas com acusações terríveis e até mesmo com ameaças. Namorar Milo Séferis estava se tornando um verdadeiro pesadelo e Shaka temia ficar sozinho naquele país estranho, acima de tudo temia nunca mais poder ver a mãe ou ter o perdão do pai. Após a discussão que tivera com ele por telefone, tentou, inúmeras vezes entrar em contato, mas fora prontamente ignorado. Tentou ligar para a mãe, mas mesmo ela se recusava a atende-lo, possivelmente para evitar ter problemas com o esposo. Namorar alguém famoso poderia ser o sonho de muitos, no entanto, era bem diferente da ficção os dos sonhos dourados dos tolos incautos. Ele sentia na pele a dificuldade daquela relação, pouco podia sair de casa, pois aonde quer que fosse era encarado com expressões que variavam da curiosidade até o ódio mortal. Sair com ele era diferente, mas Milo estava sempre ocupado ou fingia estar, naquelas alturas já não queria mais manter aquela venda sobre os olhos, era óbvio que o modelo o evitava propositalmente. Era um homem inteligente e prático, com os pés no chão, já era hora de abrir os olhos.

No geral era uma pessoa centrada e não costumava demonstrar fragilidade, mas mesmo que odiasse admitir, estava obviamente doente. Não conseguia se alimentar direito, quase não saia de casa por medo de estar longe daquelas paredes que sua própria mente criara para protegê-lo dos olhares de julgamento e palavras cruéis, não tinha amigos além de Milo e com ele não poderia contar, era óbvio que estava ficando depressivo. Os dias se arrastavam lentos e havia momentos que nem ao menos se incomodava em mudar de roupa ou cuidar dos cabelos que há muito já se encontravam ressecados e quase sem vida. Outra prova de que Milo não reparava mais nele, pois se reparasse, já haveria notado a mudança brusca que sofrera. Era difícil para alguém tão jovem, principalmente porque sempre foi muito ligado a família e o máximo de tempo que passava fora eram as viagens que fazia para ajudar o pai quando este estava muito ocupado, no mais, raramente dormia fora de casa. Sempre foi mimado e tratado como um pequeno príncipe, mas não era soberbo com as pessoas, ao contrário, apesar da pose blasé que ostentava tinha um ótimo coração e saber-se odiado o machucava profundamente. Ao ponto de quase torná-lo incapaz de dormir à noite, dormia é claro, pois todos dormiam, mas para isso era necessário valer-se de pílulas, há tempos as utilizava, desde que perdera a avó se tornou incapaz de dormir tranquilo e desde então usava remédios para conseguir regular o sono, afinal, sempre foi responsável com os horários e muito estudioso. Até pensou em iniciar uma faculdade, embora estivesse no momento se dedicando a fazer crescer o negócio da família. Os sonhos de se tornar alguém capaz de se sustentar sozinho, estudar, viajar o mundo em busca de aventuras e paz espiritual agora pareciam distantes. Em certo momento da vida até mesmo pensou em se tornar celibatário, pois não sentia por outras pessoas desejos comuns para sua idade, mas isso mudou ao conhecer Milo Séferis, aquele homem era capaz de despertar desejos até no mais frio dos homens. Infelizmente o conto de fadas estava se tornando um verdadeiro pesadelo e tudo que podia fazer no momento era observar e continuar inerte em meio aquele vórtice cruel de acontecimentos que o arrastavam para o fundo do poço. Era realmente daquele modo? Ou apenas estava se tornando covarde e se deixando levar pela situação? Era certo que tinha que reagir, tomar rumos diferentes, não podia permitir que as coisas terminassem daquele jeito.

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— Estamos agora na frente da delegacia de polícia de Atenas, nesse momento Alexei Hyoga Versailles se encontra detido, fontes confiáveis confirmaram que o rapaz de apenas quinze anos de idade, irmão de Camus Versailles foi detido após uma tentativa de assalto em uma loja de conveniência. — O homem mantinha uma expressão cínica enquanto repassava as informações para o noticiário local. Havia uma quantidade grande de pessoas aglomeradas na porta da delegacia, obviamente ele fizera a notícia vazar para causar surpresa no público e iniciar aquela bagunça. Isso certamente traria muita audiência e ele certamente ganharia uma promoção. Fazia algum tempo que desejava implicar Milo Séferis em escândalos, já que ele era a tendência do momento, infelizmente o irmão e advogado do modelo era páreo duro e estava sempre boicotando as investidas, assim como o agente, que era igualmente focado. No entanto, implicar Camus Versailles no escândalo acabaria abrindo brechas para comentar sobre Milo e isso não era exatamente algo honesto a se fazer, mas a vida era assim, aproveitaria as oportunidades. — Segundo o delegado responsável, Camus Versailles ainda não veio saber da situação do irmão e nem contratou um advogado para defender o adolescente. Talvez isso se deva ao fato de estar muito ocupado com a nova coleção de roupas que pretende lançar no próximo mês. O modelo principal que irá desfilar é ninguém mais, ninguém menos do que o badalado Milo Séferis, que recentemente causou comoções ao se envolver com um jovem de apenas dezoito anos de idade chamado Shaka Devraj Phalke.

O repórter fez silêncio para ouvir as perguntas do âncora do jornal e sorriu um tanto malicioso à medida que formulava uma resposta. — Ainda não podemos informar se Milo e Camus tem uma relação além do profissional, mas acabo de receber notícias de que foram vistos juntos na cafeteria Palas essa manhã. Temos até mesmo uma imagem onde ambos pareciam discutir, o estilista da empresa Afrodite Laursen também estava presente. Mas isso nunca impediu Milo, não é mesmo? A fama o precede, vide o caso com Shaka Phalke e também se especula o envolvimento do modelo com o colega de trabalho Raphael Shura Aguille, seria Camus Versailles sua nova conquista? Bem, não cabe a mim julgar, a única coisa que desejo é expor a verdade e cuidar para que casos como esses não se repitam. O rapaz, Hyoga, se encontra ainda detido e sem previsões para deixar a delegacia. O caso do menor é gravíssimo, visto que além da denúncia por tentativa de assalto, houve agraves impossíveis de ignorar, como por exemplo agressão e o fato do rapaz ter esfaqueado o dono do estabelecimento. Acabo de receber notícias que o homem se encontra na UTI em estado grave e ainda não se sabe se irá sobreviver, desejo a todos uma ótima noite, aqui fala Aquiles Nikkos.

Assim que a gravação terminou o repórter entregou o microfone para um dos ajudantes. — Tragam água, estou queimando nesse terno! — Gritou estressado.

— Aquiles, tem certeza que foi uma boa idéia divulgar isso? Quando Saga e Kanon Séferis souberem vão nos destroçar! Não somente insinuamos que o tal Versailles e Séferis tem um caso, mas também implicamos o outro modelo nisso. — O câmera coçou a cabeça calva e mirou o companheiro um tanto preocupado.

— Ainda duvida que tenham um caso? Bem, caso não seja verdade, só preciso me retratar pela confusão, afinal, recebi uma notícia falsa da minha fonte. — Sorriu malicioso. — Mas se for verdade será um escândalo e nós fomos os primeiros a cobrir a história.

— Mesmo assim... e depois, é meio cruel, você recebeu a dica do garoto, não foi? Não acha esquisito? São irmãos e mesmo assim ele não se importa nada em acabar com a carreira do cara, acho que nem deveríamos ter nos envolvido. — Disse preocupado.

— Isso não é problema meu, somos pagos para revelar a verdade. — Pegou a garrafa de água que fora oferecida e deixou o local.

— Exato, para revelar a verdade e não para distorcê-la. — Lamentou e depois de um tempo parado seguiu o outro.

Afrodite arregalou os olhos e desligou a televisão. Ergueu-se atônico e começou a andar de um lado a outro. Mirou o corredor e estava dividido se deveria ou não ir incomodar o ruivo. Passara o dia inteiro com ele, após a discussão o Frances acabou indo se deitar, pois não se sentia muito bem e ele como um bom amigo decidiu fazer companhia aquela noite. Tinha ido até a própria casa, afinal, moravam no mesmo prédio, para pegar algumas roupas para pernoitar e decidiu assistir o jornal para saber dos acontecimentos e qual não foi a surpresa ao ver que era Camus e Hyoga que eram comentados? O telefone começou a tocar e o rapaz atendeu.

— Não, é o Afrodite, o que houve? — Indagou preocupado.

— Senhor, é que aqui na frente do prédio está cheio de repórteres, estão insistindo para falar com o senhor Versailles. — O porteiro disse meio sem graça.

— Aí não, pelo amor de Deus, dispense todos! Diga que o senhor Versailles não deseja falar com ninguém e que amanhã de manhã daremos uma coletiva. — Orientou.

— O que houve Dite? — Camus surgiu, usando somente a calça do pijama, os longos cabelos estavam soltos e o peito desnudo. Trazia consigo uma expressão sonolenta.

— Não houve nada querido, volte para a cama. — O estilista forçou um sorriso. — Venha, você deve descansar, sim? — Se aproximou e tentou fazê-lo retornar ao cômodo, mas foi cortado pelo ruivo que fincou os pés no chão e o encarou sério.

— Afrodite já chega, diga de uma vez o que está acontecendo. — Camus exigiu.

— Bom é que... — Ele tentou explicar, mas o telefone começou a tocar, assim como o celular do empresário que soou no quarto.

— Por que está parado aí me olhando com essa expressão? Vai ficar me olhando a noite toda? Me dê logo o telefone! — Pediu.

— Camus, não, por favor, não atende! — Implorou.

— Então me diga o que está acontecendo. — Ao notar que o loiro permanecia em silêncio, girou sobre os calcanhares e começou a caminhar na direção do quarto. Se aproximou da mesinha de cabeceira visando pegar o aparelho celular, mas antes que pudesse fazê-lo, Afrodite adentrou o recinto como um furacão e pegou o objeto. — Me devolva isso agora! — Exigiu.

— Nunca! — Ele disse e pulou por cima da cama querendo distância.

— Você está louco? Vai ficar brincando feito um idiota? Eu não aguento esse barulho, atenda logo essa porcaria! — Exigiu perdendo a paciência que estava longe de ter no momento.

— Esqueça isso, não vamos atender nada. — O loiro desceu da cama e se aproximou da sacada, Camus o seguiu tentando pegar o bendito aparelho, mas quanto mais ele tentava, mais o loiro recuava, isso até estarem bem visíveis e sem saída. — Camus seja racional, eu vou jogar isso lá embaixo se insistir em atender.

— Eu? Ser racional? Afrodite escute o que está dizendo, você é quem está aí fora brigando por causa dos meus telefones, me dê. — Estendeu a mão, estavam no quinto andar.

— Você quem pediu! — O loiro retorquiu afetado e atirou o aparelho celular do ruivo na rua.

— Ali em cima! — Alguém gritou e ambos olharam para baixo ao mesmo tempo. Não demorou para que uma quantidade imensa de repórteres começasse a observar a cena. — Vejam, é Camus Versailles, ele está com o estilista, ele está seminu!

— Mas o que... — Camus só teve tempo de dizer isso, pois uma chuva de flashes começou e ele se afastou tentando sair da mira.

— Aí minha Deusa Afrodite! — O loiro correu para dentro e se sentou na cama. — Agora sim estamos ferrados!

— Ferrados por quê? O que eles estão fazendo na minha porta? — Camus se aproximou com uma expressão atônica.

— É que... eu juro que não sei como, mas descobriram que o Hyoga estava preso, parece que ele não somente assaltou a maldita loja, mas agrediu o dono e o esfaqueou. Ele está na UTI Camus, nem sabem se vai sobreviver. — Revelou triste.

O ruivo se sentou ao lado do amigo e escondeu a face nas mãos, sentia como se tudo estivesse desabando. Não podia acreditar que Hyoga tivesse ido tão longe, desde quando o loiro se tornara um desajustado? Sabia que ele tinha sim problemas de comportamento, mas ferir as pessoas? Nunca imaginou que ele tivesse coragem de fazer algo tão terrível.

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— PASSE O TELEFONE PARA ELE AGORA! — Gritou um Saga extremamente irritado. Shura afastou o aparelho do ouvido e encolheu os ombros com uma careta. Ambos estavam em um clube, a música alta, no entanto, estava longe de conseguir diminuir os gritos do agente.

— Milo é o Saga no telefone! — Shura falou alto tentando atrair a atenção do loiro que bebia um drinque e tinha em seu colo uma bela mulata de cabelos negros.

— Oi? — O Grego sorriu e virou outra dose de ouzo e riu alto sem entender ao certo o que Shura queria dizer. — Não entendi nada. — Riu.

— É O SAGA! E ELE TÁ PUTO! — Gritou.

Milo engoliu em seco e se levantou de súbito, derrubando a garota no sofá, resmungando, galgou os degraus do reservado e abriu passagem na multidão, apesar da música extremamente alta, podia ouvir o irmão chamando por ele. Só parou quando estava do lado de fora do clube, guiou o aparelho até o ouvido. — Calma, eu já estou ouvindo, para de berrar caramba. — Pediu aos risos, já estava bem afetado pelo álcool. — Que foi Saga? Você não dorme não? Olha a hora! Vai dizer que estava na balada também? — Continuou rindo e tagarelando alegremente.

— Cala a boca e me escuta! — O mais velho dos Séferis exigiu ao ponto de ter uma síncope. — Chama o Shura e sai daí agora, antes que os repórteres descubram onde vocês estão. Quero que ambos vão para o escritório agora! Não interessa o que aconteça, não saiam de lá até Kanon e eu voltarmos.

— Kanon? Ele está com você? Não tinha viajado a trabalho? — Milo volveu indignado por ser deixado de lado.

— Depois eu explico, agora faz o que eu mandei. — Ordenou.

— Você não manda em mim! — Milo rebateu irritado.

— Milo, eu vou te matar, eu juro que vou te matar. — Saga crispou os lábios e fez um esforço hercúleo para não berrar.

— Então me diz o motivo, cacete, você ficou louco? Eu vou para casa, o Shaka está...

— Não Milo, não vai para casa, nesse momento já devem estar na frente do apartamento que ele está vivendo e na sua casa já deve ter uma procissão de repórteres e o mesmo vale para o Shura, por isso façam o que mandei, eles não vão imaginar que você vai para o escritório no fim de semana. — Saga explicou sem paciência.

— Por que estariam lá? Eu juro que não fiz anda dessa vez, eu juro! — O Grego tentou se explicar, já começava a desconfiar que a coisa estava feia, afinal, era famoso, mas não era todos os dias que uma procissão de repórteres montava cerco atrás dele.

— Porque o irmão do Camus quase matou um homem e eles acham que vocês dois tem um caso, agora pega o Shura e saia daí, aliás, ele supostamente também tem um caso com você. — Saga debochou. — Eu te avisei, Milo, você nunca me escuta, mas dessa vez você vai me ouvir, faz o que mandei se quiser salvar o que sobrou da sua carreira.

— Irmão do Camus? Quem é Camus? — Ele pareceu confuso, até que finalmente se lembrou e acabou sorrindo ao pensar no ruivo. — Ah, o meu ruivo gostosão? — Arregalou os olhos atônico. — Quando isso? Ele tem irmão?

— ... — Saga desligou o telefone.

— Alô? — Milo ainda tentou, mas não houve resposta, senão o barulho irritante da ligação perdida.

Shura já estava ali fazia um tempo, apenas observava Milo andar de um lado para o outro e gritar com Saga, porém, conseguiu ouvir o suficiente para saber o que tinham que fazer. Agarrou o braço do amigo ébrio e começou a arrastá-lo na direção do estacionamento.

— Saga ficou doido, disse que o irmão do meu ruivo matou sei lá quem e que você e eu temos um caso. — O modelo se jogou no banco do carona e riu gostosamente.

— E você acha isso engraçado? Parece que você é um imã para problemas e agora até eu virei gay, que ótimo. — Riu nervoso e disparou pelas ruas em direção do escritório. — Pior, um gay com gosto duvidoso, porque você é definitivamente a última criatura da face da terra com quem eu gostaria de me envolver. — Rebateu irritado.

Notas finais
Nos próximos capítulos vou começar a adicionar o restante dos personagens e focar um pouco mais neles. Espero que continuem acompanhando. Agradeço aos que chegaram até aqui e até a próxima. o/