Notas iniciais
Oi, gente! Obrigada pelos comentários, às pessoas que favoritaram e que estão acompanhando, que apesar de serem pouquinhos, aprecio todos muito. Espero que gostem! Beijinhos.

Encontro Lou lá por volta das 4h30, quando estou saindo da festa, que ainda está longe de acabar. Vou andando mesmo, sem me importar o fato de estar sozinha de madrugada no meio da rua. Acho que pelo fato de vivermos numa cidade pequena, achamos que habitamos dentro de uma redoma, sem perigos.

Entro em casa e vejo minha mãe deitada no sofá, deitada toda torta, a cara borrada de maquiagem, os cabelos loiros presos num rabo de cavalo, provavelmente a minha espera. Decido não a acordar, cubro-a com um cobertor e vou até meu quarto, repassando os momentos dessa noite. Parabéns para mim, então.

As próximas duas semanas pesam em passar, e tento me distanciar um pouco de meus amigos por esse período. Pode parecer infantil, mas fazer o que, sou infantil e teimosa. Até bipolar e egoísta, um pouco.

Acabo pegando turnos extras no café e chegava em casa depois das 22h. Vivia cansada e até tinha emagrecido dois ou três quilos. Odeio admitir, mas se senti sozinha, por um tempo que parecia muito mais que duas semanas.

Um dia chego em casa, já em meados de outubro, e vejo um bilhete de minha mãe dizendo que vai ficar na casa de Jean hoje. O relacionamento dos dois estava sério, apesar de curto. No começo me incomodei pelo fato de ele ser chefe dela, mas com o tempo me acostumei. Estava bem feliz por eles, na verdade. Ela já se sacrificou muito, principalmente por mim, e merece ser feliz.

Fazia duas semanas que não subia no terraço, o meu lugar especial, com receio de encontrar Caleb. Comecei a me sentir irritada, por que afinal era o meu lugar especial, antes de tudo. Ele que tinha sido um idiota, não eu. Repassei aquela conversa inúmeras vezes, me sentindo culpada, mas não encontrei o sentido de tudo aquele exagero.

Mesmo estando morrendo de sono e fome, vou até lá, por questão de princípios (e saudades também, mas principalmente princípios). Subo as os degraus enferrujados, pisando firme com um livro em uma das mãos e minha bolsa em um dos ombros com dificuldade. Mas aí que vejo uma cena que me surpreende, mesmo não devendo.

Caleb e Julianne. No meu lugar especial.

Forço-me a ficar calada e por alguns poucos segundos só encaro-os atônita. Notando que deveria estar parecendo uma pervertida, decido voltar. Sem conseguir desgrudar os olhos, posiciono-me nos degraus desajeitadamente com dificuldade para descer.

Entretanto, vejo ele olhar para trás e me assusto, fazendo-me justamente cair. É, para variar, cair. Às vezes fico me perguntando qual o meu problema e até hoje, 16 anos depois, eu não achei a resposta.

Raspo o braço na parede e abafo o grito com a intenção de ficar em silêncio, mas nada adianta, pois minha bolsa cai como um baque no chão. Não era alto o suficiente para eu ter quebrado algum osso, mas o metal das escadas de incêndio, onde cai, dói. O acesso para o terraço é pela janela de todos os apartamentos, por onde planejo entrar em casa. Pelo menos não cai para fora do prédio, certo? Faço menção de entrar em meu apartamento até que vejo Julianne me encarando confusa.

–Você está bem? Se machucou? –Ela pergunta, parecendo realmente preocupada.- Suba aqui.

–Ah, estou ótima! Não quero atrapalhar vocês, acho melhor entrar. – Respondo, sem graça.

–Não atrapalha, pode subir. – Por que ela tinha que ser legal? Seria tão mais fácil de odiá-la se ela fosse uma pessoa horrível. Sem mais desculpas, jogo minhas coisas pela janela do meu apartamento, ignoro a dor e a vergonha e subo.

–Desculpe atrapalhar, sério. Achava que não tinha ninguém aqui. Normalmente não tem. Estava procurando algo que perdi, e acho que posso ter deixado aqui. – Invento. Caleb mal me olhava, até que Julianne fala:

–Katherine, seu braço está sangrando! Não está doendo? –Eu nem havia notado, mas estava mesmo, mais do que imaginaria. A dor aguda incomodava-me, mas estava tentando não transparecer.

–O que? –Ele diz, finalmente me olhando, mas desvio o olhar.

–Ah, não é nada. Eu vou voltar para dentro e colocar, hm, um... band aid? –Band aid?! Claro, depois de fazer um corte profundo do tamanho do antebraço, coloca-se UM band aid. Eu tinha problemas, realmente. Me dou um tapa mental depois dessa.

–Tem certeza que está bem? –Ele pergunta. –Não quer ajuda?

–Estou ótima. –Respondo, com uma voz aguda bem estranha, por sinal.- Vou voltar, então.

–Espere, mas o que você estava procurando? –Ela pergunta.

–Oi? – Digo. Merda. Tenho que aprender a mentir melhor.

–Você que veio procurar aqui algo que tinha perdido...? — Ela pergunta, constatando o óbvio.

–Ah. Perdi, meu, hm, colar aqui. Achei que poderia estar aqui.- Invento, olhando para o Caleb. –Mas posso voltar aqui depois. –Era mentira, estava com o colar em meu pescoço, mas o lenço que usava o cobria. Não tirava aquela corrente nem morta. A amava tanto, que nem tirava no banho ou para dormir.

–Imagine, a gente ajuda a procurar.- NÃO PRECISA, tenho vontade de gritar. Mas apenas respondo um “Ah, ok” e finjo que estou procurando no chão. –Como você perdeu?

– Deve ter caído do meu pescoço. –Respondo, e olho para Caleb com o canto dos olhos. – Algumas coisas você simplesmente perde, mesmo gostando tanto delas.

Quando os vejo virados para o outro lado, coloco as mãos rapidamente em meu pescoço e posiciono o colar no chão.

–Achei. –Digo, fingindo, botando-o de volta em meu pescoço. –Obrigada por tudo, gente. Vejo vocês na escola. – Falo, já descendo, sem esperar as respostas.

Entro em casa e vou direto até o banheiro, limpando o sangue com água gelada. Tudo que eu acho são uns pedaços de gaze, então uso alguns para cobrir o ferimento que vai da palma da minha mão até o cotovelo. Claro que o curativo ficou uma merda, mas era melhor que nada.

Começo a lavar a louça para tentar me distrair, até meu celular vibra quando uma mensagem chega. Acredito que seja minha mãe, perguntando se estou bem, ou Louise. Mas não, é. É Caleb.

Honestamente, não tenho paciência para isso, mas temos que conversar, uma hora ou outra. Combino de encontra-lo no terraço em cinco minutos. Lá é, realmente, um lugar melhor para discussões.

Subo as escadas, olhando para os degraus com mais atenção desta vez. Ele já está lá, aparentemente inquieto, encostado no murinho de tijolos da beirada. Murmuro um “oi” baixinho, vou até seu lado e espero que ele comece a falar.

–Está doendo o braço? -Caleb pergunta.

–Ah, um pouco. Eu te disse que eu caio com frequência.

–Você não tinha perdido o colar, né? –Ele fala, firme.

–Não. Você sabe que não tirei ele do meu pescoço desde que você me deu ele.- Comento, mais ofendida que deveria.

–Então por que você veio aqui mais cedo? –A pergunta me deixa irritada. Ele acha que vim espionar ele, ou algo do gênero?

–Por que, Caleb? Porque eu gosto de vir aqui, e não esperava que você iria ficar trazendo garotas aqui.- Falo mais alto. Não devia ter dito aquilo.

Aí que os gritos começam.

–Eu não preciso de sua autorização, Katherine!

–Por que você está sendo tão idiota? O que eu fiz para você, que do nada você está agindo que nem um imbecil?

–Eu que sou imbecil? Falou a pessoa que beija o ex depois dele ter dormido com outra. — Essa doeu.

–O que isso tem a ver? Não é da sua conta! Era para você ser meu amigo; amigos não se julgam desse jeito.

–Então talvez eu não seja seu amigo.

–Você é o que então? Por que eu sou tua amiga. Te apoiei quando começou a gostar de Julianne, fazia tudo que me pedia, te ajudava sempre, te levei por dez quadras a pé quando você estava bêbado, porra! O que eu fiz para que você não seja meu amigo? –Perco a cabeça de vez e começo a chorar, mesmo tentando parar. Droga, nunca tinha sido de chorar tão fácil.

–Talvez eu só não queira ser. Deus, Katherine, você é tão cega. Você não enxerga?

–O que você está falando?

–Você só me usou para fazer ciúmes num idiota.- Ele ia continuar a falar, mas o interrompo:

–Isso é a coisa mais idiota que já ouvi! Não tenho paciência para isso, Caleb! Qual o problema de fazer um mísero favor? Como você fez questão de me lembrar, ele dormiu com outra, então desculpe se eu quiser fazer algo a respeito! Me desculpa, mas achava que uma coisa tão ridícula como essa, qualquer pessoa aceitaria em me ajudar sem problemas! Você está fazendo uma grande tempestade em copo d´água. –Digo, me aproximando dele.

–Não é a mesma coisa.- Ele baixa o tom de repente.

–Como que não é a mesma coisa? –Pergunto mais indignada ainda. Como as coisas chegaram a esse ponto?

–Por que eu gostava de você, Katherine! Como que você não percebe? –Meu Deus. Esperava xingamentos e ofensas, mas não isso. Mil coisas passam por minha cabeça, e fico sem conseguir falar por alguns instantes. Apenas falo:

–O que? – Grande resposta.

–Eu estava te procurando na festa para falar que não ia mais ficar com Julianne, por isso fiquei tão irritado. Eu passava todos os dias no seu trabalho e te observava pela janela. Eu inventava desculpas para apenas ficar perto de você. Sempre falava para nossas mães saírem mais para que pudéssemos ficar sozinhos. Juntei todas as minhas economias para comprar seu presente de aniversário. Fiquei bravo por que claramente você não sentia o mesmo. Pronto, aí está sua resposta.

–Você fez isso? –Sussurro. Estou encostada no muro, sem saída, pois ele está na minha frente, impedindo-me de sair dali. Além de subir no murinho, claro. Uma lágrima cai em minha bochecha, e ele limpa com o polegar, me fazendo gelar ao seu toque.

–Por você, Kate. –Ele diz se aproximando ainda mais. Aí, Deus. Não tinha percebido até agora, mas fui juntando todas peças. Me senti mal quando Louise disse que ele iria ficar com Julianne, quando ele ficou com ela, ou até quando ele perguntou quem ela era, no segundo dia de aula. Sentia falta dele quando chegava tarde do trabalho. Me sentia incompleta quando não estava com ele. Droga, eu gostava dele. Não era que nem o Michel, era melhor. Muito melhor. Como pude ter sido tão burra e cega?

Ele me segura pela cintura e me ergue até o murinho para que ficássemos com a mesma altura- ele tinha seus 1,85m de altura, contra os meus 1,65m. Consigo sentir nossos narizes se encostando, aquele frio na barriga impossível de parar voluntariamente, sua respiração em minha bochecha. Ele se inclina ainda mais, até nossos lábios se tocarem de leve.

Todos aqueles instantes estão me matando até que eu mesma tomo iniciativa e o beijo com todas as minhas forças. Coloco as duas mãos em seu pescoço, passando os dedos em seus cabelos, tentando preencher o espaço entre nós; ele me agarra pela cintura com uma mão e o pescoço com a outra. Ele desliza as mãos pelas costas e toca de leve em minhas bochechas, fazendo-me arrepiar. Fico me perguntando por que estávamos brigando e não fazendo isso antes.

Perco a noção do tempo em que passamos assim, mas não quero que acabe. Quase perco equilibro pelo fato de não ter onde me apoiar nas costas e ele me segura ainda mais forte.

–Não vou te deixar cair. Nunca mais.

Notas finais
Gostaram? Fiquei meio em dúvida, então por favor comentem, digam o que acharam, significa muito! Beijinhos