This Is My Life
47 Testemunhar
Notas iniciais
Acordei na maior felicidade. Eu tinha um namorado! Lysandre é tudo que eu sempre quis e dessa vez tenho que dizer que meu pai acertou em vir me mandar pra cá. Hoje tinha que testemunhar contra a Elise. Eu não sou parva, já vi algumas vezes na televisão e é horrível para as testemunhas, mas mesmo assim, daria tudo para ver ela atrás das grades.
Assim que levantei da cama dei um beijo a Lysandre. Até me dava vontade de rir! Eu finalmente podia fazer isso!
– Pronta?
– Nem por isso mas vou dar o meu melhor.
– Óptimo.
Nos preparamos e mesmo sendo namorados eu notei que nem sequer as costas nuas dele eu vi. Mas é o primeiro dia de namoro e não o censuro, na verdade, censuro a mim por ter tais pensamentos. Vesti uma saia lápis preta, um scarpin preto e uma blusa branca. Deixei me cabelo assim mesmo e nem sequer pensei em por maquiagem. Só de pensar que teria que vê-la de novo corria um arrepio em minha espinha.
– Não vai por maquiagem? — Notei que as mãos de Lysandre estavam em meus quadris. Como ele entrou em meu quarto seu eu me aperceber? Devia estar muito distraída.
– Não estou com vontade. — Meus olhos encontraram os seus no espelho — Isto nunca vai acabar pois não?
– O quê?
– Toda esta história do rapto. Mesmo depois de um mês as pessoas ainda vão lembrar de mim como a menina que foi raptada. Ainda vai haver gente olhando e sussurrando e eu vou ficar paranóica achando que todo o mundo está olhando para mim na rua. Nunca vou poder ter uma vida normal.
– Tu já estás a ser paranóica agora. Depois de um mês aposto que todo o mundo já se esqueceu disso.
– Achas. — Disse me virando para ele. Lys segurava minha cintura e estávamos a milímetros de distância.
– Tenho a certeza. — Ele me beijou de uma maneira calma mas que depois foi mais selvagem, eu segurava sua nuca e ele a minha, depois me poisou por cima da cómoda e continuamos o beijo, Lysandre começou a beijar o meu pescoço descendo para o topo de meus seios que ficavam meio exposto devido ao mínimo decote na blusa. Senti algo vibrar e era meu telefone. Olhamos os dois para ele e no visor estava "Sr. Gates" peguei meu telefone e meti no altifalante dando um último beijo a Lysandre.
Chamada on
– Ms. Jones?
– Sim Sr. Gates? — Nós dois sorriamos por ele ter chegado em uma hora tão má.
– Estou interrompendo algo?
– Não.
– Muito bem. Eu preciso que a Ms. Jones e o Sr. Ainsworth venham ter comigo a esquadra.
– Tudo bem. Adeus.
– Até mais.
Chamada off
– Gates deveria receber o premio de ligação mais inoportuna.
– Vamos Lys. Talvez nós possamos continuar depois.
– Eu iria amar essa ideia.
Fomos em direcção a esquadra e encontramos o Gates com o seu ar serio de sempre mas não sei porque meu sentido me dizia que algo estava errado.
– Bom dia Sr. Gates.
– Muito bom dia. Ms. Jones eu preciso que faça mais um favor. Na verdade não é para beneficio de mais alguém a não ser de si mesma.
– O que é?
– Preciso que vá a esquadra para convencer o Sr. Humbert a depor.
– O quê?! Vocês querem que eu peça ao Kyle para testemunhar? Ele me odeia!
– Porquê? Eles foram pagos para agredir-la mas não a odeiam necessariamente.
Eu não contei a ninguém que gostava de Kyle antes e que quando notei que ele ainda gostava de mim tentei usar isso a meu favor.
– James, Clark e Kyle agrediam-me mesmo antes de tudo isso então eu tenho fortes motivos para achar que eles me odeiam mesmo.
– Mas mesmo assim. A única testemunha que temos é você e precisamos de mais.
– OK, OK.
Depois de algum tempo já estavamos na prisão de máxima segurança de França.
– Pronta?
– Para tudo. — Quando estava lá dentro Gates disse que Lysandre teria que ficar. Me despedi com um beijo e me sentei do outro lado do vidro.
Quando Kyle me viu apenas olhou pra mim com desdém.
– O que você quer?
– Você está bem?
– Porque quer saber?
– Mesmo sendo o meu agressor eu me preocupo com você.
– Sim estou mas algo me diz que não veio só para perguntar se estou bem então seja breve.
– OK. Vou seu muito objectiva. Preciso que testemunhe a meu favor no tribunal hoje.
– O quê?! Você só pode estar louca.
– Não. Estou falando serio.
– E porquê eu?
– Porque de todos você é o único que eu criei um laço mais profundo que o ódio. Eu realmente preciso da sua ajuda.
– Kyle. — Ele olhou pra mim. — Por favor.
– O que eu ganho com isso?
– Sua pena é de 20 anos. Podemos baixar pra 18 visto acho você o menos perigoso dos três.
– OK. Eu topo.
– Óptimo. Vou falar com eles para que te soltem.
Saí dali e fui falar com o Gates. Depois de um tempo Kyle estava livre mas só até o julgamento acabar e ele ia noutro carro para não corrermos perigo. Na entrada do tribunal havia um aglomerado de repórteres e jornalistas. Rapidamente senti um frio na barriga. Passamos todos eles e uma hora depois eu já estava sentada no banco das testemunhas e o julgamento teve inicio.
– Allison — Começou o Gates. — Em 3 de Novembro de 2016 você foi raptada certo?
– Sim.
– E quais foram os autores deste mesmo rapto?
– Nina Johansson e Elise Vegas.
– Houve agressão?
– Sim.
– Nada a acrescentar Meritíssimo.
Gates foi se sentar e o advogado de Elise se levantou.
– Allison. Posso chama-la assim?
– Claro.
– Enquanto estudava saiu uma edição da revista Étoiles onde constava que você era a namorada de Lysandre. Certo?
– Não propriamente. Era uma especulação.
– Mas era?
– Não.
– Lysandre é alguém muito famoso e muitas raparigas gostam dele. Inclusive a minha cliente. Não é?
– Sim.
– Então e se isto for um ato louco de uma fã? Todos já vimos que ela gostava muito de Lysandre. Talvez ela não soubesse que facto estava a cometer um crime e pensou que fosse um simples trote.
– Um simples trote não inclui bater-te com uma arma, dar bicos, pontapés, xingar, contratar pessoas para estuprarem-te tudo isso com um sorriso presunçoso na cara. — Minha voz estava embargada. Não sei se conseguiria dizer mais alguma palavra sem chorar.
– Vaca! Representas tão mal! Nem sequer puseste uma maquiagem para que as pessoas sintam pena de ti. Nojenta!
– Ms. Vegas pare!
– É claro que nem sequer pus maquiagem! Tu e a Nina transformaram a minha vida num inferno! Eu não posso nem dormir sem pensar que alguém vai entrar no meu quarto pronto para me espancar até eu desmaiar. E — Agora toda a sala de tribunal estava em silencio. Até o juiz. — se me tiraste qualquer vontade de viver como é que queres que eu me preocupe com uma coisa mesquinha como maquiagem? — Uma lágrima caiu de meu olho.
– Vamos fazer um intervalo. — Disse o juiz para depois bater naquele martelo. Saí da sala imediatamente querendo apenas ir chorar para a casa de banho mais próxima.
– Ally! — Olhei para trás vendo o rosto preocupado de Lysandre.
– Eu não consigo mais. — Eu o abracei e chorei aí mesmo naquele corredor.
– Ms. Jones. — Vimos Gates se aproximar. — Você foi muito bem. Acho que temos grandes chances de ganhar este caso.
– Obrigada por dizer isso. A segunda parte é com o Kyle certo?
– Sim. Esperemos que ele consiga sair tão bem como a senhora.
– Esperemos.
Depois do intervalo a Elise sentou-se no banco dos réus para testemunhar.
– Elise. É verdade que gostava de Lysandre?
– Sim. Ainda gosto dele.
– E quando a Allison começou a aparecer com ele o que é que sentiu?
– Senti-me triste. Eu gosto muito dele e ver o rapaz que gosta com outra rapariga dói.
– E o que fez em relação a isso?
– Conversei com ela. Pedi que parasse porque gostava mesmo dele mas ela nem sequer quis ouvir.
– E não teve intensão alguma em magoa-la.
– Claro que não! Quando pedimos ao James, Kyle e ao Clark para virem era apenas para darem sustos a ela. Imagino que deveria pedir a alguém que tivesse um passado mais sereno com ela mas foi apenas um trote para ela poder dar-me ouvidos. Eu não faria isso se não gostasse de Lysandre e fico preocupada com ele.
– Então tudo isto foi apenas uma loucura de amor.
Ela deu um sorriso meigo e olhou para baixo fingindo estar envergonhada. Ela era boa.
– Sim.
– Nada mais a acrescentar.
Gates levantou-se. Tenho pena dele. Ela é uma óptima atriz e ele não sabe.
– Ms. Vegas. Posso chama-la de Elise?
– Com certeza.
– Primeiro lamento a sua perda. Nina era muito próxima a si.
– Não há um dia que não penso nela.
– Mas, disse que apenas queria passar um trote para a minha cliente.
– Sim.
– E esse trote envolve seis costelas fraturadas, coma por hipoglicemia, agressão, diversos hematomas, tentativa de homicídio e sequestro?
Ela gaguejava a tentar dizer alguma coisa.
– Eu já disse! Os rapazes exageraram.
– E o que eles tinham que fazer exactamente?
– Eles... eles... só tinham que aparecer enquanto ela estava dormindo e gritar para lhe acordar, bater nas paredes e coisas do género.
– Mas. Elise. Nós temos provas que não é isso. — Ele apertou em um botão e apareceu umas mensagens. — Estas são as mensagens que trocou com Kyle quando estava a chama-lo para fazer o trabalho. Aqui diz : "tu, o Clark e o James conhecem a Allison?" e ele responde: " A Jones? Claro. Foi nossa colega na secundária" "Soube que foste expulso juntamente com James e Clark por tentarem estupra-la." "Como sabes isso?" "Eu sei muitas coisas. Mas estou aqui para saber se não queres terminar o trabalho junto com os outros" — Ele desliga e continua — Depois são mais mensagens que vocês entram em acordo em relação ao preço. E, isto vai contra tudo o que a menina diz.
– Eu... eu... a culpa não é minha. A Nina...
– Mas você pesquisou, criou relações com ele para contrata-los para estuprar uma jovem.
– Mas eu...
– A Nina não podia ter lhe obrigado a fazer uma pesquisa profunda pelo passado da minha cliente e dos seus agressores mas você quis. Por inveja!
– Protesto! Especulação!
– Deferido. O Juiz não terá isto em conta.
– Reformulando. Elise. A verdade é que você e a Ms. Johansson queria que tudo isto acontecesse. Caso contrário não teria contratado três homens para violarem uma jovem. Então fica a questão. Fez propositalmente ou não?
– Eu não sei! — Ela começou a chorar. — Eu não sei.
Depois de Kyle também sentar no banco das testemunhas o Juiz deu a sentença.
– A réu Elise Vegas irá encontrar-se detida até ao veredito. — Assim que o Meritíssimo bateu o martelo eu pude aliviar-me. Lysandre me abraçou e vimos Elise sendo algemada. Aquilo ainda não tinha acabado mas pelo menos valeu a pena.
– Obrigada mais uma vez. — Disse ao Kyle.
– Não tens de quê. E se eu sair da prisão um dia talvez possamos ser amigos.
– Eu acho que iria gostar. — Eu poderia ser estúpida. Bem... eu era mesmo mas eu não conseguia ficar com rancor infinito de alguém a não ser o James. Nunca me dei muito bem com o Clark mas acho que era por ele ser uma antiga paixão o Kyle sempre pareceu simpático pra mim. Mas eu teria que contar a Lysandre que eu o beijara. Eu acho que ele entenderia.
Vi-o ser algemado e saímos de volta aquela multidão avida por informação. Passamos todos e seguimos para o carro.
❄❄❄❄❄❄❄❄❄❄
Estávamos em casa os dois no seu quarto a conversar. Sentia-me cada vez mais reprimida por não lhe contar que beijei Kyle.
– Lys. Eu tenho que te dizer algo.
– Sim.
– Quando eu estava em cativeiro. Eu me apoiei em Kyle para conseguir sair dali. Daí um dos motivos por ser ele a testemunhar e não outro. Mas. Eu antes tinha uma paixão por ele. Na secundária. Antes de te conhecer. E quando notei que ele estava interessado em mim eu tive que reacender aquilo que ele já tinha por mim e fingir que ainda estava apaixonada por ele. Então... eu... beijei-lhe.
– Tu beijaste o teu agressor?
– Era um meio para eu poder sair dali. Tínhamos até um plano.
– E resultou?
– A Nina disse a ele que eu não gostava dele e que inclusive namorava contigo o que, na altura, não era verdade.
– Porquê que estás a contar-me isto?
– Eu sinto que tinha que te contar para eliminar todos os segredos entre nós.
– E no entanto não são todos.
– O quê?
– Tive que ficar a saber por meio de um tribunal que ele não só foi teu agressor agora como foi antes. Ele chegou a tocar-te?
– Eu não me sinto muito a vontade a falar sobre este assunto.
– Aí está. Mas eu vou respeitar.
– Estás chateado comigo?
– Não. Só... deixa pra lá. Vou fazer qualquer coisa para comeres.
Ele se levantou da cama e quase para abrir a porta...
– Chegou. — Ele olhou para mim. — Chegou a tocar-me sim. Mas... não foi só o James o Kyle e o Clark como todo o mundo pensa. Foi... muito pior. — Ele veio até ao meu encontro. — Eram mais dois. O John e o Paul. Também eram bem da pesada. Eu nunca tinha falado com nenhum dos cinco. Mas eles simplesmente se metiam comigo. Um dia eu saia da escola quando James meteu-se na minha frente.
❄Flashback on ❄
– O que foi?
– Eu queria que me desses umas explicações de matemática.
– Ah. Então... e que tal na terça? Eu tenho tempo na terça.
– E que tal agora?
– Desculpa mas eu estou bem atrasada.
– Anda. — Ele segurou em meu braço e me puxou com força para um sitio com mais quatro dos seus amigos. — Vejam quem é que eu trouxe.
– Jones!
– James eu realmente preciso de ir.
– Não, não. Tu não poderias estar em melhor sitio que este.
Eles formaram uma roda e começaram a me empurrar. Como se eu fosse uma bola que eles empurravam de um para o outro. Até que eu caí.
– Vamos ver o que está debaixo dessa saia pode ser?
– Larga-me!
Ele começaram a apalpar-me.
– Olha! A Jones tem peitos!
Os outros riram.
– Parem! Deixem-me ir!
Eles todos apalpavam-me. Era como se fosse um jogo. Tentei muitas vezes soca-los mas não deu em nada. Eles eram fortes. James queria baixar minha calcinha mas eu gritei por ajuda e ouvimos ao longe a voz da diretora. Eles fugiram e eu fiquei no chão a chorar.
A diretora ajudou-me e puniu todos eles com uma expulsão. Minha vida aí nunca mais foi a mesma. Quando és a responsável pela expulsão de um dos grupos mais populares as pessoas não são lá muito simpáticas contigo.
❄ Flashback off ❄
– Ally eu peço imensas desculpas. Fui irracional ao tentar saber algo que tu não querias revelar.
– Não faz mal. Nunca contei a ninguém a não ser a meus pais. E eles não saberiam se a diretora não tivesse dito a eles.
– E eles não avançaram mais que isso?
– Queres dizer estupro?
– Sim.
– Não.
– Isso quer dizer que tu ainda és...
– Virgem?
– Sim.
– Sim. Sempre dei valor a isso e nem sequer pensava em perder isso com um qualquer. A verdade é que nunca senti a necessidade disso. Bem... até a algum tempo. — Me lembrei da primeira vez que beijei Lysandre. Senti aí uma vontade avassaladora de tirar sua roupa e avançar para coisas menos próprias.
– Como assim? — Acho que ele sabia pois tentava reprimir um sorriso.
– Acho que a conversa está boa por hoje.
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