This Is My Life
45 Meu Lysandre
Notas iniciais
Eu estava naquele quarto. O quarto que me marcou em tantos sentidos. Tanto emocionais como físicos. James abriu a porta de rompante me assustando.
— Com que então pensou que conseguiria escapar?
— Que verias o teu precioso Lysandre de novo?
— Que poderias voltar a ter uma vida normal? Bem... enganaste-te. — Kyle iria acertar-me com um bastão quando acordei.
Minha respiração estava descompassada e havia muito suor em minha testa. Fui lavar meu rosto e olhei para meu quarto. Lysandre me disse que durante o tempo que estava em coma meus pais trouxeram o meu piano. Eu amava tocar piano. Olhei para ele e me dirigi ao mesmo. Eu era forte mas por trás de toda essa mascara havia uma menina traumatizada por tantas coisas e que só queria chorar em um ombro que de facto lhe acalmasse.
Me sentei colocando as mãos nas teclas e inspirei fundo. Assim que as primeiras notas desta canção tão conhecida por mim comecei a cantar.
Alice sits on the corner
Alice senta na esquina
She feels better than ever
Ela se sente melhor do que nunca
She knows, She knows you're not coming home
Ela sabe, ela sabe que você não está indo para casa
Alice sits on the corner
Alice senta na esquina
Queria que as pessoas se metessem no meu lugar pelo menos só uma vez. Será que não conseguiam entender que ainda doía falar sobre isso? Eu acordei do coma hoje! E elas já queriam que eu lhes contasse.
Alice walks by the river
Alice anda às margens do rio
She feels prettier than ever
Ela se sente mais bonita do que nunca
Light reflects on water, the sun hits her hair
Reflexos de luz na água, o sol bate em seus cabelos
Alice walks by the river
Alice anda às margens do rio
Alice Alice
Alice, Alice
What is your secret?
Qual é o seu segredo?
Alice Alice
Alice, Alice
How do you sleep at night?
Como você consegue dormir a noite?
Alice Alice
Alice, Alice
How do you stand so calm?
Como você permanece tão calma?
When everything you live for is gone..
Quando tudo pelo que você vive se vai...
Alice watches the sky above
Alice observa o céu
She feels younger than ever
Ela se sente mais jovem do que nunca
As she spins and spins the wind hits her dress
Enquanto ela gira e gira o vento bate em seu vestido
Alice watches the sky above
Alice observa o céu
Alice Alice
Alice, Alice
What is your secret?
Qual é o seu segredo?
Alice Alice
Alice, Alice
How do you sleep at night?
Como você consegue dormir a noite?
Alice Alice
Alice, Alice
How do you stand so calm?
Como você permanece tão calma?
When everything you live for is gone..
Quando tudo pelo que você vive se vai...
Hold my hand til they turn cold
"Segure minhas mãos até elas ficarem frias
Til my eyes finally see gold...
Até que meus olhos finalmente vejam dourado...
Take my hand, embrace this dance
Pegue a minha mão, se junte a essa dança
Our last is almost over...
Nossa última está quase no fim...
Sell my antiques, tell their story
Venda minhas antiguidades, conte suas histórias
We my friend made history...
Nós, meu amigo, fizemos história
Alice knows where she's going
Alice sabe para onde está indo
She says in heaven, theres no loneliness
Ela diz que no céu não há solidão
As she reaches her final day, she still wears a smile
Quando alcança seu último dia ela ainda veste um sorriso
Alice knows where she's going..
Alice sabe para onde está indo...
Terminei a musica com lágrimas nos olhos. Será? Será que eu saberia sempre para onde estava indo? Ou precisaria de alguém para se juntar a mim?
— Essa musica quer dizer alguma coisa para você? — Ouvi a voz de Lysandre bem atrás de mim, limpei minhas lágrimas me virei para ele.
— Eu não sabia que estava ouvindo. Desculpe se te acordei.
— Não precisas de te desculpar. — Ele se sentou ao meu lado no banco daquele piano, estávamos lado a lado naquele quarto iluminado apenas pela luz da lua. — Eu sei que se eu perguntar se está bem vai dizer que sim mas a verdade é que não está. Eu conheço você. Sei que por trás da dor que está a sentir, por maior que seja, você coloca um sorriso no rosto só para não preocupar os outros... mas a verdade é que... todo o mundo precisa dum suporte, alguém em quem confia para contar os seus segredos ou as vezes um travesseiro para chorar. Nunca tive alguém que de facto contei a ele todos os meus segredos. As vezes incomoda. Não poder contar nada a ninguém, mas se você quiser eu poderia ser essa pessoa.
Olhei para Lysandre e para seu cabelo platinado e olhos heterocromáticos iluminados pela lua. Ele tinha razão. Eu nem sequer podia dormir sem ter medo de acordar e ser espancada. Meus olhos marejaram em lágrimas e comecei a chorar. Abracei Lysandre com força e ele foi passando a mão em meu cabelo. Eu precisava contar. Por mais aflita que isso me fizesse sentir mas com alguém eu precisava desabafar.
— Eu não aguento mais. — Disse num fraco fio de voz. Estava decidida a contar tudo. Me levantei e fui para a cama o convidando em seguida, sentamos lado a lado no meio da cama, ele passou sua mão pelos meus ombros e me puxou para mais perto dele. — Antes de contar o que aconteceu eu preciso dizer primeiro onde é que eu estive quando tu saiste com os rapazes.
— Tu já me contaste. Querias ir para a casa da Melody mas...
— O que eu contei foi uma mentira.
— Isso quer dizer que foste a outro sitio?
— Sim.
Lysandre arregalou os olhos e os dirigiu pra mim.
— Mas... mas... tu poderias ter te perdido, ou machucado, ou sei lá pior!
— Não fui pra muito longe. Deixa contar-te como aconteceu.
❄Flashback on ❄
Eu não sei porquê mas tinha mesmo um mau pressentimento em relação ao Lysandre ter saído. Acho que nem sequer vou ligar. Preciso desesperadamente de dançar. A dança desde muito tempo foi o meu tubo de escape para os meus problemas. Dançava de tudo um pouco mas o meu estilo favorito era o ballet. Ver as bailarinas a se movimentarem tão graciosamente desde criança sempre me deu o desejo de ser igual a elas. Então treinava desde os meus quatro anos. Aqui em casa não havia muito espaço mas eu sabia de um sitio onde havia.
O porão. Lysandre tinha uma chave, eu vi naquele domingo que passei com eles. Precisava dela mas sabia que ele não me deixaria ir. Ele é muito preocupado.
Assim que ele me despediu saí a correr para o seu quarto e procurei por cima das cómodas, no armário, debaixo da cama, debaixo do colchão. Demorei um monte de tempo e na primeira gaveta que abri encontrei a chave.
Corri para meu quarto e arrumei uma pasta com um collant preto e uma regata preta também e minhas sapatilhas de ballet. Tomei um banho, vesti um calção rasgado com a regata preta e fui comer um bocadinho. Assim que eu me dirigia para a porta para sair Lysandre entrou perguntando onde eu ia. Deu merda. Disse a ele que ia para a casa de Mel e depois de ficarmos mais um tempo juntos ele se despediu e minutos depois também eu saí de casa.
Abri a porta do porão e dei uma olhada. Estava até bem limpo. Coloquei meu collant e as sapatilhas e enquanto tocava a moonlight sonata, minha composição favorita de Ludwig van Bethoveen eu dançava com graciosas piruetas e saltos naquele palco que poderia não ser tão grande mas naquele momento era o centro do meu universo.
Acho que fiquei lá durante mais ou menos duas horas. Apenas em danças acompanhadas de musicas clássicas. Voltei para o apartamento me sentindo mil vezes mais leve.
❄Flashback off ❄
— Então tu basicamente esperaste que eu saisse, vasculhaste o meu quarto, mexeste nas minhas coisas por causa da minha chave do porão para poderes ir dançar?! — Ele tirou sua mão de meu ombro e mesmo que não tenha feito nenhum movimento brusco aquilo doeu.
— Dessa forma até parece que é algo de mal.
— Mas é algo de mal! — Ele tinha se alterado mas logo depois recuperou. — Não me digas que mexeste no meu bloco de notas.
— Não! — Me assustei logo com a ideia — não fiz isso, eu estava a pensar em ti.
— E não pensaste em mim quando vasculhaste o meu quarto a procura de uma chave que também não é tua?!
— Desculpa. Eu estava muito sobrecarregada e precisava espairecer. Quando tive essa ideia não pensei duas vezes e fiz.
Ele pareceu se acalmar mais um pouco.
— OK. Não quero que isto seja a razão de uma discussão mesquinha.
— Obrigada. — Peguei seu braço e eu mesma o pus a volta de meus ombros. Nos encostamos a cabeceira da cama e eu abracei seu tronco. Queria estar o mais próximo a ele possível.
Respirei fundo e comecei.
— Na noite em que fui raptada eu queria dizer-te algo. Mas não consegui porque a estúpida da Nina havia me sequestrado. Quando estava naquela van eu pedia para que alguém notasse minha ausência e viesse a meu auxilio. E aí ouvi você. Me chamando. "Ally". Se não estivesse tão assustada no momento era capaz de rir mas gritei em resposta. Depois disso só me lembro de Elise batendo em mim com uma arma, eu acho, e apaguei. Acordei num quarto não muito grande com uma cama de solteiro com um colchão fino e velho, do outro lado uma mesa simples com quatro cadeiras e um pequeno quarto de banho. Aquele cinza em todas as paredes era tão entediante. E também — Minha voz começou a falhar — Realçava tanto o meu sangue. Acordei amarrada a uma daquelas cadeiras, Nina dizia que demorou meses para arquitectar aquilo e que iriam ficar ricas com o dinheiro que iriam pedir de resgate para o meu pai. Eu disse que elas poderiam me largar em alguma rua dizendo que era uma partida e que até alinharia mas ela deu-me um soco na barriga e disse que não precisava da minha solidariedade. Senti tanta pena dela. Mas acho que pessoas que estavam naquela posição não poderiam sequer ouvir aquilo. Ela disse para me lavar pois ia receber visitas. E com visitas referia-se ao James e os seus amigos. No principio eles apenas queria violentar-me mas depois de muito pedir e até de me ajoelhar eles... — Uma lágrima caiu de meu olho — ... eles decidiram apenas espancar-me. — Comecei a chorar. Senti seus braços me apertarem ainda mais num abraço reconfortante.
— Não precisas continuar se quiseres.
— Não. Isso vai fazer parte do passado e apenas do passado. Não quero mais uma recordação desagradável para atrapalhar minha felicidade. — Respirei fundo e continuei. — Lembro-me de que no liceu todos me chamavam de Ally-totó, foi isso que ele me chamou naquele dia e eu disse a ele para nunca mais me chamar disso. — Caiu mais uma lágrima — Uma frase que será como uma cicatriz eterna na minha mente e no coração é " Pelo contrário Ally. Eu chamo-te o que eu quiser. E agora? Eu vou chamar-te de brinquedo sexual pode ser?". — Lysandre me apertou mais ainda e beijava ocasionalmente o topo de minha cabeça enquanto as memorias apareciam nitidamente em minha cabeça. — Isso. Foi antes de lhe implorar para que não o fizesse. Ele me deu um soco na cara e um pontapé na barriga. Aí o Kyle e o Clark entram. Kyle tinha um bastão que acertou em minhas costas me fazendo cair. Daí vieram bicos e mais bicos. Lembro que James subiu encima de mim e deu tantos socos em minha cara que toda ela inflamou. Deixei de contar a partir do quatro. Acho que vieram mais dois. Kyle pediu a ele para parar. Mas ele disse que me queria morta. Graças a Deus se estivesse morta eles não poderia receber o dinheiro e estaria tudo arruinado por isso minha vida estava garantida. Pelo menos até receberem o dinheiro.
— Mas, no entanto, não havia um único dia em que não desejei que um deles viesse com uma arma e me matasse para acabar de vez com aquele sofrimento todo. Durante um mês eu fui espancada diariamente sem falta. Umas vezes quando eles vinham com raiva de algo que pode até não acontecer lá onde eu estava mas era a mim que eles descarregavam. Algumas vezes eu atiçava eles no intuito de que me espancassem até a morte e acabava já com aquilo tudo. Lembro-me de um dia em que tentei matar a Nina mas os rapazes apareceram dessa vez com bastões e tudo mais e começaram a bater-me. Depois dos bastões eles apenas deram pontapés, tentei fugir mas ele puxou-me pelo cabelo me fazendo cair. James subiu encima de mim dando uma chuva de socos e mais um da barriga depois de Kyle o travar. Me arrastei para mais longe e vomitei uma grande quantidade de sangue. Foi a primeira vez que desmaiei por conta das suas agressões. Desde ali contabilizei mais quatro. Foi horrível mas apesar de tudo a morte de Nina me deixa com pena. Acho que deveria olhar nos olhos dela e vê-la a apodrecer na cadeia. E... — minha voz ficava fraca outra vez. — Eu estou fora de perigo. Sou livre de novo... mas... porquê que sinto que já não tenho mais vida? Porquê que sinto que há um vazio enorme? — Eu comecei a chorar. — E agora não há sequer um momento em que eu não penso que eles vão entrar pelo meu quarto, espancar-me, humilhar-me e tirar pouco a pouco a minha vida. Eu vivo no medo. As vezes penso que as meninas olham para mim e pensam "como é que ela consegue dormir a noite?" "como é que ela se mantém tão calma?" é como na canção. Eu sei para onde vou. E até o momento da minha morte eu vou manter o meu sorriso. Me preocupando o maximo para não vos preocupar. Eu só... preciso de alguém que me acompanhe.
— Eu posso ser esse alguém?
Olhei para Lysandre espantada.
— Eu quero ser o seu porto seguro, sua tábua de apoio, a pessoa a que você vai para aliviar os seus problemas, um amigo para todas as horas.
Minhas lágrimas corriam sem parar.
— Sim Lysandre. Você pode. Você tem. Você deve.
Ele me abraçou forte e ficamos aí calados. Até porque não havia mais nada para dizer. Já estava tudo dito aí. Faltava muito pouco para que eu possa apelida-lo de...
...Meu Lysandre.
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