Things We Lost in The Fire
13 4x13 – The Sound of My Vendetta Against the Ones that Planned It
Notas iniciais
Você me ama
Você me odeia
Você sempre quer me levar
Para baixo com você
O que você quer de mim?
Eu não vou ficar
Eu não quero ter medo
Eu não quero fugir
Eu não quero ficar aqui me enfraquecendo
Isso é mais do que eu posso suportar
Eu nunca serei o mesmo
Eu joguei tudo isso fora
Eu não quero ficar aqui me enfraquecendo
Apenas deixe
Você continua me empurrando
Você continua me usando
Você continua me torcendo
Você continua me machucando
Você não pode mais me ter
Apenas me deixe ir
Red
Baltimore, Maryland, 18 de fevereiro, uma hora da manhã.
Alicia abriu os olhos. Estava em um apartamento. Ficou satisfeita ao ver Jo, de costas para ela, olhando pela janela. Sua quase que primeira tentativa de voo tinha dado certo.
–Jo? – falou.
–Meu Deus, Alicia. – a garota falou, sorrindo. Os olhos estavam vermelhos. – quando disse que estava vindo não achei que seria assim. Quem é ela?
–Essa é Anabel, uma amiga. Essa é Jo.
As duas mulheres loiras se cumprimentaram.
–Agora você está voando?
–É, bem recente na verdade. Ainda não sei se isso vai ser um problema.
–Você vai aprender a ocultar seu poder para as criaturas não serem atraídas por ele – falou Anabel – é um estado mental. É só ficar concentrada e manter suas emoções sobre o controle. Agora, por exemplo, posso sentir que você é poderosa, mas você não tem aquela magia atrativa fora de controle.
–Bem, mas eu não sou o assunto agora. – falou Alicia, mal contendo a curiosidade – que filho, Jo? Como assim você tem um filho?
–Eu tinha 18 anos. – contou Jo, depois de dar um suspiro. Depois de anos guardando aquele secreto, agora era a hora de confessar – o ano anterior tinha sido um caos. Minha mãe queria que eu fosse para a faculdade; e eu acabei indo. Mas eu não me encaixava lá, e os primeiros meses foram um desastre. Eu era a esquisita. Até que numa noite, logo após o ano novo, eu ouvi boatos sobre uma casa mal assombrada perto do campus. Eu estava desesperada. Não queria ter voltado para o segundo semestre na faculdade, mas minha mãe me obrigou... Esse caso era a luz no fim do túnel.
Alicia entendia muito bem o que Jo sentia. Ela também tinha essa relação especial com a caçada.
–Foi ai que eu conheci esse caçador. Ele era mais velho e é o motivo porque minha mãe odeia que eu me envolva com caçadores. Eu era jovem e estava solitária e infeliz. Ele me deu toda a atenção que eu não tinha de ninguém e durante os meses seguintes, ele continuou me visitando. Me apaixonei. Eu vivia para quando ele vinha me ver e era sempre irregular. Não me interessava em nada pelas aulas, só por ele. Ia mal nas disciplinas. Minha mãe não tinha ideia do que estava acontecendo. Até que no fim do meu primeiro ano, eu descobri que estava grávida. Não sabia o que fazer. Não voltei para a casa durante as férias de verão. Inventei que estava trabalhando num projeto e minha mãe ficou satisfeita por eu estar mais encaixada na faculdade. Fiquei esperando ele voltar e claro, ele não voltou. Não queria saber de mim ou do filho, eu era só mais uma para ele. Quando eu percebi isso, já estava com cinco meses de gravidez. Teria que ter o bebê. Voltei para casa com o coração partido demais. Não tinha condições de voltar a estudar, de voltar para uma faculdade que eu odiava e muito menos de criar o neném. Eu era só uma menina e por mais que fosse meu filho, ia me lembrar para sempre de o quanto estupida eu tinha sido. Não podia dar nada a ele. Coloquei ele para adoção e procurei esquecer tudo isso.
“Até que, Baphomet matou minha mãe” ela contou, com lagrimas escorrendo pelos olhos. “E eu comecei a pensar que eu também era mãe. E que meu filho estava em algum lugar por ai, sozinho pelo mundo. Eu queria muito vê-lo. Fiquei muito mais assustada quando Baphomet ameaçou mata-lo. Sentia que ele só estaria seguro se estivesse comigo”.
“Então Ash me ajudou a encontra-lo. Demorou algum tempo, porque quando você desiste da criança, você perde o direito de saber sobre ela... Descobri que ele ainda vivia num orfanato, aqui em Baltimore. Já passou por dois lares adotivos e não funcionou. Entrei com o pedido para restaurarem o pátrio poder... Mas primeiro tive que começar a trabalhar aqui, montar uma casa adequada, ter um maior contato com ele... Passar pelas entrevistas com assistentes sociais e psicólogas. É o que eu estava fazendo. Até que a noite passada, ele desapareceu.”
–E eu sou suspeita. – falou Jo, chorando muito – já reviraram minha casa, estão me vigiando, tem um carro da policia na frente do prédio.
–Você disse que era as Bruxas de Salém – falou Alicia, tentando manter a cabeça clara diante do tudo o que Jo tinha acabado de contar. Você nunca conhece realmente uma pessoa, a história dela, em todos os detalhes. Elas sempre podem te surpreender.
–Eu acredito que sejam. Sei que elas buscam vingança por eu ter matado Baphomet. Ele mesmo que fez essa ameaça. De matar Will.
–-
Baltimore estava cheia de sinais demoníacos nas últimas semanas. Alicia abriu um mapa da cidade na mesa, enquanto no notebook pesquisava as clássicas: morte de gado, plantação secando, tempestades elétricas. Desaparecimento de pessoas. Pessoas agindo de modo esquisito. Casos de doenças mentais súbitas. Ferimentos estranhos.
Era ótimo ter um trabalho para se concentrar e não ter que pensar em Sam.
Se ao menos Alicia conseguisse parar de pensar em Sam, o que ela não conseguia.
–Então – falou Alicia, quando Jo voltou trazendo café. – por que não quer que Dean saiba?
Jo engoliu em seco.
–Eu não sei o que ele diria sobre isso. E depois que ele voltou do Inferno, não foi muito receptivo comigo. – falou Jo, chateada. – achei que ele teria coisas demais na cabeça. Ele continuou me ligando nos últimos meses, sabe? As vezes pergunta se pode me ver. Mas fui me afastando justamente por causa de Will.
–Dean é um ótimo cara – falou Alicia – ele se faz de pegador e durão, mas eu tenho certeza que ele não teria problema nenhum com você ter um filho.
–Allie, não sou boba. Dean é um caçador e não exatamente um pai. Não quero criar meu filho nessa vida. Quero me afastar de tudo para ele poder ficar bem. Mesmo que isso signifique se afastar de Dean.
Alicia não respondeu, apenas ficou olhando para Jo com uma expressão estranha. Ela parecia triste e distante.
–Você acha que é impossível ele não ser um caçador?
–Jo, está no sangue. Você é caçadora. O pai dele também era. Uma hora ou outra, essa vida chama. Sabe que é impossível deixa-la.
–Então – falou Jo, se sentando numa das cadeiras da mesa. Anabel continuava trabalhando, concentrada. – por que você e Sam brigaram?
Alicia engoliu a vontade de desabar no choro. Há algumas horas tinha concluído que Sam não valia nenhuma de suas lagrimas. Não ia chorar, não por ele.
–Aparentemente ele passou todo o tempo em que Dean estava morto rolando na cama com Ruby. – falou Alicia, com uma sensação desconfortável no estomago. Sam e Ruby juntos causavam náuseas nela.
–Meu Deus — falou Jo – eu não consigo acreditar que ele fez isso.
–É, ele fez, e você sabe, nos últimos meses, ele está agindo como um louco. Está grosso e agressivo, e mentindo loucamente para mim e para Dean. Eu não tenho como saber se ele realmente parou... Bem, você entendeu. – falou Alicia, profundamente infeliz.
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Sam tinha decidido localizar Alicia pelo GPS do celular. Dean ainda estava no banho, demorando mais do que o normal, provavelmente estava irritado e tentando se acalmar para evitar outra briga. Sam se sentia muito confuso. Por um lado, se odiava por estar magoando Alicia. Por outro, estava irritado com ela.
Assim que digitou as informações do celular dela no site da empresa, a localização dela constava como PROVIDENCE, RHODE ISLAND. Dean saiu do banheiro, com a cara fechada.
–Eu achei Alicia – anunciou Sam antes que Dean dissesse qualquer coisa – ela voltou a Rhode Island. Não sei como, talvez ela esteja com alguém.
Dean estava olhando para a tela do computador com uma expressão confusa. Sam voltou a olhar a tela. A localização tinha mudado para BALTIMORE, MARYLAND.
Alicia estava se movendo e se movendo depressa; então decidiram esperar um pouco, mas aparentemente Alicia sossegou em Baltimore.
A viagem até lá duraria oito horas. Se viajassem a madrugada toda, na manhã seguinte conseguiriam encontrar com ela.
Então Sam poderia dizer que sentia muito por não ter falado para ela, que sabia que ela reagiria dessa maneira justamente por isso não tinha contado.
–-
Mesmo com todos os sinais demoníacos, localizar as Bruxas de Salém estava sendo um trabalho difícil. Havia atividade demoníaca em toda a Baltimore, o que tornava complicado localizar um possível local para elas estarem. E nenhuma das mulheres desconsiderava a possibilidade de terem levado Will para fora da cidade. Mesmo não mencionando para Jo, Alicia e Anabel temiam que o garoto já estivesse morto. Se fosse vingança por vingança, não havia motivos para manter a criança viva.
A não ser que o objetivo final fosse sadismo, matando a criança na frente de Jo, o que era uma possibilidade. Então os demônios estavam esperando que elas encontrassem.
Alicia não se lembrava de ter se sentido tão mal assim na vida. Ela já tinha passado por muitos tipos de dores: torturada por Asmodeus e quase morta várias vezes, o incidente no México e a própria vida de caçadas. Também já tinha terminado diversos relacionamentos – e Alicia tinha uma longa lista de relacionamentos. Mas essa dor que ela estava sentindo agora, que doía em seu corpo todo. Ela mal conseguia respirar. Pensava em Sam o tempo todo e o tempo todo queria chorar, se encolher num canto e morrer só para parar de sentir aquilo.
Por mais que tentasse se concentrar no trabalho, precisava salvar o filho de Jo, era uma criança nas mãos de demônios antigos e sádicos, ela não conseguia. A única coisa que ela conseguia agora era pensar em Sam, relembrando cada detalhe do relacionamento deles, e se controlar para não chorar. Alicia odiava se sentir tão magoada por ele. Odiava que se importava. Sam não merecia que ela chorasse.
A madrugada avançou sem muitas novidades, até as três da manhã. Alicia sabia da lenda que três da manhã era a hora do demônio e já tinha tido várias provas que isso era verdade. Tanto que aguardou com expectativa a chegada, observando minuto a minuto, conforme se aproximava o horário maldito. Se alguma coisa fosse acontecer, seria naquele horário. Afinal, as Bruxas de Salém era um grupo de bruxas antigo, transformado em demônios. Elas provavelmente gostavam de seguir a tradição.
Foi exatamente a três da manhã que os ponteiros do relógio pararam.
–Meninas – Alicia chamou atenção – o relógio parou. São três da manhã. Alguma coisa vai acontecer.
As três mulheres pegaram as armas em cima da mesa, atentas a qualquer ruído. Não muito surpreendentemente, ouviram passos leves no corredor, seguido de uma batida na porta.
As três apontaram as armas para a porta do apartamento, e com a outra mão, Alicia fez um movimento para abri-la.
Um garotinho, de quatro ou cinco anos, estava parado. Os cabelos eram loiro claros e estavam sujos e ensebados; a criança usava uma camiseta branca e uma calça jeans sujos de terra, estava descalça, mas fora esses detalhes e a roupa inadequada para o clima, parecia bem.
–Mamãe? – ele falou, apavorado.
Jo abaixou a arma e correu em direção a criança, para abraça-lo, ao mesmo tempo que Alicia e Anabel gritavam “não!”. Aquilo não podia estar certo. Devia ser uma armadilha, não havia motivo para o menino voltar ileso. Nenhuma das duas baixaram a arma, nem quando Jo se voltou para elas com ele nos braços.
–Ele é só uma criança – falou Jo, dura. – só estou aliviada que ele está bem. Abaixem as armas.
Jo passou por elas, levando o menino para o quarto. Ele precisava de comida, banho e cama. Precisava da mãe. Jo sabia que podia ter algo errado, mas nesse momento, o mais importante era dar segurança a ele. Cuidar de Will, como uma boa mãe faria.
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O resto da madrugada passou sem incidentes, com Jo velando o sono de Will e Anabel e Alicia sentadas no sofá da sala, as duas tensas e sem falar muito. Anabel tinha dito que não sentia nada de errado com o menino, mas isso não fazia o menor sentido. Para que sequestra-lo e devolve-lo intacto? Não era assim que demônios agiam.
O carro de policia à paisana, que Jo tinha falado que estava parado na frente do prédio, tinha sumido poucas horas depois da volta de Will. Tudo era muito esquisito. Elas só esperavam que o garoto acordasse e pudesse dar algumas respostas.
Alguém bateu na porta com força um pouco depois das nove da manhã. Jo continuava no quarto com Will e Anabel tinha saído comprar café e comida. Com uma arma pronta para ser atirada na mão, Alicia abriu a porta cuidadosamente.
Dean e Sam estava parados lá, apontado armas. Antes que pudesse se conter, Alicia atirou e a bala passou raspando pelo ombro de Sam.

–Você está louca? – gritou Sam, olhando para o machucado. O sangue começava a manchar o tecido.
–Eu disse para você que ia te matar. Não tenho culpa que você não acreditou – ela falou. Perigosamente, ela ainda apontava a arma para ele.
–Ei, ei, calma ai. – Dean passou pela porta, se colocando entre o casal.
–Calma? Não me peça para ficar calma. Não quando ele está no mesmo ambiente. Tire ele daqui agora ou juro por Deus, não me responsabilizo pelos meus atos...
–Alicia, você é uma ótima atiradora. Se quisesse matar mesmo, Sam já estaria morto. – argumentou Dean.
Alicia abaixou a arma.
–Eu entendo, Allie. – falou Dean, cabisbaixo. – eu também tenho vontade de atirar nele as vezes.
–Dean? – Jo surgiu do corredor. – o que estão fazendo aqui? O que está acontecendo? Allie, você contou a eles?
–Não, não contei. – falou ela, olhando para o chão.
–Quem atirou? – perguntou Jo.
–Foi um erro – falou Dean rapidamente. – o que está acontecendo?
–Nada. – respondeu Jo – é melhor vocês irem embora.
–É, é melhor vocês irem embora. – concordou Alicia. Sam ainda estava parado no corredor, a mão no machucado no ombro, parecendo absolutamente atordoado. Alicia tinha atirado nele. Mesmo que repetisse isso para si mesmo um bilhão de vezes, Sam ainda não acreditaria.
–Não vamos a lugar nenhum. Jo, estive preocupado com você. Você sumiu.
–Jo, conte a ele – falou Alicia, se jogando no sofá. Ver Sam estava sendo um milhão de vezes mais doloroso. Alicia preferia o tiro a aquela dor. Não conseguia olhar para ele e acreditar que ele podia ter sido tão cruel. Tão mentiroso.
–Me contar o que? – falou Dean.
–Dean... – começo Jo.
–Mamãe? Estou com fome.
Will tinha sido acordado pelo barulho e vindo para a sala.
–Mamãe? – repetiu Dean, olhando do menino para Jo, de Jo para o menino, cada vez mais confuso.
–-
Anabel voltou com café, pães, omelete com muito bacon e torta de maçã, o que deixou Dean de bom humor. Eles comeram em silêncio. Alicia se recusava a fazer contato visual com Sam, mesmo que ele estivesse olhando para ela o tempo todo. O ambiente estava tenso, porque todos estavam preocupados com as Bruxas de Salém.
Depois de comerem, Jo colocou Will para dormir novamente, porque o menino estava cansado, mas fora isso estava perfeitamente bem e não se lembrava de nada. Alicia se recolheu em outro quarto também, resmungando alguma coisa do tipo “vou dormir porque não suporto ficar no mesmo ambiente que Sam”. Dean se juntou a Jo no quarto de Will, e Anabel e Sam ficaram na sala ainda procurando pela localização dos demônios.
–Fui eu quem contei a Alicia sobre você e a demônio. – disse Anabel, assim que Sam e ela ficaram sozinhos na sala. – eu sei há meses porque espionava vocês.
–Por que está me contando isso?
–Para saber que eu ter contado a Alicia não tem nada a ver com você. Tem a ver com ela.
–O que quer dizer? – perguntou Sam, intrigado.
–Que Alicia não é a primeira e infelizmente não será a última mulher que pensa em desistir de sua própria vida, de seu destino, da sua capacidade, por causa de um homem. Um homem que não merece. E foi por isso que contei a ela a verdade para ela. Alicia é boa demais para você. Ela merece mais.
Sam não disse nada por um tempo, observando Anabel. Não sabia nem o que pensar, muito menos o que dizer.
–É, você está certa. – admitiu ele por fim.
Mas mesmo assim, ele não queria perde-la. Ele não sabia o que fazer. Amar Alicia era algo que exigia tanto dele e mesmo assim, ele não conseguia parar. Tinha dito a ele que o relacionamento deles tinha acabado há muito tempo – e era verdade. Mas Sam não queria que acabasse. Mais do que tudo, ele desejava que houvesse alguma maneira dele e Alicia conseguirem serem felizes juntos.
Cada vez mais, menos ele acreditava. Estavam destinados a se amarem e nunca conseguirem se entender, um cometendo um erro atrás do outro e se magoando mutualmente. Eram parecidos demais, orgulhosos, egoístas e impulsivos. Se um dia encontrassem uma solução para todas essas falhas de caráter, talvez conseguissem se entender.
Se não fosse tarde demais. Era isso que Sam temia: que realmente fosse tarde demais para ele e Alicia. Que ele tivesse finalmente acabado com qualquer chance de felicidade que existisse para eles. Doía nele ver Alicia tão magoada. Queria que ela entendesse, que dormir com Ruby foi uma decisão errada numa época muito difícil.
Mas Alicia nem ao menos queria ouvi-lo.
–-
–Por que não me contou? – perguntou Dean. Estava encostado na parede, observando Jo, sentada ao lado da cama do filho. – você sabe que eu jamais teria problema com ele.
–Eu sei, Dean – respondeu a loira – você é ótimo. Mas era algo que eu precisava resolver sozinha, entendeu?
Dean ficou calado alguns minutos. Ele podia entender, depois de ter ouvido a história da Jo. Queria saber o nome do caçador e caça-lo, por ter feito Jo sofrer. Mas Dean sabia que também não era santo.
–Você e ele precisam ir embora, Jo. Precisam se esconder e ficar longe de toda essa guerra maldita. Prometa para mim, Jo, que o mais rápido que você puder, você vai fugir e se esconder, e ficar em segurança. Eu sei que você é uma boa caçadora... Mas tudo isso que está acontecendo? Não vale a pena o risco, não vale a pena arriscar sua vida... E a de Will.
–-
Era três horas da tarde quando o relógio parou novamente. A principio ninguém reparou, porque estavam todos ocupados. Então Jo gritou, seguido pelo filho da puta de Dean e o barulho de uma arma sendo engatilhada.
Sam, Anabel e Alicia, todos correram até o quarto onde Will estava, as armas em posição. A porta se abriu sobrenaturalmente com a chegada de Alicia.
Jo estava caída no chão, e Dean tinha arma apontada...
Para Will, que flutuava no ar, os olhos completamente cinzas, a esclera e a íris.
–Vocês são muito burros mesmo, não são? – falou a criatura que possuía, com uma voz grossa que parecia um rugido – acharam que devolveriam o menino sem mais nem menos? Vocês sabem que eu sou? Eu sou a origem do poder das bruxas.
O demônio gargalhou, fazendo o corpo de Will se retorcer e girar. Ninguém se atrevia a se mover. Ouviram quando a porta do apartamento bateu, e assim, as sete bruxas de Salém, hoje demônios, chegaram para juntar-se a eles no quarto.
Eles tinham testado Will com água benta, mas não tinha reagido.
–Esses testes não o afetam. Não enquanto eu estava bem escondido. Isso é vingança pela morte de nosso Rei – falou aquela que costumava ser Deliverance Hobbs.
–Isso é mais que vingança – interrompeu a antiga Ann Foster – isso é a volta do nosso Clã. Joanna Beth, nosso rei do Inferno, a escolheu como Tituba. É natural que seu filho recebesse Legba. Está no seu sangue.
–Talvez você não saiba, mas foram antepassados Harvelle responsáveis pelos Julgamentos de Salém – declarou a ruiva possuída por Sarah Churchwell. – e então, veio William Harvelle e exorcizou nosso rei Baphomet, que durante todos esses séculos servimos, sempre na espera de encontrar nosso líderes Legba e Tituba. E agora veio você, e matou Baphomet.
–Baphomet sempre foi um aliado – constatou Legba, sorrindo. – cuidou muito bem das minhas servas. As treinou. As transformou. Justamente como o combinado. Ele deveria estar ao meu lado nessa luta. O que nós queremos, é liberdade para andar na terra... E trazer os infernos a terra. Meu inferno é um pouco diferente. Mas chega de conversa. Agora tragam Tituba.
–O que vocês querem de nós? – gritou Jo, quando as sete mulheres desapareceram.
–Queremos ver você sofrer – respondeu Legba – queremos que os humanos sofram. Eu me alimento da morte, eu me alimento da dor que a morte causa... É o que me mantém vivo. E depois de todos esses séculos trancado, é bom saber que as minhas últimas servas não se esqueceram de mim e me trouxeram de volta.
–O que aconteceu com você? – perguntou Alicia, tentando manter Legba falando. Ela estava pensando em fazer algo realmente louco e arriscado, que ela nem sabia se era capaz. Mas não diziam que ela era poderosa? Muito poderosa? Era hora de ver todo esse poder.
–Ah, você, sabe. – falou ele, mostrando os dentes, suas palavras quase um rosnado – caçadores. Conseguiram mandar minhas sete servas direto para o Inferno, o Inferno errado, o Inferno Cristão. E baniram eu e Tituba, minha esposa, no meu Inferno. As almas que eram minhas, por direito, ficaram na mão de Baphomet. É o Rei do Inferno que leva as almas que param no Inferno errado...
Ouviram passos no corredor. As bruxas arrastavam alguém.
Jo gritou quando viu a pessoa parada a porta.
Era Ellen.
Ou melhor, o corpo de Ellen.
–Obviamente, Joanna Beth – falou Legba – que eu não quero que minha esposa fique no corpo de sua mãe. Eu a trouxe de volta, ela está adormecida lá dentro. Eu sei que Baphomet a tomou como noiva, sei de seus poderes. Vou honrar a morte dele. Sei que você é a pessoa certa para receber Tituba. Ela vai sair da sua mãe, eu vou sair desse garotinho, sua mãe e seu filho ficam livres. E eu uso seu corpinho para Tituba. É uma troca bem simples.
Jo estava chorando.
–Jo, não faça isso. – falou Dean, sabendo que ela obviamente se sacrificaria pela família. – podemos encontrar uma maneira.
–Dean... – começou ela.
–Já chega. – falou Alicia. Ela tinha largado a arma no chão. Ela levantou as mãos, as palmas estendidas – não estou gostando nada dessa conversa.
Noves corpos foram pressionados contra a parede.
–Eu quero todos vocês fora daqui, entenderam? – as sete bruxas de Salém era fácies, percebeu Alicia. Não havia mais alma viva dentro delas. Legba e Tituba eram mais fortes. Alicia não sabia se podia mata-los, mas com esforço poderia exorciza-los. Eles lutavam contra seu poder, lutavam contra a força que os mantinha preso. Eles eram muito fortes.
Primeiro ela daria um fim naquelas malditas bruxas de Salém que causaram problemas demais. Um a um, Alicia tocou a testa delas, produzindo uma luz branca brilhante. Uma a uma, elas caíram, definitivamente mortas.
Ela se voltou para os outros dois. Não poderia usar esse poder, não queria matar Will e Ellen. Podia sentir as almas dos dois, vivos, lutando contra a possessão. Eram fortes, sobreviveriam ao exorcismo que ela faria.
Foi intuitivo. Alicia não tinha certeza do que estava fazendo, mas fechou os olhos e canalizou tudo o que tinha dentro dela, sentimento e poder, para o que estava fazendo.
Quando viu, fumaça preta saiu tanto do corpo de Legba quanto de Tituba. Talvez eles não fossem demônios tradicionais, da mitologia cristã, mas era ainda a mesma fumaça preta que representava seus espíritos. Tinha mandado eles de volta para o Inferno – cristão ou não, Alicia não sabia. Mas tinha certeza que teriam trabalho para sair de lá novamente. Ela garantiu que eles tinham ido para as profundezas.
–-
Ellen e Will ficariam bem. Jo não escondia sua felicidade de ter a família reunida e bem. Era um milagre Ellen ter voltado. Eles tinham ligado para Ash, que estava vindo. Eles levariam a família Harvelle para um lugar seguro fora do país. Tanto Ellen quanto Jo queriam que Will ficasse em segurança e longe daquela guerra.
–-
Alicia aproveitou o momento que Dean entrou dentro do banheiro. Minutos depois, quando ela ouviu o barulho da torneira, ela facilmente apareceu dentro do banheiro.
–Você está forte — ele disse, depois que passou o susto – eu sinto muito por as coisas acontecerem desse jeito. Com Sam...
–Dean, sobre Sam. Eu consigo ver a verdadeira face dos demônios agora. Vi em todas as bruxas. – Alicia falou, apressadamente. – Entre outras coisas. Sam tem uma áurea negra.
–O que isso quer dizer?
–Eu temo que Sam vire um demônio. – falou Alicia. Dean ficou sem palavras. – é sério. Posso ver... A alma dele está manchada. Esse não é o mesmo Sam de antes.
Ela tinha lagrimas nos olhos. Dean a abraçou.
–O que vamos fazer, Allie?
–Eu não sei, Dean; eu não sei mais o que fazer com Sam... Me disseram que meu amor poderia salvá-lo, mas não posso porque ele não quer ser salvo. Não posso continuar desse jeito.
–É o fim, Allie?
–É o fim – ela confirmou, chorando muito. – eu não posso, Dean. Eu o amo e sei que sempre vou amar... Mas não é esse Sam que eu amo. O Sam que eu amo... Ele está morto. Ele se perdeu. E não sei como resgata-lo.
–Alicia, não posso ajudar Sam sem você.
–Você tem que tentar, Dean.
–Eu sei. Não vou pedir para que você fique. Não depois disso. – falou Dean, com desgosto. – eu sinto muito, Allie. Mesmo você sempre fugindo... Você não merecia ser traída dessa maneira. Eu nem o reconheço mais. Ele mente o tempo todo. Acha que eu sou idiota.
–Você sabe de quem é a culpa, não sabe? De Ruby. Vou caça-la. Anabel irá me ajudar.
Dean assentiu com a cabeça.
–E o que mais você vai fazer? Pelo que eu entendi, sua missão é reconstruir o mundo depois que o apocalipse o destruir...
–Para isso eu teria que aceitar que o Apocalipse acontecesse, Dean. E isso eu não posso aceitar. Não, eu penso... As coisas estão mudando. Mesmo que a profecia não se cumpra, podemos tirar anjos e demônios do poder. Eu não sei. Talvez ter mais paz entre o sobrenatural e o normal. É difícil para mim... Eu passei a vida inteira caçando e agora eu tenho que conviver com os monstros. Eu mesma me caçaria, eu acho. Eu não sei o que fazer. Essas criaturas... Elas só querem seguir a vida dela em paz. São mestiços, são deuses, são anjos caídos como a Anna... São aqueles que não se encaixam em lugar nenhum. Que não tem sua lenda e que não matam humanos como os monstros clássicos que conhecemos. Eles acreditam que eu posso ajuda-los a ter uma identidade. Mas eu já não sei qual é a minha identidade. Humana, caçadora, anjo, demônio. Eu sou tudo isso. E não sou nada disso.
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