Things We Lost in The Fire
12 4x12 - Dark Magic
Notas iniciais
A gente se beijando com o rádio ligado
Você vai sentir minha falta quando eu for embora
Perseguindo sombras ao luar
Pelo deserto em uma noite quente
E por um segundo, nós ganhamos
Nós éramos jovens e inocentes
Caiu na noite, você tem um coração bobo
Então você assumiu seu lugar
Mas cair em desgraça foi a parte mais difícil
Você corre para se esconder
Mas não consegue escapar do segundo ataque
Sua alma era inocente, ela o beijou e a pintou de preto
The Killers
17 de fevereiro de 2009, Hallowell, Maine. Motel, 21 horas.
Sam se aproximou para se reunir a Dean na área externa do motel, uma varanda com vista para o estacionamento. Era uma noite gelada, mas o céu estava aberto e muitas estrelas brilhavam. Nas duas últimas semanas, tinham viajado por Massachussetts e Vermont, despachando três espíritos no caminho. Após caçarem o primeiro fantasma em Massachusetts, eles foram para Vermont, onde Alicia deixou seu carro e boa parte das suas coisas num depósito em Montpelier. Ela pegou cada um dos diários de caçadas que ela já tinha feito na vida e colocado numa caixa dentro do Impala. Depois do bicho papão australiano, poderia vir a ser útil, assim como alguns objetos únicos que podiam ajudar em caçadas.
Tinha sido dias de muito trabalho e naquela noite pararam naquela pequena cidade, no Maine, ainda indecisos sobre para onde deveriam ir. Dean entregou a Sam uma garrafa de cerveja.
–Eu estou cansado desse inverno – falou Dean – estou procurando por casos na Florida, Texas e Califórnia. Allie dormiu?
–É, deitou e dormiu – falou Sam.
–Ela disse alguma coisa... Em algum momento... Sobre o que aconteceu?
–Nada. Sempre desvia do assunto e se forço, ela fala que não quer falar e não diz mais uma palavra. Eu só espero que ela esteja bem; se eu não a conhecesse... Eu diria que ela está com medo.
–E você não teria medo? Depois de tudo o que ela passou, saber que no fim, ela tem uma responsabilidade de salvar e unir sete dimensões? Eu já fico com a mente fudida só de saber que há sete dimensões. E que eu já estive em uma delas.
Pela primeira vez, Sam teve coragem de perguntar uma coisa que queria perguntar há muito tempo, mas nunca tinha feito a pergunta, porque ele e Dean estavam sempre em atrito.
–Você lembra alguma coisa do Inferno?
–Não – mentiu Dean – nada.
Eles tomaram as cervejas, em silêncio.
–Você acha que Allie vai ficar bem? – perguntou Sam, ainda preocupado.
Dean não respondeu de imediato.
–Eu não sei. Eu espero que sim. Pelo lado positivo, dessa vez ela fugiu para ficar com a gente. Ela podia muito bem ter desaparecido de novo...
–-
Dentro do quarto.
–Alicia, vamos lá. Acorde.
Alguém a sacudia. E esse alguém tinha uma voz feminina.
–Anabel? – reconheceu Alicia, olhando assustada para a loira parada ao lado dela.
–É, eu mesma, a loira que não gosta de você que veio salvar você de si mesma. E desse motel ruim. Tem uma coisa que você precisa ver, antes de fazer sua escolha.
Alicia se sentou, irritada. Estava tão cansada.
–Eu já fiz minha escolha, Anabel.
–Por favor, Alicia. Por todos nós. Última chance e eu prometo que você não vai se arrepender.
Alicia revirou os olhos e se sentou na cama.
–Ok, eu vou.
–Coloque algumas roupas quentes. Vamos para o meio da neve.
–Eu não deveria avisar onde estou indo para Sam e Dean? – perguntou Alicia. Não era o normal dela ceder tão facilmente, mas o problema era a maneira que Anabel estava se comportando. Pela primeira vez, a nephilim não estava arrogante, estava ansiosa e agitada, seu olhar transmitindo uma urgência desesperada.
–Eu só preciso de cinco minutos do seu tempo, Alicia.
E Alicia resolveu confiar, mesmo sabendo que sempre havia a chance de ser uma armadilha.
–-
As duas pousaram e assim que Alicia abriu os olhos, viu que Anabel a tinha levado para a clareira em que encontraram Sam. Alicia ficou chocada a perceber que todas as árvores enegrecidas, como se um incêndio tivesse passado por lá.
–Acredito que o incidente com o bicho papão tenha sido mero acaso – falou Anabel – mas olhe esse ambiente, Alicia. O que aconteceu aqui é...
–Pura magia negra. – falou Alicia, e um medo terrível a preencheu. No que Sam esteve envolvido? Ele tinha mentido? – eu posso sentir. Não sei como não senti no dia, mas agora... Cada centímetro desse lugar...
–Talvez por estar preocupada com Sam Winchester não tenha percebido. Mas voltei aqui.
Alicia percorreu a clareira, em silêncio, lembrando-se de encontrar Sam. Nessa ocasião, ela ficou mais preocupada com a mordida do que com qualquer outra coisa. Não tinha reparado nos detalhes. Alguém tinha feito um feitiço horrível ali.
–Uma bruxa, talvez?
–Uma bruxa demoníaca – respondeu Anabel – é preciso de muito poder para fazer algo assim.
–Sam foi a vitima? Ou ele concordou com isso? Ele diz que não se lembra – falou Alicia, controlando a forte vontade de cair no choro. O que estava acontecendo com Sammy? Tudo que ele tinha falado para ela nos últimos dias era mentira?
–Pode ser que ele realmente não se lembre, porque essa magia é muito forte. Pode ser que ele tenha concordado ou sido levado até aqui. Não temos como saber o que aconteceu com exatidão... E tentar fazer o Winchester se lembrar de pode destruí-lo. As vezes, as mentes não estão preparadas para saber de coisas como essa.
–Eu entendo – falou Alicia, a respiração curta devido ao misto de emoções que sentia. – você sabe quem foi a responsável por isso, não sabe? Ruby.
–A vadia do inferno – falou Anabel e Alicia sentiu uma enorme simpatia pela loira. Finalmente alguém que concordava com ela. – é, eu imaginei. Eu preciso confessar uma coisa. No verão, antes de Shane vir atrás de mim e de meu irmão, eu já estava de olho em você. Vocês nos procuraram para espionar e é isso que faço de melhor...
–Você me espionou?
–Já o fazia há algum tempo. Eu precisava saber onde estou me envolvendo e em quem eu confio. Minhas maiores dúvidas em relação a você era sobre seu envolvimento com Sam Winchester. Sabe o que dizem dele e Azazel. Por um tempo, durante o verão, eu segui Sam.
–Nós estávamos separados.
–E por isso mesmo descobri coisas interessantes sobre ele. – falou Anabel, e Alicia notou que ela mexia em alguma coisa no bolso do casaco – quando Dean Winchester voltou do Inferno e você voltou a se relacionar com Sam, eu conclui talvez que você soubesse qual era o nível do envolvimento de Sam e Ruby e percebi que não devia me meter.
–Ruby estava ensinando a Sam usar os poderes dele. E exorcizando demônios – falou Alicia. Ela não estava entendendo o que Anabel estava dizendo ou onde queria chegar com tudo aquilo.
–Era o que eu temia – falou Anabel, com um olhar muito triste. Ela tirou um envelope do bolso – quando você escolheu ficar com Sam, percebi que não sabia. Eu sinto muito.
Anabel entregou o envelope para Alicia, que o pegou. Percebeu que sua mão estava tremendo, mas ela não conseguia entender sobre o que Anabel estava falando. Alicia abriu o envelope e no inicio as imagens também não faziam sentido. Era como seu cérebro visse, mas não registrasse o significado das imagens.
Quartos de motéis.
Sam.
E Ruby.
Juntos?
Assim que Alicia conseguiu entender, ela derrubou as fotos no chão congelado, sentindo a mão tremer. Foi como um raio tivesse caído na cabeça dela e a dor que ela sentiu rasgou seu peito. Ela passou o verão esperando por Sam e ele estava lá, fodendo aquela vadia do Inferno.
Achou que ele talvez tivesse dormido com uma garçonete ou outra coisa assim, mas era com Ruby. E ele ficava com aquela conversinha barata que Ruby era legal, Ruby tinha salvado minha vida, como ele se atrevia a olhar para Alicia depois disso?
–Alicia? Você está bem? – perguntou Anabel e do meio da sua confusão Alicia pode perceber que ela estava realmente preocupada.
–Eu não tenho a menor ideia se um dia eu vou ficar bem de novo – respondeu Alicia, com uma súbita vontade de vomitar. Tudo que Sam tinha falado nos últimos meses: eu amo você, Alicia, eu quero ficar com você... Por que ele se tinha dado ao trabalho?
Ele era um demônio. Talvez Sam realmente fosse destinado a ser o líder do Inferno, já que agora estava sendo tão cruel.
–Eu me sinto tão burra. Eu não sei como não percebi isso antes – falou Alicia, descontroladamente. Podia sentir lagrimas congelando em seu rosto. – acho que esteve na minha frente o tempo todo, não foi?
–Eu sinto muito por não contar antes. Você é minha superiora, afinal de contas...
–Anabel, não era você quem tinha que ter contado. – Alicia falou com um sorriso triste – era Sam, não é verdade? Mas ele nem se deu ao trabalho. Eu fui tão estupida! Eu não consigo acreditar. Eu confiei nele cegamente a minha vida toda... Ele era a última pessoa...
Alicia simplesmente engoliu todas aquelas palavras, tentando segurar que aquela dor excruciante, mas não era possível. Talvez não haja palavras no mundo para explicar a dor de ser traída e humilhada pela pessoa a quem mais amava no mundo. Ela faria qualquer coisa por Sam. Confiava nele mais do que ninguém. Desistiu de tudo a que era destinada por ele. E desistiria de qualquer coisa para ficar com ele. Se vivesse um milhão de vidas, em todas elas se apaixonaria por Sam. Eles eram almas gêmeas. Destinados a ficar juntos. Quantas pessoas tinham dito isso para ela?
Foda-se amor. Alicia tinha feito a escolha errada. Que ponto baixo ela tinha chegado que Sam a trocava por um demônio? Ela era tão ruim assim?
Alicia destruiria Ruby, e destruiria Sam, e destruiria todo o Inferno e o Céu também.
Percebeu que tinha caído de joelhos na neve. Anabel estava ajoelhada a sua frente, dizendo alguma coisa, mas Alicia não conseguia entender.
Há alguns meses, ela tinha feito uma tatuagem para evitar ser perseguida por criaturas sobrenaturais. Essa tatuagem tinha bloqueado suas asas e com o tempo Alicia foi percebendo que também a deixava mais fraca. Ela tirou uma faca do bolso. Podia ouvir Anabel perguntar o que ela estava fazendo, mas Alicia não respondeu. Ela afastou os casacos e blusas, revelando o símbolo celta no quadril. Com um único movimento da faca, ela o cortou.
Podia sentir em seguida a sensação de suas asas se mexendo, finalmente livres depois de tantos meses. Também podia ver algo mudado em Anabel: seus olhos estavam azuis mais intensos e ela podia ver luz prateada em volta dela.
–Eu estou livre, Anabel – falou Alicia – livre de tudo que eu já tive medo... Porque o que eu mais temia perder, meu maior medo... Já está acontecendo. Eu não tenho mais nada. Apenas a guerra. Eu estou cansada da humanidade. Emoções demais... Acho que o melhor é não sentir nada.
As duas ficaram em silêncio por alguns minutos, sentadas na neve. Alicia queria abrir os olhos e acreditar que tudo isso tinha sido um pesadelo. Queria acordar e ver seu Sammy deitado ao lado da cama dela.
Mas ela não ia mais acordar daquilo. Ela se sentia... Entorpecida, pelo frio e pela dor. Não podia nem pensar em ver Sam. Ou mesmo falar com ele. Não se responsabilizaria por sua própria reação.
Alicia poderia mata-lo, muito facilmente. Sabia disso.
Seu celular tinha tocado e havia inúmeras mensagens preocupadas de Sam e de Dean. Alicia quis vomitar ao ver todas aquelas mensagens de Sam, meu Deus, como ele era um completo imbecil falso. Como ele tinha mudado tanto?
Toda aquela situação dava vontade de vomitar em Alicia. Ela sabia que tinha que levantar e fazer alguma coisa, mas não conseguia. Ficar congelando sentada na neve naquela clareira destruída parecia muito mais simples. Talvez se ela pudesse ficar sentada ali para sempre...
Anabel estava sendo bem compreensiva e Alicia foi eternamente grata a ela por isso. E por ter contado a ela sobre Sam. Sabia que a nephilim provavelmente só tinha feito isso para traze-la de volta a guerra. Mas Alicia reconhecia as fotos que tinha em mãos. Eram verdadeiras. Eram as mesmas fotos que Anabel usava para mostrar coisas que tinha espionado. E agora, quando repassava os meses na sua cabeça, o jeito que Ruby devorava Sam com os olhos, Alicia não conseguia entender como não tinha percebido antes. E ela sabia que fazia todo o sentido que Ruby tentasse seduzir Sam. Ela era um demônio e uma bruxa. Pactos poderosos com demônios superiores eram fechados através do sexo. Sam podia ter se envolvido em algum tipo de pacto com Ruby.
Ah que bosta. Quando mais Alicia pensava, mais a situação fedia.
Ela ligou para Dean. Ele não tinha culpa nenhuma que Sam era um mentiroso.
–Allie, o que aconteceu com você? – perguntou Dean, irritado – nós te deixamos sozinha no quarto por cinco minutos e você some, quase nos matou de preocupação...
Alicia não aguentou e quando percebeu estava chorando, de soluçar, sem conseguir dizer uma palavra coerente.
–Allie, você está me deixando preocupado. Allie, fala comigo, o que está acontecendo?
Ela inspirou fundo, tentando conter os soluços. Ela nem ao menos sabia como contar a Dean o que Sam fez com ela. Sam tinha dito que não a queria ver mais e ai transou com Ruby. Várias vezes. Mas depois, voltou para Alicia. E em nenhum momento fez menção de contar isso e era isso que doía. Que ele tinha escondido. E se ele continuasse transando com Ruby pelas costas de Alicia? Como ela ia saber?
–Allie, onde inferno está você? – Dean continuava fazendo perguntas, soando cada vez mais desesperado, enquanto Alicia só chorava.
Então ela finalmente disse:
–Diga a Sam que eu sei. Pergunte a ele se eu deveria me preocupar se eu peguei alguma DST demoníaca.
E ela desligou.
–-
Dean raramente se desesperava. Como caçador, ele estava acostumado a manter a cabeça fria. Alicia ter sumido e depois ligado para ele, chorando sem parar foi uma das situações na vida de Dean que ele realmente perdeu a cabeça.
E para ele estava bem claro que Sam devia ter feito realmente alguma coisa.
–Ela está bem? – perguntou Sam, parecendo preocupado.
–Provavelmente não – respondeu Dean. – ela me disse uma coisa engraçada. Não entendi direito, talvez você entenda melhor.
–O que ela disse? – perguntou Sam. Ele estava irritado com o sumiço de Alicia. Por que toda vez ela fazia isso?
–Alicia disse que eu deveria dizer para você que ela sabe. E ela me pediu para perguntar se ela deveria se preocupar em ter pego alguma DST demoníaca. Eu não sei do que ela está falando, Sammy. Você tem alguma ideia do que ela está falando?
Dean estava irritado e desconfiado. Uma parte dele queria que Sam negasse tudo, mas...
–É, eu sei – respondeu Sam simplesmente. Alicia, de alguma maneira, devia ter descoberto sobre ele e Ruby. E Sam devia ter contado e se sentiu arrependido, mas não ia entrar nos jogos dramáticos dela e de Dean.
Dean ficou esperando, mas Sam não disse mais nada.
–Você não vai me contar?
–Acho que isso é entre Alicia e eu.
–Escute aqui, Sam. Alicia está em qualquer lugar ai e está chorando. Eu não sei o que está acontecendo e é bom você me dizer, porque...
–Por que o que, Dean? – gritou Sam – você sempre fica do lado dela mesmo, do que adianta eu falar alguma coisa? Está sempre defendendo ela, independente do que ela faça.
–Eu não consigo entender. – falou Dean, muito cansado – vocês passaram o último mês brincando de casinha. O que inferno está acontecendo?
Sam suspirou, sem fazer contato visual com Dean.
–O que aconteceu é que eu e Allie estamos tentando salvar um relacionamento que está acabado há muito tempo. Ela mudou, eu mudei, e não importa quantos... Anjos digam que deveríamos estar juntos, que isso seria o melhor para todo mundo... Não funciona. Nossa felicidade é falsa. Acabou e não queremos admitir isso.
–Você devia dizer isso a ela, seu idiota. Corrija se eu estiver errado, mas por acaso, isso tem alguma coisa a ver com Ruby? Você andou dormindo com a Ruby?
Sam não respondeu.
–Por favor, não me diga que você traiu a Allie. Você é meu irmão, mas isso...
–Não, eu não traí. Foi durante o verão, e eu tinha terminado com ela.
–Sam, você sabe que não é tão simples – Dean odiava o quanto o irmão era cabeça dura – você e Allie tem toda uma história. Eu preciso te dizer isso? Eu só estou... Decepcionado com você.
–Eu estou decepcionado com a maneira que eu agi. Allie... Ela não merecia. Eu sabia que devia ter contado, mas eu não achava como dizer isso a ela. Droga, Dean, mesmo que eu e Allie não ficarmos mais juntos, eu sempre vou me importar com ela.
–É, você devia ter pensado nisso antes – falou Dean – vou tomar um banho. Ligue para Allie. Se ela atender.
Dean saiu para o banheiro e bateu a porta com força, indicando o quanto puto com Sam ele estava. Sam suspirou. Bem, agora a merda estava completa. Sam esfregou os olhos. Ele amava Alicia e estava feliz que ultimamente estavam se entendendo melhor. Mas o relacionamento deles tinha um elefante branco na sala: um monte de assuntos mal resolvidos que os dois estavam indo muito bem em ignorar. Era mais fácil conversar sobre assuntos banais e fazer sexo do que falar sobre os problemas que eles nunca tinham superado.
Sam não falava com Ruby desde o dia na floresta. Será que tinha sido a própria que contou para a Alicia? Depois de cinco chamadas recusadas (e ele deixou mensagem todas as vezes, implorando para falar com ela), Sam finalmente ligou para Ruby. Ela atendeu.
–Oi, Sam. Estava esperando você ligar. Preciso falar com você sobre Lilith.
–Eu tenho um problema maior agora. O que inferno aconteceu naquela floresta? – perguntou Sam, dando um olhar para a porta do banheiro. O chuveiro estava ligado.
–Como assim? Você exorcizou os demônios e depois eu fui embora e você foi pegar o Impala para voltar.
–Esquece. Você por acaso contou a Alicia sobre o que fizemos no verão passado?
–Não. Alicia não fala comigo. E eu prefiro manter distância. Por que está perguntando, há problemas no paraíso?
–Tchau, Ruby.
–Sam, espere. Isso é muito sério. Temos demônios demais quebrando selos importantes. Sabe quantos selos já foram rompidos? Vinte selos. Então eu estou feliz que sua lua de mel acabou, porque você é o único que pode impedir esses demônios de começaram o apocalipse. O único. OK? Então pense direitinho, se você quer continuar fugindo da realidade com Alicia, ou caçando fantasmas insignificantes, ou realmente ajudar as pessoas! Estamos falando de bilhões de pessoas inocentes morrendo no fogo, e você, Sam, é o único que pode impedir isso. Você sabe que qual é o único jeito.
Sam desligou. Sabia que Ruby estava certo, mas agora, no momento, Alicia estar bem parecia mais importante. E ele sabia que se Alicia descobriu sobre ele e Ruby, ela também iria descobrir sobre como ele aumentava os poderes dele. E Dean com certeza não iria perdoa-lo por isso, mesmo que fosse o único jeito.
Sam tinha que fazer uma escolha, também: ou ele agradava Dean e Alicia, ou ele salvava o mundo. Dean não era mais o mesmo depois do Inferno e o preconceito dele com demônios tinha voltado triplicado (compreensível). Já Alicia, ela tinha todo aquele poder, mas tinha medo demais de usá-lo para alguma coisa realmente útil. A profecia dizia que a salvação do apocalipse estava nas mãos de Alicia, depois que o Apocalipse acontecesse.
Sam sabia que podia impedir o Apocalipse. Só ele e mais ninguém. Era só usar os poderes de Azazel para algo bom: se livrar de demônios, ao invés de lidera-los. Era uma questão de bom senso. E Sam o tinha, sabia disso.
Ia conseguir resolver as coisas com Alicia, quando ela estivesse mais calma. Eles sempre se resolviam. Talvez, quando o apocalipse acabasse, eles pudessem recomeçar sem anjos e demônios interferindo em tudo.
Mas ligou para ela outras vezes. Estava preocupado. Não queria que ela se machucasse.
–-

–Ele continua me ligando – falou Alicia. Ela e Anabel continuavam sentadas no meio da floresta. Tinham feito uma fogueira. Alicia estava se sentindo desorientada, sem saber para onde ir ou o que fazer. Ficava encarando as chamas, sem conseguir sentir nada de coerente, só relembrando tudo sobre ela e Sam. Considerando que eles cresceram juntos, era muita coisa.
Como ele pode? Ela se perguntava. Tinha passado o verão com a certeza que ela e Sam voltariam a ficar juntos. Mas ao menos Sam queria estar com ela? Ou era tudo um jogo? Alicia podia entender que eles estavam terminados, mas pelo amor de Deus, Ruby era um demônio. O pior era ele não ter contado para ela e fingir que nada tivesse acontecido. O pior era ele querer que Alicia aceitasse a ajuda de Ruby e convivesse com ela. E o pior era ele ter zombado de Alicia ter ciúmes, como se fosse algo imaginável ele ficar com Ruby.
Toda a situação era muito ruim. Alicia já tinha passado por muita coisa. Só que nunca em sua vida ela tinha se sentido tão mal quando se sentia agora. Se o que Sam queria o tempo todo era quebrar o coração dela e se vingar por tudo o que ela já tinha feito para ele, bem, ele tinha conseguido.
Por que ele continuava ligando então? O que tinha para falar? Talvez fosse melhor enfrenta-lo e acabar com isso depressa.
Quando ele ligou de novo, ela simplesmente apertou o botão de aceitar chamada.
–Allie? – ele falou e Alicia odiou ter que ouvir a voz dele. Deu mais vontade de vomitar e fez seu corpo se arrepiar de maneira desagradável. – eu não sei como você descobriu, mas eu ia falar para você.
Silêncio. A questão era: quando ele ia falar? Quando pediu para, por favor, vamos tentar de novo e deixar isso para trás? Como ele poderia querer consertar as coisas entre eles se nem ser sincero com ela ele conseguia?
Alicia sabia que já tinha mentido para Sam. Que quando começaram a namorar, ela estava mentindo para ele sobre um monte de coisas. Mas era diferente, não era? Ela não tinha dormido com o outro cara bem no meio do relacionamento. Sam disse que não queria mais vê-la, mas em nenhum momento Alicia acreditou que aquele era o fim. E não foi mesmo o fim. Como não era o fim, Sam tinha ficado com Ruby no meio do relacionamento deles, e ele devia ter contado. Ela ficaria brava? Ficaria. Mas passava.
Ele ter mentido para ela e rido dela como se o ciúmes que ela sentisse de Ruby fosse absurdo era o que não ia passar nunca. Ruby devia ter se divertido demais com a informação que Alicia estava sendo enganada. Sam a havia humilhado.
Depois, Alicia não tinha certeza se esse relacionamento tinha realmente terminado. Sam e Ruby ainda podiam estar juntos, pelas costas dela. Segundo, Alicia não tinha mais certeza se Sam realmente não se lembrava de o que tinha acontecido na floresta. Talvez ele se lembrasse. Talvez Ruby esteve com ele naquele dia.
Alicia estava cansada de todas as mentiras de Sam. De toda a grosseira e agressividade dele. Estava cansada dele tratar ela – e Dean também – mal e agir como um imbecil. Ele que se fodesse. Podia ouvir ele falando um monte no celular.
Então desligou.
E em seguida tocou de novo. Alicia atendeu.
–Olha, Sam, eu quero que você morra tudo bem? E fique longe de mim porque eu vou matar você.
–Alicia? É Jo?
–Jo? Me desculpa, achei que era outra pessoa.
–Eu percebi. O que Sam fez?
–Não importa. – falou Alicia, com desanimo de explicar – você está bem? Faz muito tempo que não temos notícias suas.
–Eu sinto muito. Estive muito ocupada resolvendo muitas coisas. Mas preciso de ajuda.
–Claro, o que você quiser.
–Dean está com você?
–Não. Por quê?
–Eu preciso que você venha até Maryland. Vou te passar as coordenadas. É urgente.
–Jo, você está me assustando, o que foi que aconteceu?
–As Bruxas de Salém. Elas... Capturaram meu filho.
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